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sexta-feira, 26 de março de 2021

P413 - Sobre Marcelino da Mata e outros que entretanto vieram a público

Rec. MSG com data de 18FEV2021 de Belarmino Sardinha, ex. 1º cabo radiotelegrafista do STM (Serviço transmissões militares), colocado em Mansoa, Bolama, Aldeia Formosa e Bissau nos anos de 1972/74. Participa normalmente nos almoços do BCAÇ 3832 por ter convivido mais tempo.

Dados retirados com a devida vénia do blogue: LUIS GRAÇA & CAMARADAS DA GUINÉ 

Caros Amigos,

No dia 16FEV2021 assisti a uma conversa no que esperava ser um debate na TVI, mas que, lamentavelmente, por força do desconhecimento e dos interesses políticos dos intervenientes sobre o assunto a debater não passou de uma perda de tempo.

Fiquei irritado, confesso, e escrevi o que vos envio em anexo.

Quem quiser lê quem não quiser apaga. Não fico ofendido em nenhuma das situações.

Um abraço,

BS 

 

Sobre Marcelino da Mata e

outros que entretanto vieram a público

 


Tenho acompanhado minimamente todo o desenrolar do processo sobre a morte de Marcelino da Mata e lamentavelmente tenho lido ou ouvido algumas barbaridades iguais às que se diz terem sido feitas por ele.

Conheci pessoalmente Marcelino da Mata só depois do ano 2000, mas reconheci neste camarada de armas um homem vertical, directo e afável sem fantasmas ou queixumes como não vejo ser o caso dos seus detractores.

Estive na Guiné, na arma de transmissões do STM entre 15 de Junho de 1972 e 20 de Julho de 1974. Andei por Mansoa, Aldeia Formosa (Quebo), Bolama e Bissau e inevitalvelmente ouvi falar e contar muitas histórias de Marcelino da Mata.

Lembro-me de alguns dos operacionais dizerem “hoje podemos dormir descansados, o Marcelino anda por aqui”, curiosamente não me lembro de nenhum referir que o Marcelino era um assassino ou que era um traidor, como me parece haver alguns depois do 25 de Abril de 1974, por opções e/ou oportunidades politicas. 

Sempre foi falado o facto das tropas africanas, em especial os comandos africanos terem uma actuação mais radical por onde passavam, é um facto, em especial com as bajudas, mas isso tinha muito que ver com a idade…Não ficaram também lá filhos de militares brancos do continente?

O porquê da gota de água que faz transbordar o copo?

Assisti ontem a uma conversa, não chamo debate e muito menos esclarecimento sobre Marcelino da Mata, na TVI 24 pelas 23H00 do dia 16 do corrente. Reconheço à TVI o papel de ter sido a única que, ao que se me deu saber, lembrar que tinha havido o funeral do militar mais condecorado do exército Português, logo um militar ao serviço de Portugal. Não foi feliz a escolha dos intervenientes, um, honestamente, confessou algum desconhecimento sobre a figura que iam debater, enquanto o outro assumiu-se como um verdadeiro conhecedor da matéria.

Considero o que vi lamentável. Não posso deixar de manifestar aqui a minha opinião sincera e desinteressada sobre os protagonistas.

Conheci Fernando Rosas, sem que com ele privasse, mas conheci-o e tinha por ele, enquanto historiador, alguma admiração e até simpatia, já enquanto político parece-me medíocre. Filiado num partido que lhe proporcionou ser figura pública, parece-me tê-lo levado a voos para os quais não está preparado e ao esgrimir argumentos sem conhecimento e de forma politicamnete tendenciosa, torna-se incompetente e suspeito nas suas análises históricas.

Não sei se Fernando Rosas fez o serviço militar, e se o fez, quando e onde.

Como político desviou sempre a conversa dizendo que estavam a falar de Marcelino da Mata e dos seus crimes. Como o fazem os políticos, aproveitou-se de uma publicação, no Facebook, feita por um outro camarada que prestou serviço no gabinete jurídico militar em Bissau, Mário Barbot Costa, que na qualidade de escritor assina como Mário Claúdio, para dizer que tinham havido vários processos contra Marcelino da Mata, mas que todos tinham sido arquivados por ordem não se sabe de quem. É estranho não se saber de quem, mas enfim, isso serve para outro tema. Contudo mostrou total desconhecimento e ignorância sobre Marcelino da Mata, aproveitou-se e recorreu a outros para frazer o seu papel político e  desenfrear um ataque torpe e mesquinho a quem nunca conheceu.

Sem qualquer pedido ou necessidade de defesa, uma vez mais e em minha opinião, conheci e privei por mais que uma vez com Mário Claúdio por questões profissionais e já fora da instituição militar, não digo que o conheça de forma a poder afirmar o que pensa, mas estou em crer que apenas disse o que disse para não endeusarem Marcelino da Mata, tanto assim que, segundo Fernando Rosas, começou por escrever que respeitava o combatente Marcelino da Mata, referindo depois ter havido processos arquivados. Não li o  que escreveu Mário Cláudio.

Na qualidade de historiador e político, de forma séria, competia-lhe fazer um enquadramento histórico sobre as etnias guineenses e o seu relacionamento para depois falar da actuação de Marcelino da Mata. Talvez então pudesse falar sobre o ataque de que foram alvo e barbaramente assassinados três majores e um alferes, quando desarmados se deslocaram ao que seria um encontro com tropas do PAIGC, combinado secretamente e que visava o início de um cessar fogo…

Ribeiro e Castro ainda lembrou o que fizeram a Marcelino da Mata, depois de 25 de Abril de 1974 os esbirros políticos ligados a alguns partidos ditos de esquerda ou extrema esquerda e que em nada erame foram diferentes dos seus antecessores da PIDE/DGS, mas não oteve qualquer reacção do seu interlecutor nem do moderador que, à deriva e sem mostrar conhecimento dos factos deixou navegar à deriva. Nada é comparável? Falamos depois de 25 de Abril de 1974. Talvez só não o tenham morto por receio, pois acredito não lhes faltar vontade e muito menos prazer.

Depois defende-se o senegalês asilado em Portugal Mamadú Bá, esse indivíduo que vive à custa dos portugueses e destila ódio aos brancos. Se já por cá andasse talvez o pudessem chamar para matar um preto como o Marcelino da Mata. Talvez isso também não fosse crime, bastava que políticamente a considerassem uma boa causa.

Não quero deixar transparecer que Marcelino da Mata não fez ou não possa ter feito coisas execráveis e não merecesse até punição dentro da instituição que representava. Até para clarificação da posição de Portugal, mas tal como muitos outros processos foram, mesmo hoje em dia, arquivados.

Depois, não podemos e não devemos estar hoje a julgar procedimentos com 40 e muitos anos e fora do seu enquadramento. È verdade que um crime é sempre um crime, mas, como em todos os processos, algumas razões podem ter servido como atenuantes e neste caso em concreto, a guerra, as etnias, a adrenalina ou calor vivido no momento, mas isso só quem os viveu realmente pode falar, para todos os outros não passa de filme.

Quando Nino Vieira foi assassinado, num passado recente, talvez por ter chegado a presidente da Guiné, correu por aqui muita tinta a lembrar que tinha sido assassinado e falando sobre como ele tinha sido como aguerrido guerrilheiro que lutou pela sua terra e pelo seu povo etc. etc. etc. Ninguém se lhe referiu como assassino e ninguém falou sobre a bárbara forma como ficou retalhado. Isto só para comparação com Marcelino da Mata…

Também quando Jonas Savimbi foi assassinado e nos foi apresentado como morto fez igualmente correr muita tinta nos nossos jornais, mas o politicamente correcto impede que isso se faça com Marcelino da Mata.

Estas duas notas servem para lembrar que se podia e devia falar sobre história e sobre as formas brutais e bárbaras como lutam entre etnias e até aproveitar para falar sobre temas como a mutilação genital feminina e outras práticas e tradições do povo africano no seu estado puro.

Há quem defenda que os anos passam por nós e nos tornam mais sábios e tolerantes, que os impulsos da juventude são corrigidos pelo passar dos anos etc. etc. etc. Não sei se será o que acontece com todos, a necessidade dos olofotes sobre si, a vaidade,  ou outras razões de necessidade levam muitos a não conseguirem estar tranquilos e a obrigarem os outros a deixarem de estar.

Eu, e estou crente que muitos outros que passaram pela Guiné no período da Guerra, estão agradecidos à TVI por lembrar e falar sobre a morte de Marcelino da Mata, só lamento que não tenha sabido escolher melhor os elementos do painel e melhor preparado o moderador. Poderiam ter escolhido melhor as figuras do painel, mantendo as que quisessem, mas procurando outra ou outras figuras com conhecimento da operacionalidade de Marcelino da Mata, como, por exemplo, o Coronel Matos Gomes, igualmente figura pública com obra publicada, operacional em acções conjuntas, conhecedor e por certo, muito mais isento e acertivo nas palavras.

Resta-me desejar que Marcelino da Mata, finalmente, descanse em paz.

Um abraço,

BS

terça-feira, 27 de junho de 2017

P321 - MARCELINO DA MATA, TEN. COR. GRADUADO, O MAIOR COMBATENTE DA GUERRA DE ÁFRICA 1961-1974




Santos Oliveira
MSG de Fernando Santos de Oliveira, 2º Sarg. Armas Pesadas Infª. Guiné, Ilha do Cômo, Cufar e Tite - 1964/66 com data de : 26JUN2017. 
Fotos de; Sousa de Castro (Recortes de imprensa)

DIVULGANDO, COM ESPERANÇA QUE CHEGUE A QUEM DE DIREITO... 
MB (Cor. Manuel Bernardo)

 
ELE É O NOSSO RAMBO! Este homem chama-se Marcelino da Mata e foi uma autêntica "máquina de guerra" nas matas da Guiné. (...) Foi este o título da primeira página do Jornal "tal&qual" Nº 828 - 3 a 9 de Maio de 1996 que reproduzo com a devida vénia.

Marcelino da Mata, Tem Cor Graduado - Portugal esqueceu-se de mim, mas os amigos não.
(jornal "O Diabo" 29JUL2014






Vd. Postes em Refª.: https://cart3494guine.blogspot.pt/2014/12/p222-manuel-ferreira-da-graca-partilhou.html

https://cart3494guine.blogspot.pt/2015/01/p227-marcelino-da-mata-portugal.html

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

P227 Marcelino da Mata: “Portugal esqueceu-se de mim, mas os amigos não” (Jornal "o Diabo")












DUARTE BRANQUINHO


[Inicialmente publicado na edição de 29 de Julho de 2014]

No passado Sábado, cerca de 50 pessoas, amigos e camaradas de armas de Marcelino da Mata, juntaram-se num restaurante no centro de Lisboa para recordar e homenagear o combatente português mais medalhado da História do Exército português. O DIABO esteve lá e falou com Marcelino da Mata, quando lhe pedimos uma entrevista respondeu prontamente: “O jornal O DIABO ainda é bom, agora os outros jornais…”


O DIABO – Como sentiu esta homenagem?

Marcelino da Mata – Até chorei, não viu? Em especial com o último discurso…

Os amigos lembraram-se de si, mas Portugal não…

Portugal esqueceu-se de mim, mas os amigos não. Pensei que estava isolado, mas afinal ainda há amigos que contam comigo, por isso é que apareceram aqui.

De quem é a culpa desse esquecimento oficial?

É do Governo de Portugal. Não é deste Governo actual é de todos os governos a seguir ao 25 de Abril.

E da parte das Forças Armadas?

Tenho a impressão que há aí uma dor de cotovelo. Porque um preto que vem do Ultramar, da Guiné, do mato, e sou mais condecorado que os oficiais da nação, é uma vergonha para eles. Isso caiu mal.
Os responsáveis actuais das Forças Armadas não sabem nada sobre mim, não me conhecem, nunca ouviram falar do meu percurso de vida, mas muitos dos meus colegas antigos ficam incomodados com as minhas condecorações.
Para eles é uma desilusão. Mas eu não tenho culpa que eles sejam cobardes. Eu quando tenho que enfrentar uma coisa, seja o que for, enfrento.

A sua coragem foi lendária…

Eu era o único homem – o único – na Guiné que tinha um corneteiro atrás de mim a tocar quando eu ia atacar.

A guerra na Guiné estava perdida, como muitos afirmam?

Não estava nada perdida! Se não fosse o 25 de Abril, mais um ano e o PAIGC entregava tudo. Eu sei, eu sou da Guiné e conheço as zonas todas, faltava ocupar o único sector para eles se entregarem, era o único corredor onde eles passavam com armas.
Fui fazer patrulhas naquela zona, com os meus vinte homens, e quando estava de regresso cheguei ao quartel de Aldeia Formosa disseram-me que tinha acabado a guerra. Eu respondi-lhe que não tinha acabado porque ainda há pouco estive a disparar debaixo de fogo e perguntei-lhe como podia ter acabado a guerra. Aí disseram-me que se tinha dado um golpe em Portugal e que a guerra estava suspensa.
Foi só ao almoço, na messe dos oficiais, que ouvimos no rádio que se tinha dado o 25 de Abril em Lisboa.

A seguir ao 25 de Abril foi preso e o que se passou também foi convenientemente “esquecido”…

Parece que não existiu, mas eu fui preso e torturado que nem um cão. Foram a minha casa e não me encontraram. Foi a minha falecida mulher que me disse que lá tinham estado tropas à minha procura.
Então, dirigi-me à minha unidade, que era o regimento de Comandos e quando lá cheguei o oficial de dia disse-me que eu estava preso e ia ser apresentado ao Ralis. Eu perguntei-lhe desde quando é que um militar é preso numa unidade e levado para outra e ele respondeu-me que tinham sido ordens do Jaime Neves. Prenderam-me, meteram-me num jipe e levaram-me para o Ralis.
Eram cinco da tarde quando lá cheguei. Houve logo um furriel que me deu uma pancada nas costas e perguntou-me o que é que eu andava a organizar. Disse-lhe que não organizava nada. E ele insistiu, perguntando: “O senhor não quer ser presidente da Guiné-Bissau?” Eu disse-lhe que com o 12.º ano não posso ser presidente de um país, que os presidentes devem ser formados. Ele disse-me que o Nino está lá e só tem a 4.ª classe. Eu respondi-lhe: “Isso é o Nino. Eu não sou o Nino”.
Aí, mandaram-me encostar à parede e eu recusei-me, dizendo que um militar não bate num militar, que se queriam deviam participar de mim. Mas agarraram em mim e encostaram-me à parede. Foi o fim da minha vida! Levei tantas que só Deus sabe. Depois de desmaiar, atiraram-me com um balde de água em cima e continuaram. Nem quero falar mais disso…

Como é que vê a Guiné hoje?

Hoje, com o novo presidente, tenho esperança que vá melhorar. Se o novo presidente não se deixar levar pelos militares que lá estão, a Guiné pode melhorar muito. Se não fizer isso, tudo vai continuar na mesma.

Era preciso uma maior relação de Portugal com a Guiné?

Claro! Era isso que era preciso, para se poder puxar pelo país. Doutra forma, a Guiné está no fundo do mar.

Acha que os responsáveis políticos portugueses têm essa consciência?

Há alguns políticos, como Paulo Portas, outros do CDS e também alguns do PSD, que têm essa ideia, que querem puxar a Guiné para fora. Mas há outros que querem afundar a Guiné. Não querem saber da Guiné para nada.

Nota do editor: Por achar que é de interesse geral, principalmente dos veteranos que participaram na guerra colonial na Guiné, tomei a ousadia de publicar neste espaço a entrevista que o Marcelino da Mata concedeu ao jornal "o Diabo" o que agradeço com a devida vénia