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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

P440 - "O Forno de Cacheu" São 06h30m estou em Cacheu. Esta noite consegui dormir porque, malgrado o medo das mosquitas anopheles, abri a janela e o ar muito fresco da noite foi arrefecendo o quarto.

 Texto transcrito do Facebook de José Luis Carvalhido da Ponte, com a devida vénia!

 


José Luís Carvalhido da Ponte ex. Furriel Milº Enf. da Cart 3494/BART 3873, sediado no Xime e mais tarde em Mansambo – Guiné, dezembro 1971 a 03 de abril 1974.
Foi professor e diretor da Escola Secundária de Monserrate, Viana do Castelo. Tem vários trabalhos publicados aqui: http://bivam.pt/autor/jose-luis-carvalhido-da-ponte/
http://bivam.esmonserrate.org/clr/autores/AutorBibliografia.asp?codAutor=25 
José Carvalhido da Ponte da Associação de Cooperação com a Guiné Bissau com o apoio do Rotary Clube de Viana do Castelo, é responsável pelo trabalho desenvolvido no Cacheu, cidade geminada com Viana do Castelo.

Muito dedicado à causa humanitária na Guiné, para onde se desloca regularmente no sentido de contribuir para o bem-estar daquele povo, nomeadamente na área da saúde.

CACHEU

O Forno de Cacheu

São 06h30m estou em Cacheu. Esta noite consegui dormir porque, malgrado o medo das mosquitas anopheles, abri a janela e o ar muito fresco da noite foi arrefecendo o quarto.

Saio para comprar pão. Subo a poeirenta Rua de Viana do Castelo e perguntam-me Kuma ke bu mansi?. É uma mindjer garandi i kumpridu que me cumprimenta enquanto varre o seu kau. Todos os dias, logo de manhazinha, as mulheres assomam às portas, vertem água em largas bacias e lavam os apetrechos da última refeição. E lavam bem. Outras, com curtas vassouras de capim, dobradas até a cabeça quase tocar o chão, varrem toda a envolvente da sua kasa, movidas, naturalmente, por uma entranhada noção e limpeza e higiene. Mas são sempre, ou quase-quase sempre, as mulheres a trabalhar. Vemo-las a tratar dos filhos, a varrer as kasas e o kau, a regar e trabalhar as hortas, a buscar a lenha, a lavar a roupa, a fazer compras. As mulheres.

Ontem, à noite, fomos jantar a Bachile, uma tabanca do Setor de Cacheu, convidados pela Romana, uma jovem mãe de uma menina nascida há precisamente sete dias e a quem foi dado o nome de Maria Afonso.

Quando chegamos, um corridinho de mulheres preparava o festim enquanto os homens, entre eles o pai da Maria Afonso, recém-chegado de Dakar, conversavam, bebiam, passeavam. As mulheres, a Romana e a mãe Cristina e todas as outras cirandavam, formiguinhas em modos de acolhimento.

Eis, finalmente, o forno. É uma construção sob um telhado de zinco e vedada com um muro de adobes. Todos os dias, o padeiro coze 900 pães (900 baguetes). Para tal aquece o forno duas vezes. O processo é muito simples e semelhante ao que acontecia no forno de minha casa. Apenas uma diferença: a massa, já moldada, é colocada em bases de chapa com 3 camas cada uma e assim evitam sujá-la na cinza do lar. Em algumas casas da minha aldeia colocavam a massa sobre folhas de couve. Cada baguete tem, sensivelmente, 30cm x 08cm e custa 150 FCFA. É um pão saboroso, trabalhado por homens.

Regresso pela mesma rua ouvindo inúmeros cumprimentos madrugadores: Oi, branco, kuma ke bu mansi? Recordam-me a dignamente humilde simpatia desta gente.

Tenho saudades da minha família, mas sinto-me em casa, nestas terras de Honório Barreto.

Cacheu, 18/02/2024

Notas:

Kuma ke bu mansi? = Como descansaste? Como acordaste?

mindjer garandi i kumpridu = mulher idosa e alta

Kau = lugar, sítio

FCFA = o franco CFA (Communauté Financière d'Afrique) é a moeda utilizada na UEMOA, União Económica e Monetária da África Ocidental (Benim, Burquina Fasso, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Mali, Níger, Senegal e Togo). 1 € equivale, normalmente, a 655 FCFA

Vd. Post.: CART 3494 & camaradas da Guiné: P423 - (...) Ainda gemia, sabia lá eu porquê, de tão desfeito que estava. A cabeça esventrada. Juntei-lhe os bocados e aconcheguei-os no que restava da caixa craniana.(...) TEXTO RECUPERADO DA "RÁDIO ALTO MINHO" DE JOSÉ CARVALHIDO DA PONTE EX. FUR. MILº ENF. DA CART 3494 ONDE DESCREVE COMO VIU A MORTE DO SEU AMIGO FURRIEL, MANUEL DA ROCHA BENTO VITIMA DA EMBOSCADA PERPETRADA PELO PAIGC NA PONTA COLI - GUINÉ QUE TRANSCREVO COM A DEVIDA VÉNIA. (cart3494guine.blogspot.com)

sexta-feira, 29 de abril de 2022

P423 - (...) Ainda gemia, sabia lá eu porquê, de tão desfeito que estava. A cabeça esventrada. Juntei-lhe os bocados e aconcheguei-os no que restava da caixa craniana.(...) TEXTO RECUPERADO DA "RÁDIO ALTO MINHO" DE JOSÉ CARVALHIDO DA PONTE EX. FUR. MILº ENF. DA CART 3494 ONDE DESCREVE COMO VIU A MORTE DO SEU AMIGO FURRIEL, MANUEL DA ROCHA BENTO VITIMA DA EMBOSCADA PERPETRADA PELO PAIGC NA PONTA COLI - GUINÉ QUE TRANSCREVO COM A DEVIDA VÉNIA.


RÁDIO ALTOMINHO COM A DEVIDA VÉNIA

(...) Ainda gemia, sabia lá eu porquê, de tão desfeito que estava. A cabeça esventrada. Juntei-lhe os bocados e aconcheguei-os no que restava da caixa craniana.(...)

OPINIÃO: POR OTELO!

JOSÉ LUÍS CARVALHIDO DA PONTE

29 JULHO 2021, 11:40

"Em dada altura simpatizaste com a violência dos que não se compaginavam com as ameaças de regresso do 24 de abril, é verdade. E não o devias ter feito. Mas, sabes, um dia, Cristo “passou-se dos carretos” e chicoteou todos os vendilhões do seu templo."

Recordar é, etimologicamente, o ato (-ar) de voltar a trazer (re-) ao coração (-cord-). Recordar é, pois, um exercício de memória. Mas este como que regurgitar emotivo é uma mentira. Na verdade, o coração atraiçoa-nos a memória. Se o que recordamos nos foi, no ato do desenlace, agradável, revivê-lo-emos com uma prazerosa e, não raro, aumentada nostalgia. Se, pelo contrário, nos magoou, remastigá-lo será sempre um momento de agigantado masoquismo. A mesma praia será morada dos deuses para quem nela pela primeira vez amou, e amaldiçoado inferno para quem no seu mar perdeu um ente amado.

Vem isto a propósito das reações contrárias que a morte de Otelo provocou em todos nós. Uns recordam, tão só, o estratega der Abril; outros aplaudem a justiça, ainda que tardia, de Cronos, que tornou possível a nossa liberdade, reconhecendo-lhe, muito embora, os momentos menos felizes, que até acabou por pagar à sociedade, na prisão.

Faço parte desta plêiade. Reconheço que Otelo foi um homem de excessos. Polémico, pois. Mas pagou, com a prisão, e foi amnistiado pelo estado português em 2004. Mas, mesmo que assim não fosse, foi o Atlas da nossa liberdade. Arriscou. Planeou. Convenceu. Liderou. Conseguiu. E fomos livres, e somos livres e tão livres que todos nós podemos, publicamente, expressar-nos e até podemos opinar sobre o comportamento do Governo e do atual Presidente da República, na gestão deste processo.

Mas eu tenho inúmeras outras razões. Hoje partilho uma.

Era o dia 22 de abril de 1972. Eu não tinha ainda 22 anos e estava na Guiné-Bissau, como enfermeiro, desde o início de janeiro desse ano, integrado na Companhia de Artilharia 3494 (CART 3494).

Manhã cedo, o 4º Grupo de Combate partiu para a mata de Ponta Coli, para garantir a segurança à estrada Xime­-Bambadinca.  Aguardava-os uma emboscada dos guerrilheiros do PAIGC.

Alguns de nós, que ainda dormíamos, acordamos com os estrondos das rebentações e, logo-logo o Capitão Vítor Manuel da Ponte da Silva Marques, que nada me era, mandou avançar reforços em,
salvo erro, duas unimog’s militares. E que o enfermeiro também teria de ir. Naturalmente.

Chegamos à ponta Coli. Que desolação. Tantos feridos! Mas grave mesmo era o Furriel Manuel Bento, meu companheiro de abrigo, natural de Ponte de Sor, onde deixara uma jovem esposa e uma bébé que nunca mais veria. Ainda gemia, sabia lá eu porquê, de tão desfeito que estava. A cabeça esventrada. Juntei-lhe os bocados e aconcheguei-os no que restava da caixa craniana. Para que nada se perdesse e regressasse ao húmus, o mais inteiro possível. Éramos grandes amigos e falava-me da esposa e da filha, que terá hoje 50 anos, e da esperança de as rever, logo que pudesse gozar algum tempo de férias. Não chorei. Só à tardinha, no silêncio ocasional da barraca, que ambos partilháramos, sob uma imensa mangueira. Só à tardinha, ou às vezes, nestes 50 anos, quando o coração me prega a partida e permite a memória.

Abençoado sejas Otelo! A tua coragem livrou da morte muitos outros jovens e deu-nos a capacidade de sonharmos para além dos impossíveis. Em dada altura simpatizaste com a violência dos que não se compaginavam com as ameaças de regresso do 24 de abril, é verdade. E não o devias ter feito. Mas, sabes, um dia, Cristo “passou-se dos carretos” e chicoteou todos os vendilhões do seu templo. Ele, que falava de paz e mandava que nos amássemos uns aos outros, não quis pactuar com os que prostituíam os seus espaços sagrados. Disse que um dia voltaria para nos resgatar. Espero que demore um pouco mais a vir, não vão os doutores da lei da nossa modernidade mandar que o prendam, porque um dia foi violento.

Como me magoou a fraqueza titubeante dos nossos governantes que não souberam dar-te as honras devidas, no momento da tua última aventura.

 

Meadela, 28 de julho de 2021
José Luís Carvalhido da Ponte

 
José Luís Carvalhido da Ponte ex. Furriel Milº Enf. da Cart 3494/BART 3873, sediado no Xime e mais tarde em Mansambo – Guiné, dezembro 1971 a 03 de abril 1974.
Foi professor e diretor da Escola Secundária de Monserrate, Viana do Castelo. Tem vários trabalhos publicados aqui: http://bivam.pt/autor/jose-luis-carvalhido-da-ponte/
http://bivam.esmonserrate.org/clr/autores/AutorBibliografia.asp?codAutor=25 
José Carvalhido da Ponte da Associação de Cooperação com a Guiné com o apoio do Rotary Clube de Viana do Castelo, é responsável pelo trabalho desenvolvido no Cacheu, cidade geminada com Viana do Castelo. Muito dedicado à causa humanitária na Guiné, para onde se desloca regularmente no sentido de contribuir para o bem-estar daquele povo, nomeadamente na área da saúde.


 Vd.post.:http://cart3494guine.blogspot.pt/2010/09/p-78-rotary-clube-de-viana-deixa-obra.html 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

P185 - NÃO TENHO 200.000 FRANCOS CFA (CERCA DE 300€) PARA A OPERAÇÃO!


Caríssimos amigos,
No Facebook vi esta msg com data de 20JUL2013 do nosso amigo Luís Carvalhido da Ponte, que regressou de mais uma visita à Guiné mais precisamente da região do CACHEU.
Convém lembrar que o Carvalhido da Ponte foi Furriel Enfermeiro na CART 3494 e também professor das crianças no Xime em 1972/74, é presidente da organização que deu origem à geminação de Viana do Castelo com a Vila de Cacheu, tendo aqui, ao longo de vários anos desenvolvido acção humanitária, nomeadamente a criação da maternidade existente para apoio à mulher Guineense.


Assim, para quem puder participar na ajuda à Mary, pode faze-lo da seguinte forma:

1º Transferir o que muito bem entenderdes para a conta da ACGB Nib: 0036 0056 9910 0155 9387 9
2º Logo-logo enviais para o endereço eletrónico acgb.geral@gmail.com uma mensagem identificando a transferência
SC


Cheguei ontem de Cacheu. Estava abafado o tempo. Eu vim também de semblante pesado.

Em 2000 conheci a Mary. Tinha 33 anos e 7 filhos. Publiquei alguns poemas sobre esta jovem da etnia Felupe, no meu penúltimo livro (Ora di djunta mon tchiga). Cinco anos depois, tinha 38 anos e 11 filhos. E continuava bonita ainda que um pouco desfolhada por tanta florescência. Dançava como eu nunca vira ninguém dançar. A batida ritmada dos pés descalços sobra a terra poeirenta, as contorções do corpo em rituais de sedução e a alegria dos movimentos eram tais que até as árvores pareciam ternurar-se para além das nuvens, nos ares de Fernão Capelo Gaivota, onde os sonhos se constroem.
Mais tarde, uma associação de mulheres nomeou-a sua Presidente e o seu país enviou-a até Espanha para aprender coisas necessárias ao seu mister. Via-a, em março deste ano, alegre e já um pouco europeizada. Entristeci-me um pouquito pois preferia que estivesse um pouco mais culta mas sempre africana. E talvez estivesse. Eu é que não contava com uma Mary diferente. Agora estava doente há uns dias. Doía-lhe o corpo. Doía-lhe a barriga. Levei-a a Canchungo, ao meu amigo médico Dr Koumba Iala Bispo. Que a atendeu de imediato. Que a assustou. Tem cancro do ovário e necessita de intervenção urgente. Os 9 filhos vivos e os netos também. Zé Luis! Como? Não tenho 200.000Francos CFa (cerca de 300€) para a operação, o internamento e os medicamentos. E mudou a conversa e perguntou-me pela Lai. E partiu e uma lágrima caiu, solitária, no chão contrito do alpendre do Centro de Recursos. E prometi-me contar a história. Quem sabe? Cinco euros daqui, 10 dali... Quem sabe?!
Um abraço.
 
Cavalhido da Ponte com a Mary

sexta-feira, 12 de abril de 2013

P173 (2) [Estórias do Carvalhido da Ponte, ex. fur. Milº CART 3494] Era professor no Xime de quatro classes no PEM 8, (Posto Escolar Militar nº 8)



Por: José Luís Carvalhido da Ponte

11ABR2013


Regressado da Guiné, há já quase três semanas, começo a ter tempo para algumas outras memórias.

Aqui vão.

Aquando da minha ida ao Xime, dei um demorado abraço a alguns homens do tempo da guerra (ao Bacar Biai, ao Malan Mané e ao Adelino Vieira que nos atravessava para o n’xalé e matava as vacas) e à Carfala que havia sido a minha lavadeira.
Mas não só. Um lágrima nostálgica me fez entrar na antiga escola primária. Está em ruínas. Que pena!


Eis uma história. Um dia, o capitão Vitor Manuel da Ponte da Silva Marques, comandante da Cart 3494, muniu-se dos seus brios e disparou-me obrigações: “a partir da próxima semana vai dar aulas na escola primária!”. “Eu capitão?!” “Porque não? Eu já reparei que o meu furriel tem jeito para dar explicações”. Nunca percebi se se referia a um certo hábito em explicar e conversar com todos (e nós sabíamos que alguns destes todos eram do PAIGC) ou se me achava mesmo com queda. A verdade é que na semana seguinte lá estava eu na sala, com mais de 30 alunos desde os 6/7 anos e alguns com mais de vinte. Se a memória não me atraiçoa. Era professor de quatro classes no PEM 8, no Posto Escolar Militar nº 8. Guardo ainda a chapa que ostentei ao peito durante os quase dois anos em que engordei as esperanças de tantos alunos.


XIME 2013
Há cerca de dois anos, o irmão do Bacar Biai contactou-me, pelo correio eletrónico e lá me foi dizendo que tinha sido meu aluno e que agora era engenheiro florestal e trabalhava em Lisboa e que gostava de um dia me encontrar.
Qual não é o meu espanto quando, na sequência do texto que coloquei no “face”, vejo aparecer de novo o José Carlos a dizer que o Bacar era seu irmão e que!...

Tenho mesmo de te reencontrar, oh Biai, irmão do Bacar!

Foram dois anos de largas experiências e estórias. Recordo que sempre que havia ataques ao quartel fugíamos da sala e eu, e outros também, escondíamo-nos no bojo escavado do imenso poilão que ainda hoje docemente sombreia o decadente edifício (O abrigo no tronco é que já não o vi. Disseram-me os miúdos que a árvore se recompôs).
Recordo que andei em bolandas para conseguir uma boa tábua para fazer um escorrega. E consegui e houve escorrega... Sem proteções laterais e as vezes caía-se. E construímos a nossa horta pedagógica e colhemos legumes e até plantamos ananases (Não me lembro se algum teve direito de cidadania à nossa mesa. Mas que os plantamos... plantamos).

Há contudo um episódio que não esqueci de todo.


XIME 2013
Os manuais que me entregaram, eram os usados nas escolas portuguesas, pelo que um dia calhou trabalhar um texto que falava de televisão (fenómeno que há uns 17 anos havia chegado a Portugal). Como explicar-lhes o que era esse aparelho? Em desespero de causa arrisquei: “não há por aqui um grupo de futebol?” Que havia, sim senhor. E disseram-me qual. “E em Bissau?” “Também”. “Então imaginem que o grupo de Bambadinca vai jogar com o de Bissau, em Bissau. Se aqui houvesse televisão vocês poderiam seguir o jogo”. “Impossível!”, disparou logo um.
Os malabarismos que fiz para os encantar, que nós somos o que lemos e a nosso mundo têm a dimensão do nosso vocabulário!
Mais tarde, uma simpática velhinha, na Meadela, perguntava-me: “Zé Luis: um país é assim como Perre e Outeiro?”. Como n”Os deuses devem estar loucos”, o mundo, para esta velhinha, terminava logo depois do nevoeiro, que o não domínio das palavras é condimento certo para a noite enevoada do não saber.
Que saudades eu tenho dos meus alunos de 72 e 73! Mesmo dos incrédulos, que a fé é um dom que nem sempre bafeja a todos.


Um abraço.


Vd. Post.: http://cart3494guine.blogspot.pt/2013/03/p171-recordar-e-trazer-de-novo-ao.html 
http://cart3494guine.blogspot.pt/2010/10/p82-o-cmdt-victor-manuel-ponte-da-silva.html

segunda-feira, 25 de março de 2013

P171 - (1) RECORDAR É TRAZER DE NOVO AO CORAÇÃO! (ex. Fur. Milº Carvalhido da Ponte)



Caros camarigos,
Falei ao telefone com o nosso camarada d’armas Carvalhido da Ponte, no sentido de autorizar a publicação de um texto que publicou no Facebook sobre a sua última viagem em Março 2013 à Guiné, ao Cacheu, fazendo também uma visita ao Xime, zona onde cumpriu serviço militar. Acedeu prontamente, prometendo colaborar na divulgação do trabalho humanitário que vem desenvolvendo na Vila de Cacheu. Recordo que Viana do Castelo está geminada com esta Vila. 
 Vd.post.:http://cart3494guine.blogspot.pt/2010/09/p-78-rotary-clube-de-viana-deixa-obra.html Assim sendo passo a apresentar:


Xime 1972
José Luís Carvalhido da Ponte ex. Furriel Milº Enf. Pertenceu à Cart 3494 sediado no Xime, do BART 3873, Professor e director da Escola Secundária de Monserrate, Viana do Castelo, Tem vários trabalhos publicados aqui:http://bivam.esmonserrate.org/clr/autores/AutorBibliografia.asp?codAutor=25 muito dedicado à causa humanitária na Guiné, para onde se desloca regularmente no sentido de contribuir para o bem-estar daquele povo, nomeadamente na area da saúde.

SC








José Carvalhido da Ponte
Sábado 23MAR2013 às 20:11 ·

Recordar é trazer de novo ao coração, diz-nos uma leitura etimológica da palavra. Recordar é rememorar e neste rememorar revivemos os factos conforme a paleta das nossas emoções. Assim, às vezes perece que esquecemos a recordação e outras esticámo-la, quase ao infinito, como se não a quiséssemos perder. Já Pessoa dizia que o comboio de corda que se chama coração, não raro, invade-nos a razão.
Tinha 23 anos quando aportei, pela primeira vez, ao Xime, uma aldeia de Bambadinca. A LDG (lancha de desembarque grande) atracou ao pequeno porto, ali mesmo na margem esquerda do Geba. Era Fevereiro de 72.
Deram-nos ordem para nos levantarmos do porão e começarmos ordeiramente a sair. Em terra esperavam-nos, felizes e galhofeiros, os que iríamos substituir.
Depois, nos 27 meses seguintes, deambulamos por Mansambo, pelo Xitole, pelo Enxalé (n’xalé), por Bambadinca, por Bafatá, pelo Saltinho. Depois regressamos, uns em fins de março e outros, como eu, no 3 de Abril de 74.
Para trás ficaram tantas memórias, tantos medos, tantas aventuras, tantos amigos, vários mortos!
Quando em 2.000 regressei à Guiné, não fui ao Xime. Por nada não. Apenas não calhou. Apenas calhou acontecer em 2008, quando uma colega da ESM, que passeava com outros colegas pelo Senegal, a 17 de Agosto, regressou a Cacheu e desafiou-me: vamos a Tabato, ali para as bandas de Bafatá, ver os tocadores de Balafon e passas no teu Xime e assim comemoras os teus 58 anos?
Regressar ao Xime? Porque não? Era uma porta que necessitava reatravessar para exorcizar um ou outro fantasma e, em definitivo, oficiar pelo Manuel Bento, caído em combate, logo nesse ano de 72.
E fomos. E neste ano de 2013 regressei, agora com o Dr Manuel Pimenta. Das duas vezes tive de respeitar várias manadas de bovinos e se da primeira ainda pude recordar os desembarques nos restos mortais do pontão do Xime, agora o tarrafe invadira o espaço a impedir as minhas quarentonas nostalgias.
De repente ... ollha ali a escola onde lecionei as 4 classes ao mesmo tempo. Entro na decrépita escola. Que saudades! Continua sob um enorme poilão. Procurei caras, anichadinhas bem dentro de mim. Não apareceram. Nem a da Teresa, uma jovem professora caboverdiana que me acompanhou nessas andanças letivas durante um ano, por toda a Bambadinca e que cozinhava frango com piripiri dum jeito que nunca vi. De repente assoma à porta um homem dos seus 55 anos e atira-me: oi professor Ponte! Fui seu aluno, lembra-se? Claro que lembro! E não tive coragem de lhe perguntar o nome nem de lhe dizer que não, que não me lembrava. E falou-me de homens e mulheres de 72 que já partiram, que morreram, que estão por ali. É então que, de repente surge a minha lavadeira do tempo, a Clara, em 72 com 11/12 anos e hoje, com uma bacia à cabeça e desdentada, como eu; mais adiante o Malam Mané que escreve poesia em marabutu e à frente o Bacar Biai, encostado a um barrote de uma tabanca. E outros. E perguntou-me pelo Furriel Sousa Pinto. Morreu há um ano, mais ou menos, lhe disse. Ah! Eu gostava dele.
Depois, sozinho, percorri partes da tabanca e do antigo aquartelamento. Sozinho, para que ninguém visse uma ou outra lágrima de saudade. Sim de saudade. Bolas, éramos jovens com 21 a 23 anos. Passamos ali dois dos mais importantes anos da nossa vida. Perdemos ali grandes amigos. Aprendemos ali que o medo é uma antecâmara para toda a coragem.
E por hoje, chega de memórias.
Olhando o Geba e o que resta do cais do XIME

Bacar Biai, escreve poesia em Marabutu

Estrada Xime/Bambadinca

O Adelino da Lancha "SINTEX" e matador de Vacas???

Com o Malan Mané


A lavadeira de seu nome; Carfala, esposa de Malan Mané
- Msg de José Carlos Mussá Biai, irmão do Bacar Biai na foto abaixo, com data de: 27-03-2013 15:44
- José Carlos encontra-se em Portugal à muitos anos, é engenheiro florestal, exercendo funções no Instituto Geográfico Português.  

Vd. post.: http://cart3494guine.blogspot.pt/2013/01/p167-no-xime-tambem-havia-criancas.html


Meu caro Sousa de Castro,

Obrigado, por mais uma vez fazer-me recordar a minha terra natal.

As fotos fazem-me rever o meu irmão Bacar Biai, que está escrever numa "tábua", contrariamente o que diz a legenda, o meu primo Malam Mané, que se encontra encostado e a conversar com o Prof. José Luís, a esposa do Malam Mané, Carfala (Clara, como diz na legenda) que está com bacia na cabeça e o Adelino Vieira(Avelino, como diz na legenda), bem como o próprio Prof. José Luís com que tenho falado, mas ainda não nos vimos.
Também foi bom rever o que resta do cais de Xime.
O meu irmão Bacar foi picador, enquanto o meu primo Malam cumpriu serviço militar em Farim, Bissau e por fim em Bambadinca, até quando deu o 25/04/74.

Um abraço e cumprimetos,

José C. Mussá Biai

Ps: Fotos de Luís Carvalhido, direitos reservados