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quarta-feira, 24 de maio de 2017

P315 - MEMÓRIAS DE MANUEL JANES EX. 1º CABO "O VIOLAS" DA CCAÇ 1427- CABEDÚ (1965/1967)

MSG de Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494 (Xime-Mansambo, 1972/1974) 

com data de; 19 de Maio de 2017

Caríssimo Camarada Sousa de Castro. Conforme te dei conta em narrativa anterior, esta relacionada com as memórias do camarada Manuel Janes "O Violas", da CCAÇ 1427, são das pequenas histórias que surgem, naturalmente, novas histórias, e que nos permitem o aprofundamento da sua historiografia a partir das vivências, individuais e colectivas, gravadas durante a nossa passagem por terras africanas, de que é exemplo paradigmático, o caso da Guiné. Assim sendo, eis o segundo trabalho sobre o caso do camarada "Violas". Com um grande abraço de amizade. Jorge Araújo. Maio/2017



1.   INTRODUÇÃO
Manuel Janes, 2017

O encontro/convívio de ex-combatentes no CTIGuiné realizado no passado dia 25 de março, no Monte da Caparica, Município de Almada, em que participaram camaradas de várias Unidades que aí cumpriram a sua missão em diferentes épocas e locais, permitiu partilhar memórias únicas pois só os próprios a sabem contar como ninguém.

O destaque dessa reunião vai, no entanto, para o camarada Manuel José Janes, também conhecido por 1.º Cabo “O Violas”, alcunha pela qual passou a ser conhecido desde o início pelos seus pares, tendo por companheiras inseparáveis: uma G3 e a sua viola.

Para recordar aquela que foi a sua apresentação, recupero alguns factos narrados no P308. “Quando o almoço decorria com uma natural tranquilidade, eis que se aproxima de nós um indivíduo trauteando alguns versos do seu fadário vivido durante a Guerra do Ultramar, em estilo musical de fado. Era, nem mais nem menos, o proprietário do restaurante, também ele ex-combatente na Guiné, pertencente ao contingente da CCAÇ 1427, Unidade que esteve sedeada em Cabedú, na região de Tombali, no Sul, nos anos de 1965/1967”.

Região de Tombali - vista aérea do Destacamento de Cabedú ao tempo da CCAÇ 1427


2.   O CAMARADA MANUEL JANES “O VIOLAS” DA CCAÇ 1427

Procurando saber mais histórias da sua missão em Cabedú e da sua Unidade (CCAÇ 1427 - 1965/1967), para além das que nos contou durante aquele primeiro evento, encontrei-me recentemente com o camarada Manuel Janes. Durante a nossa cavaqueira de cerca de três horas, com uma ordem de trabalhos completamente arbitrária, mas sem descurarmos o tema base do nosso encontro – “memórias da Guiné” –, a determinada altura divulguei-lhe aquele que para ele seria uma novidade: o de ter tido notícias do camarada Manuel Caldeira Coelho [fur mil trms da CCAÇ 1589 (Nova Lamego e Madina do Boé - 1966/1968)], conterrâneo de Reguengos de Monsaraz e seu grande amigo, que nos idos anos de 1964 haviam fundado um trio vocal.

Recebendo o meu segredo ou confidência com grande satisfação, fez questão de o contactar enviando-lhe uma mensagem SMS de agradecimento.

Na sequência da primeira narrativa [P308], na qual faço referência ao nome e à pessoa do Manuel José Janes “O Violas”, o camarada Manuel Coelho (a quem agradeci sensibilizado) respondeu-nos, através de correio interno, o seguinte:

“Caros editores, ao ler o poste 17206[luisgraca&camaradasdaguine] do dia 4, de autoria do camarada Jorge Araújo, não podia deixar de dar uma "achega" referente às capacidades do Manuel José Janes como cantor e autor.
Somos da mesma terra (Reguengos de Monsaraz) e fundámos um trio vocal em 1964 para nos divertirmos a actuar a nível regional. Temos uma gravação feita num gravador de bobinas emprestado, não sei se poderá ser incluído neste testemunho.
Com uma voz linda de se ouvir em qualquer apresentação, não quis o destino que seguisse carreira artística.
Fomos cada um para seu lado no serviço militar e entretanto a 2.ª Região Militar [Tomar] reuniu vários artistas amadores ou não, para espectáculos em vários locais designadamente na Guarda onde houve festa pela reabertura do quartel do BC 7.
Lá chamaram a ele e a mim e foi um êxito que nos fez repetir no Coliseu de Lisboa e a gravar este espectáculo na RTP transmitido em 15/7/1965 e apresentado por Carlos Cruz.
Ocasionalmente encontrámo-nos em Bissau de férias. O que ele me contava de Cabedú e de Catió era tremendo, acho que alguém poderá convence-lo a descrever essas histórias passadas com a CCAÇ 1427. Eu poderei contactá-lo para isso.
Resumindo: uma voz fabulosa, uma escrita em verso não aproveitada e um destino não como artista mas como industrial de hotelaria.
Perdeu a vida artística mas ganharam os amigos e clientes da sua casa que sempre o ouvem lá cantar e conviver”.
Manuel Coelho.

Aqui chegado, e para concluir este apontamento, resta-me apresentar algumas (poucas) imagens de Cabedú, prometendo voltar logo que o camarada Manuel Janes localize o seu baú, uma vez que mudou de residência recentemente. Daremos conta, ainda, da «Marcha de Cabedú», da CCAÇ 1427, com letra e música da sua autoria.

Comprometeu-se, finalmente, a dar-me conta da data do lançamento do seu livro de poesia que, segundo me confidenciou, está para breve.

Região de Tombali - Destacamento de Cabedú ao tempo da CCAÇ 1427 (1965/1967)

Região de Tombali - Destacamento de Cabedú: parte do contingente da CCAÇ 1427 (1965/1967) onde se vê o camarada Manuel Janes “O Violas” no interior do círculo com uma das suas companheiras inseparáveis - a viola.


Letra da «Marcha de Cabedú» da CCAÇ 1427

da autoria de Manuel José Janes “O Violas”



Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
18MAI2017.

sábado, 1 de abril de 2017

P308 - (Convívios) ENCONTROS COM E PARA A HISTÓRIA - O CASO DO CAMARADA MANUEL JOSÉ JANES “O VIOLAS” DA CCAÇ 1427 (CABEDÚ – 1965/1967)

MSG de Jorge Araújo com data de: 30MAR2017

Caríssimo Camarada Sousa de Castro,

Aqui te envio mais uma pequena história (dupla) para o nosso baú de memórias, tendo na sua génese factos e feitos da nossa passagem em missão militar na Guiné, independentemente das Unidades, das épocas e/ou dos lugares.

São estas pequenas histórias que dão lugar a outras histórias.

Com um forte abraço de amizade.


Jorge Araújo.

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansa/mbo, 1972/1974)
ENCONTROS COM E PARA A HISTÓRIA

1.   INTRODUÇÃO

Participei no passado sábado, dia 25 de março, no Monte da Caparica, Município de Almada, num encontro/convívio entre camaradas, ex-combatentes na Guiné nos já longínquos anos de 1969 a 1974, pertencentes a diversas Unidades que passaram por localidades como sejam: Canquelifá, Teixeira Pinto, Piche, Bafatá, Bula, Aldeia Formosa, Bolama, Bissau e Xime (sendo este o nosso caso).

Estiveram representadas cinco Unidades, a saber: CCAV 2525 (69/71), CCAV 2748 (70/72), CCAÇ 2660 (70/71), CCAÇ 3545 (72/74) e a CART 3494 (71/74).

Eugénio Pereira
O encontro foi promovido pelo meu amigo e camarada Eugénio A. Pereira, ex-furriel da CCAÇ 3545 (Canquelifá,1972/1974 - Os Abutres), com um duplo objectivo: o de saborear a boa gastronomia alentejana e, entre garfadas, continuar a partilhar, num ambiente de grande camaradagem, alguns dos episódios mais marcantes de cada um de nós, gravados durante o biénio da missão militar ultramarina no CTIGuiné. Acreditando no vasto reportório ainda não divulgado, como foi o caso, estamos perante a chama historiográfica que continuará activa durante muito… muito tempo!


A concentração verificou-se pelas 12h30, no Largo do Centro-Sul, na Cova da Piedade, Almada, seguindo depois a comitiva para o restaurante «Tasca do Reguengos» [imagem ao lado], onde nos esperava um cardápio de iguarias muito apelativas, tornando a escolha deveras difícil. Ela (a minha) acabou por recair num prato de “carne do alguidar com migas”, que estava óptima.     

O Eugénio Pereira, mentor e organizador do convívio, e o Jorge Araújo, brindando à saúde dos presentes e à sua repetição num futuro próximo


  2.   O CASO DO CAMARADA MANUEL J. JANES “O VIOLAS” DA CCAÇ 1427 (CABEDÚ - 1965/1967)

- A grande surpresa do encontro

Estando o almoço a decorrer com a tranquilidade que o acto impunha, eis senão quando se aproxima de nós um indivíduo trauteando alguns versos do seu fadário vivido durante a Guerra do Ultramar, em estilo musical de fado.

Era, nem mais nem menos, o proprietário do restaurante, também ele ex-combatente no CTIGuiné nos anos de 1965/1967, fazendo parte do contingente da Companhia de Caçadores (CCAÇ) 1427, Unidade que esteve aquartelada no Destacamento de Cabedú, na região de Tombali, no Sul, conforme se indica no mapa e imagem abaixo.

Tratava-se do camarada Manuel José Janes, também conhecido por 1.º Cabo “O Violas”, alcunha pela qual passou a ser conhecido entre pares, por ser habitual a utilização do seu instrumento musical, e que, a partir daquele momento surpresa do almoço, fez aumentar o número de unidades ali presentes.   


Foto do destacamento de Cabedú retirada, com a devida vénia, da net em http://gw.geoview.info/cabedu_antigo_quartel_portugues,17205192p

O camarada Manuel Janes (CCAÇ 1427) a declamar as quadras do seu fadário da Guerra e que fez questão de me oferecer esse exemplar para o divulgar no Blogue, pois prometi-lhe fazê-lo enquadrado por um texto alusivo a este evento.

Mais dois camaradas furriéis da CCAÇ 3545, heróis de Canquelifá (1972/1974): o António Braz (dtª) e o Rogério Lourenço, escutando o poeta e fadista “O Violas”.


Cumprindo a promessa feita ao camarada Manuel Janes, eis então o seu poema:


Companheiros da farda que nos deram;


Caminhantes dum destino não escolhido;

Camaradas da G-3 que nos puseram;
Nas mãos jovens, como então nos foi pedido.

Alguém nos tirou do afago materno;
Alguém nos fez pisar terra perdida;
Alguém nos juntou naquele inferno;
Alguém nos roubou dois anos à vida.

Companheiros de silêncios adormecidos;
Mas saudosos cada um da sua terra;
Vinte e dois anos andámos meio esquecidos;
Evitando recordar esses anos, essa Guerra.

Mas há dezoito anos que nos reunimos;
Num convívio sempre mais alegre e forte;
Perdoamos à História e não desistimos;
Continuamos até que nos separe a morte.

Quarenta anos passaram e recordamos;
Com cabelos brancos, desfiando memórias;
Passando aos filhos e netos que adoramos;
Só o que de bom marcaram nossas histórias.

Com orgulho escrevemos um remete;
Num minuto de silêncio e de saudade;
Recordando os que morreram na 1427;
Um dia os encontraremos na eternidade.

   29 de Abril de 2007
  (Manuel José Janes)
Nota: Este poema foi lido durante o encontro da CCAÇ 1427, realizado em 29 de abril de 2007, a propósito da comemoração dos quarenta anos após o seu regresso.
Entretanto, terá lugar no próximo dia 23 de abril de 2017 o encontro dos cinquenta anos, tendo este por cenário a Quinta da Alegria, em Penalva, Município do Barreiro.
Concluímos, afirmando que este encontro/convívio acabou por se transformar em “dois em um”, cada qual com as suas histórias… que ficaram para a história… e que foram aqui narradas em síntese.
Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.