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domingo, 1 de janeiro de 2017

P296 - MÁRIO MENDES (1943-1972) - O ÚLTIMO CMDT DO PAIGC A MORRER NO XIME - Jorge Araújo

Novo trabalho de Jorge Araújo, nosso camarada d'armas, continuação da investigação relacionado com guerra do outro lado (PAIGC) com data de 26 de Dezembro de 2016.


- A investigação que tenho vindo a efectuar aos arquivos de Amílcar Cabral, existentes na Casa Comum da Fundação Mário Soares, permitiu-me elaborar mais uma narrativa, esta relacionada com a História da nossa CART 3494, tendo por protagonista Mário Mendes (1943-1972), Cmdt do bigrupo do PAIGC que actuava no triângulo Xitole-Bambadinca-Xime.
E o episódio mais marcante da actividade operacional de Mário Mendes ficará ligado, para sempre, à emboscada que montou na Ponta Coli (Xime), naquele dia 22 de abril de 1972, sábado, e de que resultou a morte do camarada Manuel Bento (1950-1972), a única baixa em combate do seu contingente metropolitano.
A morte de Mário Mendes, em 25 de Maio de 1972, ficará igualmente na historiografia da guerra, como tendo sido o último Cmdt do PAIGC a tombar na zona da Ponta Varela (Xime), ocorrida quatro semanas após o episódio anterior.

Em função do exposto, a investigação deu-nos elementos que permitiram organizá-los numa perspectiva sociodemográfica, a possível, ajudando-nos a conhecer melhor quem esteve/a do outro lado do combate durante a nossa presença no Xime. 

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
MÁRIO MENDES (1943-1972)
- O ÚLTIMO CMDT DO PAIGC A MORRER NO XIME - 

1.   INTRODUÇÃO
Durante os últimos anos, particularmente nos momentos que antecedem os actos de passar a escrito as memórias historiográficas do CTIG (1972/74), surgem-nos no pensamento, ao vivo e a cores, algumas das principais imagens daquele palco onde a 22 de abril de 1972, sábado, iniciámos o «jogo da sobrevivência e da superação permanentes», com a sensação de ainda cheirar a pó e a terra vermelha.
Na guerra, a esse episódio chamam-lhe “baptismo de fogo”, e no nosso caso ele teve lugar na Ponta Coli [imagens abaixo], local escolhido superiormente para concentrar os efectivos das NT. Nesse dia a missão estava atribuída ao 4.º Gr Comb, constituído por 20 operacionais, 2 condutores e o guia/picador Malan Quité. Após a “conquista diária” desse espaço, cada grupo era dividido em dois subgrupos, um instalado de manhã e o outro de tarde, situação modelo que vinha já da “velhice”, cuja missão era garantir a segurança a pessoas e bens que circulavam na estrada Xime-Bambadinca.
Pelo histórico das Unidades de quadrícula que nos antecederam, e que estiveram aquarteladas no Xime em diferentes períodos, nomeadamente a CART 1746 (1968/69), CART 2520 (1969/70) e CART 2715 (1970/72), sempre considerámos que num futuro mais ou menos próximo teríamos de passar por essa primeira experiência… não estivéssemos nós num contexto de guerra.
E aconteceu mesmo, ainda não tínhamos concluído o terceiro mês.
Em relação a este episódio, a História do Batalhão 3873, a que pertencia a CART 3494, refere na sua p. 59: “em 220600ABR72 grupo IN emboscou a segurança da PTA COLI (01 GRCOMB da CART 3494). As NT e Artilharia do XIME pôs o IN em fuga. Sofremos 01 morto (Furriel), 07 feridos graves e 12 feridos ligeiros”.
Xime (Ponta Coli, maio de 1972) – local do combate com o bigrupo do PAIGC, comandado por Mário Mendes (1943-1972).

A linha vermelha, ligando o Xime (aquartelamento) e a Ponta Coli (local da segurança), na estrada Xime-Bambadinca, era o itinerário diário utilizado pelas NT.
Os desenvolvimentos dos combates travados pela CART 3494 [curiosamente pelo 4.º Gr Comb] e respectivos resultados, quer na primeira emboscada, a 22 de abril de 1972, quer na segunda, a 01 de dezembro do mesmo ano, podem ser consultados nas narrativas: P148, P152, P191 e P234.
No presente texto, o que nos propomos abordar emerge desse contexto a partir de uma interrogação que há muito formulámos [e certamente o mesmo aconteceu com muitos de ex-combatentes, em relação a experiências semelhantes], e que só agora encontrámos a competente resposta, ainda que parcelar.
E a questão era esta: em cada uma das emboscadas supra [e em todas as outras milhares que aconteceram em diferentes locais do CTIG ao longo dos treze anos do conflito], existia uma nuvem entre quem era atacado e quem atacava, ou seja, estávamos perante uma situação desigual, o que se entende/compreende, pois estas eram as regras do “jogo”, a camuflagem e a surpresa e a consequente aniquilação do opositor no menor espaço de tempo.
Não se sabia quem e quantos estavam do outro lado; os seus rostos, as suas alturas, as suas vestimentas, os seus equipamentos/armamentos, os seus nomes, as suas idades, as suas origens, em suma, nada se sabia no início de cada acção, e só com o desenrolar desta, eventualmente, poderíamos ter alguma resposta a esta curiosidade.
Partindo dessa premissa, seguimos em frente com mais uma investigação tendo por fonte privilegiada a Casa Comum – Fundação Mário Soares, a quem agradecemos.
Ainda que a informação recolhida seja reduzida, considerámo-la suficiente para produzir algum conhecimento que, como é hábito, decidimos partilhá-la(o) convosco.
E a pergunta de partida era: «quem foi Mário Mendes, Cmdt do bigrupo do PAIGC que nos emboscou a 22 de abril de 1972, na Ponta Coli?», da qual resultou a única baixa em combate da CART 3494 durante os cerca de vinte e oito meses da comissão ultramarina, para além de mais dezassete feridos, entre graves e menos graves, em que apenas cinco elementos saíram ilesos, um dos quais fomos nós. Estes são os números fidedignos que tive a oportunidade de os escrutinar naquela ocasião.
2.   MÁRIO MENDES – CMDT DO BIGRUPO EM ACÇÃO NO XIME
Soube que Mário Mendes era Cmdt de bigrupo do PAIGC e que actuava no então Sector 2, da Frente Xitole-Bafatá, em particular no triângulo Xitole-Bambadinca-Xime.
A acção mais antiga que se conhece foi comunicada a Amílcar Cabral (1924-1973) pelo Cmdt da Frente Leste, Mamadu Indjai, a 29 de abril de 1969, referindo a esse propósito o seguinte [de acordo com a nota manuscrita apresentada abaixo]:
Comando Sul
MSG – No dia 20/4/69 os combatentes do Partido realizaram na estrada Bambadinca/Xime [Ponta Coli] onde os inimigos sofreram muitas baixas humanas de feridos e mortos. Por nosso lado não houve nada mal. Foi dirigido por Mário Mendes e Sampui Na Sa – Sector dois – Mamadu Indjai – 29/4/69.
Citação:
(1969), "Mensagem - Comando Sul", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40645 (2016-12-8)
No entanto, a História do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) refere que esta emboscada aconteceu em 18[4]0700 [P15154], não indicando quais as consequências da mesma.
Soube, também, que Mário Mendes nasceu em 1943, na Vila de Bissorã, na Região do Oio. Era casado. Em 1962 aderiu ao PAIGC, com 18/19 anos [desconhece-se o mês de nascimento], a exemplo do Arafam Mané [1945-2004] [P16823-LG], desde quando deu início à sua actividade na guerrilha. Era Cmdt de bigrupo, pelo menos desde 1966, ano em que foram elaboradas pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra as listas [mapas] das FARP referentes à constituição dos bigrupos existentes em cada Frente, conforme demonstra o exemplo que segue, onde consta o nome de Mário Mendes e de mais trinta e sete elementos.
Citação:
(1966), "FARP - Frente Xitole-Bafatá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40466 (2016-12-8)
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07068.099.051
Título: FARP - Frente Xitole-Bafatá
Assunto: Listas das FARP emitidas pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra do PAIGC – Frente de Xitole-Bafatá.
Data: c. 1966
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Militar
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Documentos
A partir dos dados contidos nessa lista [mapa], que consideramos como os casos da investigação ou a “amostra de conveniência”, procura-se compreender melhor quem estava do outro lado do combate, particularmente na primeira emboscada na Ponta Coli [Xime], a 22 de abril de 1972, dando indicadores de tendência para outros casos e outras épocas. Com este propósito, procedemos à organização de alguns desses dados referentes a cada um dos sujeitos constituintes do “bigrupo de Mário Mendes”, sobre os quais pretendemos retirar conclusões.
Para o efeito, esses dados foram agrupados quantitativamente e apresentados em quadros estatísticos de frequências (caracterização da amostra por idade: a de nascimento e a de adesão ao Partido) e de quadros de variáveis categóricas em relação aos restantes elementos (ano de adesão ao PAIGC e idade e anos de experiência cumulativas ao longo do conflito).
Quadro 1 – distribuição de frequências em relação ao ano de nascimento dos elementos do bigrupo de Mário Mendes (n-38)
Da análise ao quadro 1, verifica-se que o ano de nascimento com maior percentagem (maioria relativa) é 1945 (21.1%) com 8 casos (moda), seguido de 1947 (15.8%), com 6 casos, e 1942 e 1943 (13.2%), em terceiro, com 5 casos cada.
Quando analisado por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-16) estão entre os nascidos em 1943 e 1945 (42.2%) (grupo central), enquanto entre 1937 e 1942 e entre 1946 e 1950, os valores são iguais (n-11 = 28.9%).
Quadro 2 – distribuição de frequências em relação à idade de adesão ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Mário Mendes (n-38)
Da análise ao quadro 2, verifica-se que existem três idades com maior percentagem de adesão ao Partido, respectivamente 18, 20 e 21 anos, com 7 casos cada (18.4%), seguida dos 16 anos, com 4 casos (10.6%). As restantes idades não têm significado estatístico.
Quando analisada a adesão ao Partido por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-16) estão entre as idades de 18 e 20 anos (42.2%), seguido pelo grupo de idade superior, entre 21 e 26 anos, com 12 casos (31.5%), e o grupo de menor idade, entre 13 e 17 anos, com 10 casos (26.3%).
Analisada a adesão ao Partido entre os 18 e 21 anos, idades semelhantes ao período normativo da incorporação militar na legislação portuguesa, à época, os valores apontam para uma maioria absoluta com 23 casos (60.5%), seguida por 10 casos nas idades inferiores (26.3%) e, somente, cinco casos nas idades superiores (13.2%).
Quadro 3 – distribuição de frequências em relação ao ano de adesão ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Mário Mendes (n-38)
Da análise ao quadro 3, verifica-se que o ano onde se registou maior adesão ao PAIGC, com maioria absoluta, foi 1963, com 21 casos (55.3%), seguido de 1962, com 10 casos (um dos quais Mário Mendes) (26.3%). Os anos de 1964 e 1965 registaram 7 casos cada (7.9%).
Quando analisada a partir da soma dos dois primeiros anos (1962 + 1963), anos de preparação e início do conflito, a percentagem sobe para 81.6% (n-31).
Quadro 4 – distribuição de frequências em relação à idade verificada ao longo do conflito, contados após a adesão individual ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Mário Mendes (n-38)

Da análise ao quadro 4, e partindo da hipótese meramente académica de que o bigrupo se tinha mantido constante ao longo do conflito, pelo menos até 22 de abril de 1972, data da emboscada sofrida pela CART 3494 (algo que não se pode garantir ou confirmar), Mário Mendes teria, então, vinte e nove anos [sombreado castanho]. Os restantes elementos teriam a idade referida na linha [sombreado verde] do ano de 1972.
Quadro 5 – distribuição de frequências em relação ao número de anos de experiência na guerrilha ao longo do conflito, contados após a adesão ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Mário Mendes (n-38)
Da análise ao quadro 5, e partindo da hipótese meramente académica apresentada no quadro anterior, Mário Mendes teria, então, dez anos de experiência na guerrilha [sombreado castanho], bem como de outros nove combatentes. Os restantes elementos teriam os anos de experiência referidos na linha [sombreado verde] do ano de 1972.
3.   MÁRIO MENDES – 25 de maio de 1972, o dia da sua morte
Quatro semanas depois de ter organizado e comandado a emboscada à CART 3494 [4º Gr Comb] na Ponta Coli, viria a morrer na acção «GASPAR 5», realizada no dia 25 de maio de 1972, 5.ª feira, por seis Gr Comb [três da CART 3494 e três da CCAÇ 12].
Recupero o que escrevi no P191, por nela ter participado.
O “encontro” com Mário Mendes aconteceu na Ponta Varela [Xime – mapa acima], tendo-lhe sido capturada a sua Kalashnicov, bem como três carregadores da mesma e documentos que davam conta do calendário das “acções” a desenvolver naquela zona pelo seu bigrupo.
Depois de alguns elementos (5/6) do seu grupo terem sido detectados pelas NT na referida acção, e que não se sabia, naturalmente, de quem se tratava, um daqueles elementos [Mário Mendes] liderou uma estratégia de fuga que não lhe foi, desta vez, favorável, por via de lhe(s) ter sido movida perseguição, obrigando-nos a serpentear várias vezes os mesmos trilhos, entre itinerários de vegetação e clareiras.
Por isso, estou crente que Mário Mendes, a partir do momento em que ficou sem rumo certo e sem portas de saída, movimentando-se em várias direcções, sem sucesso, tomou consciência de que aquele dia seria o último da sua vida. E foi … por intervenção de elementos da CCAÇ 12.
4.   – CONCLUSÕES
Chegado a este ponto, e partindo da análise aos resultados apurados e apresentados nos quadros acima, é possível concluir que durante o combate travado entre os elementos do bigrupo de Mário Mendes e do 4.º Gr Comb da CART 3494, na Ponta Coli, existiram diferenças significativas nas seguintes três variáveis.
1.    – Idade: [bigrupo – 27.9] ≠ [4.º Gr Comb – 21.6]
2.    – Quantidade de elementos: [bigrupo – ⅔ ] ≠ [4.º Gr Comb – ⅓]
3.    – Anos de experiência no conflito: [bigrupo – 8.9] ≠ [4.º Gr Comb – 0.25].
Porque se sabia pouco sobre o Cmdt Mário Mendes, e dos elementos que liderava, este é o meu pequeno contributo para o seu aprofundamento.
O que se pode dizer mais…?
Deixo este estudo à vossa consideração.

Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade e um óptimo 2017.
Jorge Araújo.
26DEC2016.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

P295 — O XXXII ENCONTRO CONVÍVIO DA CART 3494 IRÁ REALIZAR-SE NO DIA 11 DE JUNHO DE 2017 EM TONDELA

Nelson Cardoso

Carlos Teixeira

BOAS FESTAS

FELIZ NATAL





-Efeméride-

- Passaram 45 anos (22DEC1971/22DEC2016), que embarcamos em Lisboa no N/M "NIASSA" com destino à Guiné. Foi para alguns a última viagem...
Bissau, 29DEC1971 - Chegada a Bissau do N/M "NIASSA" com o contingente do BART 3873 [CCS, CART 3492, CART 3493, CART 3494] e CART 3521 (Independente), dias depois de terem passado o 1º Natal, fora do contexto familiar, algures no Oceano Atlântico. Foto; de António de Sá Fernandes, ex. Alf. Milº da CART 3521 e Pel. Caç Nat. 52 [P10864-LG] com a devida vénia.


"Melhor do que todos os presentes por baixo da árvore de natal é a presença de uma família feliz."
Foto do Juvenal Amado ex. 1º cabo Cond. Auto, CCS/BCAÇ3872 Galomaro. - Fim de comissão; 
Embarque em L.D.G. no Xime para Bissau, também pode servir para nós quando em FEV/MAR74, iniciámos aqui no Xime o regresso á Metrópole. Foi tudo ao monte e fé em Deus. Vai fazer precisamente 43 anos em 2017! Parece que foi ontem!... Mais um motivo para recordarmos no próximo encontro. 

1. Como vem sendo hábito de há muitos anos a esta parte a comissão promotora do XXXII encontro/convívio, neste caso, Nelson Cardoso e Carlos Teixeira, enviaram um postal de Festas Natalícias (imagens abaixo) a todos os camaradas com endereços actualizados que é do nosso conhecimento. 
Porém, sabemos que ainda há camaradas que nunca soubemos do seu paradeiro, uns mudaram de residência e não disseram nada, outros, porque vida tem sido madrasta, para não falar daqueles que deixaram a vida terrena, uns por motivos de saúde, outros por outras causas. Temos conhecimento que já nos deixaram 23 combatentes/veteranos, mas se calhar serão mais!... não sabemos. (Consulta lista no blogue).

2. Estamos a passos largos do términos da nossa vida, assim sendo, cada vez mais, faz sentido participarmos nestes eventos, não podemos deixar morrer uma amizade que se construiu ao longo de 27 meses de muitos sacrifícios e também algumas alegrias, obviamente, naquela terra quente e húmida com o chão de cor avermelhado, que é a "nossa" Guiné.

SdC

 [A melhor parte da vida de uma pessoa está nas suas amizades.]
Abraham Lincoln





3. — Já temos data marcada, tomem nota na vossa agenda;

— DIA 11 DE JUNHO DE 2017 NA "QUINTA DO BARREIRO"  
Quinta do Barreiro, Couto de Cima 3510-602 | Viseu | Portugal40° 40' 18.661"N  |  8° 0' 19.156"W
SITUADA ENTRE VISEU E TONDELA.— PODEMOS DESDE JÁ ADIANTAR QUE A CONCENTRAÇÃO SERÁ JUNTO DO MONUMENTO AOS COMBATENTES DA GUERRA DO ULTRAMAR, EM TONDELA.Contactos:Nelson Cardoso; 966 454 853Carlos Teixeira; 963 671 226E-mail; sousadecastro@gmail.comSdCVd. Poste: https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2016/12/guine-6374-p16877-o-nosso-querido-mes.html

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

P294 - BOAS FESTAS! AO COLECTIVO DA COMPANHIA DE ARTILHARIA 3494 - BOM NATAL E UM ANO DE 2017 COM MUITA SAÚDE - (Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494 (Xime-Mansambo, 1972/1974)

- Mensagem com data de 19 de Dezembro de 2016 de Jorge Araújo da CART 3494.

BOAS FESTAS
AO COLECTIVO DA COMPANHIA DE ARTILHARIA 3494

- BOM NATAL E UM ANO DE 2017 COM MUITA SAÚDE -

1 – INTRODUÇÃO
- Uma viagem; duas efemérides
Camaradas; estamos numa quadra em que a grande maioria do colectivo da CART 3494 comemora duas efemérides. A primeira relacionada com o início da sua experiência africana. A segunda com a consoada de 1971 a ter lugar num contexto atípico, no Alto Mar, rodeado de água por todos os lados - o nosso Oceano Atlântico.
Esses dois episódios ocorreram faz quarenta e cinco anos [inacreditável!] quando cerca de um milhar de jovens milicianos se encontraram em Lisboa, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, para darem início a uma viagem muito especial nas suas vidas, após se constituírem em contingente militar para cumprirem a sua missão ultramarina no CTIGuiné [Comando Territorial Independente da Guiné]. Esse contingente era o do Batalhão de Artilharia 3873, mobilizado pelo Regimento de Artilharia Pesada [RAP 2], organizado e preparado nas instalações do Quartel da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, e constituído pelas CART’s: 3492, 3493 e 3494, e ainda pela CART 3521 [Independente].
Foto de: Alf. Milº Sá Fernandes CART3521 - Chegada a Bissau
Estávamos, então, a 22 de Dezembro de 1971, uma 4.ª feira, e no Cais da Rocha, num ambiente carregado de emoção e na presença de uma moldura humana de familiares e amigos acenando com lenços brancos, que serviam também para secar as suas lágrimas, a tripulação do N/M NIASSA aguardava que todos os actos de embarque ficassem concluídos para que o Navio pudesse zarpar até ao Cais do Pidjiguiti, em Bissau. Esta viagem era só de ida, pois o regresso não tinha data marcada, era uma incógnita, e a acontecer só lá para o ano de 1974
Para comemorar estas duas efemérides, tomei e iniciativa de vos enviar o meu cartão [desejo] de BOAS FESTAS, recorrendo a imagens da nossa presença no Xime [Ponta Coli] e no Destacamento da Ponte do Rio Udunduma. 

Na oportunidade, aproveito também para enviar a todos os leitores assíduos deste blogue uma MENSAGEM DE BOAS FESTAS.

Sousa de Castro
Ao camarada Sousa de Castro [o nosso Editor permanente], vai também uma palavra de gratidão pelo seu empenho em trazer-nos informados, ordenando as diferentes memórias que lhe chegam.
QUE TENHAM UM BOM NATAL
E UM ANO DE 2017 COM MUITA SAÚDE E SEM STRESS

Com um forte abraço de amizade,
Jorge Araújo.
19DEC2016.

Nota do editor:
Completam-se 45 anos no dia 22 de Dezembro que o BART 3873, composto pelas companhias CCS, CART 3492, CART 3493 e CART 3494 e também a CART 3521, esta Independente, embarcaram por via marítima com destino à Guiné para cumprir a missão ao serviço do Estado Português.
Relembro que a concentração dos mobilizados começou a 15NOV1971 e terminou a 27 do mesmo mês. 
A) Despedida
(...) - A cerimónia de despedida constou de Missa celebrada pelo Capelão da Unidade, no Mosteiro da Serra do Pilar; alocução de um Oficial superior, representante do Exmo. Governador da Região Militar do Porto ao que se seguiu desfile das tropas em parada e almoço de confraternização na Messe de Oficiais do RAP. 2. (Regimento de Artilharia Pesada nº. 2) Vila Nova de Gaia.
B) Vila Nova de Gaia - Lisboa
(...) - O Batalhão de Artilharia 3873 deslocou-se a 22 de Dezembro, por caminho de ferro, de Vila Nova de Gaia para Lisboa (Stª Polónia).
Daqui, por viaturas militares transportaram-no para o cais de Alcântara, onde por volta do meio-dia, a bordo do N/M «NIASSA» largou rumo à GUINÉ.
- (Excerto da HISTÓRIA DA UNIDADE, BART 3873)
SdC

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

P293 - Perdemos 16 camaradas e 1 companheiro cubano [Pedro Casimiro], tendo mais 12 camaradas sido feridos. Um desastre devido a erro imperdoável (PAIGC)

MSG de Jorge Araújo com data de 07DEC2016
- Conforme prometido, segue a segunda parte da investigação realizada a propósito do memorando elaborado por Amílcar Cabral, em janeiro de 1969, dando conta do que considera de “más notícias” para si e para o PAIGC.
Esta narrativa circunscreve apenas o primeiro de dois pontos (ou de duas más notícias), na medida em que o segundo foi já abordado anteriormente, este referente à dupla deserção do David Alves, fugido de Dacar no final de 1968.
Com um forte abraço de amizade. 
Jorge Araújo.

DEC’2016.


GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL NO INÍCIO DE 1969
- O CASO DAS BAIXAS DO PAIGC NO ATAQUE A GANTURÉ -
1.   INTRODUÇÃO
Quando em narrativa anterior [P288], a propósito do terceiro fragmento da entrevista ao médico-cirurgião Virgílio Camacho Duverger (1934-2003), fiz referência às notas manuscritas por Amílcar Cabral (1924-1973) classificadas por si de «más notícias», e comunicadas, como conteúdo para reflexão, a todos os dirigentes do PAIGC durante o mês de Janeiro de 1969, prometi voltar a elas, em novo enquadramento historiográfico, pois havia excluído o seu primeiro ponto por não ter, então, qualquer pertinência temática.
Relembro que nesse memorando, escrito pelo punho do secretário-geral, estavam em destaque duas “más notícias”; a primeira relacionada com o número de baixas contabilizadas pelos seus guerrilheiros no ataque a Ganturé, em 6 de janeiro de 1969, a segunda lamentando a inacreditável fuga do Daniel Alves, desertor do exército português, ocorrida em Dacar em finais de 1968 [o ponto abordado anteriormente].
2.   AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL NO INÍCIO DE 1969
Em conformidade com a questão de partida, resgato agora a primeira “má notícia”, transcrevendo na íntegra a primeira página desse memorando.
“Depois de sair daí [passagem de ano de 1968], tive más notícias que são as seguintes:
No ataque do dia 6 [de janeiro de 1969] contra Ganturé [CART 2410], o qual corria muito bem, porque os camaradas atingiram o paiol [?], houve erro da nossa parte face aos aviões que intervieram. Tendo repelido a 1.ª vaga de aviões, os camaradas não se retiraram nem tomaram medidas de segurança, pelo que, duas horas depois, nova vaga de aviões os atacou quando estavam concentrados elementos de artilharia e de antiaérea. Perdemos 16 camaradas e 1 companheiro cubano [Pedro Casimiro], tendo mais 12 camaradas sido feridos. Um desastre devido a erro imperdoável, mas é guerra.
Estive na fronteira [Sul] com os camaradas, o moral não está mau e há que continuar a luta, tanto mais que o inimigo está mal. Mas há necessidade urgente de canhoneiros e morteiristas além de gente para AA [artilharia antiaérea]. Por isso tenho de vos pedir para mandarem urgente 9 dos canhoneiros formados na URSS e incluídos no Corpo de Artilharia. Devem também fazer vir urgente 6 dos morteiristas que eu disse para irem esperar em Madina [do Boé], porque não estavam incluídos no Corpo de Artilharia”
Citação:
(s.d.), Sem título, CasaComum.org, Disponível http:
http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34366 (2016-12-03), (com a devida vénia).
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07197.166.017
Assunto: Perda de 16 combatentes do PAIGC e 1 cubano (Pedro Casimiro) na resposta aérea ao ataque desencadeado pela artilharia do PAIGC a Ganturé. Instruções para o destacamento de canhoneiros e morteiristas, entre outros.
Remetente: Amílcar Cabral
Destinatário: [Responsáveis do PAIGC]
Data: s.d.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Manuscritos de Amílcar Cabral.
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Correspondência.
No centro das “más notícias” para o PAIGC, que Amílcar Cabral diz ter recebido, pois não presenciou nenhuma das duas ocorrências, emerge a pergunta sobre o modo como e quando delas teve conhecimento, uma vez que omite a respectiva fonte? Por outro lado, como funcionavam as comunicações em contexto de ataques, pois não tenho memória de alguma vez se ter referido a captura desse equipamento específico?
Admitindo a probabilidade de terem-se verificado alguns ruídos semânticos, entre o emissor e o receptor, na comunicação dos factos significantes relacionados com a primeira notícia [ataque a Ganturé], procedemos à triangulação de outros elementos obtidos em informantes privilegiados, nomeadamente nos arquivos da Fundação Mário Soares, nos depoimentos de alguns dos actores das NT envolvidos naquela missão [Força Aérea e Exército] publicados em blogues e na literatura consultada, tendentes a encontrar pontos convergentes vs divergentes relacionados com este caso.
2.1       O que diz a literatura [La Historia Cubana en África]
“No primeiro dia de janeiro de 1969 haviam começado as acções na Frente Sul contra o quartel de Tite. No dia 6 foi atacado por forças de infantaria e artilharia do PAIGC o quartel de Ganturé. Nesta acção participaram três cubanos. Nesse dia a aviação portuguesa entrou em combate e surpreendeu os guerrilheiros, destruindo-lhes vários equipamentos de artilharia e causando-lhes elevadas baixas: dezasseis guerrilheiros mortos e vários feridos.
Nessas baixas estavam os três cubanos que haviam participado na acção. O primeiro-tenente Pedro Casimiro Llopis, de 29 anos (1940-1969), morreu ao ser atingido pelo fogo da aviação, enquanto o primeiro-tenente Marcelino Araújo Pina e o soldado Plácido Veja Ramirez ficaram feridos durante o bombardeamento”. [In: Ramón Pérez Cabrera, en “La historia cubana en África: 1963-1991: pilares del socialismo en Cuba” (edição de 2005), pp. 154/155, tradução do castelhano].
2.2       Relato dos acontecimentos - Depoimentos da Força Aérea
A poucos dias de completar quarenta e oito anos, eis uma síntese [análise de conteúdo] sobre o ataque a Ganturé, elaborada a partir da narrativa intitulada «Um ataque com “olhos azuis”», da autoria do Tenente-General PilAv José Francisco Fernando Nico [José Nico], hoje na situação de reforma, publicada no blogue da “Tabanca Grande” [P15035-I Parte + P15038-II Parte] e no blogue “Operacional”, em www.operacional.pt.

Guiné - Imagem inserida no texto referente a um Fiat G-91 descolando de Bissalanca nos finais dos anos 60. “Em breve estará sobre o inimigo. «… O carrocel de ataque estava em marcha e com reacção ou sem reacção antiaérea tinha era que acertar com as bombas no alvo, o maior de todos os alvos que atacou durante toda a comissão. Não falhou como não falharam os outros…»”.
De referir que o Tenente-General José Nico foi piloto de aviões de caça, e entre 1967 e 1970 cumpriu uma comissão de serviço na Guiné. Neste âmbito, afirma que das muitas missões que desempenhou na Força Aérea Portuguesa, “a comissão na Guiné, porém, sobrepôs-se a todas as outras e marcou-me indelevelmente para o resto da vida”.Como introdução recorda que, mesmo não tendo tomado parte directa na acção de apoio às NT, por estar envolvido noutras missões, aquele dia 6 de janeiro de 1969 nunca o esqueceu, pelo muito que se comentou na Base [BA12] e pelos resultados obtidos, acabando por dar lugar à elaboração desta sua narrativa historiográfica.
Naquele dia 6 de janeiro de 1969, por volta das oito horas da manhã, a guerra no CTIG continuava bem viva com o PAIGC a ter a iniciativa de atacar, uma vez mais com os seus canhões Zis-2 AC 57 mm, o Aquartelamento de Gadamael Porto, sede da Companhiade Artilharia 2410 [CART 2410].
Da sede da Unidade é solicitado apoio aéreo a Bissau, com o comando-chefe a encaminhá-lo para a Base Aérea n.º 12 [Bissalanca] a fim de procederem em conformidade. Os dois pilotos da parelha de alerta [Fiat G-91], que naquele momento estavam a tomar o pequeno-almoço, logo apanharam o equipamento e meteram-se no jeep de apoio em direcção da linha da frente.
Os dois Fiat’s estavam prontos e configurados com tanques de combustível externo, 8 foguetes 2,75” e 4 metralhadoras 12,7 mm, sendo o ex-tenente Balacó Moreira um dos pilotos, o qual está na base de muita da informação obtida nesta missão. Esta teve início por volta das nove horas, uma hora após o início da flagelação, tendo constatado, depois, que o ataque visava objectivamente Ganturé, situado a curta distância de Gadamael Porto, onde se encontrava destacado o 4.º Gr Comb da CART 2410, para além de um pequeno núcleo populacional.
Numa primeira fase os rebentamentos estavam a ser espaçados e compridos, com as NT a responderem com morteiro 81 mm, operado pelo ex-furriel Luís Guerreiro [imagem ao lado]. A frequência/intensidade dos disparos do PAIGC ia aumentando com o correr do tempo mas sem consequências, pois as granadas passavam sobre Ganturé explodindo no contacto com o arvoredo existente muto para além da área do quartel.
Entretanto, a parelha de alerta que se encontrava em rota solicita mais informações do solo tentando sinalizar o local. Ao seguirem em direcção a Bricama, a cerca de dois km a SW de Gadamael Porto, qual não foi o espanto dos pilotos quando avistaram, no perímetro do antigo aquartelamento de Sangonhá, abandonado pelas NT em 29 de julho de 1968, num espaço completamente aberto e sem qualquer espécie de camuflagem, um numeroso grupo de indivíduos, que só poderiam ser os guerrilheiros responsáveis pelo ataque que se estava a verificar contra Ganturé.
Lá do alto era possível identificar a presença de três armas com rodado, sendo uma delas, colocada entre o perímetro do aquartelamento e a antiga pista, uma antiaérea ZPU-4 [tubos com quatro bocas] que, de imediato, abriu fogo contra os aviões [G-91] obrigando os pilotos a entrarem num circuito alargado para manter uma distância de segurança. No interior do perímetro do aquartelamento, no meio dos destroços das antigas instalações, estavam duas peças de artilharia com um cano relativamente comprido e na picada que saindo de Sangonhá se dirigia à Guiné-Conacri [talvez na direcção da base de Sansalé], viam-se algumas viaturas incluindo uma ambulância.
Esta situação levou o ex-tenente Balacó Moreira a confessar que da sua experiência em operações quase diárias no teatro de operações da Guiné nunca tinha dado de caras com o inimigo numa situação tão vulnerável. Porque os aviões da parelha de alerta não estavam equipados para intervir naquele cenário atípico, cujo sucesso impunha disparos a uma distância mais curta do alvo, o Cmdt da parelha decidiu abandonar a área e regressar de imediato à BA12 para que a situação fosse ponderada e tomada uma decisão adequada às circunstâncias. Tinham decorrido trinta minutos.
Citação:
(1963-1973), "Combatentes do PAIGC deslocando uma peça de artilharia anticarro", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43454 (2016-12-3) (com a devida vénia). (será que está relacionado com este ataque?).
Ao decidir regressar à BA12, o Cmdt da parelha [capitão Amílcar Barbosa?] entrou em contacto com o CCOA [Centro Conjunto de Operações Aéreas] dando conta do que vira e que o ataque continuava a partir da pista de Sangonhá. Era necessário decidir o que fazer no menor espaço de tempo, uma vez que ao serem detectados, a guerrilha poderia desmobilizar e desaparecer rapidamente. […]
Da reunião entre o tenente-coronel Costa Gomes, Cmdt do Grupo, e o Cmdt da Zona Aérea, coronel PilAv Diogo Neto, visando encontrar a melhor solução para o problema que tinham em mãos, as hipóteses encontradas de modo a dar sequência à missão ficaram reduzidas aos G-91 e a quatro pilotos: os dois da parelha de alerta e os dois comandantes, o do Grupo Operacional e o da Zona Aérea, respectivamente tenente-coronel Costa Gomes e o coronel Diogo Neto.
Entretanto, o comandante-chefe do CTIG já tinha sido informado do que se estava a passar e quis falar com o coronel Diogo Neto. Este de imediato deslocou-se ao Forte da Amura onde explicou ao brigadeiro Spínola o que lhe parecia ser o mais razoável e eficaz. Este tinha preferência para o emprego dos “páras”, mas depois de ouvir as explicações da Força Aérea deu o seu aval ao “plano de acção” apresentado. […]
Depois dos mecânicos e do pessoal de armamento se terem esforçado para aprontarem os quatro aviões o mais rápido possível, eis que estes descolam por volta das onze horas, ou seja, duas horas após a primeira missão ou três horas em relação ao início do ataque a Ganturé.
Cumpridas as instruções técnicas dos ataques aéreos, escolhida a rota mais aconselhada no caso em presença e após passarem sobre o rio junto à povoação de Cacine, é que foi possível perceber alguma coisa do que se passava no solo. O tenente Balacó Moreira recorda-se que a quantidade de pessoas que avistou na zona do antigo aquartelamento de Sangonhá era muito menor do que da primeira vez (duas horas antes) e que havia viaturas em movimento. Contudo, “era impossível falhar um alvo daquele tamanho”.
Na sequência do carrocel de ataque e dos bombardeamentos efectuados por cada um dos pilotos, os quatro aviões reencontram-se à vertical do objectivo, circulando à altitude de ataque. Em baixo, Sangonhá ficara obscurecida pelo fumo e pelos detritos projectados pelas explosões dando a impressão, lá do alto, que tudo tinha sido arrasado, pois nada parecia mexer.
Porque nenhum dos aviões tinha sobreposto o tiro ao dos outros e as dezasseis bombas tinham produzido uma cobertura relativamente densa, não era possível determinar se o ataque tinha sido eficaz em termos de baixas ao inimigo. Depois de ficarem sem armamento nada mais havia a fazer e o Cmdt da formação deu ordem para abandonar a área e regressar à BA12.
2.3       O reconhecimento a Sangonhá – CART 2410
A 9 de janeiro de 1969, três dias após o ataque a Ganturé, um efectivo da CART 2410 constituída por cerca de cem elementos, entre militares, milícias e caçadores nativos, executou um reconhecimento a Sangonhá, comandado pelo ex-Alf. Mil. Albino Rodrigues, Cmdt do 1.º Gr. Comb., o qual contou com apoio aéreo em determinados momentos da sua marcha apeada.
Ao longo do percurso até Sangonhá não foram detectados trilhos novos, nem foram encontrados os habituais invólucros de granadas de morteiro ou de canhão s/r que os guerrilheiros deixavam espalhados no terreno após as flagelações. Após terem passado o vau do rio Queruane/Axe, a uns duzentos/trezentos metros à frente, numa pequena elevação do terreno, foram encontrados os restos de uma fogueira, feita durante a noite, junto a uma árvore alta com vestígios de ter sido utilizada como posto de observação.
Três ou quatro metros depois encontraram fio telefónico que foi seguido até ao respectivo carretel vazio. Por isso se concluiu que naquela árvore teria estado um observador avançado munido de linha telefónica para orientar o tiro dos canhões AC estacionados em Sangonhá.
Em determinado momento da sua progressão, que consideraram como um sinal de estarem próximos do objectivo foi dado pela grande quantidade de abutres, uns pousados nas árvores, outros voando em círculos. A este sinal, um outro se adicionou transmitido pelo cheiro nauseabundo de corpos em decomposição. A partir daquele momento o avanço foi feito com muitas cautelas até que descobriram algo que nunca pensaram encontrar.
Sobre esse macabro achado, o ex-Alf. Mil. José Barros Rocha, Cmdt do 2.º Gr Comb., refere o que viu e sentiu da seguinte forma: “na antiga pista de Sangonhá, armas destruídas e pedaços de corpos de negros e brancos e treze sepulturas. Uns dias depois tivemos a informação de trinta e seis mortos confirmados e muitos feridos. (…) O aspecto do local era medonho! A terra, cuja cor natural é avermelhada, tinha a cor cinza! O intenso cheiro a putrefação! (…) Recolhemos três carretéis carregados de fio telefónico e um vazio, uma mina A/P, uma ferramenta de aperto de rodas, invólucros de granada de canhão AC 57 mm, meia pistola, munições intactas da AA de calibre 14,5 mm, bonés, chapéus tipo colonial, uma bandeira, uma caixa de ferramenta, e algumas bugigangas…”.
Depois de ter permanecido em Sangonhá cerca de duas horas, a força chegou a Gadamael por volta das três horas da tarde, sem mais ocorrências.
3.   CONCLUSÕES
Em primeiro lugar, aproveito para vos confidenciar de que desconhecia, em absoluto, esta história (como desconheço, seguramente, outras que ocorreram antes, durante e depois da minha presença no CTIG). Não podemos ter a pretensão de, alguma vez, ficarmos ao corrente de tudo o que aconteceu naquele território durante os treze anos do conflito. Daí a partilha de memórias que se dão a conhecer neste espaço plural.
Quanto ao que nos propusemos analisar, são convergentes os relatos das NT e o escrito por Amílcar Cabral, com relevância para a referência às duas missões efectuadas pela Força Aérea [G-91] e os intervalos entre cada uma delas [duas horas].
Sobre o número de baixas, um assunto sempre difícil de abordar ou quantificar, constata-se uma dupla situação. Os referidos por Amílcar Cabral são convergentes com os publicados no livro de Ramón Cabrera. Estes, quando comparados com o depoimento resultante do reconhecimento a Sangonhá [CART 2410], existem diferenças, uma vez que foi referida a existência de treze sepulturas [recentes ou antigas?] e ainda pedaços de corpos de negros e brancos espalhados no solo. Mais tarde, por informação exterior, foram confirmadas trinta e cinco mortes.
No que concerne a baixas entre o contingente cubano, são referidas três, a totalidade dos elementos envolvidos no ataque, ainda que no texto se indique, também, tratar-se de um morto e dois feridos [mas que seriam muito graves, vindo a falecer].
Neste sentido, e por curiosidade, apresentamos um quadro das baixas contabilizadas no contingente cubano, entre 3 de junho de 1967 e 6 de janeiro de 1969 [18 meses]. Estes números foram escrutinados a partir do livro acima citado.
Quadro estatístico do autor – Fonte: Ramón Pérez Cabrera, op.cit.
Por último, resta-me levantar a seguinte hipótese:
Será que o pedido de nove canhoneiros e seis morteiristas “requisitados” no memorando, num total de quinze elementos, destinavam-se a substituir aqueles que tombaram neste ataque a Ganturé?
Talvez ...

Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
07DEC2016.