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quarta-feira, 22 de março de 2017

P306 - GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE: MINA ACCIONADA PELA VIATURA DE PEDRO PIRES, EM 17 DE MARÇO DE 1972, NA REGIÃO DE SANSALÉ (BOKÉ)


Eis, mais uma narrativa, esta relacionada com o episódio da mina accionada, em 17 de Março de 1972, pela viatura do dirigente do PAIGC, Pedro Pires, e que se enquadra no conceito das «más notícias» divulgadas por Amílcar Cabral (1924-1973).

Com um forte abraço de amizade.

Jorge Araújo.


Mar/2017


    Foto do blogue "Webguinee.net" com devida vénia!




GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL [1924-1973]
- MINA ACCIONADA PELA VIATURA DE PEDRO PIRES,
EM 17 DE MARÇO DE 1972, NA REGIÃO DE SANSALÉ (BOKÉ) -

1.   INTRODUÇÃO

Iniciámos no P293 a publicação de factos manuscritos por Amílcar Cabral (1924-1973), a que chamou de «más notícias», seleccionados (com a devida vénia) da sua vasta correspondência existente nos arquivos da Casa Comum, Fundação Mário Soares, e que segundo as suas notas, tiveram por destinatários os principais chefes militares, chamando a sua atenção para alguns fracassos contabilizados durante as actividades da guerrilha.

A presente narrativa retoma, com efeito, o mesmo conceito de «más notícias» dando-vos conta de uma outra ocorrência (efeméride) esta verificada há, precisamente, quarenta e cinco anos, em 17 de março de 1972, igualmente uma sexta-feira como a deste ano.

As más notícias de hoje reportam-se à carta enviada ao seu camarada Pedro Pires, em 18 de março de 1972, esta relacionada com o accionamento de uma mina, colocada em território da Guiné-Conacri, no itinerário entre Sansalé e Boké, por uma viatura (pesada?) onde seguiam entre outros dirigentes do PAIGC, o referido Pedro Pires e, ainda, Bacar Cassamá, que saíram ilesos, mas onde se registaram algumas perdas humanas que no entanto não foram identificadas e/ou referidas na sua carta, nem tampouco quantificadas.

Mapa da região sul da Guiné, assinalando-se o local do acidente, no itinerário Sansalé-Boké, em território da Guiné-Conacri.



2.   AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL
- O episódio da mina accionada pela viatura de Pedro Pires

Este episódio ocorreu em 17 de março de 1972, uma sexta-feira, fez quarenta e cinco anos. Partindo do pressuposto de que serão poucos, certamente, os que dele têm conhecimento, tomei a iniciativa de o partilhar convosco, como tem sido meu hábito.

Nessa sua missiva enviada a Pedro Pires (n-1934-04-29), lamentando o sucedido, Amílcar Cabral refere que ele é (era) “fruto da traição dos nossos próprios irmãos”, situação que haveria de repetir-se consigo próprio, dez meses depois, em 20 de janeiro de 1973, ao ser assassinado em Conacri por membros do seu próprio partido, facto histórico amplamente divulgado nos mídia, e já do domínio público.

Quanto ao conteúdo transmitido, aqui vos deixo a sua totalidade, transcrevendo-o, e adicionando-lhe pequenos detalhes, colocados entre parênteses rectos.

O original está colocado no final, bem como referida a sua fonte.

2.1        – A carta de Amílcar Cabral para Pedro Pires escrita
                em 18 de março de 1972
Citação:
Desconhecido (s.d.), "O camarada Pedro Pires, Comissário de Estado-Adjunto para as Forças Armadas.", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_11279 (2017-3-22)
Conacri, 18 de Março de 1972
Meu caro Pires,
Algumas palavras apenas para te dizer que foi para mim uma grande surpresa saber, pela tua carta de 17 de Março [ontem], que tu estavas no carro [provavelmente uma viatura pesada] que caiu na mina na estrada de Sansalé [região de Boké, República da Guiné]. Vi bem que na mensagem [provavelmente um telegrama] dizias caímos, mas pensei que fosse apenas maneira de exprimir nossa.
Temos ainda mais razões, portanto – e grandes, meu Deus – para sentir profundamente o que se passou, fruto da traição dos nossos próprios irmãos, ao serviço dos criminosos colonialistas tugas. Compreendo perfeitamente a tua tristeza ou indignação perante o acontecimento, e só agradeço a todos os deuses e irans [irãs] o não termos tido mais perdas [não quantificadas], a tua vida e a do Bacar [Cassamá], e a de outros camaradas terem sido preservadas.

Citação:
Bruna Polimeni (Ago’1971), "Amílcar Cabral, Constantino Teixeira e Bacar Cassamá entre outros militares do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43310 (2017-3-16)



Dada a gravidade do caso escrevi uma informação ao [Ahmed] Sekou Touré [1922-1984], da qual te envio uma cópia. Hoje, dentro de meia hora, vou falar com ele sobre este assunto, que é do nosso interesse comum e que devemos resolver com urgência.
Bem gostaria de estar contigo agora para falarmos sobre este assunto – e sobre esta condição própria às lutas como a nossa que é a traição daqueles por quem lutamos e sofremos. Espero no entanto ver-te o mais breve possível. Lamentando, é certo, os camaradas perdidos e feridos, cujos nomes espero me indiques, regozijo-me no entanto em saber-te bem, ileso e, como sempre, decidido a dar tudo pela vitória do nosso Partido, ao serviço do nosso povo.
Todos te cumprimentamos com saudade.
Fraternalmente, Amílcar Cabral.


Fonte:
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07166.005
Assunto: Manifesta a sua surpresa por Pedro Pires se encontrar no carro que caiu na mina na estrada de Sansalé, colocada pelos “irmãos ao serviço dos criminosos colonialistas”. Refere que escreveu uma informação ao Sekou Touré, dada a gravidade do caso.
Remetente: Amílcar Cabral.
Destinatário: Pedro Pires
Data: Sábado, 18 de Março de 1972
Fundo: Pedro Verona Pires
Tipo Documental: Correspondência

 

Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
18MAR2017

Vd. poste anterior da série: 

P293 - Perdemos 16 camaradas e 1 companheiro cubano [Pedro Casimiro], tendo mais 12 camaradas sido feridos. Um desastre devido a erro imperdoável (PAIGC

segunda-feira, 20 de março de 2017

P305 - A importância do Xime na estratégia militar

Caros camaradas, reproduzo com a devida vénia, vários comentários de camaradas que passaram pelo Xime a caminho das suas unidades, na zona Leste da Guiné, relacionado com a foto abaixo que publiquei no Facebook na página dos “Antigos Combatentes da Guiné” do aquartelamento onde a CART 3494 estava sediada.
Significativa demonstração da importância desta localidade para a estratégia militar.


Aquartelamento do XIME
Luis Fagundes Esta bem presente na minha memória este lugar ao qual eu chamava Termas do Xime
Jorge Barbosa Vivíamos que nem toupeiras.
Joaquim Vidigal Havia piores eu estive lá várias vezes.
António Gil Percebo cada vez melhor o desprezo a que são votados os intervenientes ....
Orlando Santos O primeiro ataque que a CCS do Bart 2920 sofreu, foi ao atracar a LDG no Xime a caminho de Bafatá.
Sousa de Castro O Xime era uma zona estratégica para toda zona leste da Guiné, por ali passava todos batalhões. Daí o Xime ser muito fustigado.
Mário Andrade Hoje tenho cabelos brancos alguns nasceram no Xime.
António Manuel Gonçalves Quando lá cheguei, nós a desembarcar-mos da L.D.G, foi logo o baptismo dos embrulhanços. Que continuaram todos os dias em Piche até ao dia do regresso 20 de junho /74, mas felizmente estou vivo. Já não posso dizer o mesmo de alguns camaradas que por la ficaram.
Paulo Raposo Passei por lá em 1970 numa LDG para Bissau fim da comissão. Que alegria!
Alberto Gameiro Jorge Andei por aí em 1973 e princípios de 74 com a CCAÇ 21 Africanos. Abç

CCAÇ 21 em Mansambo
Alberto Gameiro Jorge Obrigado por esta Recordação. Nesta operação eu fiquei em Bambadinca o Tenente Jamanca, Comandate da Ccaç 21, disse para eu ficar. E eu fiquei. Abraço

José Fernando Santos Ribeiro Passei por lá em 1970. Desembarquei duma LDG e fui em "picada" até perto de Bambadinca, depois fui para Galomaro (B.Caç.2912/CCS). Em 1972 fiz o caminho inverso. Embarquei numa LDG e a caminho de Bissau….
António Manuel Gonçalves Tenho fotos de alguns momentos mais difíceis, que acho bem não publicar. Todos os camaradas que passaram pelo sector L4 sabem o que se passou por lá. Num belo dia, saímos de Piche para Nova Lamego passados 4 km à saída de Piche, uma bruta emboscada. Resultado! 8 mortos carbonizados dentro da Chaimite, uma R P G 7 com ponta de mercúrio perfurou-a
Antonio Manuel Gonçalves Chaimite e explodiu dentro, lá ficaram os nossos camaradas
Manuel Sousa António Manuel Gonçalves em que ano e mês foi isso?
Sousa de Castro Essa história da Chaimite creio que ocorreu no inicio de 1974 ou final de 73 julgo eu.
Manuel Sousa Se é a que eu penso que é, faz no próximo dia 22 ás 08:30h 43 anos que tal aconteceu

Sousa de Castro Manuel Sousa Creio que é isso mesmo, estávamos (CART 3494) em Bissau, nos adidos, aguardar embarque para o regresso a casa o que aconteceu no dia 03ABR74

segunda-feira, 13 de março de 2017

P304 - (IN MEMORIAM) INÁCIO JOSÉ CAROLA FIGUEIRA [1950-2017] - ex-Fur Mil Art da CART 3494/BART 3873 (Xime-Mansambo, DEC71/ABR74) Por:Jorge Araújo

Camaradas;

Coube-me, desta vez, a especifica missão de vos dar uma notícia que poucos estão preparados e/ou desejam fazê-lo, particularmente quando estamos perante a perda de um elemento do nosso grupo de pares, quer seja no quadro familiar, profissional ou de outros contextos grupais como é o caso presente do colectivo de milicianos da CART 3494, ex-combatentes no CTIG nos anos de 1971 a 1974, pois emerge no meu interior, e certamente no interior de cada um de vós, um sentimento de revolta, de tristeza e de impotência por nada mais se poder fazer, fisicamente, depois da morte.

Fur. Figueira, 1972

E a notícia de hoje, muito sentida, está relacionada com o falecimento, no passado dia 9 de fevereiro de 2017, do nosso camarada INÁCIO JOSÉ CAROLA FIGUEIRA [1950-2017], ex-Fur. Mil Artª pertencente ao 3.º Gr Comb da CART 3494, do BART 3873, natural do Redondo, Município do Distrito de Évora, e com última residência na Freguesia de Pinhal Novo, Município de Palmela.

A confirmação desta notícia é corolário de uma cadeia de contactos efectuados entre elementos do colectivo da CART 3494, iniciados pelo camarada Lúcio Damiano (Vizela) que, ao ligar para casa do Carola Figueira, foi informado pela esposa que ele (o marido) estava com graves problemas de saúde, de origem cancerígena.

Em contacto posterior, para agendamento de uma sua eventual visita a Pinhal Novo, o camarada Vizela não foi bem-sucedido, uma vez que todos os meios de comunicação estavam desligados [OFF]. Daí ter tomado a iniciativa de a transmitir ao camarada Sousa de Castro que, de imediato, a colocou na rede dos contactos da CART 3494.

Ao saber-se que o camarada Figueira estava/esteve hospitalizado em Setúbal, no Hospital São Bernardo, aí se procurou saber algo mais, sendo que as informações obtidas davam como certo o seu óbito. Faltava, no entanto, conhecer a data certa. Essa informação só na passada quinta-feira foi conseguida por mim, na medida em que ela era importante para nós, visando a sua divulgação no Blogue, objectivo supremo desta notícia.

Para além de ter privado com o camarada Figueira no contexto da nossa Missão Ultramarina, onde tive a oportunidade de contabilizar um sem número de exemplos de grande camaradagem, solidariedade e partilha de bens materiais, essa interacção foi retomada na vida civil, quando um certo dia nos encontrámos no Terreiro do Paço, também conhecido por Praça do Comércio.

Foi com grande emoção que nesse momento trocámos um forte abraço, pois tinham já decorrido alguns anos desde que nos separámos em Bissau (três ou quatro?), [eu tinha regressado no Niassa e ele nos TAM], vindo a saber de que era responsável pelo serviço administrativo da Estação Fluvial Sul e Sueste, o sítio de entrada/saída em/de Lisboa, ligando as duas margens do rio Tejo, entre a Capital e o Barreiro.

A partir de então, outros encontros ocorreram com mais frequência até 1982, ano em que, por eu ter passado a desenvolver a minha actividade profissional na margem sul, deixaram de existir. Ainda assim, pouco tempo depois aconteceu um novo reencontro, agora numa das ruas de Corroios, pois morávamos nessa Freguesia, ele na Quinta de São Nicolau e eu no Alto do Moinho.

Esteve algumas vezes em minha casa, onde partilhámos memórias, objectivos e projectos profissionais. Essa troca de memórias era retomada durante os Encontros/ Almoços da CART 3494. Entretanto, foi transferido para Pinhal Novo com a missão de chefiar a Estação Ferroviária da CP com o mesmo nome, o que fez diminuir o número dos nossos encontros, substituídos por diálogos telefónicos mais espaçados.

Durante os últimos oito anos [2008-2016] apenas privei com o camarada Carola Figueira por três vezes. A primeira, durante o XXIII Encontro por mim organizado na Costa da Caparica, em 7 de junho de 2008. A segunda, no Encontro organizado pelo camarada Espadinha Carda na Ponte de Sôr (o XXVII), em 9 de junho de 2012. A terceira, cinco meses depois da anterior, em 17 de novembro, na «Operação São Martinho», realizada na «Ponta da Marisol», uma “operação difícil” destinada aos operacionais aquartelados na região centro, treinados/preparadas para desempenhar as mais exigentes técnicas no âmbito das boas práticas gourmet.


Para memória futura, reproduzo a declaração de honra assinada pelo camarada Figueira visando a sua participação voluntária nesta acção.

Em sua homenagem, recordo com algumas imagens momentos que fazem parte da memória colectiva da CART 3494 de mais de quatro décadas, nas quais o camarada Inácio José Carola Figueira continuará presente… sempre!

 Xime, a caminho do Cais (Jul/72) – Esq/Dtª - furriéis: Chinelo, Figueira, Araújo, Carda e Neves

Xime (Jul/72) – grupo de furriéis, com o Figueira no interior do círculo, montados numa GMC

Bafatá (Dez?/72) – Esq/Dtª – Furriéis: Espadinha Carda, N/N, Jorge Araújo e Carola Figueira


Mansambo (Dez/73) – Furriéis Carda e Figueira, ambos pertencentes ao 3º Gr Comb


Almada, Cristo Rei (7Jun2008) – Cmdt Pereira da Costa, Jorge Araújo e Carola Figueira, no local da concentração do XXIII Encontro/Convívio, realizado no Restaurante do Hotel da Costa da Caparica.


Ponte de Sôr (9Jun2012) – Os camaradas Carola Figueira e Luís Domingues à conversa no local da concentração do XXVII Encontro/Convívio, realizado no Restaurante Gato Preto.

Em nome do colectivo da CART 3494, e em meu nome pessoal, envio os sentidos pêsames à família do Figueira.

DESCANSA EM PAZ, CAMARADA.

pel’ A CART 3494

Ex-Furriel Jorge Araújo.

12MAR2017.

 

PS. Agradeço ao camarada Carda a pronta cedência das fotos 3 e 4


VD. Postes in Memoriam: 

sexta-feira, 10 de março de 2017

P303 - GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE; SIMÃO ANTÓNIO MENDES MORTO NA BASE DO MORÉS EM 20 DE FEVEREIRO DE 1966 (...) Depois de duas horas de combate, só conseguiram lançar uma bomba dentro da Base causando a morte a 3 camaradas entre os quais o responsável da saúde do C.I.R.N., Simão António Mendes.

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494(Xime-Mansambo, 1972/1974)


Tendo por temática específica a dimensão «Saúde», abordada durante a realização do I Congresso do PAIGC organizado em fevereiro de 1964 nos arredores da Tabanca de Cassacá, a Sul de Cacine (Frente Sul), volto hoje a ela para vos dar conta de factos pouco conhecidos sobre a figura de Simão António Mendes, responsável por esta área na Frente Norte, Região do Oío, Base Central (Morés).
Foi neste local, onde desenvolvia a sua actividade de quadro dirigente, que em 20 de fevereiro de 1966 viria a morrer na sequência da actividade operacional das NT, em particular da FAP por via do bombardeamento dessa base.    
Com um forte abraço de amizade. 
Jorge Araújo.

MAR’2017.

GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
SIMÃO ANTÓNIO MENDES – RESPONSÁVEL PELA ÁREA DA SAÚDE DO C.I.R.N. DO PAIGC

- MORTO NA BASE DO MORÉS EM 20 DE FEVEREIRO DE 1966 -

1.   INTRODUÇÃO
Apresentei no início deste ano uma resenha histórica relacionada com a realização do I Congresso do PAIGC, organizado nos arredores da Tabanca de Cassacá (Frente Sul), entre 13 a 17 de fevereiro de 1964 [P297].
Nela dei conta, com particular destaque, à importância social da saúde e da instrução literária analisadas um mês depois, em 21 de março, na Base Central (Morés), por iniciativa dos responsáveis dessa Frente [Norte], Ambrósio Djassi [nome de guerra de Osvaldo Vieira, 1938-1974] e Chico Té [nome de guerra de Francisco Mendes, 1939-1978], cumprindo deste modo as resoluções aprovadas no Encontro de Cassacá.
Nesse âmbito, e no que concerne à área da Saúde, Simão António Mendes [enfermeiro de formação], seu principal responsável na Região Norte, apresentou um relatório [normas ou regulamento] com dez pontos, que foi aprovado por unanimidade.
Ao ler no Blogue da Tabanca Grande o P17119, da responsabilidade do camarada Jorge Ferreira [ex-alf mil da 3ª CCAÇ, Bolama, Nova Lamego, Buruntuma e Bolama, 1961/63], onde se faz referência a Simão [António] Mendes, nome com que foi baptizado o Hospital Nacional de Bissau [imagem abaixo], “antigo enfermeiro da época colonial, militante do PAIGC, morto em combate no Morés, e sobre o qual se sabe muito pouco”, tomei a iniciativa de partilhar convosco o que apurei sobre este tema.
2.   SIMÃO ANTÓNIO MENDES – As suas funções e a sua morte
   - O que apurei
Como fonte de investigação bibliográfica, utilizei para este caso os arquivos da Casa Comum da Fundação Mário Soares.
Confirma-se, pela nota abaixo reproduzida, que Simão António Mendes fazia parte, de facto, da Direcção de Saúde do PAIGC.
No documento, por si assinado, enviado à Direcção Central do PAIGC em 24 de Março de 1964, ou seja, três dias após ter apresentado na Base Central (Morés) as normas de funcionamento da sua estrutura, pode ler-se:
I – Junto se remete a requisição dos medicamentos e mais artigos para um trimestre para consumo de guerrilheiros e povo da zona libertada por esses últimos não poderem deslocar a outra parte à procura de assistência sanitária.
II – Tomámos boa nota da última carta do nosso camarada Lourenço Gomes [responsável no exterior (Senegal; Base de Samine) pelo acompanhamento dos evacuados do interior da Guiné], sobre doentes a enviar para a fronteira que passarão a ser só os feridos por arma de fogo, tais como fracturas e certos casos graves que não podemos resolver cá, por falta de recursos.
Cumprimentos cordiais.
Simão António Mendes e João Augusto Costa


Citação: (1964), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_35806 (2017-3-09)
Fonte:
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 04613.065.155
Assunto: Remete a requisição de medicamentos e mais artigos para os guerrilheiros e população (para um trimestre). Refere que tomaram boa nota das indicações de Lourenço Gomes de enviar para a fronteira apenas os feridos com arma de fogo.
Remetente: Simão António Mendes, João Augusto Costa.
Destinatário: Direcção do PAIGC.
Data: Terça, 24 de Março de 1964.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Correspondência 1963-1964 (dos Responsáveis da Zona Sul e Leste).
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.
Tipo Documental: Correspondência
   - A sua morte em 20 de fevereiro de 1966
De acordo com o comunicado da Base Central (Morés), a morte de Simão António Mendes ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1966, domingo, sendo descrita nos seguintes termos:
“No dia 20 de fevereiro [de 1966] o inimigo apoiado por 8 caçadores [?] invadiu a Base Central [Morés]. O combate que durou 6 horas de tempo, teve como resultado a retirada em debandada inimiga que caiu em 3 emboscadas sucessivas.
O inimigo não podendo realizar o plano, reforçou a aviação. Com o fim de bombardear a base, onde os nossos camaradas de armas anti-aéreas deram uma grande prova de coragem não os deixando realizar o plano.
Depois de duas horas de combate, só conseguiram lançar uma bomba dentro da Base causando a morte a 3 camaradas entre os quais o responsável da saúde do C.I.R.N., Simão António Mendes.
Dois aviões foram atingidos pelo fogo da D.C.K. [metralhadora pesada de 14.5 mm]
Região Oío, Zona Morés, Base Central.

Citação: (s.d.), "Comunicado [Região 3]", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40720 (2017-3-09)

Fonte:
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07065.068.011
Título: Comunicado [Região 3]
Assunto: Comunicado da Base Central, na Região de Oío, Zona de Morés, dando conta da invasão desta Base pelo exército e aviação portugueses, tendo sido atingidos dois aviões pelos combatentes do PAIGC, munidos de armas antiaéreas.
Data: s.d.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Exército Popular Zona Norte (Comunicados)
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.
Tipo Documental: Documentos.

Mapa da Região do Oío - Base Central (Morés)
Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
10MAR2017.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

P302 - Soube antecipadamente a minha especialidade e não entreguei as habilitações (...) Claro, seria atirador. Por: João Maria Pereira da Costa, ex. Fur. Milº Operações e Informações, BART 2857 (CCS)

MSG com data de, 17FEV2017 partilhada comigo no FACEBOOK, após alguma conversa achei interessante dar a conhecer neste espaço, como foi o início da vida militar deste nosso camarada, com a devida autorização do autor.
Devo referir que este nosso camarada é um dos fundadores e administrador do blogue: BART 2857 - GUINÉ 1968/70 constituído pelas CCS/Piche, CART 2438/Bajocunda, CART 2439/Canquelifá e CART 2440/Piche.



Boa tarde caro S. Castro.
Fui Furriel Miliciano. Soube antecipadamente a minha especialidade e não entreguei as habilitações, embora pressionado pelo Tenente comandante da minha Companhia de Instrução, amigo da família, que pretendia que fosse para Mafra para a especialidade. Claro seria atirador. Mas a vida tem subtilezas que não dominamos. Irás no final do texto compreender.

Em Outubro de 1967, fui incorporado no serviço militar, na recruta nas Caldas da Rainha, porque me cortaram o «regime de espera» pois frequentava a faculdade e pretendia terminar o curso. Nessa altura ouve uma visita do Américo Tomás à Universidade de Coimbra. O pessoal comportou-se mal e, daí, todos tiveram a minha sorte.

Estive de Janeiro a Março de 1968 em Tavira, na especialidade de Operações e Informações, integrada no Pelotão de Reconhecimento e Informação.
Daqui passei por Penafiel, Abril de 1968, onde tomei conhecimento que estava mobilizado. Poucos dias passados deram-nos ordem para apresentar em Lamego, nas Operações Especiais, a mim e a mais dois quadros, do Pel Rec.Info. que tinham estado comigo em Tavira. Igualmente foi o futuro alferes que viria a comandar o Pel. Rec. Info. Bart 2857.
Em Junho de 1968 terminado o curso fomos os 4 colocados no Porto no RI6, para dar aos recrutas a especialidade de Reconhecimento e Informação.
Fur. Milº Girão e Fur. Milº Pereira da Costa (Piche)
O tempo foi passando e continuávamos no Porto. Entretanto caíu da cadeira o doutor Salazar e os quartéis entraram de prevenção.

Chamados ao comandante perguntamos que tipo de armamento daríamos aos recrutas e sem ou com munições. Estes ficaram com Mausers, julgo descarregadas e todos os quadros do RI6 com armas pesadas.

O Batalhão já tinha ido para Viana do Castelo para o IPO. O embarque estava previsto para 10 de Novembro de 1968.
O tempo a aproximar-se e nós no Porto. Fomos ao comandante e lá nos deixou partirmos para Viana do Castelo. Aqui estivemos nem uma semana. No dia 9 de Novembro embarcamos para Lisboa de comboio. Esperava-nos o UIGE para dia 10 partirmos para a Guiné. Desembarcamos e ficamos em BRÁ. Uma bela noite entramos numa LDG e partimos para BAMBAMDINCA donde de imediato em coluna partimos para Piche. Fizemos a viajem directa.

Enquanto estive em Piche, fui integrado no Gabinete de Operações e Informações, chefiado por um capitão. Planeávamos as operações e do estudo das informações. Todas as semanas eram enviados plásticos com o desenho das Operações. Como a guerra piorava o gabinete foi completado por outro Capitão que só tratava das Informações e da reorganização dos aldeamentos, tanto de Piche como de outros destacamentos.
Fui várias vezes a Bissau `2.ª Repartição, sala onde estava a guerra toda com os mapas na parede. Uma das vezes fomos fazer queixa do 2.º Comandante, então o Comandante do Batalhão, que metia o bedelho e não percebendo nada de artilharia um dia planificou os alvos em cima das nossas tropas. Claro que tivemos que corrigir.

Estava proibido de sair do quartel nem me integrar em colunas porque tinham medo que fosse apanhado pelos turras e os segredos estavam na minha cabeça. Mas ainda saí a um destacamento verificar do andamento das obras e da Mesquita.
A partir daqui entramos no comentário que publiquei.
Um abraço e bom trabalho.
Sempre ao dispor para informações.
Pereira da Costa

Um abraço