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quarta-feira, 25 de maio de 2016

P264 - A CANQUELIFÁ DA CCAÇ 3545 [1972-1974] E OS ACONTECIMENTOS DE JANEIRO DE 1974 - A MORTE DO RANGER PINTO SOARES [FUR OP ESP] - Por: Jorge Araújo


Camarada Sousa de Castro

Os meus melhores cumprimentos.

A pretexto da publicação do P16098 da Tabanca Grande, versando o tema relacionado com a actividade de guerrilha do PAIGC na região de Canquelifá no início de 1974, tomei a iniciativa de nele participar com mais algumas informações. Como tive de recorrer a citações extraídas de documentos oficiais, que na época eram confidenciais, algumas delas já publicadas no nosso Blogue, aqui tens, para o alinhamento possível, esse meu texto.

Obrigado.

Com um forte abraço de amizade.

Jorge Araújo.

Mai’2016
  1. INTRODUÇÃO
Na sequência do que li na última publicação relacionada com o PERINTREP 12/74 [P16098-LG], aqui trazido pelo camarada Nuno Rubim, Cor Art Ref, onde são relatados (alguns) factos e feitos da actividade operacional do PAIGC, com destaque para as suas acções bélicas sobre Canquelifá e territórios circunvolventes, no período de 17 a 24MAR1974, tomei a iniciativa de juntar outros subsídios para o aprofundamento da historiografia da guerra, no geral, e da CCAÇ 3545/BCAÇ 3883 (1972/1974), no particular.
Uma vez que não conheci aquela região, e o local mais próximo onde estive foi em Nova Lamego [duas horas!], não poderei acrescentar nada de importante quanto à logística e/ou à evolução da problemática militar naquele contexto, ainda que compreenda as dificuldades por que passaram os camaradas que viveram, conviveram e sobreviveram, durante os últimos quatro meses da sua comissão, naquele inferno de terra queimada, conforme se infere da observação das imagens já divulgadas no blogue, como é o exemplo seleccionado.


Notas do Editor:

Vd. Poste de 21 de Janeiro de 2012: https://cart3494guine.blogspot.pt/2012/01/p-139-situacao-militar-no-teatro-de.html

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

P 143 - OS ÚLTIMOS MILITARES PORTUGUESES A ABANDONAR A GUINÉ

MSG de Luís Vaz, filho do último CEM/CTIG Cor. Henrique Gonçalves Vaz) com data de: 21FEV2012

Caros Editores:

Conforme o prometido, segue em anexo finalmente, o meu artigo sobre "OS ÚLTIMOS MILITARES PORTUGUESES A RETIRAR DA GUINÉ (Dia 14 de Outubro de 1974)" -“RETIRADA FINAL DO TEATRO DE OPERAÇÕES  DA GUINÉ”
.
Para este artigo, além de consultar as notas pessoais do meu falecido pai, também entrevistei um primo meu, que era na altura marinheiro radio-telegrafista da "guarnição do Patrulha Lira (LFG Lira), com quem estive ainda na Guiné, mas que ficou lá até ao último dia, o dia 14 de Outubro de 1974, juntamente com muitos outros militares, um deles, o meu falecido pai, o último CEM/CTIG. Este meu primo, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, relatou-me na 1ª pessoa, as últimas horas  da retirada para o Navio UIGE, dos militares portugueses ainda presentes nesse dia em terra, para assegurarem a última cerimónia, o "Arrear da Bandeira Portuguesa", bem como me forneceu um conjunto de fotografias, que ilustram o "Artigo" e que poderão ser publicadas. Espero que não tenha "distorcido muito" estas últimas horas da nossa "Retirada Final" da Guiné, se o fiz, foi sem intenção. Por outro lado, peço desculpa não "elencar o nome" de todos aqueles militares que nesse mesmo dia, "deram o seu máximo" para não Manchar o Bom Nome da Nação, numa altura difícil da nossa longa história... se um de vós lá estava, então deixe aqui "o seu depoimento", pois assim enriquecerá este relato de mais um dos "episódios históricos da descolonização portuguesa".

Grande Abraço
Luís Gonçalves Vaz


(Dia 14 de Outubro de 1974)

“RETIRADA FINAL DO TEATRO DE OPERAÇÕES DA GUINÉ”

A ponte-cais em T, em Bissau, imagem tirada de bordo do navio Uíge,  onde se podem ver os últimos militares a aguardarem a vez de embarcarem. Na imagem são visíveis as viaturas GMC, Unimog,  Willys, viaturas do Exército características da época.  Ao fundo, a avenida marginal para o Pijiguiti, e o Forte da  Amura. Fotografia de ex-Alf. Médico, Alberto Lema Santos, BCaç 1933, 67/69  in: http://especialistasdaba12.blogspot.com. com a devida vénia

Os últimos Aquartelamentos a serem entregues ao PAIGC, foram o “Complexo militar de STª Luzia”, onde se encontrava o QG/CTIG (Quartel General do Comando Territorial Independente da Guiné), e o QG/CCFAG (Quartel General do Comando-chefe das Forças Armadas da Guiné) instalado no histórico Forte da Amura, que se localiza mesmo em frente à ponte-cais em Bissau (ver figura). A entrega destes dois últimos redutos das Forças Armadas Portuguesas na Guiné, foram  “negociados” em 11 de Outubro (apenas 3 dias antes da saída dos últimos militares portugueses deste território),  numa reunião  no Forte da  Amura com os comandantes do PAIGC, Gazela,  Bobo Keita e o comandante  Correia,  sob a coordenação do então CEM/CTIG (Chefe do Estado-Maior do CTIG) coronel Henrique Gonçalves Vaz.  Os “Planos  de Entrega destes Aquartelamentos”, foram realizados pelo Coronel CEM/CTIG, coronel Henrique G. Vaz com a colaboração do sr. Major Mourão, e entregues  ao Brigadeiro Fabião , no dia 10 de Outubro de 1974, um dia antes da reunião com os comandantes do PAIGC.  A entrega do “complexo militar de STª Luzia” foi efectuada no dia 13 de Outubro, pelas 15 horas, enquanto o Forte da Amura, o último “reduto militar português” a ser entregue, foi entregue apenas no dia 14 de Outubro, o dia previsto para a “retirada final”, e reservado para o embarque do que restava das tropas portuguesas na Guiné. Como tal foi concentrado aí na véspera da partida, o último contingente do Exército Português .

A lancha de fiscalização grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais,  poucos dias antes da “retirada final” em 14 de Outubro de 1974. (Fotografia do marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz)

O ex-marinheiro radiotelegrafista , Manuel Beleza
Ferraz, (da guarnição do Patrulha Lira), testemunha da
Missão“Retirada Final” da Guiné, em 14/10/1974
O que vos vou passar a relatar, será uma pequena narrativa, dos últimos momentos da nossa “retracção do dispositivo militar”, deste último reduto de militares portugueses, para os navios da Armada Portuguesa e para o navio Uíge (o navio Niassa já se encontrava ao largo de Bissau) , que se encontravam frente à Ponte-cais, mas a alguns metros do cais, com os motores ligados (pairavam todos os navios). Esta descrição foi-me feita pelo meu primo  e ex-marinheiro radiotelegrafista da Armada Portuguesa, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, que fazia parte da guarnição da LFG (Lancha de Fiscalização Grande) Lira, um dos navios que fez a segurança de rectaguarda, durante o embarque dos últimos militares portugueses na Guiné.
Foto actual;
Ex-marinheiro radiotelegrafista 812/70
Manuel Beleza Ferraz
No dia 14 de Outubro, decorreu a última cerimónia de “Arrear da Bandeira Portuguesa”, ao qual se seguiu o “Hastear de Bandeira da República da Guiné-Bissau”, como tal nesse mesmo momento, todo o que restava do contingente militar português, encontrava-se agora em território estrangeiro. Nessa cerimónia encontrar-se-iam o Governador (Brigadeiro Carlos Fabião), o Comandante Militar (brigadeiro Galvão de Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (coronel Henrique Gonçalves Vaz), outros oficiais, alguns sargentos e praças. Os primeiros depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios que se encontravam ao largo no estuário do Rio Geba, seguiram para o Aeroporto, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança. Mal acabou a cerimónia referida anteriormente, e segundo testemunho do ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Aurélio A. Beleza Ferraz, que se encontrava nesta altura na LFG LIRA, todas as guarnições dos nossos navios que se encontravam na zona, estavam por ordens superiores, em posição de combate (para qualquer eventualidade), estando todos os operacionais equipados com coletes salva-vidas, capacetes metálicos e as Bofors (peças de artilharia antiaéreas de 40 mm) sem capa e municiadas, prontas a realizar fogo de protecção à retirada das nossas tropas, que ainda se encontravam em terra. Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a “segurança de rectaguarda” mais próxima, ás tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira. Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Quanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “retirada Final”.

Evacuação de pessoal civil de Jemberem ou de Gadamae (?), passagem dos civis de uma lancha de desembarque, para a LFG Lira, em pleno Rio Cacine, muito abaixo da “marca lira”. (Fotografia do ex-marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz)
Após o “Arrear da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos 3 Ramos das Forças Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida, foram transportadas em Zebros e LDM (lanchas de desembarque médias) para o Navio Uige, que os aguardava no meio do Rio Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento (pairavam) por razões de segurança.

4 Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG), uma pequena, e uma LDM na Ponte-Cais em Bissau, no ano de 1974, poucos dias antes da “retirada final” do dia 14 de Outubro do mesmo ano. É visível o navio Uige ao fundo, preparado para transportar os últimos militares portugueses da Guiné. (Fotografia do ex-marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz).
O ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão, aos Comandantes das duas LFG (Órion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu comandante, 1º Tenente Martins Soares. Como tal, os comandantes destes três navios  que constituiam nesse dia,  a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas, “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40 mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de rectaguarda á retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o UIGE. Felizmente tudo correu bem, não sendo preciso fazer fogo nenhum, já que a retirada se desenrolou como o previsto, sem altercação de qualquer natureza. De seguida, no final dos transbordos, os Zebros e as lanchas (LDM) foram presas numa boia em frente ao cais (abandonadas), e imediatamente a “Flotilha portuguesa”, escoltou  o  navio Uige e o Niassa (este já navegava mais à frente) até águas internacionais, seguindo a maioria dos navios da Armada para Cabo-Verde, de onde alguns deles, partiriam pouco depois, em direcção a Angola.
As Tropas portuguesas na ponte-cais, em Bissau a prepararem-se para embarcar no Navio Uíge, com destino a Lisboa. Fotografia de: ex-Alf. Médico, Alberto Lema Santos, BCaç 1933, 67/69  in: http://especialistasdaba12.blogspot.com   com devida vénia

O marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, ainda informou que a “flotilha” que rumou em direção a Cabo-verde, além dos navios já referidos (NRP Comandante Roberto Ivens, LFGs  Órion e Lira e patrulha Cuanza) faziam parte também as LDGs “Ariete”,“Alfange” e “Bombarda”,  tendo estes navios da Armada atracado em 20 de Outubro no porto de Mindelo na ilha de  S. Vicente, Cabo Verde.

A comitiva constituída pelo Governador (Brigadeiro Carlos Fabião), o Comandante Militar (brigadeiro Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (coronel Henrique Gonçalves Vaz),  bem como alguns outros oficiais do Estado-Maior, sargentos e praças, depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios, que se encontravam ao largo do estuário do Rio Geba, e assegurando-se que tudo tinha corrido sem problemas e de acordo com o previsto nos “Planos de Retirada”, elaborados pelo CTIG/CCFAG que nesta altura, se afirmava como o único Comando das Forças Armadas Portuguesas neste TO da Guiné, seguiram directamente para o Aeroporto de Bissalanca, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança.

Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que no dia 14 de Outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné. Estima-se que seriam algumas centenas de militares dos 3 Ramos das Forças Armadas Portuguesas. Neste grupo estavam representadas as várias especialidades do navio, nomeadamente, artilheiros, eletricistas, telegrafistas e manobras. Este navio, o NRP Lira, sob o comando do 1º Tenente Martins Soares, teve um papel importante na missão de “Retirada Final”, já que era o navio de apoio de rectaguarda que se encontrava mesmo em frente à Ponte-cais de Bissau, como tal o navio mais próximo do Forte da Amura. O marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz é o que está a olhar para o fotógrafo.
Às 23 horas do dia 14 de Outubro de 1974, estes militares serão os últimos a retirar da Guiné, nesse momento estiveram presentes alguns Comandantes do PAIGC, que quiseram despedir-se dos “seus antigos inimigos”, e assim foi o Fim da colonização da guiné com cerca de 500 anos. Mas antes, de finalizar este artigo, gostaria aqui de referir o árduo trabalho atribuído ao último CEM/CTIG, Coronel Henrique Manuel Gonçalves Vaz, já que foi o responsável, por “despacho escrito do Brigadeiro/ Governador”, Carlos Fabião, pela elaboração dos “Planos de Retirada do nosso Exército”, da “Carta sobre a Redução de Efectivos e Comissões Liquidatárias”, dos “Planos de entrega dos Aquartelamentos da Ilha de Bissau”,  do “Estudo da Comissão Liquidatária do QG/CTIG em Lisboa”,  das "Cargas dos aviões", entre outras responsabilidades .

Enfim o Brigadeiro Carlos Fabião, determinou que este oficial do Corpo do Estado Maior e Chefe do Estado-Maior do CTIG/CCFAG, coronel Henrique Gonçalves Vaz, se responsabilizasse por todos estes assuntos, como tal fica aqui a minha homenagem a ele, bem como a todos os oficiais, sargentos e praças, que sob o seu comado, o ajudaram a realizar essa importante tarefa, nomeadamente o sr. Tenente-coronel de Art.ª Joaquim José Esteves Virtuoso, o  sr. Major Mourão, o sr. Capitão Lomba, e outros oficiais, sargentos e praças, que colaboraram nesta última missão militar no TO da Guiné, a “Retirada Final”, a todos eles, a minha homenagem, o meu respeito e uma grande admiração, pois ficaram neste episódio da longa história portuguesa.
20 de Fevereiro de 2012
Luís Filipe Beleza Gonçalves Vaz (filho do último CEM/CTIG)



Nota do Autor: Um agradecimento especial ao meu primo e ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, marinheiro da guarnição de um dos últimos navios a abandonar as águas da Guiné, o Patrulha Lira, pois sem o seu testemunho, não poderia ter dado parte importante das informações, relatadas nesta minha pequena narrativa sobre a “retirada final da Guiné”. A ele o meu muito obrigado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

P- 141 História no Ultramar com José Pedro Gonçalves Vaz (filho do último CEM/CTIG COR Henrique G. Vaz) Local: Bissau-Cufar-Cadique


Msg de Luís Gonçalves Vaz com data de 021410FEV12, contando-nos uma "estória" de seu irmão, José Pedro Gonçalves Vaz com 17 anos de idade, passada na Guiné em Dezembro de 1973, quando este, gozava férias com os Pais.

Recordo, que tanto o Luís como o Pedro são filhos do último CEM do CTIG; Coronel Henrique Gonçalves Vaz.

Coronel Henrique Gonçalves Vaz
(...) José Pedro Gonçalves Vaz, na altura com 17 anos, com alguma formação militar e em Férias de Natal, pois estava na Escola Naval em Lisboa, era Cadete. Há uma parte que ele nao se lembrava bem, que foi a ida de Bissau a Cufar, mas daí até Cadique, lembra-se muito bem.... como "descreve corretamente o Aquartelamento de Cadique, segundo alguns combatentes como o Eduardo Campos da CCAÇ 4540. E segundo um outro meu irmão (António), esse com 15 anos e meio nessa altura, afirma que ele e o meu pai nessa noite não puderam regressar a Bissau (o piloto não tinha condições de regressar ao aeroporto de Cufar...), como tal... tiveram de ficar (pernoitar) em Cacine (Plano B), num Barco da Marinha, e puderam durante a noite "verificar in loco, algumas flagelações a Aquartelamentos na Zona.... Tendo o próprio barco feito "Fogo Amigo", como apoio de artilharia, sobre algumas zonas, onde se presumia concentração de forças do IN. Só regressaram a Bissau no dia seguinte. Este irmão que dá estes pormenores lembra-se muito bem, de ir ao Aeroporto de Bissalanca, com um dos condutores do meu pai, o  Djaló, buscar o meu Pai e o meu irmão Pedro.(...)

L.G.VAZ


História no Ultramar com José Pedro Gonçalves Vaz
Local: Bissau-Cufar-Cadique

Data: Dezembro de 1973


José Pedro Gonçalves Vaz, 17 anos, Guiné 1974
(filho do último CEM do CTIG –Guiné)
Sempre tive algum receio de voar, para não dizer medo (que fica muito mal para quem hoje viaja tanto de avião como eu), mas nos meus 17 anos eu queria muito era experimentar o helicóptero.
Estava eu na Guiné a passar umas férias de Natal com os meus pais, quando soube que o meu pai, que era na altura, o Chefe do Estado-Maior do CTIG, coronel Henrique Gonçalves  Vaz,  ia visitar uns aquartelamentos no Sul da Guiné.  Julgo que era Cufar e Cadique ! O plano de visitas dessa semana ao “Mato” do meu pai, era esse. O que me lembro melhor é que soube que iria de helicóptero, oh que maravilha… Passei essa semana a pedir ao meu pai que me levasse nessa saída. Para que se perceba, eu apesar de ter apenas 17 anos, era já um jovem cadete da Escola Naval, como tal seria “normal” ir-me habituando ao Teatro de Operações da Guiné, no entanto não era esse o meu pensamento, o que eu queria era “ter Acção” de helicóptero!
Depois de muito insistir, ele lá concordou em me levar. No dia D, pelo mês de Dezembro de 1973 (minhas férias de Natal), entregou-me, logo ao início da manhã, um camuflado (e uma G3) e disse: Veste-o, e prepara-te bem já que “vais ver o que te espera logo que saíres da Escola Naval! Eu, todo contente, lá o vesti. O tamanho, era de um tipo muito mais pequeno do que eu! Ficava com metade das pernas e dos braços, “descamuflados”! Tenho pena de não ter fotografias dessa minha experiência marcial. Depois das habituais recomendações, que incluíam o uso da G3 em caso de ataque e a responsabilidade do grupo, lá nos dirigimos para o local de embarque.
Último  CEM do CTIG, nesta fotografia ainda major Henrique Gonçalves Vaz, não no rio Cumbijã na Guiné, mas no rio Chiloango em Cabinda (1964 ) com apoio dos Fuzileiros, e como era de sua “tradição”, visitava todos os aquartelamentos, para onde realizava operações como oficial do Estado-Maior, Cadique não foi esquecido, como muitos outros aquartelamentos no Teatro de operações da Guiné, nos anos de 1973 e de 1974.

Oh… grande desilusão! Afinal, por qualquer razão logística de que não me lembro (talvez a necessidade do helicóptero nesse dia para evacuar feridos nalguma zona do TO), a viagem não ia ser realizada de helicóptero mas sim por outros meios de transporte. Não me lembro bem até chegar ao rio Cumbijã, mas o que era costume (informações de ex-combatentes) era ter ido de avião até CUFAR (que fica entre Catió e Bedanda) e depois, e disso lembro-me muito bem, fomos de sintex (pequeno barco rápido) até Cadique, na outra margem do Cumbijã. Chegados ao rio tivemos direito a um pequeno briefing para iniciarmos a parte mais crítica, visitar Cadique pelo rio Cumbijâ. O medo e a adrenalina estavam em níveis crescentes, e finalmente recebi instruções e lá me instalei com o restante pessoal, deitado no fundo da embarcação com a G3 apoiada na borda a apontar para a minha margem. Saímos do porto grande no rio Cumbijã em direcção ao Aquartelamento de Cadique seguindo rio abaixo  até que chegámos  ao nosso destino, no lado oposto do rio relativamente  ao ponto de partida.  Nesse percurso lembro-me muito bem da tensão na viagem, sempre à espera de sentir uma saraivada de balas disparadas de alguma das margens com o tarrafo bastante alto, mas eu estava bem “mentalizado” para uma reacção imediata da nossa parte. Hoje penso que tivemos muita sorte em não termos sido atacados. 
Ten. Cor. Art. Sousa Teles

Naquela altura, terei ficado um pouco desiludido já que, nessa idade somos todos um pouco loucos. Do que lembro hoje, a viagem decorreu sem qualquer incidente, com uma duração que me pareceu um eternidade, mas não foi, já que cada barco “sintex”, tinha um valente motor de 50 cavalos, com uma velocidade de cerca de 18 nós e, o percurso não teria mais que meia dúzia de km. A “escolta” do CEM/CTIG, não ultrapassaria dois Sintex com uma dúzia de militares bem equipados e com sentido de missão. Chegámos, finalmente, a  Cadique  e tive mais uma desilusão,  o nosso destino não passava de um aquartelamento cercado de arame farpado com meia dúzia de “tabancas” em redor. O Comandante, o Tenente-coronel Sousa Teles (1), teve de um “meeting” com o meu pai, do qual recordo apenas a discussão sobre o número de rádios e outros equipamentos que o Comando do CTIG,  poderia  disponibilizar para esse aquartelamento. A minha impressão actual é que a visita do meu pai, o CEM/CTIG, coronel Henrique Vaz, teria também o objectivo de expressar um apoio aos militares que ali combatiam em condições adversas já que, pelo que sei hoje, Cadique era frequentemente fustigada por ataques do PAIGC. Depois de tratarem dos “negócios” militares, convidou-nos então a dar uma volta de jeep pelo exterior do quartel.
Recorte de uma imagem do mapa da Guiné, onde é possível ver a localização do campo de aviação em Cufar, bem como o itinerário entre o porto novo de Cufar e Cadique,
Mais uma surpresa, naquele fim de mundo havia uma estrada asfaltada, no meio de uma selva cerrada, que, não acredito, levasse a lugar algum!
Ao fim de algum tempo (pouco…), encontrámos duas mulheres negras que caminhavam na nossa direcção. O Comandante parou o jeep e iniciou uma conversa com as mulheres numa linguagem para mim completamente estranha. Subiu uns pontos na minha consideração, pois falava perfeitamente o dialecto local… Impressionante! Depois de se despedir das mulheres, virou-se para o meu pai e disse: Meu coronel os “turras” estão aqui perto pelo que, sem escolta (só íamos os três, mas eu levava a minha G3…), não é aconselhável ir mais além. O meu pai concordou com o oficial conhecedor da “realidade” local e voltámos para trás.
Do regresso, nada me lembro, não me impressionou comparado com o que tinha acabado de viver naquele local recôndito, bonito mas perigoso. 
Cadique em 2008, integrado na área do Parque Nacional de Cantanhez.
(fotografia gentilmente cedida para este artigo pelo ex-combatente Eduardo Campos)

Nunca me esqueci de duas coisas desta estória, e que foram importantes na minha vida: o dilema que o meu falecido pai, coronel Henrique Gonçalves Vaz, deve ter tido para me autorizar a ir com ele e o profissionalismo daquele Comandante do mato.
Um ano após este episódio cheguei à conclusão que a minha vocação não era a carreira militar e mudei de ramo.

(1)    - Informação gentilmente dada pelo ex-combatente Eduardo Campos C. Caç 4540.
Curitiba, 30 de Janeiro de 2012
 José Pedro Beleza Gonçalves Vaz

sábado, 21 de janeiro de 2012

P-139 Situação Militar no Teatro de Operações da Guiné no ano de 1974 (Parte III)

MSG de Luís G. Vaz com Data/Hora: 202244JAN12


Situação Militar no Teatro de Operações da Guiné no ano de 1974

Por: Luís Gonçalves Vaz  (filho do último Chefe do Estado Maior do CTIG, Coronel Henrique Gonçalves Vaz)


(Parte III)



DOSSIÊ SECRETO (ou talvez não)


Adaptação/transcrição de Alguns Excertos do; "Relatório da 2ª Repartição do QG do CTIG”, autenticado pelo Chefe da 2ª Repartição, o Major de Infantaria, Tito José Barroso Capela.

Bissorã - 20/10/1973 - Passagem de revista pelo general Bettencourt Rodrigues
(Fotos do capitão Carlos Oliveira - CCAÇ 13)
NOTA INTRODUTÓRIA de Luís Gonçalves Vaz :

Para quem não esteve na Guiné no ano de 1974, seguem as datas de alguns ataques do PAIGC, logo no início desse ano. ..."Este foi mais um ano de guerra, e nada fácil, e foi logo no início desse ano, no mês de Janeiro,  que se realizou a  a 1ª Operação planeada pelo General Bettencourt Rodrigues, seu Estado Maior e Estado-Maior do CTIG e demais ramos das Forças Armadas, segundo nota do último chefe do Estado-Maior do CTIG, Coronel de Cavalaria, Henrique Gonçalves Vaz, publicada anteriormente neste Blog..."

General José Manuel de Bethencourt Conceição Rodrigues
 Em 29 de Setembro de 1973 assume em Bissau, os cargos de governador e CCFA da Guiné
(fotografia retirada de: http://ultramar.terraweb.biz/index.htm)
3 de Janeiro de 1974 – Ataque do PAIGC a Canquelifá, na fronteira da Guiné com o Senegal, com intenso fogo de morteiros e granadas, durante mais de dez horas. Sob coordenação de Nino Vieira, comandante da Frente Leste do PAIGC.

3 de Janeiro de 1974 – Ataque do PAIGC ao destacamento de Copá, na Guiné, durante duas horas.

3 de Janeiro de 1974 – Ataque do PAIGC ao destacamento de Buruntuma, na Guiné.

4 de Janeiro de 1974 – Ataque do PAIGC ao destacamento de Piche, na Guiné.

Guiné,  Zona Leste > Região de Gabu > Piche > CCAÇ3546 (Piche e Camajabá, 1972 / 1974)  Destacamento da Ponte Caium

6 de Janeiro de 1974 – Novo ataque do PAIGC a Canquelifá, Norte da Guiné, com intenso fogo de foguetões, durante três horas.

6 de Janeiro de 1974 – Novo ataque do PAIGC a Buruntuma, na Guiné, durante cinquenta minutos.

7 de Janeiro de 1974 – Uma força portuguesa do recrutamento local interceptou uma coluna do PAIGC em Canquelifá, causando-lhe pesadas baixas. (segundo notas pessoais do Coronel CEM, Henrique Gonçalves Vaz), foram mortos em combate, 6 Cubanos e mais 6 Africanos do IN. Neste combate morreu um militar das N.T, o  Ranger:LUÍS FILIPE PINTO SOARES (Furriel Miliciano de Operações Especiais) Companhia de Caçadores 3545.

7 de Janeiro de 1974 – Emboscada do PAIGC a uma coluna militar portuguesa na estrada Bajocunda-Copá, causando dois mortos e 19 feridos.

7 de Janeiro de 1974 – Disparos de mísseis do PAIGC contra dois aviões Fiat em Bedanda, Guiné.

7 de Janeiro de 1974 – Ataque do PAIGC ao destacamento de Copá, na Guiné.

21 de Janeiro de 1974 - Acção do PAIGC na cidade de Bissau, com lançamento de engenhos explosivos contra autocarros da Força Aérea, seguidos, uma semana depois, de dois outros engenhos do mesmo tipo num café da mesma cidade, frequentado por militares portugueses.

14 de Fevereiro  de 1974  - Carta do Movimento dos Capitães da Guiné sobre a situação geral e a necessidade de ser passar à acção contra o regime.

  22 de Fevereiro de 1974   - Rebentamento de uma carga explosiva no Quartel-General do Exército de Bissau, tendo ficado feridos  o segundo-comandante e o Chefe do Estado-Maior  (este apenas com pequenas escoriações), acção  reivindicada pelas Brigadas Revolucionárias.

22 de Fevereiro  de 1974  - Publicação do livro de António de Spínola, Portugal e o Futuro.

  15 de Março de 1974   - Demissão de Costa Gomes e António de Spínola dos cargos de chefe e vice-chefe do Estado Maior General das Forças Armadas.
 
16 de Março de 1974   - Pronunciamento do RI 5, das Caldas da Rainha, primeira tentativa de golpe militar do movimento dos oficiais das Forças Armadas, que conduz à prisão de cerca de 200 homens.

31 de Março de 1974   - Violento ataque do PAIGC à guarnição militar portuguesa de Bedanda, com utilização de viaturas blindadas. (...)



Fuzileiros, desembarcando de um bote pneumático Zebro III, na Guiné (fotografia da esquerda). O pequeno mas robusto Alouette III foi um dos cavalos de batalha das operações em África (fotografia da direita). In: http://forumarmada.no.sapo.pt/docs/FA-Marverde/marverde1.html

(...) No seguimento desta atitude (ver fim da Parte I), o SG do PAIGC determinou a 31 de Maio, face às MANOBRAS que classificou de “ DILATÓRIAS” da Delegação de Lisboa, o reinício das operações de Guerrilha como forma de “pressão”, com a finalidade e provocar cedências da parte portuguesa.
   Tal ordem seria no entanto anulada na manhã de 2 de Junho, após a chegada a CONAKRY da Delegação do PAIGC, vinda de LONDRES. Poucos dias passados, verificava-se a interrupção da guerrilha, em todo o Teatro de Operações da Guiné, o que originaria um “Cessar-Fogo” de facto a partir d o início de Junho.
    Continuaram no entanto a ser detectados alguns engenhos explosivos, de implantação antiga, nas semanas seguintes.

13/6/1974 - Bissorã- Cabá Santiago ao meio, à sua esquerda o comandante do PAIGC da zona de Maqué, Joaquim Tó, que veio até Bissorã com um grande grupo de guerrilheiros.

   O estado de “Tréguas” que passou a vigorar no território, a  consequente paragem da actividade operacional e o prosseguimento de conversações oficiais entre o Governo Português e o PAIGC a 13 de Junho, possibilitou às FARP a concretização de uma manobra original, abrangendo todo o teatro operacional, que modificou rápida e profundamente a situação militar anteriormente existente na nossa Província Ultramarina da Guiné. O desenvolvimento daquela manobra traduziu-se em duas categorias de acções:

         •    _ as que visaram o contacto intensivo com a população de todas as Etnias e com as nossas forças a diversos níveis, levado a efeito localmente pelos elementos de todos os Grupos das FARP, em especial, os Comissários Políticos (esta acção foi importantíssima na captação da população e desmotivação das Nossas Forças para qualquer atitude de força!).
        
         •    As que consistiram numa constante movimentação de Grupos das FARP no interior do TO, em acompanhamento da actividade anterior e evidentes manifestações de força, as quais paralelamente foram aproveitadas para executar uma remodelação do “Dispositivo do PAIGC”, que conduziu à introdução no Território da Província Ultramarina, de Forças do antecedente sedeadas nas Repúblicas do Senegal e da Guiné.


Aliás, as “Tréguas” vigentes não impediam que o PAIGC continuasse em estado de “Prontidão” com vista ao recomeço da guerrilha, para o que a Direcção do Partido continuava a expedir ordens. 
   
Assim em 29 de Junho, o SG/PAIGC determinava novamente que continuassem a ser preparadas novas operações ofensivas contra os Aquartelamentos das Nossas Tropas até aos primeiros dias de Julho de 1974, as quais somente seriam desencadeadas à ordem, obviamente se as diligências diplomáticas que tinham vindo a ser efectuadas após a Reunião ARGEL (13 de Junho), não conduzissem aos objectivos preconizados  pelo Partido.
      
De toda esta preparação bélica, parecia correcto deduzir-se na altura (Junho/Julho de 1974), que apesar das garantias de cessação de hostilidades apresentadas, sem excepção, por todos os dirigentes locais das FARP, nos numerosos e generalizados encontros que tinham vindo a ser efectuados com os Comandantes das Unidades das Nossas Forças em todo o TO, o PAIGC não punha de lado a hipótese de recurso à continuação da guerrilha como forma de pressão para abreviar a solução política do conflito que satisfizesse todas as suas exigências e desbloqueasse  as dificuldades encontradas nas primeiras conversações de ARGEL (13 de Junho).

(…) algumas ameaças de recomeço das operações, no caso de determinadas situações ou procedimentos que estavam em projecto, considerados inconvenientes pelo PAIGC, não fossem anulados, nomeadamente a realização de um “REFERENDUM” ou Congresso do Povo para que a População da Guiné se pronunciasse sobre a Independência e a prevista vinda do GENERAL SPÍNOLA a Bissau que , por esse motivo, foram canceladas.



LFG (Lancha de Fiscalização Grande) Orion, da classe Argos, num rio da Guiné
                    In: http://forumarmada.no.sapo.pt/docs/FA-Marverde/marverde1.html
De referir também que a data de 2 de Julho, expressa na ordem do SG/PAIGC citada anteriormente, esteve na origem de interpretações incorrectas da mesma, por parte de alguns comandos locais das FARP, de que resultara atitudes que fizeram perigar igualmente o clima de tréguas existentes…
   
Assim aquela data limite esteve na origem do “ULTIMATUM” enviado à Guarnição de BORUNTUMA pelo Comando da Frente Leste, o qual ameaçou bombardeá-la com todos os meios disponíveis se o Aquartelamento não fosse desocupado no dia seguinte e as nossas tropas não recolhessem a PICHE, sede do respectivo Batalhão.
   
Este facto dava-se quando acabava de ser aprovada superiormente a 1ª Fase do Plano de Retracção do dispositivo das Nossas Tropas, do qual fazia parte a saída da Companhia de Caçadores de BORUNTUMA, pelo que foi ordenada pelo Comandante-Chefe, a recolha daquela guarnição a PICHE, simultaneamente com a Retirada das Unidades de CANQUELIFÁ, DUNANE, PONTE CAIUM e CAMAJABÁ, todas da Zona fronteiriça Leste. Ao mesmo tempo foram encetadas diligências imediatas, dirigidas pessoalmente no local pelo próprio Comandante-Chefe acompanhado pelos representantes do PAIGC, nessa altura já em Bissau, para aclaramento da situação e das razões da brusca atitude do Comando da Frente Leste.




O representante de Nino Vieira, Manuel Ndinga prestando o seu depoimento na cerimónia da transição da soberania nacional na Guiné.
( fotografia do acervo pessoal de Eduardo José Magalhães Ribeiro,  Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BCAÇ 4612/74, Cumeré/Mansoa/Brá – 1974)
 As diligências realizadas não impediram que se verificassem, durante todo o mês de Julho de 1974, noutras áreas da Frente Leste, novas acções  de “pressão” por parte das forças locais, com vista à desativação imediata de alguns aquartelamentos das nossas tropas, nomeadamente MADINA MANDINGA, DARA, PIRADA e BAJOCUNDA, que revestiram a forma de “ultimatum” nas que não foram aceites.

Constatava-se assim que, as directivas emanadas da Direcção do PAIGC, resultantes de acordos estabelecidos, não foram escrupulosamente acatados localmente por determinados grupos de Frente Leste ou sofreram demoras na sua difusão oportuna a todos os escalões.

A atitude inconveniente daqueles grupos, visando a ocupação de aquartelamentos, poderia ser em parte explicada pelo facto de, serem novos na área (...). Parece no entanto poder concluir-se que o problema de fundo era o de continuarem a delinear-se  dentro do PAIGC duas tendências, uma mais dura que expressão principalmente no Leste e outra mais conciliatória e favorável a uma normal transferência de poderes, que foi seguida no SUL. (...)

CONTINUA ….



Vd. Post. desta série I e II:
http://cart3494guine.blogspot.com/2012/01/9-136-situacao-militar-no-teatro-de.html
http://cart3494guine.blogspot.com/2012/01/p-138-situacao-militar-no-teatro-de.html

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

P-135 Imagens do Relatório da 2ª Rep/QG do CTIG Bissau, assinado pelo chefe da 2ª Repartição, Maj. Infª - Tito José Barroso Capela

Msg de Luís Gonçalves Vaz (filho do último CEM do CTIG Coronel Henrique Gonçalves Vaz) com data de 19-01-2012 15:02,
Para: Luís Graça; Sousa de Castro
Assunto: Imagens do Relatório 2ªRep QG Bissau


Caro Luís Graça, caro Sousa de Castro:

Envio-vos algumas imagens do Relatório "Polémico" (para alguns é claro!), conforme o Luís me pediu.
O Relatório tem 74 páginas, datado de 28 de Fevereiro de 1975 (data da sua publicação), não está numerado (exemplar para o CEM?), mas é um original pelo aspecto, e está assinado pelo Major de Infantaria, Tito José Barroso Capela. E como podem ver, o carimbo de "SECRETO", está a vermelho, logo deve ser um exemplar original....

Abraço

-- Luís Beleza Vaz
Luís Vaz na pista na Ilha de Bubaque 1974


- Recorde-se: 


 Luís Beleza Gonçalves Vaz, viveu na guerra colonial em Bissau com seus pais quando ainda menino, frequentava em 1974 o liceu Honório Barreto. Hoje, é professor de Matemática e Ciências da Natureza numa escola  na zona de Braga, com formação académica em Biologia e Geologia. A Guerra dele foi na EPC (Escola Prática de Cavalaria) em Santarém, frequentou o 2º Curso de Milicianos do ano de 1983, onde passou 18 longos meses como um operacional!..










Vd post. http://cart3494guine.blogspot.com/2011/12/p132-descolonizacao-portuguesa-painel.html de 10DEC2011

domingo, 15 de janeiro de 2012

P1 - 25 de Abril de 1974 na Guiné, na perspectiva do filho do último Chefe do Estado Maior do CTIG, Coronel Henrique Gonçalves Vaz


Mensagem de Luís Gonçalves Vaz (filho do último Chefe do Estado Maior do CTIG, Coronel Henrique Gonçalves Vaz com data de, 13JAN2012 

O dia a seguir, à revolução dos "cravos" (25 de Abril de 1974), vivido na Guiné, na perspectiva de Luís Gonçalves Vaz, então com 13 anos de idade.



História no Ultramar com Luís Gonçalves Vaz 



Local: Guiné-Bissau

Data: 26 e 27 de Abril de 1974

Luís Gonçalves Vaz, Bissau 1974 (13 anos)
Na Guiné o 25 de Abril “só chegou” no dia seguinte, pois só na manhã do dia 26  é que se iniciaram as ações dos oficiais do MFA, nomeadamente os onze oficiais que se dirigiram ao Gabinete do General Comandante-Chefe (General Bettencourt Rodrigues) e exigiram a sua demissão e o regresso a Lisboa.  O meu falecido pai, Coronel Henrique Gonçalves Vaz, Chefe do Estado-Maior do CTIG, teve conhecimento durante a noite de 25 para 26 de Abril, pois na madrugada recebeu pelo seu telefone “civil” (não o militar!), a notícia de que na Metrópole decorria um “Golpe de Estado” para derrubar o sistema político de então (sei que foi um oficial da sua confiança que lhe ligou aqui da Metrópole). Logo de manhã dirigiu-se para a reunião do costume, com o General Comandante-Chefe no Palácio do Governador. Quando lá chega vê o edifício cercado por tropas especiais e deparou-se com a “destituição” de Bettencourt Rodrigues. É claro que o coronel Henrique Vaz, não pertencia ao MFA, mas isso não o impediu de se insurgir contra alguns “modos um pouco rudes” (em sua opinião é claro) com que estariam a conduzir o processo de destituição (ou prisão?) do Comandante-Chefe, e ofereceu-se para o acompanhar ao avião que o conduziria de regresso a Lisboa, via Cabo-Verde.

O General Bettencourt Rodrigues despediu-se com um abraço do meu pai, e agradeceu-lhe o “respeito” demonstrado, apesar de saber que o meu falecido pai, iria continuar a ocupar o seu posto no Teatro de Operações da Guiné. É claro que a situação não era para brincadeiras e tudo podia acontecer nas próximas horas, e como o Coronel Henrique Gonçalves Vaz era um militar íntegro, patriota e com espírito de missão (não afeto ao anterior regime), foi imediatamente convidado para continuar como CEM do CTIG, tendo aceitado e só regressou definitivamente a Portugal, no último voo de militares portugueses, pelas 23 horas do dia 14 de Outubro de 1974, acompanhando o Brigadeiro Carlos Fabião, na altura já indigitado para CEMGFA.

Antigo Liceu Honório Barreto em Bissau, hoje Liceu Nacional Kwame N' Krumah "
                 (Fonte: Blogue Liceu Nacional Kwame N' Krumah)

Esses mesmos oficiais do MFA,  solicitaram ao Comandante Marítimo, Comodoro Almeida Brandão, que assumisse as funções de Comandante-Chefe interino das Forças Armadas na Guiné-Bissau. As primeiras medidas tomadas pelo MFA na Guiné, foram a “detenção dos agentes da PIDE” e a “libertação dos prisioneiros políticos”.  Como tal, no dia seguinte, 27 de Abril, surgiram pela cidade de Bissau várias manifestações lideradas por esses presos, uma delas cercou e tentou invadir o meu Liceu, o Liceu Honório Barreto. Ainda me lembro como se fosse hoje, um funcionário do Liceu, um homem de grande estatura, e de origem Cabo-verdiana, pegou numa grande tranca e afugentou vários manifestantes (deu resultado!), tendo de seguida fechado a porta principal.

Nas salas do andar inferior, que davam para o jardim, tivemos de fechar as persianas, pois haviam muitos manifestantes que nos diziam aos berros, com paus e catanas; “Tuga na ba p`Bó Terra”… é claro que eu achei muita piada na altura, pois nunca temi pela minha segurança, já que tinha colegas com 16 anos ou mais (alguns vinham do interior da Guiné para estudar em Bissau) que sempre me fizeram estar à vontade.
O Clube militar em Sª Luzia, visto de minha casa. Nesta avenida formavam-se algumas colunas militares, que seguiam para o mato, e durante um ano vi a formação de muitas, em que diversos furriéis e alferes milicianos revelavam “alguma emoção”… Lembro-me muito bem como se fosse hoje, e marcaram-me para sempre.

Foto de:   António Teixeira* (ex-Alf Mil da CCAÇ 3459/BCAÇ 3863 - Teixeira Pinto, e CCAÇ 6 - Bedanda; 1971/73

Fugi do Liceu com esse grupo de colegas mais velhos (eu tinha apenas 13 anos e frequentava o antigo 3º ano do Liceu), em direção à base militar de Santa Luzia, onde vivia com a minha família (a casa do Chefe do Estado-Maior do CTIG, era aquela mesmo em frente do Clube militar, na outra ponta da avenida). 

Pelo caminho assisti ao episódio do "Cerco da PIDE”, onde me lembro muito bem de ver a ação de grande eficiência, de dois pelotões de Para-quedistas…… lembro-me muito bem..... Estive bem ao lado, daqueles Para-quedistas que estabeleceram logo de imediato um "Perímetro de Segurança". E se bem me lembro, deveria ser o único "branco" a assistir à manifestação. Houve tiros e tudo. Depois fui pelas Tabancas até Sª Luzia, sempre acompanhado pelos meus colegas Guineenses, que me protegeram e não permitiram que me acontecesse mal algum, só me deixaram após me entregarem aos elementos da PM, que faziam a segurança à entrada da Base Militar de Sª Luzia (a entrada estava barrada com rolos de arame farpado).
Guiné – Bissau, Pós-25 de Abril de 1974 - Manifestações populares de regozijo mas também de contestação: na primeira foto, um manifestante empunha um cartaz onde se lê: "Abaixo a D.G.S." ; na segunda foto, um dos manifestantes exibe um improvisado autocolante nas costas, onde se lê: "Viva o General António Spínola! Viva o Povo da Guiné!". Fotos: © José Casimiro Carvalho

Foto de: ex. fur. Ranger Casimiro Carvalho

 Quando cheguei a casa, soube que o meu pai tinha ido com uma pequena coluna militar buscar ao Liceu Honório Barreto, os meus dois irmãos, tendo aproveitado para trazer em segurança, algumas professoras e outros alunos, quase todos familiares de militares. Não me ralhou por eu ter vindo pelo meio de Bissau, entre as manifestações, com colegas africanos.

Segundo um interveniente nessa missão, o 1º Cabo Para-quedista nº 551/73, Carlos Alberto dos Santos de Matos, relata como esta operação militar se teria passado,  no site http://associacao-pq-alentejo.webnode.com.pt/noticias/ ,“…O objectivo era conter uma manifestação popular em frente ao quartel da PIDE/DGS e retirar os elementos da PIDE em segurança e transportá-los para local seguro, para posteriormente regressarem a Portugal com a finalidade de serem julgados por um Tribunal. Fiz parte integrante de um pelotão de Pára-quedistas que esteve a manter segurança no exterior do edifício, juntamente com outros elementos do Exército e Marinha. O outro pelotão de Pára-quedistas entrou no edifício da PIDE, os quais não ofereceram resistência à detenção. Os manifestantes bastante exaltados, no exterior, aos milhares, gritavam “morte à PIDE e aos colonialistas”. A cada instante que passava, a multidão apertava mais o cerco em volta do edifício e nós recuávamos mais um pouco. A operação que a princípio se afigurava simples estava a piorar a cada momento e já se notava algum nervosismo nos nossos militares. Entretanto recebemos ordem para efectuar disparos para intimidar os manifestantes. O tiroteio de algumas dezenas de militares, durou apenas alguns segundos, durante os quais os manifestantes se puseram em fuga. Os que caíram, durante a confusão eram pisados pelos companheiros. Houve um silêncio constrangedor durante algum tempo. Na poeira do chão ficaram alguns feridos, não pelas nossas armas, mas por terem sido atropelados pelos colegas manifestantes. …” 

Em suma, afinal eu estive no Teatro de Operações da Guiné, no meio de uma operação militar, com tiros e tudo, mas felizmente sem mortos ou feridos. É um facto que esta é uma das muitas “experiências de vida”, que me marcaram muito, entre outras que vivi na Guiné.


Braga, 13 de Janeiro de 2012


Luís Gonçalves Vaz