Total visualizações de páginas, desde Maio 2008 (Fonte: Blogger)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

P224 - ACTIVIDADE OPERACIONAL DA CART 3494 - ATAQUE AO ENXALÉ EM 19JUL1972 Por: Luciano José Marcelino de Jesus, ex. Fur. Milº da CART 3494




Caríssimo Camarada Sousa de Castro
Os meus melhores cumprimentos.
Reencaminho o trabalho elaborado pelo nosso camarada ex-Fur. Mil. Art. Luciano de Jesus, o qual durante os primeiros treze meses da comissão esteve colocado, com o seu 2. º GComb da CART 3494, no Destacamento do Enxalé.
Trata-se de um depoimento inquestionavelmente importante na historiografia da Unidade, por permitir completar, com novos desenvolvimentos, a dimensão operacional sofrida e vivida pelo seu contingente, nomeadamente com factos e feitos ainda omissos.
Um forte abraço e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
6DEC2014.



GUINÉ
Luciano José Marcelino Jesus, ex-Furriel Mil. Art., CART 3494
(Xime-Enxalé-Mansambo, 1971/1974)
ACTIVIDADE OPERACIONAL DA CART 3494
(ATAQUE AO ENXALÉ COM ARMAS PESADAS E LIGEIRAS)

- 19 de Julho de 1972 -

IINTRODUÇÃO
Na sequência da narrativa elaborada pelo camarada Jorge Araújo [P221], acerca do ataque de armas pesadas e ligeiras ao Destacamento do Enxalé perpetrado pelo PAIGC em 19 de Julho de 1972, venho pelo presente dar o meu modesto contributo histórico sobre esse acontecimento, fundamentado no facto de o ter vivido e sentido muito de perto. 
Com esta pequena narrativa procuro ampliar o ângulo de observação e análise sobre mais uma ocorrência contabilizada pela CART 3494 durante a sua presença ultramarina no CTIG [1971-1974], considerando-a, assim, como mais uma peça do puzzle que continua em construção. Com efeito, o relato dos acontecimentos relacionados com o ataque ao Enxalé, no qual fui um dos actores, assume uma dimensão particular uma vez que, já falecidem termos formais, era eu que estava a comandar o Destacamento em virtude do Alferes José Henriques Araújo [1946-2012] se encontrar de férias e por ser o graduado mais antigo. Ao tempo estava comigo apenas o furriel Benjamim Dias, pois o furriel António Bonito, que era elemento constituinte do 2.º GComb, já tinha sido transferido para o Destacamento de Mato Cão. 



Foto 1 – Enxalé 1972 – Da esquerda para a direita: Luciano de Jesus, José Araújo, Benjamim Dias e António Bonito, quadros de comando do 2.º GComb da CART 3494.
 No ponto seguinte caracterizarei o período que antecedeu a concretização do ataque, referindo alguns detalhes que poderão ter influenciado essa acção.    
  
II FACTOS QUE ANTECEDERAM O ATAQUE


Cerca de uma semana antes, Bissau resolveu enviar o Grupo do Marcelino da Mata ao Enxalé para espevitar os dois grupos de “milícia especial” [309 e 310] que até então não apresentavam produtividade significativa. O Marcelino da Mata trouxe consigo cerca de oito homens do seu grupo. Aterrou, chamou os dois Chefes de Tabanca [balanta e mandinga], mandou suspender o batuque que nessa altura estava a decorrer e começou a preparar a operação. No outro dia de madrugada lá foi ele para o objectivo, que era a base mais próxima do PAIGC, a cerca de 20 Km de Sara. Fez o seu trabalho… bastante estrago… trouxe documentação e no regresso o IN tentou a perseguição e o envolvimento mas não conseguiu. Ficou ainda por ali [Enxalé] mais uns dias. Durante essa curta estadia, os dias foram passados com alguma dificuldade do ponto de vista da logística [alimentação], uma vez que eram parcos os recursos aí existentes. Mesmo assim, ele ficou muito agradecido e reconhecido pelos esforços que fizemos para que lhes não faltasse nada.  Ficou entre nós uma amizade pessoal e mais tarde, em Bissau, encontrei-o e até andei de mota com ele. Entretanto os hélis vieram recolher o grupo  e tudo regressou à normalidade. 
Quanto à dimensão do ataque, penso ter sido o maior que o BART 3873 sofreu não só em relação ao número de elementos envolvidos por parte do PAIGC [150 = 3 bi-grupos] como pelos meios utilizados. Se bem me lembro os meios que o IN fez deslocar para esta acção foram: 1 canhão s/r, dois morteiros pesados, mais de uma dezena de RPG e um grupo de assalto.     

    Foto 2 – Enxalé 1972 – Edifício do comando… e à esquerda a enfermaria.




III O ATAQUE AO ENXALÉ COM ARMAS PESADAS E LIGEIRAS
 - 19 DE JULHO DE 1972 -

 - Eram vinte horas e vinte minutos da data supra, estava eu a jantar na companhia do furriel Benjamim Dias, quando rebentou o fogachal que logo fez estoirar com toda a iluminação do quartel. No céu via-se o rasto das balas tracejantes que tinham por missão orientar o fogo das armas pesadas em direcção do quartel. O furriel Dias saltou de imediato para o abrigo do nosso morteiro e fez um trabalho exaustivo de bater toda a zona circundante.  



Foto 3 – Enxalé 1972 – Espaldar da bazuca, com protecções e respectiva vala. As casas eram utilizadas como dormitórios.


Eu fui ao gabinete buscar o mapa dos pontos marcados pela nossa bateria de obuses do Xime com o objectivo de orientar o nosso fogo pesado, logo que se localizassem os pontos de origem do fogo pesado IN. Nesse percurso entrou uma canhoada a cerca de dez metros de mim que entrou pelo depósito de géneros causando alguma destruição. Entretanto, o nosso posto mais acima no quartel, onde tínhamos alguns elementos utilizando também um morteiro pesado, fazia o seu trabalho de contenção, respondendo em conformidade. O ataque durou cerca de vinte minutos. O grupo de assalto IN movia-se perto do arame farpado, fazendo fogo. O nosso pessoal despejava metralha. Uns enchiam carregadores e outros disparavam. A bazuca não funcionou. 


 Esperámos nova vaga… mas ela não aconteceu… porque eles tiveram algumas baixas,
graças à competência do nosso camarada furriel Josué Chinelo, do Pelotão de Artilharia [obuses 10,5] instalado no Xime, onde este observava perfeitamente, e em posição privilegiada da margem esquerda do rio Geba, o desenrolar dos acontecimentos. Com a sua experiência e saber, ainda que a olho nu, apontou ao ponto de origem do fogo pesado IN (canhão s/r) e… foi na muche. Acertou no posto de comando e fez algumas baixas entre os quais o comandante. Entretanto eles já tinham despejado o fogo todo. 
  
Nessa altura chegou a milícia da tabanca com um ferido grave, um sargento de um dos pelotões. Ainda enviamos um grupo até ao rio para evacuar o ferido e recolher mais munições pois o stock tinha ficado muito em baixo. O ferido entretanto faleceu durante a caminhada.     

    Foto 4 – Enxalé 1972 – Panorâmica da Tabanca… com o Geba pelas costas. Ao centro da imagem era a pista do Heli.

IVDEPOIS DO ATAQUE
No dia seguinte, como seria de esperar, fizemos o reconhecimento do terreno. Encontrámos um ferido IN junto ao arame farpado; tinha um ferimento grave nas costas e outro na perna e estava em mau estado, crivado de estilhaços. É de assinalar que este ferido pertencia ao grupo de assalto; tinha vindo da zona do Morés. Estava ferido, mas que eles julgaram morto por isso levaram a sua arma. Vestia uma farda de nylon verde azeitona, calçava bota de lona francesa e as calças tinham elásticos nas bainhas para passar por baixo do pé. Ainda nesse dia recebemos a visita do nosso comandante, Ten.Cor. António Tiago Martins [1919-1992], que tentou interrogar o ferido mas sem grande sucesso, sendo este evacuado, depois, para Bissau. A primeira questão colocada pelo nosso comandante foi: “gastaram muitas munições”….!!!!???? [fiquei aparvalhado]. Viemos a saber dias depois, por informantes privilegiados, que o IN tinha feito a sua aproximação durante o dia. Ficou na orla da bolanha, e quando anoiteceu montou o dispositivo. O esquema foi o seguinte: 1) A força principal na mata do lado da tabanca. 2) Alguns atiradores dispersos à volta do quartel para dividir o nosso potencial de fogo para zonas sem importância. 3) Um grupo de assalto [o do ferido] oriundo de um mangal e outro arvoredo do lado esquerdo do quartel  [para quem está de costas para o Xime, logo a seguir ao final da bolanha). O mais curioso é que montaram o canhão s/r na bolanha,  junto a uma árvore isolada, e que não era visível do quartel mas amplamente observado do Aquartelamento do Xime e que foi [bem] aproveitado pela experiência do Josué Chinelo. Entretanto eu fui de férias e foi aí que o Jorge Araújo se deslocou ao Enxalé até à chegada do Alferes José Henriques Araújo. 



Foto 5 – Enxalé 1972 – Entrada da Tabanca.



Foto 6 – Enxalé 1972 – A casa ao centro era a habitação do antigo fazendeiro do Enxalé antes da Guerra. No nosso tempo aí funcionava a Sala do Comando e o refeitório. À direita era o abrigo das transmissões e na retaguarda estava localizado o abrigo do morteiro.
Quando aconteceu a tragédia no Rio Geba [em 10 de Agosto de 1972] eu já estava por cá, em Lisboa. Em suma, esta é a minha versão dos acontecimentos relacionados com o ataque ao Enxalé, visto tê-los vivido de forma especial e muito intensa. 
Outros pormenores devem existir, justamente para engrossarem este esqueleto, mas só com a contribuição dos meus companheiros desse dia.
A História faz-se com a recolha de informação de várias fontes. Concluo recordando o que consta, a este propósito, na História da Unidade:


- Em 192030, o Destacamento do ENXALÉ foi intensamente atacado e durante 20 minutos. A nossa reacção surgiu pronta e ajustada. Sofremos 1 morto [Milícia] e 2 feridos [Milícias]. O inimigo: 4 mortos, 7 feridos e 1 prisioneiro. Salienta-se o tiro acertado de Artilharia do XIME em apoio às forças atacadas” [p.74].

O GRUPO DO MARCELINO DA MATA
Foto 6 – O Marcelino da Mata, o 2.º da esquerda, acompanhado de elementos do seu grupo em 26MAR1973, no momento em que o Ten. Miguel Pessoa é resgatado depois da sua aeronave ter sido atingida, na véspera, por um míssil Strela [P12265-LG, com a devida vénia]. Provavelmente alguns dos elementos na foto participaram, também, nas missões do mês de Julho/1972 efectuadas no Enxalé.

 Um abração.
Luciano de Jesus
ex-Fur. Mil., CART 3494.
06DEC2014

Nota do editor: As fotos apresentadas são da responsabilidade do autor.

Vd Post. da mesma série:  Actividade operacional da CART 3494 - PRESENÇA NO ENXALÉ (Jorge Araújo)

Apontamento muito interessante do nosso CMDT António José Pereira da Costa: 



1. Olá Camarada
Estive a ler as impressões do Jesus e gostaria de acrescentar o seguinte:

O grupo do Marcelino foi helicolocado no Enxalé sem a CArt saber. Se o BArt sabia não sei...
Não sabia ou não me lembrava de que os dois GEMil tinham sido utilizados na operação que foi decidida e planeada pelo Centro de Operações Especiais do COMCHEFE.
Pelo texto do Luciano confirmo o que sempre suspeitei e que julgo que já deixei escrito no blog do Luís Graça. É que os Grupos de Milícia eram muitos variados e que alguns não eram especiais, quando mais... Neste caso, não é de admirar. Mas uma coisa é certa: a africanização da guerra é discutível e os grupos e companhias de milícia não podem ser simplesmente misturado com a tropa do recrutamento "metropolitano" ou "da província". 
O COE/COMCHEFE ressarciu a CArt das despesas feitas pelo GE do Marcelino.
Recordo o desespero do furr. Domingos ao rádio a pretender saber o estado do milícia que veio a morrer. E lembro-me de termos feito fogo sobre algo que nos pareciam 2 canhões S/R, pois víamos as chamas à boca... Quanto às baixas do In e ao interrogatório do Cmdt ao ferido inimigo...
Não me lembro do Cmdt do BArt ter ido ao Enxalé. Creio que se ele lá tivesse ido, seria lógico que eu também fosse. 
Mas esta memória já não é o que era.
Um Abraço, António Costa

2.  Comentário de Luciano de Jesus ao apontamento do CMDT António Costa
Camaradas Os factos que foram relatados são rigorosamente aquilo a que eu assisti. No relato não coloquei talvez muitos outros pormenores porque nem todos afloram simultâneamente e outros não têm relevo para o assunto. Voltando à operação, quem a planeou para mim é acessório e não me compete comentar. A mim só me restou receber bem quem veio de Bissau (Marcelino e grupo) e assegurar todo o apoio (que foi dado) a todos os que atuaram nesses dias. Se algo correu mal em termos de comunicação na cadeia de comando (Comchefe, batalhão, companhia), também não me compete comentar. Os grupos de milícia do Enxalé eram mesmo considerados "especiais" e como eles sei que na altura haviam poucos na Guiné com esta denominação. O desespero do furriel Domingos é um facto porque no Enxalé onde estávamos a viver a situação o desespero era o mesmo com o ferido que estava junto de nós em estado crítico, um quartel completamente às escuras, após aquele violento ataque, sem sabermos o que viria a seguir, e a tentarmos organizar as coisas de forma racional, de modo a evacuar o ferido rapidamente, com a segurança necessária para a escolta que teve de sair do quartel ignorando se o inimigo não estaria por ali para lançar uma segunda vaga de ataque. No posto de rádio lembro-me de estar junto ao transmissões a passar mensagens codificadas da situação pois também pedimos mais munições já que ficamos desfalcados. Mensagens deste tipo não podiam ser passadas livremente no rádio pois denunciaria as nossa vulnerabilidades ao IN. Tudo isto a acontecer logo a seguir ao ataque. Os que lá estavam sabem bem desta situação. Em cerca de meia-hora foi preciso gerir tudo isto de maneira aceitável. Quanto às despesas do Marcelino não sei nada disso pois o Alferes Araújo é que viria a acertar as contas. Nós, dentro do orçamento diário fizemos o melhor. Do armamento IN a informação que dei foi aquela que foi obtida nos dias seguintes por aquilo que chegou da tabanca (que tinham metade da família no mato) e que tudo sabiam. O Enxalé tinha uma situação muito peculiar no campo das informações. Não foi por acaso que eu mal cheguei ao Xime fui logo enviado para Bissau, onde estive quase um mês, a tirar um curso de informações junto do sector de informações/operações do Comando-Chefe. No reconhecimento efetuado no dia seguinte, para além do ferido In capturado junto ao arame farpado, localizamos o local onde esteve montado o canhão sem recuo (na bolanha, junto a uma árvore isolada). Aí estavam empilhados 50 porta-granadas de canhão s/r, 49 vazios e 1 com a granada lá dentro pois o invólucro estava amolgado e a granada estava presa. A razão da não ida o então capitão Pereira da Costa ao Enxalé junto com o com. Tiago Martins não sei o que dizer mas talvez se enquadre na tal falta de comunicação que existiu nesse dia na cadeia de comando. A propósito da visita do comandante e o comentário absurdo sobe o gasto de munições, omiti no meu primeiro relato, de propósito, para não ferir susceptibilidades e a imagem de alguém que já cá não está, outro episódio que se passou. Mas.... factos são factos e então foi o seguinte: O ferido In foi recolhido para a sala principal do edifício. Foi sentado numa daquelas cadeiras que se vêem na foto onde estão os graduados do pelotão. Estava mais morto do que vivo. O com. chegou e a primeira coisa que fez foi dar-lhe um pontapé na cara. Não sei se ele sentiu.Não percebi e fiquei espantado e chocado. Se era para o interrogar é estranho em relação a um quase moribundo, com um grande buraco nas costas e outro na perna, toda a noite a perder sangue. Esta fica na minha história. Já estou a escrever muito e não gosto. Quando se começa a mexer 42 anos depois com o pauzinho em certas coisas pode começar a cheirar mal. Muitas outras haveria para contar: boas , más, chocantes, dramáticas, etc. Sobre isto acho que o Ex-Furriel Benjamim Dias poderia dar a sua contribuição sobre o que se passou e encerrar o assunto. Saudações para todos Luciano de Jesus 13 de dezembro de 2014 às 12:39

Copy and WIN : http://bit.ly/copy_win




Camaradas,
Luciano de Jesus, ex. Fur. Milº Art.

 Os factos que foram relatados são rigorosamente aquilo a que eu assisti. No relato não coloquei talvez muitos outros pormenores porque nem todos afloram simultaneamente e outros não têm relevo para o assunto. Voltando à operação, quem a planeou para mim é acessório e não me compete comentar. A mim só me restou receber bem quem veio de Bissau (Marcelino e grupo) e assegurar todo o apoio (que foi dado) a todos os que actuaram nesses dias. Se algo correu mal em termos de comunicação na cadeia de comando (Comchefe, batalhão, companhia), também não me compete comentar. Os grupos de milícia do Enxalé eram mesmo considerados "especiais" e como eles sei que na altura haviam poucos na Guiné com esta denominação. O desespero do furriel Domingos é um facto porque no Enxalé onde estávamos a viver a situação o desespero era o mesmo com o ferido que estava junto de nós em estado crítico, um quartel completamente às escuras, após aquele violento ataque, sem sabermos o que viria a seguir, e a tentarmos organizar as coisas de forma racional, de modo a evacuar o ferido rapidamente, com a segurança necessária para a escolta que teve de sair do quartel ignorando se o inimigo não estaria por ali para lançar uma segunda vaga de ataque. No posto de rádio lembro-me de estar junto ao transmissões a passar mensagens codificadas da situação pois também pedimos mais munições já que ficamos desfalcados. Mensagens deste tipo não podiam ser passadas livremente no rádio pois denunciaria as nossas vulnerabilidades ao IN. Tudo isto a acontecer logo a seguir ao ataque. Os que lá estavam sabem bem desta situação. Em cerca de meia-hora foi preciso gerir tudo isto de maneira aceitável. Quanto às despesas do Marcelino não sei nada disso pois o Alferes Araújo é que viria a acertar as contas. Nós, dentro do orçamento diário fizemos o melhor. Do armamento IN a informação que dei foi aquela que foi obtida nos dias seguintes por aquilo que chegou da tabanca (que tinham metade da família no mato) e que tudo sabiam. O Enxalé tinha uma situação muito peculiar no campo das informações.
[Bolanha] Vinda do Enxalé, 1972
Não foi por acaso que eu mal cheguei ao Xime fui logo enviado para Bissau, onde estive quase um mês, a tirar um curso de informações junto do sector de informações/operações do Comando-Chefe. No reconhecimento efectuado no dia seguinte, para além do ferido In capturado junto ao arame farpado, localizamos o local onde esteve montado o canhão sem recuo (na bolanha, junto a uma árvore isolada). Aí estavam empilhados 50 porta-granadas de canhão s/r, 49 vazios e 1 com a granada lá dentro pois o invólucro estava amolgado e a granada estava presa. A razão da não ida o então capitão Pereira da Costa ao Enxalé junto com o com. Tiago Martins não sei o que dizer mas talvez se enquadre na tal falta de comunicação que existiu nesse dia na cadeia de comando. A propósito da visita do comandante e o comentário absurdo sobe o gasto de munições, omiti no meu primeiro relato, de propósito, para não ferir susceptibilidades e a imagem de alguém que já cá não está, outro episódio que se passou. Mas… factos são factos e então foi o seguinte: O ferido In foi recolhido para a sala principal do edifício. Foi sentado numa daquelas cadeiras que se vêem na foto onde estão os graduados do pelotão. Estava mais morto do que vivo. O com. chegou e a primeira coisa que fez foi dar-lhe um pontapé na cara. Não sei se ele sentiu. Não percebi e fiquei espantado e chocado. Se era para o interrogar é estranho em relação a um quase moribundo, com um grande buraco nas costas e outro na perna, toda a noite a perder sangue. Esta fica na minha história. Já estou a escrever muito e não gosto. Quando se começa a mexer 42 anos depois com o pauzinho em certas coisas pode começar a cheirar mal. Muitas outras haveria para contar: boas, más, chocantes, dramáticas, etc. Sobre isto acho que o Ex-Furriel Benjamim Dias poderia dar a sua contribuição sobre o que se passou e encerrar o assunto. 
Saudações para todos,
 Luciano de Jesus
13 de Dezembro de 2014 às 12:39

4 comentários:

Anónimo disse...

Olá Camarada
Estive a ler as impressões do Jesus e gostaria de acrescentar o seguinte:

O grupo do Marcelino foi helicolocado no Enxalé sem a CArt saber. Se o BArt sabia não sei...
Não sabia ou não me lembrava de que os dois GEMil tinham sido utilizados na operação que foi decidida e planeada pelo Centro de Operações Especiais do COMCHEFE.
Pelo texto do Luciano confirmo o que sempre suspeitei e que julgo que já deixei escrito no blog do Luís Graça. É que os Grupos de Milícia eram muitos variados e que alguns não eram especiais, quando mais... Neste caso, não é de admirar. Mas uma coisa é certa: a africanização da guerra é discutível e os grupos e companhias de milícia não podem ser simplesmente misturado com a tropa do recrutamento "metropolitano" ou "da província".
O COE/COMCHEFE ressarciu a CArt das despesas feitas pelo GE do Marcelino.
Recordo o desespero do furr. Domingos ao rádio a pretender saber o estado do milícia que veio a morrer. E lembro-me de termos feito fogo sobre algo que nos pareciam 2 canhões S/R, pois víamos as chamas à boca... Quanto às baixas do In e ao interrogatório do Cmdt ao ferido inimigo...
Não me lembro do Cmdt do BArt ter ido ao Enxalé. Creio que se ele lá tivesse ido, seria lógico que eu também fosse.
Mas esta memória já não é o que era.
Um Abraço
António Costa

Anónimo disse...

Camaradas

Os factos que foram relatados são rigorosamente aquilo a que eu assisti. No relato não coloquei talvez muitos outros pormenores porque nem todos afloram simultâneamente e outros não têm relevo para o assunto.

Voltando à operação, quem a planeou para mim é acessório e não me compete comentar. A mim só me restou receber bem quem veio de Bissau (Marcelino e grupo) e assegurar todo o apoio (que foi dado) a todos os que atuaram nesses dias. Se algo correu mal em termos de comunicação na cadeia de comando (Comchefe, batalhão, companhia), também não me compete comentar.

Os grupos de milícia do Enxalé eram mesmo considerados "especiais" e como eles sei que na altura haviam poucos na Guiné com esta denominação.

O desespero do furriel Domingos é um facto porque no Enxalé onde estávamos a viver a situação o desespero era o mesmo com o ferido que estava junto de nós em estado crítico, um quartel completamente às escuras, após aquele violento ataque, sem sabermos o que viria a seguir, e a tentarmos organizar as coisas de forma racional, de modo a evacuar o ferido rapidamente, com a segurança necessária para a escolta que teve de sair do quartel ignorando se o inimigo não estaria por ali para lançar uma segunda vaga de ataque. No posto de rádio lembro-me de estar junto ao transmissões a passar mensagens codificadas da situação pois também pedimos mais munições já que ficamos desfalcados. Mensagens deste tipo não podiam ser passadas livremente no rádio pois denunciaria as nossa vulnerabilidades ao IN. Tudo isto a acontecer logo a seguir ao ataque. Os que lá estavam sabem bem desta situação. Em cerca de meia-hora foi preciso gerir tudo isto de maneira aceitável.

Quanto às despesas do Marcelino não sei nada disso pois o Alferes Araújo é que viria a acertar as contas. Nós, dentro do orçamento diário fizemos o melhor.

Do armamento IN a informação que dei foi aquela que foi obtida nos dias seguintes por aquilo que chegou da tabanca (que tinham metade da família no mato) e que tudo sabiam. O Enxalé tinha uma situação muito peculiar no campo das informações. Não foi por acaso que eu mal cheguei ao Xime fui logo enviado para Bissau, onde estive quase um mês, a tirar um curso de informações junto do sector de informações/operações do Comando-Chefe.

No reconhecimento efetuado no dia seguinte, para além do ferido In capturado junto ao arame farpado, localizamos o local onde esteve montado o canhão sem recuo (na bolanha, junto a uma árvore isolada). Aí estavam empilhados 50 porta-granadas de canhão s/r, 49 vazios e 1 com a granada lá dentro pois o invólucro estava amolgado e a granada estava presa.

A razão da não ida o então capitão Pereira da Costa ao Enxalé junto com o com. Tiago Martins não sei o que dizer mas talvez se enquadre na tal falta de comunicação que existiu nesse dia na cadeia de comando.

A propósito da visita do comandante e o comentário absurdo sobe o gasto de munições, omiti no meu primeiro relato, de propósito, para não ferir susceptibilidades e a imagem de alguém que já cá não está, outro episódio que se passou. Mas.... factos são factos e então foi o seguinte:

O ferido In foi recolhido para a sala principal do edifício. Foi sentado numa daquelas cadeiras que se vêem na foto onde estão os graduados do pelotão.

Estava mais morto do que vivo. O com. chegou e a primeira coisa que fez foi dar-lhe um pontapé na cara. Não sei se ele sentiu.Não percebi e fiquei espantado e chocado. Se era para o interrogar é estranho em relação a um quase moribundo, com um grande buraco nas costas e outro na perna, toda a noite a perder sangue. Esta fica na minha história.

Já estou a escrever muito e não gosto. Quando se começa a mexer 42 anos depois com o pauzinho em certas coisas pode começar a cheirar mal.

Muitas outras haveria para contar: boas , más, chocantes, dramáticas, etc.

Sobre isto acho que o Ex-Furriel Benjamim Dias poderia dar a sua contribuição sobre o que se passou e encerrar o assunto.


Saudações para todos

Luciano de Jesus

Anónimo disse...

Concordo com as considerações do Luciano.
E agora tenho a certeza de que não fui ao Enxalé com o Cmdt, pois de outro modo tinha recordação do seu jeito para o futebol...
Para mim é uma surpresa e presumo que o seu jeito para conduzir um interrogatório deveria ser idêntico...
Um Ab.
António Costa

Anónimo disse...

Camaradas,

Para completar os factos narrados pelo camarada Luciano de Jesus, informo que o milícia das NT que morreu neste ataque chamava-se DICOR EMBALÓ, era natural de Aliu Zai (Bambadinca), n.mec 873/71, do GEMil 309 (in. ultramar.terraweb - mortos na guerra naturais da Guiné - com a devida vénia).

Um abraço,
Jorge Araújo.