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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

P289 - Acontecimentos que a memória conserva por: António E. J. Ferreira ex. 1º cabo condutor Auto da CART 3493

1. Transcrição de uma mensagem recebida hoje (21NOV2016) publicada no blogue ["MOLIANOS" viajando no tempo] editado pelo nosso camarada António Eduardo Jerónimo Ferreira, ex. 1º cabo condutor auto da CART 3493 do BART 3873, Mansambo, Cobumba e Bissau, onde nos conta como foram os primeiros dias depois da chegada à GUINÉ.

SdC




Acontecimentos que a memória conserva


Quando cheguei à então província Portuguesa da Guiné, a primeira vez que fui comer ao refeitório nos adidos em Bissau fui confrontado com algo estranho que eu não imaginava que por lá acontecesse, vários jovens africanos não sei se tropa ou milícia, talvez à espera de transporte para o interior, estavam fora do edifício junto às paredes com latas que tinham sido de coca-cola, leite, fruta ou outras, sem tampa de um dos lados que era tirada roçando num local rijo para que a parte perfurada caísse, que colocavam nas aberturas que existiam nos blocos de cimento com que eram construídas as paredes dos pavilhões, para que lá de dentro alguém lhe colocassem restos de comida, se algumas vezes era comida normal… outras levava à mistura espinhas e ossos mas que eles não rejeitavam.
Passado um mês de estar em Bissau fiz a viagem num Dacota até Bafatá e depois em coluna até Bambadinca, onde estive algumas horas à espera de transporte para Mansambo, durante o tempo que lá estive tudo aquilo era para mim um mundo novo, tudo diferente, desconhecido e tão estranho que certamente passei o tempo a olhar em todas as direções. Recordo-me de estar sentado naquele espaço que circundava os pavilhões, onde estavam também algumas mulheres da população, não sei porque estavam ali, talvez à espera de transporte para outra tabanca, estavam quase todas com crianças às costas uma estava a comer uma oleaginosa, coisa que eu desconhecia, olhou para mim já só tinha uma partiu-a em duas com os dentes, depois disse-me qualquer coisa que eu não entendi, e deu-me metade que mesmo sem saber o que era aceitei e comi.
António E. J. Ferreira, 1972

Certo dia fomos fazer segurança, não sei a quem, ainda éramos periquitos, algures entre Bafatá e nova Lamego, quando chegamos à tabanca onde fomos “dormir” era já noite e ninguém tinha água, alguém da população trouxe um alguidar grande cheio, a sede era tanta em que bebemos directamente no alguidar como se fossemos uma manada de animais...

Em Mansambo prometi ao Serifo o faxina dos condutores, de que eu fazia parte, quando vim de férias à metrópole que lhe levava uns sapatos novos, quando regressei o Serifo já não era o nosso faxina, mandei-o chamar à tabanca e dei-lhe os sapatos, no dia seguinte apareceu lá no nosso abrigo na companhia de vários meninos com os sapatos calçados todos eles exteriorizando uma alegria contagiante com uma galinha que me ofereceu.

Muitos anos já passaram mas jamais esqueci o gesto de solidariedade da senhora que me ofereceu metade da oleaginosa, talvez apercebendo-se de que eu estava completamente perdido…tentando amenizar aquele sofrimento que seria por demais evidente, para quem tinha deixado no hospital a esposa e o filho com poucas horas de nascido e tinha partido para a guerra. A galinha do Serifo e alegria daqueles meninos, ou aquela gente para quem o resto de comida era importante. Nos momentos difíceis com que tenho sido confrontado ao longo da vida, que não tem sido poucos, por estranho que possa parecer, não raramente são estas e outras memórias de situações que lá vivi onde vou buscar muita da força necessária para os enfrentar.
António EJ Ferreira.

4 comentários:

Sousa de Castro disse...

Caro amigo,
Depois de ler o artigo infra, devo dizer-te que me revejo exactamente na tua história, como deves calcular eu pertenci à CART 3494, mas não embarquei com o BART 3873, só em 27JAN1972,fiz a viagem por via aérea num DC-6 com escala em Cabo Verde na Ilha do Sal, foram mais ou menos 09,00 horas de viagem. De facto foi muito estranho quando pela primeira vez pisei solo daquela terra avermelhada, o calor, aquele cheiro característico, as pessoas, foi até de certa forma quase sem saber o que fazer, também fui parar aos Adidos e daí para o Agrupamento de Transmissões onde frequentei o estágio de radiotelegrafista durante um mês, seguindo tal como tu, por via aérea num DAKOTA com destino a BAFATÁ depois em coluna até Bambadinca e daí para o XIME onde a minha CART 3494 estava sedeada.
Dado a relevância do texto decidi publica-lo no nosso blogue aqui: http://cart3494guine.blogspot.pt/2016/11/p289-acontecimentos-que-memoria.html
Deixo-te com um abraço,
Sousa de Castro, (ex. 1º cabo radiotelegrafista)

Acordar Sonhando . SOL da Esteva disse...

A Vida e as vivências pessoais têm um valor incalculável. A nobreza dos sentimentos é mostrada numa Alma transparente.

Abraço
SOL

Santos Oliveira disse...

A Humanidade não era (sempre) um Dever para quem devia ser dirigente e responsável. Percebo o que aqueles Homens sentiam porque senti o mesmo quando tive de "acampar" uma noite curta antes de embarcar para Tite. Não tinha (tive) cama nem Jantar, apenas porque o Manuel Alfredo aportou no final do dia na hora da janta. Depois, mais tarde, as condições eram muito pobres para quem tinha de ficar o tempo de passagem pelo QG/BC600.
Aqueles sentimentos por coisa pouca, são a expressão do verdadeiro sentido da dignidade em contraposição com o Dever.

Abraço

Santos Oliveira
Sarg Mil AP Inf/Ranger

Jaime Portela disse...

Não sabia que tinhas um blogue.
Dei uma vista de olhos e gostei, embora eu não tivesse ido para a Guiné (nem para nenhuma das antigas colónias). Mas é sempre interessante sentir o ambiente que os nossos soldados tinham por lá.
Obrigado pela visita, volta sempre (normalmente publico às 5ªs feiras).
Um abraço, caro amigo António.