Desde Maio 2010

Terça-feira, 13 de Março de 2012

P 146 UM DIA MAIS PERTO!... NA REGIÃO DE FARIM (Victor Junqueira, CCAÇ 2735, OS BARÕES)

Um dia mais perto... 
 Vítor Junqueira
(ex. Alf. Mil. Inf. da CCAÇ 2753 - "Os Barões" Guiné - Bironque, Saliquinhedim/K3 e Mansabá) 
Actualmente é Médico

Nota: Texto enviado por e-mail, pelo Dr. Victor Junqueira em 2006/07
SC
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
O normal dia de trabalho começa bem cedo para o pessoal engajado nas operações de segurança próxima, e não só! Hoje, dia 2 de Fevereiro de 1971, ainda não eram quatro da matina e já uma das sentinelas tinha obrigado o “russo” (cozinheiro) e o “básico” seu ajudante, a porem-se de pé a fim de preparar o pequeno-almoço e a merenda para o 3º GC que por imperativo de escala, vão emboscar em Farim 2 C6 97. Os restantes, guarnição e pessoal da segurança imediata comem mais tarde, por volta das seis e meia ou sete horas. Junto à banca que serve de refeitório, “a parelha dos tachos” aguarda impaciente. Querem voltar para o choco! Os homens vão assomando em pequenos grupos para o dejejum. 

Apresentam-se praticamente em estado de prontidão isto é, devidamente equipados. Emoldurando-lhes os cachaços, cachos de granadas de mort. 60 e grinaldas de munições de bazuca 6cm, 10.7, Instalazzas, dilagramas e outro material de efeito pirotécnico variado. GMD penduradas em tudo o que era grampo ou presilha e, naturalmente, “quilómetros” de fitas para as HK. Todo o material se encontra limpo e bem cuidado. Com as canhotas então, têm autênticos desvelos amorosos tratando-as tão bem ou melhor do que se fossem namoradas! Suspensos do cinturão, um ou dois cantis de água e todos os carregadores de G3, próprios e alheios, a que puderam deitar mão. Sem contar com aquele sistema inventado pelo Zé soldado em momentos de aperto, que consiste em embutir um carregador na arma, ficando outro amarrado a este, preso em cruz com fita adesiva. E não se disse ataviados, como impõe o aprumo e a gíria militar. Porque fardas são coisa que já não existe faz tempo. Mergulhos forçados no lodo das bolanhas, lavagens frequentes com pouco sabão e muitas pauladas aliadas às carícias de gravetos e espinhos do mato, decretaram o seu desgaste precoce. Foram à vida! Por esta altura, vão-se combinando os restos dos camuflados com peças n.º 1, 2 e 3. Botas de cabedal bambas com várias comissões no couro, umas já sem rasto, outras com buracos ventiladores nas biqueiras, alternam com as de lona, a dar as últimas. Há pessoal a sair para o mato levando nos pés uma espécie de chanatos adquiridos pelos próprios. É a crise a instalar-se!
       
Um quarto de casqueiro nas unhas, besuntado com margarina rançosa ou em dia de sorte com um cubo de marmelada em cima, um púcaro de água chilra tingida de café engolido de um trago e está a andar! Num bolso, arranja-se espaço para mais um quarto de pão com duas belicas* de cachorro nas entranhas. Um simples pacote de leite achocolatado ou um daqueles tubos de leite condensado Martins e Rebelo das rações de combate, fazem as delícias da maralha. Verdadeiros mimos para esta tropa arre-macho, generosa e humilde que sem reclamações ou reivindicações se prepara para enfrentar mais um dia,  com “porrada” garantida.
     
Pequeno almoço no bucho e ala que se faz tarde. O dispositivo da segurança próxima tem que estar montado, com a força na respectiva posição, ainda antes dos trabalhadores da reconstrução da estrada voltarem o serviço.
Obus 10,5 cm
Para aquele tipo de acção já todos conhecem e ocupam os respectivos lugares na bicha de pirilau. Uma piada em código, um riso abafado e as últimas recomendações dos furriéis em voz baixa, misturam-se com o tinir metálico do equipamento, criando aquela atmosfera pretensamente descontraída que precede todas as saídas. São rituais que só os que foram “agraciados” com uma comissão no ultramar podem entender!
       
A fila está formada quando aparece o alferes, qual ouriço caixeiro carregado de bugalhos: Uzi ao tiracolo, rádio ao pescoço, bolsos atafulhados com bússola, mapas e cartas diversas, códigos e frequências de comunicações e, pelo sim pelo não, dois ou três carregadores suplementares param a sua metralheta. No canto de um bolso, coabitando pacificamente com ao lanche, um par de gmd, não vá o diabo tecê-las! Dedicou os últimos minutos a olhar para os papéis sob uma lâmpada que parecia sofrer de sezões palúdicas, tantas eram as tremuras, tentando adivinhar de que lado é que viria a bordoada. “Olhos e ouvidos bem abertos, armas em posição e distâncias mantidas. E muito cuidado com o sítio onde põem as patas. A partir de agora, tudo caladinho”, são as suas últimas recomendações enquanto se dirige para a cabeça da coluna. E manda “seguir a marinha”.
        
Deixámos Madina Fula ainda o nosso gerador ronronava placidamente naquele timbre surdo e tranquilizador que nos acompanharia durante as primeiras centenas de metros. É noite cerrada. O pessoal caminha em silêncio, paralelamente ao trilho. Comunicações, só por gestos ou em surdina e até o ruído de fundo dos ERET´s e AVP1´s em AS são reduzidos ao mínimo.
       
Este é um santo pelotão! Dele fazem parte nada menos que dois Meninos Jesus, por alcunha: O “básico” Aguiar, açoreano da Praia da Vitória, que é meio tótó. E o furriel Tavares de Freixo de Espada à Cinta. Reina na segunda secção. É afinado da cabeça mas a sua pacholice granjeou-lhe igual cognome! Há ainda um Sto. António, virtuoso da HK.

Cunha, o “pica”, abre caminho percutindo o solo com a vareta de aço. Apesar de analfabeto, tem um dom extraordinário para a orientação no mato. Basta-lhe memorizar um certo trecho da carta cuja simbologia se habituou a reconhecer por comparação com aquilo que os seus olhos observam no terreno e, aí vai ele em piloto automático, com a macacada toda atrás. Direitinho ao objectivo, parece teleguiado! Auxiliado pelas diferentes tonalidades do som emitido pelo seu sofisticado aparelho, detecta com segurança todo o tipo de perigo superficial ou subterrâneo. Sabe por intuição quais são os caminhos com menos obstáculos e mais seguros. Caminho sondado pelo Cunha é caminho seguro, à confiança! A seguir, vem o Santos, Stº António para os amigos com a sua HK, depois o  “alfero”, o Assis da bazuca e outra HK, a do Cabecinha. Segue-se o Dutra grande do Morteirete, que dispara em andamento apoiando-o no bíceps. Moniz, Vicente, Melo e Reis são especialistas em Dilagramas. Na secção central, além do Raposo portador de mais uma HK alinham os homens da G3: Azevedo, Amorim, Bettencourt, Martins, Aguiar e Dutra pequeno. Cartucho propulsor na câmara e, mesmo até estes, ao primeiro disparo expedem um “ananás”. O resto da cambada vem lá para trás sob orientação do outro Furriel, também ele Tavares de nome, mas açoreano de nascença. Manobram um Mort. 60, duas HK, um LGF 10.7 e umas tantas G3.


Avançamos mastigando o cacimbo pesado e grosso da manhã que se agarra à pele, tornando-a viscosa e fria como a barriga de um sapo. Envolve-nos o cheiro a capim queimado e a fuligem negra, impregnando as roupas e as narinas. É natural, pois estamos em plena época das queimadas e as NT vão ateando fogos por onde passam, procurando limpar áreas tão vastas quanto possível por forma a evitar que o IN utilize a vegetação como máscara para possíveis emboscadas. Lutando com arbustos e lianas que teimam em enrolar-se aos corpos e equipamento como se quisessem impedir-nos de progredir, anima-nos a alma saber que em breve estaremos de volta à “civilização”.  O Kápa 3 está praticamente à vista! Falta apenas acrescentar uma meia dúzia de quilómetros àquela serpente de asfalto que protegemos e vemos crescer todos os dias. Trata-se de uma tabanca situada a cerca de três quilómetros da margem esquerda do Cacheu, muito próximo do ponto de origem de um troço de estrada que conduz ao Olossato, capital do Oio. O nome verdadeiro, aquele que consta dos mapas é Saliquinhédim. No entanto, a população local assumiu o novo topónimo aparentando desconhecer ou ter esquecido completamente o original.
HK-47 (Kalashnikov)
               
Atingir o K3, representa o final de uma campanha até agora bem-sucedida do ponto de vista militar, apesar de particularmente desgastante, não só pelas flagelações e contactos quase diários, mas sobretudo pela dureza das condições de vida a que todos temos estado sujeitos. Significa também que em breve, a 27ª de Comandos vai ser “despejada” pela C. Caç. 2753 ficando esta na situação de força de quadrícula com direito a um verdadeiro quartel. Com dormitórios, instalações sanitárias, secretaria, messes, cozinha...  Tudo! E sobretudo, vamos avistar gajas! Sim, tem de haver por lá mulheres, esses seres intangíveis, de que perdemos o rasto há meses e de cuja existência já começamos a duvidar! Sejam elas brancas, pretas ou “verdianinhas”. De preferência bajudas, mas na sua falta que avancem as mulheres grandes. Mobilizemo-las se for necessário, porque a rapaziada não aguenta mais esta lei seca tão prolongada...
     
Mortos de cansaço, com o ornamento do escalpe a desaparecer a olhos vistos devido ao stress e deficiente alimentação, exauridos pela punheta, este devaneio com putas ocupa-nos o pensamento por fugazes instantes, nesta madrugada particularmente enervante. Aqui e além, a silhueta fantasmagórica de um baga-baga chama-nos à realidade. Escondido pelo capim da altura de um homem, levanta algumas suspeitas... e muitos receios!  Os restos de luar reflectido nos olhos de uma família de babuínos produzem um efeito chamado “cagaço”. Não se tratando um bando de almas penadas, (os açoreanos são muito supersticiosos!), só poderá ser o IN a espiar-nos com flash-lights para mais certeiramente nos alvejar, comentam entre si! Na floresta, o amanhecer é pleno de actividade. O pio de uma ave ou o restolhar de um bicharoco qualquer podem tornar-se inquietantes sinais de alarme. Por vezes, é o encontro fortuito com um carreiro de formigas de grande cabeça negra e tenazes monstruosas que obriga a passar a palavra e...  a passar ao lado! Incomodadas, têm o péssimo hábito de trepar silenciosamente pelas pernas acima. Fazem-se anunciar quando já estão ferradas na pele dos tomates, de onde só saem arrancadas a bico de navalha depois de decapitadas. Há umas semanas, um pelotão da Companhia passou por essa excruciante experiência durante uma operação nocturna, que terminou antes de ter começado. Menos de meia hora após a largada, ei-los que regressam num tropel, aos pinotes e completamente nus quais isabelinhas,** berrando que nem cabritos desmamados, agarrados às respectivas partes. Que espectáculo soberbo, hilariante e inesquecível! Amanheceu. Ao longe, no silêncio desta floresta tão bela só comparável à mata do Cantanhês, já se ouve o roncar da maquinaria e o estrondo provocado pela queda das árvores abatidas. A tensão vai aumentando, os nervos estão numa lástima. Parafraseando autor desconhecido, cada passada cada cagada! Os olhos já doem de tanto perscrutarem o inimigo através da folhagem. Todo o cuidado é pouco. O silêncio torna-se esmagador, nada bole. É a bonança antes da tempestade e, todos sabem por experiência e por instinto que vem aí bernarda da grossa. Até já cheira a turra! Da frente vem a ordem “preparar para instalar”. Mil olhos lançam-se então numa busca apressada e ansiosa de qualquer acidente do terreno que possa oferecer alguma protecção, por mínima que seja. A cratera deixada pela raiz de uma palmeira caída, o tronco de uma árvore corpulenta ou o castelo de uma colónia de térmitas, tudo serve para abrigar um pouco  o canastro. Mas cuidado antes de mandar com ele para o chão! É preciso inspeccionar muito bem o local, não vá estar por ali alguma artimanha escondida. É um pequeno alívio, pois uma vez instalados o “conforto” é outro. Se o IN tiver o desplante de se aproximar da nossa posição, somos nós quem terá a iniciativa. No entanto, o mais provável é que seja alvejado com umas morteiradas de 82 mm a partir de uma bolanha situada a cerca de trezentos metros à nossa esquerda. E a seguir emboscados, quando fizermos a perseguição. Esta é a táctica habitual, mas ultimamente têm vindo ao trilho com frequência. E desfaçatez. Mandam-nos com umas roquetadas para cima e desaparecem como sombras, disparando furiosamente as Kalash’s apoiadas sobre o ombro, mas viradas para a rectaguarda sempre em passo de corrida.
     
Desta vez não houve tempo! Os bandidos ou seguiram os nossos movimentos, ou conseguiram adivinhar as nossas intenções quanto ao local onde iríamos abancar. O facto é que chegaram primeiro do que nós. Ainda não tínhamos amochado e já o apocalipse se abatia em cima das nossas cabeças. Nos primeiros instantes nem deu para perceber de onde é que chovia tanta metralha. Um número indeterminado de roquet’s estoura à nossa volta e nas copas das árvores, semeando farpas de aço que cortam o ar assobiando em todas as direcções. No ar há uma poeirada enorme e uma confusão de galhos partidos. Pequenas bolas de fumo negro pairam sobre a nossa vertical. Cheira a enxofre e a pólvora queimada, o cheiro da guerra. As kalashnikov, costureirinhas, Degtaryev e outro instrumental a que chamam ligeiro entram em acção como uma orquestra, produzindo um matraquear muito rápido mas sem a alma das nossas G3. Estalidos secos junto aos ouvidos indicam-nos que uma chuva de balas nos procura atingir sem piedade. A malta reage automaticamente. Numa fracção de segundo as metralhadoras iniciam uma sequência de tan, tan tans. É uma canção em tom mais grave e ritmo lento comparado com os réc-téc-téc que vêm do outro lado. Mas reconfortante. A equipa da esterilização (dilagramas) não pode fazer nada, o In está demasiado perto. Poderíamos atingir-nos a nós próprios. Os mort. e LGF idem. Só há uma saída: pessoal em linha, curvado para a frente, armas automáticas à anca com patilha de segurança em posição de rajada, avançamos em lanços sucessivos de cinco a dez metros galgando o mato. Passam dois, três minutos no máximo. Subitamente, o silêncio.
     
A guerra de hoje está semi decidida, mas a coisa não pode ficar assim! Os gajos têm que levar para tabaco. Continuamos a avançar até alcançar uma zona com tecto livre que batemos generosamente num ângulo de 180 graus, antes de iniciar a perseguição. Atingimos a orla da bolanha. Pelo caminho constatámos a existência de alguns espojeiros. Confirma-se a suspeita de que afinal já estavam á nossa espera. Terão passado lá a noite? Recolhemos também alguns materiais que abandonaram na precipitação da retirada.
G-3
     
Do lado oposto, longe mas ainda à distância de tiro efectivo avistamos vários elementos do IN em fila. Terão sido estes os tipos que nos atacaram? Serão carregadores? Não vale a pena persegui-los. Não conseguiríamos alcançá-los e não é essa a nossa missão. Além disso, corremos o risco de ser atingidos pela nossa própria artilharia de 14 cm ou pelo fogo aéreo, ad hoc ou a pedido dos nossos camaradas que estão a fazer a segurança afastada. Estes já levam o que contar, deixá-los ir! Mas não sem antes levarem mais umas morteiradas nos cornos para acelerar o passo. No Destacamento é o alvoroço. Ouviram o estardalhaço e querem saber o que é que se passa, se temos feridos, se fizemos baixas... Sim temos um ferido que apanhou com um estilhaço na peida, coisa sem importância de que o maqueiro Melo se encarregará. Não é necessária a evacuação, há-de regressar pelo seu pé.
     
Ainda não são dez horas e já temos o dia ganho! Hoje, em princípio, não nos vão chatear mais. Agora há apenas que cumprir horário. Voltamos à posição que nos foi destinada e instalamos. Daqui a nada vamos almoçar porque o raio da sarrafusca abriu-nos o apetite. Já se fala em voz alta comentando toda a  acção com uma espécie de nervoso miudinho residual. Alguns aproveitam o momento de descontracção e vão aliviar-se atrás de qualquer coisa. É que a vinda, nem houve tempo para fazer o habitual alto para cagar. Quando forem umas quatro da tarde havemos de pôr-nos a caminho. Convém que o regresso se faça ainda com luz do dia. À chegada, teremos um relaxante banho debaixo de um bidom instalado sobre um palanque constituído por quatro cibos ao alto, com água aquecida pelo sol. A seguir, o jantar. Prato à escolha: batata cozida com cavala de conserva. Amanhã também poderemos escolher dobrada seca, demolhada, com arroz e feijão. No dia seguinte voltaremos à cavalinha! Se tudo correr bem, talvez a hora do jantar decorra sem sobressalto. O pessoal, sempre em pequenos grupos, recebe a comida nas marmitas e vai comer para os abrigos onde fica alerta até tarde. Depois, serão umas horas de sono entremeado de saudades e pesadelos, que apesar do cansaço nunca será profundo nem repousante. Amanhã tudo recomeçará de novo. Mas estaremos um dia mais perto!
         
Volto aos registos da Companhia:

Fascículo IV – Período de 01 FEV71 a 28 FEV71.
     “Em 02FEV na região de Farim 2 C6 97, um grupo IN com efectivo de 15 a 20 elementos, emboscou à distância de 5 a 6 metros com armas ligeiras e LGF um grupo da C. Caç. que progredia para emboscar. As NT sofreram um ferido ligeiro. Feita a batida foi encontrada uma fita de munições de metralhadora ligeira”.
     * Equivalente em açoreanês para piça, pixota, pila etç.
 ** Idem para mariazinha, mariconço...

Texto dedicado a todos os camaradas tertulianos com um abraço do
  Vitor Junqueira

P145 - Manuel Sousa, 2ª companhia da CCAÇ 4512, Guiné 1972/74, JUMBEMBÉM - FARIM, edita livro: "PRECE DE UM COMBATENTE"

 De: Manuel Sousa [mailto:mlrsousa@sapo.pt]                    
 Enviada: domingo, 11 de Março de 2012 15:09
 Assunto: Publicação de fotografia em livro


 Camarada Sousa de Castro:
 Sou também ex-combatente da Guiné.
 Acabei de escrever um livro sobre a vivência que tivemos naquele conflito armado.
 Para a sua ilustração tenho recorrido a algumas fotografias de camaradas que encontro em blogues.
 Assim estou a contactá-lo para lhe pedir autorização para inserir  no mesmo livro a fotografia do quartel de transmissões de Santa Luzia em Bissau, que junto em anexo, que encontrei no vosso blogue, o quartel onde estive nos últimos dias antes do embarque para a Metrópole, em Agosto de 1974.
 Se a fotografia não for da sua autoria, agradecia que me indicasse
 quem é o seu autor.
Quartel de TRMS em Bissau (Stª Luzia) 1972

Pode, se quiser, por curiosidade, ver alguns textos meus que integram este livro.
 Como exemplo procure no google: "manuel sousa Avé-Maria do Soldado"

 Um abraço
 Manuel Sousa


Citando CART 3494 <cart3494_xime@sapo.pt>:

 Boa tarde camarigo Manuel Sousa,
 Em resposta ao solicitado, devo dizer que esta faz parte de uma colecção de 5 ou 6 fotos oferecida por um amigo meu, já falecido, conhecido pelo nome de: 1º Sarg.TRMS, Caldas (José J. Caldas da Silva), em Bissau, no início do ano de 1972, altura em que eu fazia estágio de radiotelegrafista no Quartel em Stª Luzia, antes de rumar para o Xime (CART 3494 do BART 3873).
 Assim sendo não vejo inconveniente algum de a usar, mencionando somente a fonte de onde a tiras-te. Por outro lado gostaria que me informasses, qual a tua unidade e onde estiveste na Guiné, não serás
 um tal de Manuel Sousa da CART 3518 (Marados de Gadamael)? Inserido no blogue da "Tabanca Grande"
 Em anexo algumas fotos. http://cart3494guine.blogspot.com/

 Um abraço,

 Sousa de Castro
 ex. 1º cabo radiotelegrafista da CART 3494 do BART 3873, Guiné, Xime e
 Mansambo, JAN71/ABR74




Esclarecimento:


(...) Respondendo à tua pergunta, eu cumpri a minha comissão, como soldado, no sub-sector de Jumbembém, na zona de Farim, desde Janeiro de 1973 até Agosto de 1974.
Pertenci à 2.ª Ccaç do Bcaç 4512 (...)
                                                                                              ##



1 - Manuel Sousa, Sargento-Ajudante da GNR (Guarda Nacional Republicana) na situação de reforma, fez parte do 3º Pelotão da 2ª companhia do BCAÇ 4512 na Guiné, Jumbembém, região de Farim 1972/74,  também faz parte da "Tabanca Grande, mais de 500 ex. combatentes atabancados, que prestaram serviço na Guerra colonial na Guiné (Luís Graça & camaradas da Guiné)"  onde tem vários textos publicados, destacando este: "As nossas Madrinhas de Guerra: Avé-Maria do soldado"

2 -  "PRECE DE UM COMBATENTE - Nos Trilhos e Trincheiras da Guerra Colonial"
 É o livro que o ex. soldado, Manuel Luís Rodrigues Sousa está a ultimar enviando-me um excerto.

Sousa de Castro


(...) envio-te em anexo, em primeira mão, um pequeno excerto "A Árvore dos Tecelões", que integra também o livro.
Envio-te ainda uma das minhas fotografias para a abertura da mesma ficha (...)



Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

P144 - MSG de: Jorge Alves Araújo, ex Fur. Mil. Op. Esp./RANGER da CART 3494


MSG de Jorge Alves Araújo, ex. Fur. Mil. Op. Esp./Ranger da Cart 3494 com data de: 22FEV2012, fazendo a sua apresentação para entrada na Tabanca Grande "Luís Graça & camaradas da Guiné". 
Recordo, que para além de ter participado na maioria dos convívios da CART 3494, foi  responsável pela organização e realização do XII e XXIII convívio anual da CART 3494 que teve lugar no Hotel da Costa da Caparica (Costa da Caparica/Almada) no dia 27MAI1997 e  07JUN2008, respectivamente.


Actualmente, exerce actividade profissional a nível universitário, com uma prática docente de mais de duas décadas ligado ao ISMAT (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes), em Portimão, do Grupo Lusófona, onde, para além de leccionar diversas Unidades Curriculares, coordena o ramo de Educação Física e Desporto, da Licenciatura em Educação Física e Desporto.
SC
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Caríssimo Castro,

Serve o presente para informar que enviei hoje para o blog do "Luis Graça & Camaradas da Guiné" a minha proposta de adesão à Tabanca Grande.
Se quiseres incluir este meu texto no blog da CART 3494, junto em anexo o mesmo conteúdo.

Um grande abraço,

Jorge Araújo.


GUINÉ
Jorge Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)



Jorge A. Araújo, 2011
Jorge A. Araújo,1972
Cumprindo, tardiamente, a palavra dada no V Encontro Nacional realizado em Monte Real, em 26.Jun.2010, eis-nos à entrada da porta da TABANCA GRANDE esperando autorização para entrar.


Como manda a tradição, apresento a todos os camaradas que fazem parte desta já numerosa família de ex-combatentes na Guiné uma síntese daquela que é a nossa história de vida, em particular o «projecto militar», na medida em que ninguém é igual a ninguém; pois todo o Ser Humano é um estranho ímpar, como nos diz o poeta Carlos D. Andrade (1902-1987).


A CART 3494 bem representada no V encontro Nacional realizado em Monte Real no dia 26JUN2010
Da esq. para drt.: ex. FurMil. Jorge Araújo, Cor. Art. (na reforma) Pereira da Costa, ex. Alf.Mil. Acácio Correia. Ex. FurMil. Bonito e ex. 1º cabo radiot. A. Castro

Natural da Freguesia de Santa Maria dos Olivais, Lisboa, onde nasci em 10.Nov.1950, concluímos o período da recruta, do Curso de Sargentos Milicianos, no R.I.5, nas Caldas da Rainha, em 26.Set.1971, tendo seguido de imediato para o Centro de Instrução de Operações Especiais (C.I.O.E.),em Lamego/Penude, a fim de aí completar a nossa formação militar.

Concluído este processo, que seria o principal requisito de Mobilização para um dos três cenários possíveis da Guerra Ultramarina, eis que somos colocados no Regimento de Artilharia Pesada n.º 2 (RAP2), depois RASP; em Vila Nova de Gaia (Serra do Pilar), instituição que aguardava pela nossa chegada para nos dar a notícia que eu, e todos nós à época, já adivinhávamos – a mobilização (para o C.T.I.Guiné).
Seguiu-se, depois, a informação de que pertenceria à Companhia de Artilharia 3494, a última das três Companhias Operacionais que constituiriam o contingente do Batalhão de Artilharia 3873, o qual iria render o BART 2917 sediado na região de Bambadinca, leste da Guiné, local situado na margem esquerda do Rio Geba.
Considerando que o período final de instrução, também designado por I.A.O. foi realizado em Bolama durante o mês de Janeiro/1972, e uma vez que não tínhamos ainda gozado a Licença de Mobilização, nos termos do Artº. 20º das NNCCMU, a inclusão na CART 3494 foi adiada, vindo somente a ser concretizada no XIME, dois meses depois.
Durante a Comissão de Serviço, que durou até Abril de 1974, alguns foram os episódios que jamais esqueceremos, pelas aprendizagens que produziram em nós, em função da natureza de cada uma delas.

 Da Esq. para Dir.; Cap. Art. A. Pereira da Costa, Ex. Alf. Mil. Guimarães??, ex Alf. Mil. Art. Serradas Pereira, ex. Alf. Mil. Art. Maurício Viegas e ex Fur. Mil. Op. Esp/Ranger, Jorge Alves Araújo.
(Foto do Ex. CMDT da CART 3494 Cap. Art. António Pereira da Costa, hoje (Cor. Art. na Reforma)
Desde logo a primeira a acontecer foi no dia 22.Abr.1972, sábado, pelas 08:30 horas, na emboscada sofrida pelo nosso G.C. (4.º) na Ponta Coli (Xime) e referida no post. P6669 pelo nosso ex-comandante Cap. Art. António José Pereira da Costa (Coronel de Artª. na Reserva), em que, num total de 23 elementos no terreno, as NT tiveram um morto (Furriel), dezassete feridos e, apenas, cinco ilesos, um dos quais fomos nós. 
Fur. Mil. Bento (morto em combate na emboscada na Pta Coli -Xime no dia 22ABR72)
 com o Fur. Mil Carda.
(Foto de: ex. Fur. Mil. Carda, com a devida vénia)
No próximo dia 22 de Abril fará quarenta anos que registámos e guardamos as imagens desse contexto. Oportunamente passaremos a escrito essas imagens, dando, assim, resposta ao desejo do nosso camarada e amigo Coronel Pereira da Costa. 
De referir que nessa mesma data se comemorou, em Portugal e no Brasil, a passagem do 472.º aniversário da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, conforme se prova na capa do Diário de Lisboa ao lado. São apenas meras coincidências. De referir, também, que esse mesmo dia 22 de Abril, mas de 1973, foi Domingo de Páscoa.
Seguiram-se outros episódios em que estivemos directamente ligados, cujas datas continuamos a lembrar: 10 de Agosto de 1972 (naufrágio no Rio Geba); 29 de Setembro de 1972 (ataque ao aquartelamento com armas pesadas, numa noite de intensa trovoada, dia em que o meu pai comemorou o seu 49.º aniversário); 01 de Dezembro de 1972, nova emboscada na Ponta Coli; 03 de Fevereiro de 1973, emboscada na Ponta Varela, entre outras.
Quanto ao presente, a nossa actividade profissional é a nível universitário, com uma prática docente de mais de duas décadas. Temos actualmente um vínculo institucional ao ISMAT (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes), em Portimão, do Grupo Lusófona, onde, para além de leccionarmos diversas Unidades Curriculares, coordenamos o ramo de Educação Física e Desporto, da Licenciatura em Educação Física e Desporto.
Realizamos o doutoramento na Universidade de León (Espanha) em 2009, em Ciências da Actividade Física e do Desporto, com a tese: «A prática Desportiva em Idade Escolar em Portugal – análise das influências nos itinerários entre a Escola e a Comunidade em Jovens até aos 11 anos».
Pelo exposto, espero merecer a confiança de todos os meus amigos ex- militares «atabancados».
Um grande abraço para todos, deste cidadão que é, apenas, uma partícula da terra.


Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

P 143 - OS ÚLTIMOS MILITARES PORTUGUESES A ABANDONAR A GUINÉ

MSG de Luís Vaz, filho do último CEM/CTIG Cor. Henrique Gonçalves Vaz) com data de: 21FEV2012

Caros Editores:

Conforme o prometido, segue em anexo finalmente, o meu artigo sobre "OS ÚLTIMOS MILITARES PORTUGUESES A RETIRAR DA GUINÉ (Dia 14 de Outubro de 1974)" -“RETIRADA FINAL DO TEATRO DE OPERAÇÕES  DA GUINÉ”
.
Para este artigo, além de consultar as notas pessoais do meu falecido pai, também entrevistei um primo meu, que era na altura marinheiro radio-telegrafista da "guarnição do Patrulha Lira (LFG Lira), com quem estive ainda na Guiné, mas que ficou lá até ao último dia, o dia 14 de Outubro de 1974, juntamente com muitos outros militares, um deles, o meu falecido pai, o último CEM/CTIG. Este meu primo, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, relatou-me na 1ª pessoa, as últimas horas  da retirada para o Navio UIGE, dos militares portugueses ainda presentes nesse dia em terra, para assegurarem a última cerimónia, o "Arrear da Bandeira Portuguesa", bem como me forneceu um conjunto de fotografias, que ilustram o "Artigo" e que poderão ser publicadas. Espero que não tenha "distorcido muito" estas últimas horas da nossa "Retirada Final" da Guiné, se o fiz, foi sem intenção. Por outro lado, peço desculpa não "elencar o nome" de todos aqueles militares que nesse mesmo dia, "deram o seu máximo" para não Manchar o Bom Nome da Nação, numa altura difícil da nossa longa história... se um de vós lá estava, então deixe aqui "o seu depoimento", pois assim enriquecerá este relato de mais um dos "episódios históricos da descolonização portuguesa".

Grande Abraço
Luís Gonçalves Vaz


(Dia 14 de Outubro de 1974)

“RETIRADA FINAL DO TEATRO DE OPERAÇÕES DA GUINÉ”

A ponte-cais em T, em Bissau, imagem tirada de bordo do navio Uíge,  onde se podem ver os últimos militares a aguardarem a vez de embarcarem. Na imagem são visíveis as viaturas GMC, Unimog,  Willys, viaturas do Exército características da época.  Ao fundo, a avenida marginal para o Pijiguiti, e o Forte da  Amura. Fotografia de Alberto Lima Santos in: http://especialistasdaba12.blogspot.com.





Os últimos Aquartelamentos a serem entregues ao PAIGC, foram o “Complexo militar de STª Luzia”, onde se encontrava o QG/CTIG (Quartel General do Comando Territorial Independente da Guiné), e o QG/CCFAG (Quartel General do Comando-chefe das Forças Armadas da Guiné) instalado no histórico Forte da Amura, que se localiza mesmo em frente à ponte-cais em Bissau (ver figura). A entrega destes dois últimos redutos das Forças Armadas Portuguesas na Guiné, foram  “negociados” em 11 de Outubro (apenas 3 dias antes da saída dos últimos militares portugueses deste território),  numa reunião  no Forte da  Amura com os comandantes do PAIGC, Gazela,  Bobo Keita e o comandante  Correia,  sob a coordenação do então CEM/CTIG (Chefe do Estado-Maior do CTIG) coronel Henrique Gonçalves Vaz.  Os “Planos  de Entrega destes Aquartelamentos”, foram realizados pelo Coronel CEM/CTIG, coronel Henrique G. Vaz com a colaboração do sr. Major Mourão, e entregues  ao Brigadeiro Fabião , no dia 10 de Outubro de 1974, um dia antes da reunião com os comandantes do PAIGC.  A entrega do “complexo militar de STª Luzia” foi efectuada no dia 13 de Outubro, pelas 15 horas, enquanto o Forte da Amura, o último “reduto militar português” a ser entregue, foi entregue apenas no dia 14 de Outubro, o dia previsto para a “retirada final”, e reservado para o embarque do que restava das tropas portuguesas na Guiné. Como tal foi concentrado aí na véspera da partida, o último contingente do Exército Português .

A lancha de fiscalização grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais,  poucos dias antes da “retirada final” em 14 de Outubro de 1974. (Fotografia do marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz)
O ex-marinheiro radiotelegrafista , Manuel Beleza
Ferraz, (da guarnição do Patrulha Lira), testemunha da
Missão“Retirada Final” da Guiné, em 14/10/1974
O que vos vou passar a relatar, será uma pequena narrativa, dos últimos momentos da nossa “retracção do dispositivo militar”, deste último reduto de militares portugueses, para os navios da Armada Portuguesa e para o navio Uíge (o navio Niassa já se encontrava ao largo de Bissau) , que se encontravam frente à Ponte-cais, mas a alguns metros do cais, com os motores ligados (pairavam todos os navios). Esta descrição foi-me feita pelo meu primo  e ex-marinheiro radiotelegrafista da Armada Portuguesa, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, que fazia parte da guarnição da LFG (Lancha de Fiscalização Grande) Lira, um dos navios que fez a segurança de rectaguarda, durante o embarque dos últimos militares portugueses na Guiné.
Foto actual;
Ex-marinheiro radiotelegrafista 812/70
Manuel Beleza Ferraz
No dia 14 de Outubro, decorreu a última cerimónia de “Arrear da Bandeira Portuguesa”, ao qual se seguiu o “Hastear de Bandeira da República da Guiné-Bissau”, como tal nesse mesmo momento, todo o que restava do contingente militar português, encontrava-se agora em território estrangeiro. Nessa cerimónia encontrar-se-iam o Governador (Brigadeiro Carlos Fabião), o Comandante Militar (brigadeiro Galvão de Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (coronel Henrique Gonçalves Vaz), outros oficiais, alguns sargentos e praças. Os primeiros depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios que se encontravam ao largo no estuário do Rio Geba, seguiram para o Aeroporto, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança. Mal acabou a cerimónia referida anteriormente, e segundo testemunho do ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Aurélio A. Beleza Ferraz, que se encontrava nesta altura na LFG LIRA, todas as guarnições dos nossos navios que se encontravam na zona, estavam por ordens superiores, em posição de combate (para qualquer eventualidade), estando todos os operacionais equipados com coletes salva-vidas, capacetes metálicos e as Bofors (peças de artilharia antiaéreas de 40 mm) sem capa e municiadas, prontas a realizar fogo de protecção à retirada das nossas tropas, que ainda se encontravam em terra. Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a “segurança de rectaguarda” mais próxima, ás tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira. Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Quanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “retirada Final”.

Evacuação de pessoal civil de Jemberem ou de Gadamae (?), passagem dos civis de uma lancha de desembarque, para a LFG Lira, em pleno Rio Cacine, muito abaixo da “marca lira”. (Fotografia do ex-marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz)
Após o “Arrear da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos 3 Ramos das Forças Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida, foram transportadas em Zebros e LDM (lanchas de desembarque médias) para o Navio Uige, que os aguardava no meio do Rio Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento (pairavam) por razões de segurança.

4 Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG), uma pequena, e uma LDM na Ponte-Cais em Bissau, no ano de 1974, poucos dias antes da “retirada final” do dia 14 de Outubro do mesmo ano. É visível o navio Uige ao fundo, preparado para transportar os últimos militares portugueses da Guiné. (Fotografia do ex-marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz).
O ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão, aos Comandantes das duas LFG (Órion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu comandante, 1º Tenente Martins Soares. Como tal, os comandantes destes três navios  que constituiam nesse dia,  a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas, “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40 mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de rectaguarda á retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o UIGE. Felizmente tudo correu bem, não sendo preciso fazer fogo nenhum, já que a retirada se desenrolou como o previsto, sem altercação de qualquer natureza. De seguida, no final dos transbordos, os Zebros e as lanchas (LDM) foram presas numa boia em frente ao cais (abandonadas), e imediatamente a “Flotilha portuguesa”, escoltou  o  navio Uige e o Niassa (este já navegava mais à frente) até águas internacionais, seguindo a maioria dos navios da Armada para Cabo-Verde, de onde alguns deles, partiriam pouco depois, em direcção a Angola.
As Tropas portuguesas na ponte-cais, em Bissau a prepararem-se para embarcar no Navio Uíge, com destino a Lisboa. Fotografia de Alberto Lima Santos in: http://especialistasdaba12.blogspot.com

O marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, ainda informou que a “flotilha” que rumou em direção a Cabo-verde, além dos navios já referidos (NRP Comandante Roberto Ivens, LFGs  Órion e Lira e patrulha Cuanza) faziam parte também as LDGs “Ariete”,“Alfange” e “Bombarda”,  tendo estes navios da Armada atracado em 20 de Outubro no porto de Mindelo na ilha de  S. Vicente, Cabo Verde.

A comitiva constituída pelo Governador (Brigadeiro Carlos Fabião), o Comandante Militar (brigadeiro Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (coronel Henrique Gonçalves Vaz),  bem como alguns outros oficiais do Estado-Maior, sargentos e praças, depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios, que se encontravam ao largo do estuário do Rio Geba, e assegurando-se que tudo tinha corrido sem problemas e de acordo com o previsto nos “Planos de Retirada”, elaborados pelo CTIG/CCFAG que nesta altura, se afirmava como o único Comando das Forças Armadas Portuguesas neste TO da Guiné, seguiram directamente para o Aeroporto de Bissalanca, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança.

Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que no dia 14 de Outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné. Estima-se que seriam algumas centenas de militares dos 3 Ramos das Forças Armadas Portuguesas. Neste grupo estavam representadas as várias especialidades do navio, nomeadamente, artilheiros, eletricistas, telegrafistas e manobras. Este navio, o NRP Lira, sob o comando do 1º Tenente Martins Soares, teve um papel importante na missão de “Retirada Final”, já que era o navio de apoio de rectaguarda que se encontrava mesmo em frente à Ponte-cais de Bissau, como tal o navio mais próximo do Forte da Amura. O marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz é o que está a olhar para o fotógrafo.
Às 23 horas do dia 14 de Outubro de 1974, estes militares serão os últimos a retirar da Guiné, nesse momento estiveram presentes alguns Comandantes do PAIGC, que quiseram despedir-se dos “seus antigos inimigos”, e assim foi o Fim da colonização da guiné com cerca de 500 anos. Mas antes, de finalizar este artigo, gostaria aqui de referir o árduo trabalho atribuído ao último CEM/CTIG, Coronel Henrique Manuel Gonçalves Vaz, já que foi o responsável, por “despacho escrito do Brigadeiro/ Governador”, Carlos Fabião, pela elaboração dos “Planos de Retirada do nosso Exército”, da “Carta sobre a Redução de Efectivos e Comissões Liquidatárias”, dos “Planos de entrega dos Aquartelamentos da Ilha de Bissau”,  do “Estudo da Comissão Liquidatária do QG/CTIG em Lisboa”,  das "Cargas dos aviões", entre outras responsabilidades .

Enfim o Brigadeiro Carlos Fabião, determinou que este oficial do Corpo do Estado Maior e Chefe do Estado-Maior do CTIG/CCFAG, coronel Henrique Gonçalves Vaz, se responsabilizasse por todos estes assuntos, como tal fica aqui a minha homenagem a ele, bem como a todos os oficiais, sargentos e praças, que sob o seu comado, o ajudaram a realizar essa importante tarefa, nomeadamente o sr. Tenente-coronel de Art.ª Joaquim José Esteves Virtuoso, o  sr. Major Mourão, o sr. Capitão Lomba, e outros oficiais, sargentos e praças, que colaboraram nesta última missão militar no TO da Guiné, a “Retirada Final”, a todos eles, a minha homenagem, o meu respeito e uma grande admiração, pois ficaram neste episódio da longa história portuguesa.
20 de Fevereiro de 2012
Luís Filipe Beleza Gonçalves Vaz (filho do último CEM/CTIG)







Nota do Autor: Um agradecimento especial ao meu primo e ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, marinheiro da guarnição de um dos últimos navios a abandonar as águas da Guiné, o Patrulha Lira, pois sem o seu testemunho, não poderia ter dado parte importante das informações, relatadas nesta minha pequena narrativa sobre a “retirada final da Guiné”. A ele o meu muito obrigado.

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

P142 - Medalha Comemorativa das Campanhas e Comissões de Serviços Especiais


Medalha Comemorativa das Campanhas,
com a legenda "Guiné 1971-1974"

Medalha (frente e verso) atribuída à maioria dos que Prestaram Serviço Militar no Ultramar 


 


 










Dimensões: Ø.38mm


Meus amigos! Em Outubro de 2011 enviei requerimento ao "Arquivo Geral do Exército" a solicitar a entrega da Medalha Comemorativa das Campanhas com a legenda "GUINÉ 1971/74", conforme está descrito na Caderneta Militar, Medalha que não me foi entregue nem à maioria dos ex. Combatentes. Recebi ofício do Ministério da Defesa Nacional  informando do deferimento em 15DEC2011, conforme podem verificar no documento anexo. Fico agora à espera que o Arquivo Geral do Exército resolva rapidamente a requisição e me entregue.





Ofício da Repartição de Condecorações e Louvores da Direcção de Justiça e Disciplina do Exército Português:
Para download do requerimento ao Exm.º Senhor Chefe do Arquivo Geral do Exército: Clique aqui


Pode – e deve – ser usada por todo aquele a quem tenha sido averbada, na respectiva caderneta militar, a sua concessão pela competente entidade militar (vd Port.22838, DG.194, 1ªsérie, 21Ago67); mas, na falta (ou extravio) daquela caderneta, uma cópia integral do processo individual militar, no caso do Exército, poderá ser solicitada por carta dirigida ao Exmº Chefe do ArqGEx [Arquivo Geral do Exército], mediante «requerimento [com assinatura notarialmente reconhecida] dirigido ao Exmº Chefe do Estado-Maior do Exército, no qual deve indicar o que pretende concretamente e para que «finalidade», com informe da «data de nascimento, freguesia e concelho de naturalidade e recenseamento militar».

Esclarecimento (cedido por um Veterano):

Qualquer veterano do Ultramar que, em tempo próprio, tenha sido agraciado com a citada Medalha Comemorativa das Campanhas, e que, tendo-a recebido, actualmente não saiba onde a terá guardado, ou que a mesma pela competente autoridade militar nunca lhe tenha sido entregue, poderá dirigir a sua questão ao Director do Arquivo Geral do Exército [vd mailbox do ArqGEx] (no caso de ex-militares daquele Ramo das FA's), juntando digitalização da página da sua caderneta militar onde tal concessão se encontre mencionada.

Neste específico caso de "Medalha Comemorativa das Campanhas", o direito à sua posse e seu uso, por parte de um veterano, não carece que o mesmo tenha sido, por expressa menção em Ordem de Serviço, com aquela condecoração agraciado, existindo inumeráveis situações em que na respectiva caderneta militar e/ou processo individual um tal agraciamento ficou omisso, sendo no entanto certo que a qualquer militar que tenha cumprido serviço no Ultramar é devida aquela Medalha Comemorativa.
Seja qual fôr a Província Ultramarina onde o militar tenha prestado serviço, o modelo de Medalha adoptado é único (idêntico anverso e reverso) – e bem assim a miniatura "para uso com traje civil de passeio na lapela do lado esquerdo" –, consistindo a diferença nas cores da "fita de suspensão" (consoante a PU) e bem assim a "legenda da passadeira" (ano de início - ano de fim, encimado pelo nome da PU).

Note-se que, em qualquer das situações supra referidas – averbamento na caderneta militar ou omissão da respectiva concessão –, um veterano que tenha perdido ou queira obter a sua "Medalha Comemorativa das Campanhas", actualmente terá de a pagar do seu bolso: mesmo que o requerimento seja formalmente dirigido ao ArqGEx e que o Ministro da tutela, decorridos alguns meses, venha a despachar favoravelmente; sendo que, nesta hipótese, o solicitante terá de se deslocar à sede do MDN, na capital de Portugal, para a receber em mão própria.

Assim, aconselha-se qualquer legal interessado a que se dirija pessoalmente (ou por escrito), a um estabelecimento comercial especializado e oficialmente reconhecido pelo Exército (como, por exemplo, a "Casa Buttuller" - Site:
http://casabuttuller.com/ endereço de e-mail: geral@casabuttuller.com), apresentando provas documentais sobre a condecoração militar que pretende adquirir.

com a devida vénia.