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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

P293 - Perdemos 16 camaradas e 1 companheiro cubano [Pedro Casimiro], tendo mais 12 camaradas sido feridos. Um desastre devido a erro imperdoável (PAIGC)

MSG de Jorge Araújo com data de 07DEC2016
- Conforme prometido, segue a segunda parte da investigação realizada a propósito do memorando elaborado por Amílcar Cabral, em janeiro de 1969, dando conta do que considera de “más notícias” para si e para o PAIGC.
Esta narrativa circunscreve apenas o primeiro de dois pontos (ou de duas más notícias), na medida em que o segundo foi já abordado anteriormente, este referente à dupla deserção do David Alves, fugido de Dacar no final de 1968.
Com um forte abraço de amizade. 
Jorge Araújo.

DEC’2016.


GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL NO INÍCIO DE 1969
- O CASO DAS BAIXAS DO PAIGC NO ATAQUE A GANTURÉ -
1.   INTRODUÇÃO
Quando em narrativa anterior [P288], a propósito do terceiro fragmento da entrevista ao médico-cirurgião Virgílio Camacho Duverger (1934-2003), fiz referência às notas manuscritas por Amílcar Cabral (1924-1973) classificadas por si de «más notícias», e comunicadas, como conteúdo para reflexão, a todos os dirigentes do PAIGC durante o mês de Janeiro de 1969, prometi voltar a elas, em novo enquadramento historiográfico, pois havia excluído o seu primeiro ponto por não ter, então, qualquer pertinência temática.
Relembro que nesse memorando, escrito pelo punho do secretário-geral, estavam em destaque duas “más notícias”; a primeira relacionada com o número de baixas contabilizadas pelos seus guerrilheiros no ataque a Ganturé, em 6 de janeiro de 1969, a segunda lamentando a inacreditável fuga do Daniel Alves, desertor do exército português, ocorrida em Dacar em finais de 1968 [o ponto abordado anteriormente].
2.   AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL NO INÍCIO DE 1969
Em conformidade com a questão de partida, resgato agora a primeira “má notícia”, transcrevendo na íntegra a primeira página desse memorando.
“Depois de sair daí [passagem de ano de 1968], tive más notícias que são as seguintes:
No ataque do dia 6 [de janeiro de 1969] contra Ganturé [CART 2410], o qual corria muito bem, porque os camaradas atingiram o paiol [?], houve erro da nossa parte face aos aviões que intervieram. Tendo repelido a 1.ª vaga de aviões, os camaradas não se retiraram nem tomaram medidas de segurança, pelo que, duas horas depois, nova vaga de aviões os atacou quando estavam concentrados elementos de artilharia e de antiaérea. Perdemos 16 camaradas e 1 companheiro cubano [Pedro Casimiro], tendo mais 12 camaradas sido feridos. Um desastre devido a erro imperdoável, mas é guerra.
Estive na fronteira [Sul] com os camaradas, o moral não está mau e há que continuar a luta, tanto mais que o inimigo está mal. Mas há necessidade urgente de canhoneiros e morteiristas além de gente para AA [artilharia antiaérea]. Por isso tenho de vos pedir para mandarem urgente 9 dos canhoneiros formados na URSS e incluídos no Corpo de Artilharia. Devem também fazer vir urgente 6 dos morteiristas que eu disse para irem esperar em Madina [do Boé], porque não estavam incluídos no Corpo de Artilharia”
Citação:
(s.d.), Sem título, CasaComum.org, Disponível http:
http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34366 (2016-12-03), (com a devida vénia).
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07197.166.017
Assunto: Perda de 16 combatentes do PAIGC e 1 cubano (Pedro Casimiro) na resposta aérea ao ataque desencadeado pela artilharia do PAIGC a Ganturé. Instruções para o destacamento de canhoneiros e morteiristas, entre outros.
Remetente: Amílcar Cabral
Destinatário: [Responsáveis do PAIGC]
Data: s.d.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Manuscritos de Amílcar Cabral.
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Correspondência.
No centro das “más notícias” para o PAIGC, que Amílcar Cabral diz ter recebido, pois não presenciou nenhuma das duas ocorrências, emerge a pergunta sobre o modo como e quando delas teve conhecimento, uma vez que omite a respectiva fonte? Por outro lado, como funcionavam as comunicações em contexto de ataques, pois não tenho memória de alguma vez se ter referido a captura desse equipamento específico?
Admitindo a probabilidade de terem-se verificado alguns ruídos semânticos, entre o emissor e o receptor, na comunicação dos factos significantes relacionados com a primeira notícia [ataque a Ganturé], procedemos à triangulação de outros elementos obtidos em informantes privilegiados, nomeadamente nos arquivos da Fundação Mário Soares, nos depoimentos de alguns dos actores das NT envolvidos naquela missão [Força Aérea e Exército] publicados em blogues e na literatura consultada, tendentes a encontrar pontos convergentes vs divergentes relacionados com este caso.
2.1       O que diz a literatura [La Historia Cubana en África]
“No primeiro dia de janeiro de 1969 haviam começado as acções na Frente Sul contra o quartel de Tite. No dia 6 foi atacado por forças de infantaria e artilharia do PAIGC o quartel de Ganturé. Nesta acção participaram três cubanos. Nesse dia a aviação portuguesa entrou em combate e surpreendeu os guerrilheiros, destruindo-lhes vários equipamentos de artilharia e causando-lhes elevadas baixas: dezasseis guerrilheiros mortos e vários feridos.
Nessas baixas estavam os três cubanos que haviam participado na acção. O primeiro-tenente Pedro Casimiro Llopis, de 29 anos (1940-1969), morreu ao ser atingido pelo fogo da aviação, enquanto o primeiro-tenente Marcelino Araújo Pina e o soldado Plácido Veja Ramirez ficaram feridos durante o bombardeamento”. [In: Ramón Pérez Cabrera, en “La historia cubana en África: 1963-1991: pilares del socialismo en Cuba” (edição de 2005), pp. 154/155, tradução do castelhano].
2.2       Relato dos acontecimentos - Depoimentos da Força Aérea
A poucos dias de completar quarenta e oito anos, eis uma síntese [análise de conteúdo] sobre o ataque a Ganturé, elaborada a partir da narrativa intitulada «Um ataque com “olhos azuis”», da autoria do Tenente-General PilAv José Francisco Fernando Nico [José Nico], hoje na situação de reforma, publicada no blogue da “Tabanca Grande” [P15035-I Parte + P15038-II Parte] e no blogue “Operacional”, em www.operacional.pt.

Guiné - Imagem inserida no texto referente a um Fiat G-91 descolando de Bissalanca nos finais dos anos 60. “Em breve estará sobre o inimigo. «… O carrocel de ataque estava em marcha e com reacção ou sem reacção antiaérea tinha era que acertar com as bombas no alvo, o maior de todos os alvos que atacou durante toda a comissão. Não falhou como não falharam os outros…»”.
De referir que o Tenente-General José Nico foi piloto de aviões de caça, e entre 1967 e 1970 cumpriu uma comissão de serviço na Guiné. Neste âmbito, afirma que das muitas missões que desempenhou na Força Aérea Portuguesa, “a comissão na Guiné, porém, sobrepôs-se a todas as outras e marcou-me indelevelmente para o resto da vida”.Como introdução recorda que, mesmo não tendo tomado parte directa na acção de apoio às NT, por estar envolvido noutras missões, aquele dia 6 de janeiro de 1969 nunca o esqueceu, pelo muito que se comentou na Base [BA12] e pelos resultados obtidos, acabando por dar lugar à elaboração desta sua narrativa historiográfica.
Naquele dia 6 de janeiro de 1969, por volta das oito horas da manhã, a guerra no CTIG continuava bem viva com o PAIGC a ter a iniciativa de atacar, uma vez mais com os seus canhões Zis-2 AC 57 mm, o Aquartelamento de Gadamael Porto, sede da Companhiade Artilharia 2410 [CART 2410].
Da sede da Unidade é solicitado apoio aéreo a Bissau, com o comando-chefe a encaminhá-lo para a Base Aérea n.º 12 [Bissalanca] a fim de procederem em conformidade. Os dois pilotos da parelha de alerta [Fiat G-91], que naquele momento estavam a tomar o pequeno-almoço, logo apanharam o equipamento e meteram-se no jeep de apoio em direcção da linha da frente.
Os dois Fiat’s estavam prontos e configurados com tanques de combustível externo, 8 foguetes 2,75” e 4 metralhadoras 12,7 mm, sendo o ex-tenente Balacó Moreira um dos pilotos, o qual está na base de muita da informação obtida nesta missão. Esta teve início por volta das nove horas, uma hora após o início da flagelação, tendo constatado, depois, que o ataque visava objectivamente Ganturé, situado a curta distância de Gadamael Porto, onde se encontrava destacado o 4.º Gr Comb da CART 2410, para além de um pequeno núcleo populacional.
Numa primeira fase os rebentamentos estavam a ser espaçados e compridos, com as NT a responderem com morteiro 81 mm, operado pelo ex-furriel Luís Guerreiro [imagem ao lado]. A frequência/intensidade dos disparos do PAIGC ia aumentando com o correr do tempo mas sem consequências, pois as granadas passavam sobre Ganturé explodindo no contacto com o arvoredo existente muto para além da área do quartel.
Entretanto, a parelha de alerta que se encontrava em rota solicita mais informações do solo tentando sinalizar o local. Ao seguirem em direcção a Bricama, a cerca de dois km a SW de Gadamael Porto, qual não foi o espanto dos pilotos quando avistaram, no perímetro do antigo aquartelamento de Sangonhá, abandonado pelas NT em 29 de julho de 1968, num espaço completamente aberto e sem qualquer espécie de camuflagem, um numeroso grupo de indivíduos, que só poderiam ser os guerrilheiros responsáveis pelo ataque que se estava a verificar contra Ganturé.
Lá do alto era possível identificar a presença de três armas com rodado, sendo uma delas, colocada entre o perímetro do aquartelamento e a antiga pista, uma antiaérea ZPU-4 [tubos com quatro bocas] que, de imediato, abriu fogo contra os aviões [G-91] obrigando os pilotos a entrarem num circuito alargado para manter uma distância de segurança. No interior do perímetro do aquartelamento, no meio dos destroços das antigas instalações, estavam duas peças de artilharia com um cano relativamente comprido e na picada que saindo de Sangonhá se dirigia à Guiné-Conacri [talvez na direcção da base de Sansalé], viam-se algumas viaturas incluindo uma ambulância.
Esta situação levou o ex-tenente Balacó Moreira a confessar que da sua experiência em operações quase diárias no teatro de operações da Guiné nunca tinha dado de caras com o inimigo numa situação tão vulnerável. Porque os aviões da parelha de alerta não estavam equipados para intervir naquele cenário atípico, cujo sucesso impunha disparos a uma distância mais curta do alvo, o Cmdt da parelha decidiu abandonar a área e regressar de imediato à BA12 para que a situação fosse ponderada e tomada uma decisão adequada às circunstâncias. Tinham decorrido trinta minutos.
Citação:
(1963-1973), "Combatentes do PAIGC deslocando uma peça de artilharia anticarro", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43454 (2016-12-3) (com a devida vénia). (será que está relacionado com este ataque?).
Ao decidir regressar à BA12, o Cmdt da parelha [capitão Amílcar Barbosa?] entrou em contacto com o CCOA [Centro Conjunto de Operações Aéreas] dando conta do que vira e que o ataque continuava a partir da pista de Sangonhá. Era necessário decidir o que fazer no menor espaço de tempo, uma vez que ao serem detectados, a guerrilha poderia desmobilizar e desaparecer rapidamente. […]
Da reunião entre o tenente-coronel Costa Gomes, Cmdt do Grupo, e o Cmdt da Zona Aérea, coronel PilAv Diogo Neto, visando encontrar a melhor solução para o problema que tinham em mãos, as hipóteses encontradas de modo a dar sequência à missão ficaram reduzidas aos G-91 e a quatro pilotos: os dois da parelha de alerta e os dois comandantes, o do Grupo Operacional e o da Zona Aérea, respectivamente tenente-coronel Costa Gomes e o coronel Diogo Neto.
Entretanto, o comandante-chefe do CTIG já tinha sido informado do que se estava a passar e quis falar com o coronel Diogo Neto. Este de imediato deslocou-se ao Forte da Amura onde explicou ao brigadeiro Spínola o que lhe parecia ser o mais razoável e eficaz. Este tinha preferência para o emprego dos “páras”, mas depois de ouvir as explicações da Força Aérea deu o seu aval ao “plano de acção” apresentado. […]
Depois dos mecânicos e do pessoal de armamento se terem esforçado para aprontarem os quatro aviões o mais rápido possível, eis que estes descolam por volta das onze horas, ou seja, duas horas após a primeira missão ou três horas em relação ao início do ataque a Ganturé.
Cumpridas as instruções técnicas dos ataques aéreos, escolhida a rota mais aconselhada no caso em presença e após passarem sobre o rio junto à povoação de Cacine, é que foi possível perceber alguma coisa do que se passava no solo. O tenente Balacó Moreira recorda-se que a quantidade de pessoas que avistou na zona do antigo aquartelamento de Sangonhá era muito menor do que da primeira vez (duas horas antes) e que havia viaturas em movimento. Contudo, “era impossível falhar um alvo daquele tamanho”.
Na sequência do carrocel de ataque e dos bombardeamentos efectuados por cada um dos pilotos, os quatro aviões reencontram-se à vertical do objectivo, circulando à altitude de ataque. Em baixo, Sangonhá ficara obscurecida pelo fumo e pelos detritos projectados pelas explosões dando a impressão, lá do alto, que tudo tinha sido arrasado, pois nada parecia mexer.
Porque nenhum dos aviões tinha sobreposto o tiro ao dos outros e as dezasseis bombas tinham produzido uma cobertura relativamente densa, não era possível determinar se o ataque tinha sido eficaz em termos de baixas ao inimigo. Depois de ficarem sem armamento nada mais havia a fazer e o Cmdt da formação deu ordem para abandonar a área e regressar à BA12.
2.3       O reconhecimento a Sangonhá – CART 2410
A 9 de janeiro de 1969, três dias após o ataque a Ganturé, um efectivo da CART 2410 constituída por cerca de cem elementos, entre militares, milícias e caçadores nativos, executou um reconhecimento a Sangonhá, comandado pelo ex-Alf. Mil. Albino Rodrigues, Cmdt do 1.º Gr. Comb., o qual contou com apoio aéreo em determinados momentos da sua marcha apeada.
Ao longo do percurso até Sangonhá não foram detectados trilhos novos, nem foram encontrados os habituais invólucros de granadas de morteiro ou de canhão s/r que os guerrilheiros deixavam espalhados no terreno após as flagelações. Após terem passado o vau do rio Queruane/Axe, a uns duzentos/trezentos metros à frente, numa pequena elevação do terreno, foram encontrados os restos de uma fogueira, feita durante a noite, junto a uma árvore alta com vestígios de ter sido utilizada como posto de observação.
Três ou quatro metros depois encontraram fio telefónico que foi seguido até ao respectivo carretel vazio. Por isso se concluiu que naquela árvore teria estado um observador avançado munido de linha telefónica para orientar o tiro dos canhões AC estacionados em Sangonhá.
Em determinado momento da sua progressão, que consideraram como um sinal de estarem próximos do objectivo foi dado pela grande quantidade de abutres, uns pousados nas árvores, outros voando em círculos. A este sinal, um outro se adicionou transmitido pelo cheiro nauseabundo de corpos em decomposição. A partir daquele momento o avanço foi feito com muitas cautelas até que descobriram algo que nunca pensaram encontrar.
Sobre esse macabro achado, o ex-Alf. Mil. José Barros Rocha, Cmdt do 2.º Gr Comb., refere o que viu e sentiu da seguinte forma: “na antiga pista de Sangonhá, armas destruídas e pedaços de corpos de negros e brancos e treze sepulturas. Uns dias depois tivemos a informação de trinta e seis mortos confirmados e muitos feridos. (…) O aspecto do local era medonho! A terra, cuja cor natural é avermelhada, tinha a cor cinza! O intenso cheiro a putrefação! (…) Recolhemos três carretéis carregados de fio telefónico e um vazio, uma mina A/P, uma ferramenta de aperto de rodas, invólucros de granada de canhão AC 57 mm, meia pistola, munições intactas da AA de calibre 14,5 mm, bonés, chapéus tipo colonial, uma bandeira, uma caixa de ferramenta, e algumas bugigangas…”.
Depois de ter permanecido em Sangonhá cerca de duas horas, a força chegou a Gadamael por volta das três horas da tarde, sem mais ocorrências.
3.   CONCLUSÕES
Em primeiro lugar, aproveito para vos confidenciar de que desconhecia, em absoluto, esta história (como desconheço, seguramente, outras que ocorreram antes, durante e depois da minha presença no CTIG). Não podemos ter a pretensão de, alguma vez, ficarmos ao corrente de tudo o que aconteceu naquele território durante os treze anos do conflito. Daí a partilha de memórias que se dão a conhecer neste espaço plural.
Quanto ao que nos propusemos analisar, são convergentes os relatos das NT e o escrito por Amílcar Cabral, com relevância para a referência às duas missões efectuadas pela Força Aérea [G-91] e os intervalos entre cada uma delas [duas horas].
Sobre o número de baixas, um assunto sempre difícil de abordar ou quantificar, constata-se uma dupla situação. Os referidos por Amílcar Cabral são convergentes com os publicados no livro de Ramón Cabrera. Estes, quando comparados com o depoimento resultante do reconhecimento a Sangonhá [CART 2410], existem diferenças, uma vez que foi referida a existência de treze sepulturas [recentes ou antigas?] e ainda pedaços de corpos de negros e brancos espalhados no solo. Mais tarde, por informação exterior, foram confirmadas trinta e cinco mortes.
No que concerne a baixas entre o contingente cubano, são referidas três, a totalidade dos elementos envolvidos no ataque, ainda que no texto se indique, também, tratar-se de um morto e dois feridos [mas que seriam muito graves, vindo a falecer].
Neste sentido, e por curiosidade, apresentamos um quadro das baixas contabilizadas no contingente cubano, entre 3 de junho de 1967 e 6 de janeiro de 1969 [18 meses]. Estes números foram escrutinados a partir do livro acima citado.
Quadro estatístico do autor – Fonte: Ramón Pérez Cabrera, op.cit.
Por último, resta-me levantar a seguinte hipótese:
Será que o pedido de nove canhoneiros e seis morteiristas “requisitados” no memorando, num total de quinze elementos, destinavam-se a substituir aqueles que tombaram neste ataque a Ganturé?
Talvez ...

Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
07DEC2016.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

P284 - MEMÓRIAS DE MÉDICOS CUBANOS (1966-1969) – ‘XI’ - O CASO DO MÉDICO VIRGÍLIO CAMACHO DUVERGER (Jorge Araújo)


Caríssimo Camarada Sousa de Castro.

Os meus melhores cumprimentos.
Dando sequência à publicação do nosso projecto «memórias de médicos cubanos», iniciamos, hoje, a terceira (e última) das entrevistas com o primeiro fragmento relativo ao médico militar Virgílio Camacho Duverger (1934-2003).

À tua consideração.

Com um forte abraço de amizade,

Jorge Araújo.

OUT'2016


Parte [X] O ENIGMA DOS FERIMENTOS DE MAMADU INDJAI [N’DJAI] “meti a sua arma e a minha ao ombro, calcei-lhe os sapatos e agarrei-o pelo cinto. Era uma pluma. Assim caminhei vários dias, numa distância aproximada entre Havana e Matanzas [noventa quilómetros], com muitos portugueses por perto e por caminhos inóspitos


GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE

MEMÓRIAS DE MÉDICOS CUBANOS (1966-1969) – ‘XI’

- O CASO DO MÉDICO VIRGÍLIO CAMACHO DUVERGER -

1.   INTRODUÇÃO

Depois de dois pequenos desvios ao tema em título, mas complementares, tendo por protagonistas os comandantes Mamadu Indjai (o enigma dos seus ferimentos em combate) e Bobo Keita (os fundamentos que estiveram na base da sua saída da Mata do Fiofioli em maio de 1970) [P281 + P283], regressamos ao “trilho” anterior (passe a imagem metafórica) para retomar a divulgação de algumas das memórias transmitidas por três médicos cubanos que estiveram na Guiné Portuguesa [hoje Guiné-Bissau] em missão de “ajuda humanitária” ao PAIGC, na sua luta pela independência, nos anos de 1966 a 1969.
Esta narrativa, que é a décima primeira, inicia a entrevista ao médico militar Virgílio Camacho Duverger [1934-2003], a terceira no alinhamento do livro escrito em castelhano pelo jornalista e investigador Hedelberto López Blanch, uma coletânea de memórias e experiências divulgadas pelos seus diferentes entrevistados, a que deu o título de «Histórias Secretas de Médicos Cubanos» [La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2005, 248 pp.] ou “on line” em formato pdf, em versão de pré-publicação.
Recordo que por ser uma tradução e adaptação do castelhano, onde procurei respeitar as ideias expressas nas respostas dadas a cada questão, entendi não fazer juízos de valor sobre o seu conteúdo, colocando entre parênteses rectos, quando possível, algumas notas avulsas de reforço histórico ao que foi transmitido, com recurso ao vasto espólio disponível no blogue da «Tabanca Grande» e a outras referências retiradas da Net.
Esta decisão não quer dizer que não se possa acrescentar algo mais em cada situação ou facto concreto, antes pelo contrário, pois o objectivo supremo é ficarmos cada vez mais perto da verdade, ainda que neste conflito bélico se tenham enfrentado poderes com interesses antagónicos e avaliações diferenciadas, e daí o título com que baptizei este trabalho de investigação: “d(o) outro lado do combate – memórias de médicos cubanos”.

2.   – O CASO DO MÉDICO VIRGÍLIO CAMACHO DUVERGER [I]

Virgílio Camacho Duverger nasceu em novembro de 1934, em Guantánamo, cidade a oitenta quilómetros de Santiago de Cuba, esta fundada pelo conquistador espanhol Diego Velázquez de Cuéllar (1465-1524), em 28 de junho de 1514
A sua cidade, Guantánamo, tornou-se célebre após a implantação, a quinze quilómetros de distância, da Base Naval do mesmo nome pertencente aos Estados Unidos da América, onde no seu interior se encontra a também célebre «Prisão de Guantánamo». Esta Base Naval, situada na Baía, igualmente como o mesmo nome, foi arrendada de forma perpétua pelos Estados Unidos, em 23 de fevereiro de 1903.
O seu percurso académico foi realizado entre Guantánamo e Santiago de Cuba, aonde concluiu o seu bacharelato em 1952. Iniciou a carreira de medicina em Havana, nesse mesmo ano, concluindo-a em dezembro de 1960, depois de um interregno de dois anos por motivo de terem encerrado a Universidade na sequência do ataque ao Palácio Presidencial em 1957, e reaberta depois do triunfo da Revolução. Em julho de 1959 ingressa no Exército Rebelde como técnico de saúde.
Incorporou-se como médico militar e no dia seguinte a obter o seu diploma, foi mobilizado para Mariel, seguindo-se, depois, a transferência para La Limpia del Escambray como médico militar. Poucos meses depois é designado para fazer a pós-graduação no Serviço Médico Rural. Seguiu-se Minas de Frio, uma localidade existente na Serra Maestra, que era aonde funcionava a escola de recrutas [cadetes] que Ernesto Che Guevara [1928-1967] havia fundado em 1958. Como era militar, enviaram-no para o acampamento Pino del Agua, na província de Oriente, que pertencia à Associação de Jovens Rebeldes, aonde só havia um estomatólogo.
Nesse contexto, recebe um telefonema donde lhe pedem para se apresentar em Santiago de Cuba, onde o chefe dos Serviços Médicos em Oriente lhe coloca a necessidade de ir como médico para o Batalhão fronteiriço, em Guantánamo, que acabara de fundar-se. Foi o primeiro médico desse Batalhão aonde termina a pós-graduação, passando, em maio de 1962, para o Instituto Nacional de Cirurgia e Anestesiologia [INCA]. Conclui a cirurgia geral em 1964 (como militar) e transita para o Hospital Militar Dr. Carlos J. Finlay como especialista.
Em janeiro de 1966, durante a 1.ª Conferência Tricontinental, é contactado pelo doutor José Ramón Balaguer Cabrera, naquele tempo chefe dos Serviços Médicos das Forças Armadas, a quem lhe é colocada a possibilidade de ir cumprir uma missão ao estrangeiro mas sem lhe dizerem o seu destino, que aceita. Concluído um período de treino de cerca de dois meses, seguiu em finais de maio de 1966 até Conacri, a bordo do barco «Lídia Doce», na companhia de mais vinte e seis “internacionalistas cubanos”, constituído por artilheiros, médicos e motoristas. Este contingente acabaria por ser considerado o primeiro a chegar em missão de ajuda ao PAIGC.
Seguem-se os primeiros desenvolvimentos revelados durante a entrevista dada pelo doutor Virgílio Camacho Duverger.

- Entrevista com 22 questões [P1 > da 1.ª à 7.ª] -

“Testemunhos antes da morte”

[Notas introdutórias sobre o entrevistado da responsabilidade do jornalista Hedelberto López Blanch, justificando-se, pelo desenlace à posteriori, o titulo dado à entrevista: «testemunhos antes da morte»].

Virgílio Camacho Duverger, destacado profissional de saúde, pessoa amável e respeitada que nasceu a 29 de novembro de 1934 em Guantánamo, antiga província do Oriente, o entrevistei numa tarde de janeiro de 2003 num pequeno gabinete do Hospital [Clínico Quirúrgico] Hermanos Ameijeiras, [hospital líder de Cuba, situado no centro de Havana, entre o centro histórico e o bairro de Vedado], aonde mantinha uma consulta voluntária todas as terças-feiras.
[De referir, como curiosidade, que no terreno onde se ergueu este hospital, inaugurado em 3 de dezembro de 1982, aí funcionou durante um século aproximadamente (1852-1950), a Casa de Beneficência e Maternidade de Havana e, depois, até ao triunfo da Revolução
Cubana, em 1959, o Banco Nacional de Cuba e mais algumas dependências, nomeadamente a bolsa. Estes primeiros serviços estavam instalados em edifícios que ocupavam somente metade da área e que o novo estado cubano decidiu ampliar a sua construção, transformando-os em hospital, considerado dos melhores centros, da sua classe, no mundo. Quanto ao nome do hospital, este recorda os três irmãos Ameijeiras, mártires da luta revolucionária, que cresceram ao redor deste edifício].
Estava eu muito longe de pensar que somente dez meses após ter conversado com ele, em novembro de 2003, Camacho Duverger falecerá vítima de enfarte do miocárdio. Incrivelmente fora atraiçoado na sua própria especialidade de cirurgião cardiovascular, depois de ter operado e salvado centenas de pacientes.
Como meritória homenagem a este destacado académico e médico internacionalista, que cumpriu a sua missão na Guiné-Bissau, eis as suas últimas declarações para este livro que colige histórias inéditas de alguns dos homens que, como Duverger, cumpriram o dever patriótico e humano de salvar vidas em outras terras do mundo.

1.    = Fale-me dos seus estudos e da carreira de medicina.

Fiz os primeiros graus no Colégio La Salle de Guantánamo, e parte do bacharelato nessa mesma cidade e o terminei em Santiago de Cuba, em 1952. Dou início à carreira de medicina nesse mesmo ano, em Havana, e quando estou no quarto ano, fecham a Universidade, depois do ataque ao Palácio Presidencial em 13 de março de 1957. Reinício a carreira depois do triunfo da Revolução, e em julho de 1959 ingresso, com outros companheiros, no Exército Rebelde como técnico de saúde. Era aluno de medicina e faltava pessoal para os serviços médicos. Colocaram-me no Centro de Cria Cavalar, em El Cotorro [um município situado a sudoeste da Província e cidade de Havana]. Concluo a carreira de medicina em 6 de dezembro de 1960.

2.    = Que fez depois?

Imediatamente incorporei-me como médico militar, pois até a esse momento era aluno de saúde, e no dia seguinte a obter o título, mobilizam-me para Mariel [um município da província de Artemisa, a quarenta quilómetros de Havana], porque era a mudança [20 de janeiro de 1961] de governo de Dwight D. Eisenhower [1890-1969] para John F. Kennedy [1917-1963]. [Eisenhower foi um general de cinco estrelas dos Estados Unidos, tendo participado na Segunda Guerra Mundial como Cmdt Supremo das Forças Aliadas na Europa, assumindo a responsabilidade de comandar e supervisionar a invasão do Norte de África durante a “Op. Tocha”, entre 1942 e 1943. Assumiu, ainda, a planificação da invasão
da França e da Alemanha, entre 1944 e 1945. Em 1951 tornou-se o primeiro Cmdt Supremo da OTAN (NATO). Dois anos depois foi eleito o 34.º Presidente dos Estados Unidos da América, mandato que decorreu entre 1953 e 1961].
Mais tarde transfiro-me para La Limpia del Escambray como médico militar. Três ou quatro meses depois sou designado para fazer a pós-graduação no Serviço Médico Rural, cujo chefe administrativo no Ministério da Saúde era o doutor José Miyar Barruecos (Chomi), [n. 1932; sendo-lhe atribuídas responsabilidades relacionadas com o desenvolvimento da biotecnologia, a criação e o funcionamento da Escola Latino-americana de Ciências Médicas (ELAM) e da Internacional de Educação Física e Desporto. É professor de Mérito da Faculdade de Medicina Victória de Girón].
Colocaram-me, então, em Minas de Frio [localidade existente na Serra Maestra, pertencente ao município de Bartolomé Masó, na província de Granma], Era aí que funcionava a Escola de Recrutas [Ciro Redondo (cadetes)] que Ernesto Che Guevara [1928-1967] havia fundado [em 1958]. O chefe da Escola era Aldo Santamaria Cuadrado [1933-2003]. Durante a minha presença, passam a direcção administrativa de Minas de Frio para o Ministério da Educação. Como eu era militar, enviaram-me para o acampamento Pino del Agua, na província de Oriente, que pertencia à Associação de Jovens Rebeldes. Quando lá cheguei, só havia um estomatólogo.
Muitos jovens que passaram por essa Escola hoje são generais. Por essa altura, recebo um telefonema donde me pedem para me apresentar em Santiago de Cuba. Ali o doutor Monreal, chefe dos Serviços Médicos em Oriente, coloca-me a necessidade de eu ir como médico para o Batalhão fronteiriço, em Guantánamo, que acabara de fundar-se. Fui o primeiro médico desse Batalhão. Termino a pós-graduação e passo, em maio de 1962, para o Instituto Nacional de Cirurgia e Anestesiologia [INCA], que era dirigido pelo doutor René Cirilo Vallejo Ortiz [1920-1969] (médico de Fidel de Castro).
Esse instituto surge porque Fidel [de Castro], depois da invasão da Praia Girón [conhecida em Cuba como a “Batalha de Girón”, na Baía dos Porcos, que fora uma tentativa frustrada de invadir o sul de Cuba empreendida em abril de 1961 por um grupo paramilitar de exilados cubanos anticastristas, a chamada Brigada de Assalto 2506], deu-se conta da falta de cirurgiões, anestesistas e de outras diferentes especialidades cirúrgicas. Ali surge também o INCA [Instituto Nacional de Cirurgia e Anestesiologia] e a especialidade de maxilofacial, que não existia. Concluo a cirurgia geral em 1964 (como militar) e transito para o Hospital Militar Dr. Carlos J. Finlay como especialista.

3.    = Quando e quem lhe propôs a missão internacionalista?

Em janeiro de 1966, durante a [1.ª] Conferência Tricontinental [realizada em Havana, Cuba, entre 3 e 15 desse mês, e onde esteve presente Amílcar Cabral (1924-1973), foi aprovada, em 12 de janeiro, a criação da Organização de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina], contacta comigo do Hospital Dr. Carlos J. Finlay, o doutor José Ramón Balaguer Cabrera [n. 1932], naquele tempo chefe dos Serviços Médicos das Forças Armadas.



[Havana (Cuba), janeiro de 1966. Intervenção de Fidel de Castro durante a Primeira Conferência Tricontinental, onde marcaram presença 512 delegados, provenientes de 82 países, bem como de 64 observadores e 24 convidados. De entre as centenas de delegados, destacam-se: Amílcar Cabral [1924-1973], da Guiné-Bissau; Salvador Allende [1908-1973], do Chile; Luís Augusto Turcios Lima [1941-1966], da Guatemala; Cheddy Bharat Jagan [1918-1997], da Guiana [Inglesa]; Pedro Medina Silva [1924-2012], da Venezuela; Nguyen Van Tien [1923-2001], do Vietnam do Sul; e Rodney Arismendi [1913-1989], do Uruguai].


[vídeo da conferência em: https://www.youtube.com/watch?v=CVZoxudN_Rk]
[O doutor José Cabrera, chefe militar da Força Armadas de Cuba] coloca-me a possibilidade de ir cumprir uma missão ao estrangeiro sem me dizer em que sítio. Incorporo-me num grupo para treino. Eram três grupos: um de artilheiros, outro de mecânicos-auto e outro de médicos. Cada grupo tinha nove elementos.
Depois nos reagrupámos numa casa dividida por classes e na supervisão dos grupos encontrava-se um companheiro que era da “segurança”, conhecido por Artemio [tenente Aurélio Riscar Hernández Artemio] (com ele existiram alguns pequenos problemas porque quis aplicar algumas teorias e passado algum tempo na Guiné-Bissau o substituíram pelo Cmdt Victor Dreke) [facto ocorrido em fevereiro de 1967]. Dos três grupos de nove cada um, saíram em avião até Conacri, três artilheiros e dois médicos que o PAIGC necessitava com urgência. [Estes cinco elementos chegaram à capital da Guiné-Conacri em 29 de abril de 1966, numa viagem entre Havana-Moscovo-Praga-Marrocos-Conacri, chefiados por Aurélio Artemio].
Estivemos nessa casa aproximadamente dois meses. Deram-nos algumas aulas militares e de português. Aí começámos a suspeitar de que iríamos para alguma das colónias portuguesas. Por coincidência irónica, a casa aonde nos colocaram estava perto da embaixada de Portugal e às vezes, quando saíamos, passávamos em frente dessa vivenda diplomática.
Ao concluir o intenso e curto período de treino, saímos um dia numas viaturas fechadas e imaginei que íamos a caminho de Mariel, e porque não nos dizem o destino.

4.    = Os seus familiares sabiam alguma coisa?

Para os nossos familiares, desde que abandonámos a casa, estávamos na União Soviética a fazer um curso. Recordo-me que vivia no município Playa, em 41 e 30, e às vezes passava perto de minha casa, quando tinha alguma coisa de trabalho para fazer, e não podia nem falar ao telefone.

5.    = Quando e por que meio viajou?

Saímos em finais de maio de 1966 [21], porque passámos o Dia das Mães em Cuba. Numa lancha grande fomos até ao alto mar e aí subimos para o barco «Lídia Doce», um navio mercante cubano. Fizemos a travessia [atlântica] com dificuldades, pois em duas ou três ocasiões estivemos à deriva por avarias. [de notar que o doutor Virgílio Camacho Duverger fez parte do grupo no qual estava incluído o doutor Domingo Diaz Delgado, o primeiro entrevistado deste projecto, e que conta a história da viagem com mais detalhes – P268]

6.    = Iam vestidos à civil?

Chegámos a Conacri vestidos à civil e sem armamento. Todos os que faziam parte do meu grupo eram militares, sem excepção. Levávamos passaportes falsos.

7.    = Qual era o seu nome?

Víctor Córdoba Duque, porque como nos informou o nosso instrutor de “segurança” as iniciais dos nomes dos passaportes coincidiam com as reais (os nomes eram escolhidos por nós), para que se alguma vez surgissem referências em algum documento com as nossas iniciais poderiam levantar suspeita e desse modo descobrir a nossa identidade.

Continua…
Obrigado pela atenção.

Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

12OUT2016.

[Consulta em 30 de maio de 2016]. Disponível em:

sexta-feira, 15 de julho de 2016

P273 - DO OUTRO LADO DO COMBATE - Parte IV: Entrevista dada pelo cirurgião cubano. Domingo Diaz Delgado e publicada no livro, escrito em Castelhano, com o título, «HISTÓRIAS SECRETAS DE MÉDICOS CUBANOS» da autoria do jornalista, Hedelberto Lopez Blanch. (por Jorge Araújo)

Na sequência da publicação do terceiro fragmento sobre as memórias de médicos cubanos na Guiné (1966-1968), eis a última parte referente ao cirurgião Domingo Diaz Delgado.

Seguir-se-ão as restantes entrevistas, com recurso à mesma metodologia que inclui a sua estruturação em partes.

Jorge Araújo.

JUL’2016.

GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)

GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE

MEMÓRIAS DE MÉDICOS CUBANOS (1966-1968)

- O CASO DO CIRURGIÃO DOMINGO DIAZ DELGADO (IV) -

1.   – O CASO DO CIRURGIÃO DOMINGO DIAZ DELGADO [IV]
Para melhor compreensão da contextualização deste último fragmento sobre o médico em título, sugere-se a leitura dos P268 (1.º), P271 (2.º) e P272 (3.º). O primeiro relacionado com a preparação para a missão africana, viagem e inclusão na estrutura do PAIGC. O segundo de explicação/caracterização da paleta de actividades clínicas presentes no quotidiano de um médico naquela guerra de guerrilha, das condições logísticas vividas em bases improvisadas, provisórias e de parcos recursos, ora socorrendo os guerrilheiros feridos nos combates, ora cuidando das maleitas apresentadas pela população sob o seu controlo. O terceiro identificando as actividades operacionais em contexto de bi-grupo durante os primeiros três meses de 1967 na região [frente] Norte [Sambuia) até ao momento em que começou a ter vários problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma viagem até Conacri para recuperação/restabelecimento.
Utilizando o mesmo instrumento já apresentado no P271 [Suprintrep n.º 31, de 13Fev1971 - P2787-LG] dá-se conta na linha azul (mapa abaixo) da geografia dos itinerários percorridos pelo médico Domingo Diaz, também designados por “corredores” ligando as diferentes bases do PAIGC, durante os primeiros oito meses da sua missão [julho de 1966 a março de 1967]. A estrela verde corresponde aos itinerários utilizados durante o segundo período na região [frente] Leste, entre Junho e dezembro de 1967, com destaque para as actividades guerrilheiras desenvolvidas em Madina do Boé e Beli.


- A entrevista com as seis últimas questões [P4 > 23.ª à 28.ª] -
“Donde o tempo não se mede pelo relógio”
23. = Depois da recuperação em Conacri, aonde o colocaram?
Após um forte tratamento médico e com uma recuperação quase total, enviaram-me para a zona [frente] Leste. Esta região era um pouco mais tranquila do ponto de vista militar, embora se realizassem várias operações. Por exemplo Víctor Dreke dirigiu um dos ataques a um quartel. Anteriormente [novembro de 1966] tinha-se verificado ali um combate importante onde mataram um dirigente desse movimento, o comandante Domingos Ramos.
[Domingos Ramos foi morto em Madina do Boé, em 10 de novembro de 1966 (curiosamente o dia do meu 16.º aniversário), sendo considerado, por esse facto, um herói da Guiné-Bissau, uma vez que fez parte do grupo de pioneiros da luta de libertação, sob a liderança de Amílcar Cabral (1924-1973). Tem o seu nome ligado à toponímia e a instituições de ensino do país. O seu rosto figura em notas do Banco Central da Guiné-Bissau – exemplo da nota de cem pesos de 1983 e 1990. Tinha também um irmão na guerrilha – P16123-LG].
Para Domingo Diaz, [a frente Leste] era uma região onde se combatia, mas não com as mesmas características das do Norte. No Leste era uma zona mais isolada, com uma fronteira amiga, ou seja, a Guiné-Conacri.
Na zona de Madina do Boé morreu um companheiro cubano por uma úlcera perfurada ao comer umas folhas muito ácidas daquele lugar, que se chamam foli. Os nativos comem-nas para ter mais força e reanimarem-se, pois é muito ácida. A este companheiro se lhe perfurou o estômago e quando chega às minhas mãos está em agonia. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para lhe conter a hemorragia, e como carecíamos de instrumentos cirúrgicos, tentámos transferi-lo para o hospitalito de Boké, na Guiné-Conacri, mas faleceu durante a viagem. Este companheiro foi sepultado ao lado da base aonde nos encontrávamos.
[A morte deste cubano – o tenente Radamés Sánchez Bejerano – ocorreu em 19 de julho de 1967, cinco dias depois de um ataque de artilharia efectuado pelos guerrilheiros do PAIGC ao quartel de Madina do Boé, conforme depoimento do médico Domingo Diaz publicado no livro «La Historia Cubana en África – 1963-1991», de Ramón Pérez Cabrera, p. 152. […] Aí se refere que após concluído o ataque, e na

23. = Nas caminhas pelas matas teve experiências com serpentes?
Claro que sim. Atendi vários com mordidelas de serpentes e também vi morrer à minha volta seis nativos por esse motivo. Eram principalmente da população civil. Recordo um caso na zona [frente] Leste, um homem que chegou em muitas más condições e lhe tinha feito um garrote na perna, a qual estava muito danificada com muitas borbulhas e praticamente preta. Comecei a trata-lo e eu tinha uma ferida no pé. Estava usando uns chinelos plásticos [hoje, havaianas] que os naturais utilizavam muito e que me acostumei a esse tipo de calçado. Não me lembrei que tinha essa ferida no pé e já havia visto morrer à minha volta por picadelas de serpente.
Para esse tratamento fazíamos um corte em cruz no lugar da picada, levantávamos a pele nessa zona e começávamos a drenar para que saísse o sangue. Todo esse líquido me ia caindo na ferida que tinha eu no pé. Não sabia se isso me podia fazer mal ou não. Tomei a decisão de colocar um garrote na perna e fazer-me uma ferida. Não tinha bisturi, senão um canivete, que não estava esterilizado, mas era tanta a adrenalina que não senti o corte, e comecei a drenar. Um companheiro cubano controlava o garrote. Não tínhamos soro anti venoso para aplicar nessa zona. Em cada quarenta e cinco minutos aliviava dez minutos o garrote para que o sangue fluísse.
Passaram as horas e não senti nenhum sintoma. Provavelmente tomei esta decisão muito apressada, mas como tinha visto morrer não quis arriscar a ser mais uma. Os companheiros que estavam comigo eram gente competente, um grupo de tropas especiais de dez guerrilheiros, embora não estivessem acostumados aos afazeres médicos. Dois deles desmaiaram, mas depois outro ficou a ajudar-me até ao fim.
23. = Quando e como regressou da Guiné-Bissau?
Regresso em janeiro de 1968, ou seja, estive nesta missão durante vinte meses e em zonas de combates cerca de dezasseis. Regressei em más condições. Quando parti tinha 80 quilos e saí da Guiné-Bissau só com cinquenta. Com o objectivo de me recuperar, levaram-me a Conacri onde embarquei no navio cubano Pinar del Rio, que ia com destino ao Congo Brazzaville. Esses sete dias de viagem, mais uma semana no Congo, carregando troncos de árvores, e outra semana para regressar à Guiné-Conacri para recolher os restantes companheiros, serviram para me restabelecer um pouco. O meu grupo regressa com o que pensámos ser aquele que nos iria substituir, uma vez que quando tínhamos oito meses de actividade em Bissau, chega o segundo grupo cujo objectivo era reforçar a missão. No final regressamos todos juntos.
Desse segundo grupo quero fazer menção ao doutor Raúl Currás Regalado, que esteve todo o tempo na zona [frente] Sul da Guiné-Bissau. Posteriormente foi cumprir uma missão internacionalista em Angola, aonde participou na companhia do clínico cubano Martin Chang Puga em várias acções de guerra. Durante uma deslocação, o veículo aonde seguiam voltou-se e perderam a vida. Currás tinha umas características excepcionais e deixou dois filhos e a esposa. E Chang, que não esteve na Guiné-Bissau, era epidemiólogo, e também deixou filhos e esposa.


23. = Que fez ao regressar a Cuba?
Conclui a especialidade de neurocirurgia. Já tinha experiência desde quando era estudante de medicina ao prestar apoio nos Centros. Nesse tempo existiam somente três mil médicos em Cuba e os cirurgiões eram muito poucos. Antes de partir para a Guiné-Bissau fiz o internato com o sistema do Instituto Nacional de Cirurgia e Anestesiologia (INCA) criado pelo comandante René Vallejo para formar no imediato cirurgiões e anestesistas. Nesse ano de internato realizei operações de cirurgia superior e quando regressei da missão queria fazer neurocirurgia. Estive três anos e meio no Instituto de Neurologia e Neurocirurgia e graduei-me como especialista de primeiro grau nessa área. Depois estive oito meses no Hospital Joaquin Castillo Duany, no Oriente, como chefe dos Serviços de Neurocirurgia, e mais tarde transferi-me para o Hospital Naval como chefe da mesma especialidade, até 1979. Daí passei para o Ministério do Interior com a perspectiva da fundação do CIMEC [Centro de Investigaciones Médico-Quirúrgicas] em 1982, aonde trabalho desde o seu início como vice-director de docência e investigações.
–– Uma breve resenha da sua formação social e científica ––
Domingo Diaz Delgado nasceu em 1936, numa povoação chamada Florencia, na província de Camaguey, mas foi inscrito em Arroyo Arenas, na província da cidade de Havana. Terminou o bacharelato no Instituto de Marianao em 1957.
Começou a estudar medicina em 1959, devido a estar fechada a Universidade desde 1956, quando se agudizou a luta contra o tirano Fulgêncio Batista Zaldivar (1901-1973). Em meados de 1958 foi detido pela ditadura e levado à Décima Estação de Polícia situada no El Cerro, em Havana. Ali foi torturado durante vários dias, mas, por alguns esforços que foram desenvolvidos, foi libertado e saiu para o México. Regressou ao país em janeiro de 1959. Desde essa data se incorporou nos trabalhos da Revolução que se iniciaram nessa época e decidiu continuar os estudos, matriculando-se na Escola de Medicina.
Em 1961, quando se funda a Associação de Jovens Rebeldes, passou a ocupar o cargo de secretário organizador na Escola de Medicina. Mais tarde, em 1962, passou para a União de Jovens Comunistas. Desde os primeiros anos, trabalhou como aluno de cirurgia no Hospital Militar Carlos J. Finlay. Realizou o internato em cirurgia e terminou em 1965. Pertenceu ao grupo de médicos que subiu ao Pico Turquino, a cuja graduação presidiu o Comandante-chefe Fidel de Castro.
Continua...
Obrigado pela atenção.
Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.
13JUL2016.
[Consulta em 30 de maio de 2016]. Disponível em: