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sexta-feira, 27 de março de 2020

P394 - EFEMÉRIDES: 48 ANOS DA PARTIDA PARA A GUINÉ "PANTERAS DE GEBA" CCAÇ 3548/BCAÇ3884 – GEBA, BAFATÁ - 26MAR1972/26JUN1974


"PANTERAS DE GEBA"

CCAÇ 3548/BCAÇ3884 – GEBA, BAFATÁ - 26MAR1972/26JUN1974

(EFEMÉRIDES): FOI Á 48 ANOS QUE EMBARCAMOS POR VIA AÉREA COM DESTINO À GUINÉ, AO SERVIÇO DO ESTADO PORTUGUÊS

João Nunes da Silva

[Ex. Fur. Milº Atir. Infª Especial de HK21- CCAÇ 3548]

 


Camaradas, amigos, meus Irmãos e companheiros de luta. A todos vós envio o meu sincero e comovido abraço, neste dia em que estamos a comemorar o nosso 48° Aniversário da nossa chegada á Guiné. 
 A esta hora, estávamos nos autocarros que nos transportaram do Quartel de Chaves em direcção a Figo Maduro, onde embarcados no Avião com destino final á Guiné. 

Espaldão do Morteiro 81mm
Recordo-me de que em Chaves, no dia da nossa partida para Figo Maduro, o chão ainda estava Branquinho de neve e muito frio. Sei também que no dia da nossa chegada a Bissau, ao sairmos do Avião, fomos surpreendidos com um calor incrível. Recordo-me de ter dito: - Uf, aqui não se pode respirar, como vamos suportar isto? É verdade, a diferença térmica entre Chaves e Bissau, num espaço de tempo tão curto, foi impressionante. 

Hoje, passados 48 anos, é tão bom recordar este facto. Hoje também, passados 48 anos, recordamos com imensa saudade todos aqueles que ficaram pelo caminho e que hoje não podem festejar com todos nós. Contudo, estejam onde estiverem, podem ter a certeza de que hoje todos nós vos recordaremos e que enquanto por cá andarmos, vós, que já sois muitos, nunca deixareis de estar presentes no nosso pensamento e que um dia nos encontraremos convosco, onde quer que estejamos.

Para todos os "PANTERAS DE GEBA” envio aquele velho abraço, neste dia do nosso aniversário.  
Adorei todos os momentos, bons e maus, passados com o pessoal da CCAÇ 3548 - GEBA / BAFATÁ - 26/03/72 a 26/06/74.
 
João Silva
Maia, 26 de Abril 2020

Vd. Poste da série aqui:
(Efemérides) Foi à 47 anos (22 de Dezembro de 1971) que o BART 3873 sediado em Bambadinca (CCS) composto pelas companhias: CART 3492 no Xitole, CART 3493 em Mansambo CART 3494 no Xime, para além de uma companhia independente CART 3521 em Piche, embarcou em Lisboa no N/M NIASSA com destino à Guiné

segunda-feira, 11 de maio de 2015

P237 - CART 1690 GEBA 1967 - Mortos em Sinchã Jobel



Visitando o meu arquivo de vários documentos recebidos relacionados com a Guerra da Guiné, reli este com data do ano de 2007 transcrito abaixo, do António Manuel Marques Lopes, coronel DFA na situação de reforma, ex. Alf. Milº da CART 1690, GEBA 1967 e da CCAÇ 3, BARRÔ 1968
A CART 1690 foi formada no RAL-1 Amadora

De: A. Marques Lopes
Enviado: Terça-feira, 30 de Outubro de 2007 20:01


 MORTOS EM SINCHÃ JOBEL

Por: A. M.Marques Lopes, Cor. DFA na situação de reforma


Na CART1690 foram dados como "desaparecidos em campanha" o alferes Fernando da Costa Fernandes, o soldado Agostinho Francisco da Câmara e o Soldado António Domingos Gomes. Sabemos que "desaparecido" era o termo para designar, também, aqueles cujos corpos não se recuperavam, e podemos aceitar que assim fosse, dado que até podiam ter ficado no terreno, mas feridos.

Mas, muito tempo depois, e acabada a guerra, regressados a casa muitos desertores e alguns que se passaram para o outro lado (sem estar a pôr em causa as suas razões), os nomes destes homens deviam constar da lista dos mortos em combate na Guiné, porque assim sucedeu de facto.


O alferes Fernando da Costa Fernandes morreu em Sinchã Jobel em 19 de Dezembro de 1967, durante a Operação Invisível. Diz quem fez o relatório desta operação: "Começou também nessa altura o IN a fazer fogo com o Mort 82, com que abateu o alferes miliciano Fernandes; verifiquei que nessa altura já o Destacamento B tinha as seguintes baixas: Alferes Miliciano Fernandes, 1º Cabo Sousa, da CART 1742, e que estava a fazer fogo com a Metralhadora Ligeira MG-42, soldado Metropolitano Fragata e um soldado milícia que não consegui identificar, além de vários feridos. Procurei trazer o alferes miliciano Fernandes para a retaguarda e quando o puxava pelos pés, fui surpreendido por um grupo IN, que corriam em direcção aos furriéis milicianos Marcelo e Vaz e em minha direcção gritando que nos iriam apanhar vivos.

"Note-se que neste grupo IN avistei elementos brancos os quais usavam o
cabelo bastante compridos (a cobrir as orelhas), facto também confirmado
pelos já citados furriéis milicianos. Devido a tal tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar."

Mas morreu também nesta operação o soldado Vito da Silva Gonçalves, que
foi dado como "morto em combate", porque o corpo foi recuperado. Mas
também não vem nessa lista! E porque é que não foi dado como "desaparecido em campanha" o soldado Metropolitano Fragata, o Manuel Fragata Francisco, que também ficou nesta operação?


É uma história das teias que o império tecia. Eu conto (o que também contei em "As Duas Faces da Guerra"): ele foi crivado com uma roquetada
nessa operação, mas vivo, e os guerrilheiros do PAIGC levaram-no numa maca, atravessando a mata do Oio, o rio Mansoa e o rio Cacheu, até ao hospital que servia o PAIGC em Ziguinchor, no Senegal, onde, coincidência, foi tratado pelo doutor Pádua (actualmente no Hospital Pulido Valente, em Lisboa), que se tinha passado para o outro lado. A PIDE sabia disso, claro. Parece lógico que se pense que teriam feito o mesmo com o alferes Fernandes se ele tivesse ficado vivo. Mas foi muito claro que estava morto. 

O soldado Agostinho Francisco da Câmara (e não Camará...) morreu também em Sinchã Jobel em 16 de Outubro de 1967, aquando da Operação Imparável. O mesmo relator disse assim: "O nosso bazuqueiro (passe o termo) Soldado Agostinho Camará que estava a fazer um fogo certeiro, foi atingido mortalmente (note-se que este L.G.F. era o único que estava a fazer fogo). Foi o Soldado enfermeiro Alípio Parreira que se encontrava próximo e que estava a fazer fogo com a ML MG-42 (para a qual o referido soldado se oferecera como voluntário) pegar no LGF e continuar a fazer fogo com ele. Nesta altura tive que pegar na MG-42 e fazer fogo com ela.


Logo a seguir tive que me dirigir à retaguarda a fim de falar com o PCV que me chamava. Quando regressei à frente verifiquei o já referido soldado enfermeiro recomeçara a fazer fogo com a ML MG-42 que passado mais alguns momentos ficou impossibilitado de fazer fogo devido a uma avaria, ao mesmo tempo que o soldado enfermeiro e o municiador eram feridos por estilhaços."

"Atingido mortalmente" não quererá dizer que ficou morto?... Com essa
expressão a língua portuguesa não cometeu nenhuma traição. Ele morreu lá, de facto. Mas o relatório desta operação diz mais à frente: "Ainda foram abatidos a tiro de G-3 2 elementos IN um destes pretendiam agarrar o Soldado Armindo Correia Paulino". E o soldado Armindo Correia Paulino também lá ficou. Mas há dúvidas se ficou morto ou vivo: há quem diga que foi agarrado e há quem diga que morreu. De qualquer modo foi considerado como "retido pelo IN", mas não foi libertado (vejam a lista dos que foram libertados aquando da operação "Mar Verde").
O meu grupo de combate

O soldado António Domingos Gomes era um guineense de Bissau, do"recrutamento da Província", portanto, e era o guarda-costas do capitão da CART 1690. Sei que morreu às 8 horas do dia 21 de Agosto de 1967 na picada de Geba para Banjara. Ficou feito em bocados por uma mina anti-carro, espalhado pelas árvores e pela mata. Eu e o meu guarda-costas, o Lamine Turé, ficámos feridos e o capitão, que quis ir comigo nesse dia, também ficou muito ferido. Na esperança de ainda o salvar, fui rapidamente para Bafatá, onde havia o médico do batalhão. O Domingos Gomes lá ficou espalhado nas bermas da picada, e o capitão acabou por morrer. Não há relatório da ocorrência, por razões óbvias, mas eu vi e dei testemunho disso, assim como os que me acompanhavam. O Domingos Gomes morreu. Parece brincadeira de muito mau gosto, mas deram-no como "desaparecido em campanha".

Junto-vos um croqui do monumento que foi erigido pela CART1690 aos seus
mortos. Foi este monumento que tanto emocionou a Diana Andringa.



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