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quarta-feira, 16 de maio de 2018

P345 - UM NOVO OLHAR SOCIODEMOGRÁFICO DE UM BIGRUPO - O CASO DO BIGRUPO DO CMDT QUINTINO GOMES (1946-1972) - Jorge Araújo


Depois de um primeiro estudo sociodemográfico a um bigrupo do PAIGC, este relacionado com o Cmdt Mário Mendes (1943-1972), morto em combate na Ponta Varela (Xime) em 25 de Maio de 1972, facto ocorrido quatro semana depois de ter comando a força que nos atacou na Ponta Coli, em 22 de Abril desse ano, eis agora um segundo estudo.

 

Trata-se de um trabalho sobre o bigrupo do Cmdt Quintino Gomes (1946-1972), falecido em combate em Fevereiro do mesmo ano, em Empada, na Região de Quinara.

 

Esta narrativa é a primeira de duas partes.


GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE

UM NOVO OLHAR SOCIODEMOGRÁFICO DE UM BIGRUPO

- O CASO DO BIGRUPO DO CMDT QUINTINO GOMES (1946-1972) -


1.   INTRODUÇÃO

No primeiro dia do ano de 2017 – P296 – apresentei neste espaço de partilha aquele que foi considerado o primeiro estudo sociodemográfico de um bigrupo de guerrilheiros, com o título «Mário Mendes (1943-1972) - O último Cmdt do PAIGC a morrer no Xime».

A vontade, o interesse e a motivação para a realização deste estudo, nascera há quatro décadas e meia atrás, naquele já longínquo «22 de Abril de 1972», sábado, e que no mesmo dia, mas do ano seguinte (1973), correspondeu ao Domingo de Páscoa. E a principal razão estava ligada ao meu “baptismo de fogo”, e ao do meu Gr Comb (o 4.º) da CART 3494, episódio dramático ocorrido no lugar designado por «Ponta Coli», na estrada Xime-Bambadinca, local onde diariamente cada um dos 3 Gr Comb, em regime de rotação, desempenhava a missão de garantir a segurança a pessoas e bens, civis e militares, em trânsito de ou para Bissau, por via marítima.

Aí aconteceu o primeiro grande combate da CART 3494, em que estiveram frente a frente, a uma distância de escassas dezenas de metros, um efectivo de 20 operacionais, mais 2 condutores e o picador Malan Quité [NT], e um bigrupo reforçado do PAIGC, superior a cinquenta unidades que, agindo de surpresa como seria espectável, e habitual, nos procurou aniquilar. Alguns dias depois, soube-se que tinha sido o bigrupo do Cmdt Mário Mendes.
Desse combate resultaram dezassete feridos, entre graves e menos graves, e um morto, o meu/nosso camarada furriel Manuel Rocha Bento (1950-1972), natural da Ponte de Sor, a nossa única baixa em combate. Eu saí ileso, o mesmo acontecendo aos condutores das duas viaturas e mais dois operacionais do meu Gr Comb.

Do outro lado, ainda não consegui apurar as consequências de tamanha ousadia.

Quatro semanas após ter organizado e comandado aquela emboscada na «Ponta Coli», voltaríamos a estar com Mário Mendes e o seu grupo, em novo frente a frente, desta feita na Ponta Varela (zona mítica do Xime), em 25 de Maio de 1972, 5.ª feira, quando este se preparava para realizar nova “aventura”. Aí Mário Mendes viria a morrer, por intervenção de elementos da CCAÇ 12 (ex-CCAÇ 2590), na acção «GASPAR 5», em que participaram seis Gr Comb [três da CART 3494 e três da CCAÇ 12], tendo-lhe sido capturada a sua Kalashnicov, bem como três carregadores da mesma e documentos que davam conta do calendário das “acções” a desenvolver naquela zona pelo seu bigrupo. [vidé P148 + P191 + P234 + P242].

Foi a partir desse(s) palco(s) do TO, onde se praticava o “jogo da sobrevivência”, durante o qual se fazia apelo à superação permanente, ou transcendência, individual e grupal, que no meu processo cognitivo emergiram um certo número de questões/ interrogações, por exemplo: “Quantos e quem eram aqueles que tinham estado à minha/nossa frente, e se puseram em fuga passados 15/20 minutos? Quais os seus nomes? Onde nasceram? Que idade tinham? Há quantos anos andavam naquela vida? Como viviam e de que se alimentavam?... Ou seja, alguns enigmas da guerra.

Algumas das respostas consegui obter, justamente, naquele primeiro estudo.


Hoje, passados quinze meses após a realização desse primeiro trabalho, volto de novo ao fórum para apresentar/partilhar um segundo estudo, concretizando, deste modo, uma promessa que formulei a mim mesmo de o fazer logo que encontrasse uma amostra semelhante à do primeiro. E isso aconteceu… e ainda bem!

Assim, utilizando a mesma metodologia do primeiro caso, este novo estudo tem como universo o bigrupo do Cmdt Quintino [Amisson] Gomes (1946-1972), morto em combate, em Fevereiro de 1972, nos arredores de Empada, região de Quinara, ao tempo da CCAÇ 3373 - “Os Catedráticos de Empada”, ou seja, três meses antes do Cmdt Mário Mendes (1943-1972).

2.   QUINTINO [AMISSON] GOMES, CMDT DE BIGRUPO EM ACÇÃO NA REGIÃO DE QUINARA

O presente estudo sociodemográfico sobre o bigrupo do Cmdt Quintino Gomes nasce por ramificação da investigação que tenho vindo a realizar a propósito do “relatório relacionado com as operações militares na Frente Sul”, acções efectuadas na região de Quinara e de Tombali, durante o último trimestre de 1969, uma vez que nele é referido o seu nome.

Soube que Quintino Gomes era Cmdt do bigrupo do PAIGC e que actuava no Sector de Cubisseco de Baixo, tendo por missão, até meados de 1969, controlar a estrada de Nhala, que passa em Uana, antigo quartel das NT, em direcção a Mampatá. Quintino Gomes nasceu em 1946 [desconhece-se o dia e o mês], na Vila de Empada, na região de Quinara. Era casado. Em 1962 aderiu ao PAIGC, com 15/16 anos, como aconteceu com muitos outros, de que é exemplo o caso de Mário Mendes, desde quando deu início à sua actividade na guerrilha. Era Cmdt de bigrupo, pelo menos desde 1966, ano que foram elaboradas pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra as listas [mapas] das FARP referentes à constituição dos bigrupos existentes em cada Frente, conforme demonstra o exemplo abaixo, onde consta o nome de Quintino Gomes e de mais trinta e três elementos.

Como reforço do acima exposto, no “Relatório da Comissão de Inspecção das FARP para a Frente Sul e Leste”, datado de 21 de Maio de 1969, e assinado por Pedro Ramos, consta que, após reunião de 9-3-69 (Bigrupo de Quintino Amisson Gomes e de Pana Djata), “este bigrupo que se encontra estacionado a uns quilómetros do antigo quartel inimigo [NT] de nome Uana (Tabanca) tem como missão de controlar a estrada de Nhala, que passa em Uana em direcção a Mampatá. Na primeira formação do bigrupo, este perdeu uma AK[-47]. A última operação efectuada foi em 15-2-69 no aquartelamento de Nhala. O último contacto com o Comando do sector foi em Janeiro de 1969. Com o Comando da Frente nunca tiveram contactos no lugar de estacionamento. A última reunião do Comissário Político do bigrupo com os combatentes teve lugar no dia 28-2-69. O comandante do sector, o camarada Iafal Camará, declarou que tem reunido com os combatentes sempre no fim de cada mês”.

Ainda no que concerne ao Cmdt Quintino Gomes, o “Relatório sobre o Sector de Cubisseco de Baixo”, elaborado por José [Eduardo] Araújo (1933-1992), datado de 10 de Dezembro de 1971 e enviado a Amílcar Cabral (1924-1973), refere que […] “Tive uma impressão muito boa do camarada Quintino Gomes, comandante do sector, que tem rara “particularidade” de nunca ter visto o Secretário-Geral, facto que lamenta. Da opinião de toda a gente trata-se de um bom camarada. Escreve razoavelmente, o que significa que tem algum grau de instrução primária [3.ª classe]”.

Dois meses depois deste relatório, em [?] Fevereiro de 1972, Quintino Gomes morreria em combate na Vila que o viu nascer – Empada.

Em 25 de Fevereiro de 1972, em carta enviada a “Nino” Vieira (1939-2009), em resposta às suas missivas de 11 de Janeiro e 15 de Fevereiro [1972], Amílcar Cabral (1924-1973) lamenta a morte do Cmdt Quintino Gomes nos seguintes termos: […] “Mas os camaradas têm que ter muito cuidado nos ataques, para não acontecer o que se passou em Empada no último ataque [que teria sido antes de 15Fev’72]. Lamento muito a perda do camarada Quintino Gomes que era dos nossos melhores combatentes e quadros do Partido. Discutiremos na próxima reunião da Direcção a tua proposta para que seja considerado herói”.


Entretanto, no passado domingo, 4 de Março de 2018, numa feliz coincidência para a conclusão deste trabalho, o Correio da Manhã Jornal publica uma entrevista com um camarada (não identificado, mas certamente o da foto abaixo) da CCAÇ 3373 (Empada, Mai’71 a Mai’72), conduzida pela jornalista Fernanda Cachão.

No contexto desta narrativa, e como elemento de validação da data da morte do Cmdt Quintino Gomes, citamos a seguinte passagem: […] “Foi no mês de Fevereiro desse ano
[1972], tínhamos feito uma operação em que apreendemos muito material de guerra – e feito também mortos e feridos -, e tal como à ida regressámos já de noite. Fomos atacados por canhões sem recuo e foguetões [“GRAD”]. Tínhamos chegado ao aquartelamento em Empada, e foi terrível”. […]

Em função deste depoimento, não me é difícil aceitá-lo como elemento factual relacionado com o episódio da morte do Cmdt Quintino Gomes. Será que esta é também a opinião do fórum? [in: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/uma -mina-levou-a-perna-ao-furriel-rente-ao-joelho? ref=HP_Ticker CMAoMinuto].




3.   RESULTADOS DO ESTUDO

A partir dos dados contidos na lista acima [mapa], que consideramos como os casos da investigação ou a “amostra de conveniência”, procura-se compreender melhor quem estava do outro lado do combate. Com este propósito, procedemos à organização de alguns desses dados referentes a cada um dos sujeitos constituintes do “bigrupo de Quintino Gomes”, sobre os quais pretendemos retirar conclusões.

Para o efeito, esses dados foram agrupados quantitativamente e apresentados em quadros estatísticos de frequências (caracterização da amostra por idade: a de nascimento e a de adesão ao Partido) e de quadros de variáveis categóricas em relação aos restantes elementos (ano de adesão ao PAIGC e idade e anos de experiência cumulativas ao longo do conflito).

Quadro 1 – distribuição de frequências em relação ao ano de nascimento dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 1, verifica-se que os anos de nascimento com maior percentagem são dois; 1941 e 1945 (14.7%) com 5 casos cada, seguido de 1947 (11.8%), com 4 casos, e 1934, 1942 e 1944 (8.9%), em terceiro, com 3 casos cada.

Quando analisado por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-16) estão os nascidos entre 1943 e 1947 (47.1%) (grupo central), entre 1933 e 1942 (n-13= 38.2%) (grupo dos mais velhos), e entre 1948 e 1952 (n-5=14.7%) (grupo dos mais novos).

Quadro 2 – distribuição de frequências em relação à idade de adesão ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 2, verifica-se que a idade com maior percentagem de adesão ao Partido é 16 anos, com 7 casos (20.6%), seguida dos 17 e 21 anos, com 4 casos cada (11.8%). As idades de 18, 19, 22 e 23, com 3 casos cada, valem no seu conjunto 35.2%.

Quando analisada a adesão ao Partido por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-14) estão entre as idades de 14 e 17 anos (41.2%) (mais novos), seguido pelos grupos de idade média, entre os 18 e 21 anos, e idade superior, entre os 22 e 30 anos (mais velhos), com 10 casos cada (29.4%).

Analisada a adesão ao Partido entre os 18 e 23 anos, os valores apontam para uma maioria relativa com 16 casos (47.1%), seguida por 14 casos nas idades inferiores (41.2%) e somente quatro casos nas idades superiores (11.7%).

Quadro 3 – distribuição de frequências em relação ao ano de adesão ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 3, verifica-se que o ano onde se registou maior adesão ao PAIGC foi 1963 com 11 casos (32.4%), seguido de 1962, com 10 casos (um dos quais Quintino Gomes) (29.4%). O ano de 1964 foi o terceiro com 7 casos (20.6%).

Quando analisada a partir da soma dos dois primeiros anos (1962 + 1963), anos de preparação e início do conflito, a percentagem sobe para 61.8% (n-21).

Quadro 4 – distribuição de frequências em relação à idade verificada ao longo do conflito, contados após a adesão individual ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 4, e partindo da hipótese meramente académica de que o bigrupo se manteve constante ao longo do conflito, pelo menos até Fevereiro de 1972, data da presumível morte de Quintino Gomes, este teria, então, vinte e cinco/seis anos [sombreado castanho]. Os restantes elementos teriam a idade referida na linha [sombreado verde] do ano de 1972.

Quadro 5 – distribuição de frequências em relação ao número de anos de experiência na guerrilha ao longo do conflito, contados após a adesão ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 5, e partindo da hipótese meramente académica apresentada no quadro anterior, Quintino Gomes teria, no mínimo, nove anos de experiência na guerrilha [sombreado castanho], bem como de outros nove combatentes. Os restantes elementos teriam os anos de experiência referidos na linha [sombreado verde] do ano de 1972.

1.   – CONCLUSÕES

Partindo da análise aos resultados apurados, apresentados nos quadros acima, procedemos à elaboração de um último quadro (o 6.º), este comparativo entre os dois comandantes de bigrupos, considerados como os “casos” da investigação.

Quadro 6 – Elementos sociodemográficos de comparação entre os sujeitos do estudo – Quintino Gomes (n-34) e Mário Mendes (n-38) – a partir das variáveis categóricas em análise, para efeito da elaboração de conclusões.



Da análise ao quadro supra concluímos:

1. - A diferença de idade entre ambos era de 3 anos, sendo Quintino Gomes o mais novo.

2. - Nasceram em locais diferentes separados por dois rios importantes da Guiné: o Rio Geba e o Rio Grande de Buba; Mário Mendes mais a Norte (Região do Oio - Frente Norte); Quintino Gomes, mais a sul (Região de Quinara - Frente Sul).

3. - Ambos aderiram ao PAIGC no mesmo ano (1962), Quintino Gomes, com 15/16 anos, e Mário Mendes, com 18/19 anos. Morreram em combate dez anos depois, também no mesmo ano (1972), com uma diferença de três meses entre si. Cada um deles teria, aproximadamente, o mesmo tempo de experiência como combatente.

4. - Quanto às lideranças: Quintino Gomes foi Cmdt de um grupo de guerrilheiros com média de idades mais alta (28.1/34, em 1972), quando comparada com a do grupo do Cmdt Mário Mendes (27.9/38, em 1972).

5. - Quanto às idades: a maioria dos elementos do grupo de Quintino Gomes eram mais velhos que ele (n-20=58.8%) em comparação com os mais novos (n-9=26.5%). Por outro lado, a maioria dos elementos do grupo de Mário Mendes eram mais novos que ele (n-22=57.9%), enquanto os mais velhos eram metade dos mais novos (n-11=28.9%).

Caso surja outra oportunidade de investigação semelhante, prometo realizá-la e partilhar no fórum os seus resultados.

À vossa consideração.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

11MAI2018.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

P344 - (CONVÍVIOS) XXX CONVÍVIO DO BART 3873 (Bravos e sempre leais) EM S. PEDRO DO SUL, NO DIA 26 DE Maio de 2018 (Edgar Soares, ex Fur. Milº OP Esp.)

Mensagem de Edgar Soares do BART 3873 (CCS) com pedido de divulgação


XXX CONVÍVIO DO BART 3873
(Bravos e sempre leais)

EM S. PEDRO DO SUL,
NO DIA 26 DE Maio de 2018
 PROGRAMA


- 11,30 horas concentração em Stª. Cruz da Trapa, junto à Igreja
- 12,00 horas, Visita ao cemitério local, depondo uma coroa de flores na campa do nosso comandante, Cor. Artª António Tiago Martins, falecido no ano de 1992 (1919/1992)
- 13,00 horas almoço convívio no hotel Lisboa, junto das Termas de S. Pedro do Sul
- 16,00 horas Regresso a Casa;
Com a idade, a cada ano que passa, cada vez são menos os que estão disponíveis, mas, apesar de tudo, enquanto pudermos partilhar algo que, proporcionalmente, marcou as nossas vidas, o saldo será sempre positivo...
Um grande abraço! Contamos contigo.

Edgar Soares, ex. Fur. Milº Op. Esp.

Contactos: Gonçalves: 917 887 423 e Soares: 962 736 154

Vede Poste Convívios: XXXIII ENCONTRO/CONVÍVIO DA CART 3494 EM SEIA, NO DIA 09 DE JUNHO DE 2018, DISPONIBILIZA ESTE DIA PARA REVIVER E REPETIR AS ESTÓRIAS VIVIDAS E SOFRIDAS NA GUERRA DA GUNÉ AO SERVIÇO DE PORTUGAL. TAMBÉM HOMENAGEAR TODOS AQUELES QUE JÁ PARTIRAM!

P343 - GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE “PLANO DE OPERAÇÕES NA FRENTE SUL” [OUT-DEZ’69] - ATAQUE A BOLAMA EM 3 DE NOVEMBRO DE 1969 - (AO TEMPO DA CCAÇ 13 E CCAÇ 14) (Parte II)

- MSG com data de 24 de Abril de 2018

Pelo presente, anexo a segunda e última parte da análise ao ataque à cidade de Bolama, executado por forças do PAIGC em 3 de Novembro de 1969, tendo para o efeito utilizado foguetes/foguetões 122 mm, mais conhecidos por "GRAD".

Com um forte abraço de amizade.


Jorge Araújo.
Bissorã (1969/70) – A porta de armas do quartel por onde entrou a CCAÇ 13, substituindo a CCAÇ 2444 (1968/70 - companhia açoreana) na sua missão. Foto do camarada Armando Pires (ex-fur mil enf.º da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70), com a devida vénia. (P12023-LG). 

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
“PLANO DE OPERAÇÕES NA FRENTE SUL” [OUT-DEZ’69] - ATAQUE A BOLAMA EM 3 DE NOVEMBRO DE 1969 -
(AO TEMPO DA CCAÇ 13 E CCAÇ 14)
(Parte II)
1.   - INTRODUÇÃO
Com este segundo e último fragmento relacionado com o ataque a Bolama, em 3 de Novembro de 1969, 2.ª feira, damos por concluída a análise à terceira missão do “plano de acções militares”, de um conjunto de nove flagelações a diferentes aquartelamentos das NT, situados nas regiões de Quinara e de Tombali, todas agendadas para o último trimestre desse ano.
No caso particular da flagelação à cidade de Bolama, as forças mobilizadas pelo PAIGC eram constituídas por cerca de cento e vinte elementos, correspondentes a um grupo de artilharia com duas peças “GRAD”, cada uma delas preparada para projectar dois foguetes de 122 mm, e três bigrupos de infantaria, para segurança aos artilheiros, todos agindo sob as ordens do comandante Umaro Djaló (1940-2014) que, como foi referido na parte I deste trabalho [P342], viria a morrer a 29 de Maio de 2014, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, com 74 anos.
Este efectivo mais reduzido, quando comparado com os anteriores, é justificado pelos seus objectivos específicos e, também, pelo facto de estarem programados outros ataques para os dias imediatos, como eram os casos de Cacine e Cabedú, por esta ordem, conforme pode ser confirmado no quadro abaixo.
Para a concretização desta missão, os efectivos referidos tiveram que percorrer a pé cerca de setenta quilómetros, correspondente à distância entre a base de saída [Botché Chance] e o local escolhido para a posição de fogo [Ponta Bambaiã]. Este percurso demorou cinco dias, com a partida a acontecer às 17 horas do dia 29 de Outubro, 4.ª feira, e a chegada à Ponta Bambaiã às 16 horas do dia 3 de Novembro de 1969, 2.ª feira, o que equivale a uma caminhada média/dia de quinze quilómetros.
O percurso foi o seguinte: saída de Botché Chance pelas 17 horas do dia 29 de Outubro de 1969, 4.ª feira. Cambança do rio em Botché Col até às imediações de Gândua (dia 30). Nova cambança do rio Tombali em Iangue com chegada à Bolanha Longe (dia 1). Travessia de novo plano de água até atingir Paiunco de manhã (dia 3), com chegada a Ponta Bambaiã pelas 16 horas, onde iniciaram os preparativos do ataque.
Cumpridos os objectivos da missão, que durou dez minutos, os elementos desta força regressaram às suas origens, utilizando o mesmo itinerário mas, agora, em sentido inverso.

Citação: (1963-1973), "[dez?] Combatentes do PAIGC atravessando um rio de canoa", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_44127 (2018-3-10), com a devida vénia.
Referimos, uma vez mais, que para a elaboração desta narrativa, como para todas as outras que fazem parte deste dossier específico, já publicadas ou a publicar, foi utilizado o relatório “das operações militares na Frente Sul” [http://hdl.handle.net/11002/fms _dc_40082 (2018-1-20)], documento dactilografado em formato A/4, sem capa e sem referência ao seu autor, localizado no Arquivo Amílcar Cabral, existente na Casa Comum – Fundação Mário Soares.


2.   – DESTINATÁRIOS DO ATAQUE A BOLAMA EM 3NOV1969:
  - A CCAÇ 13 (CCAÇ 2591), A CCAÇ 14 (CCAÇ 2592) E O C.I.M.
Recordam-se, com vista aérea de Bolama e respectiva legenda, os espaços mais frequentados pelos militares durante a sua premanência naquela cidade. Imagem postada pelo camarada grã-tabanqueiro ex-Alf Mil Rui G. Santos, Bedanda e Bolama da 4.ª CCAÇ (1963/1965) – in: http://riodosbonssinais.blogspot.pt/search/label/bolama ou “Bolama… no meu tempo – Guerra do Ultramar”, com a devida vénia.
No C.I.M. (Centro de Instrução Militar) de Bolama, em finais de Outubro de 1969, estavam em fase de conclusão de instrução/formação mais duas Companhias de Caçadores designadas por CCAÇ 13 e CCAÇ 14, saídas da união entre praças africanas do Recrutamento Local e oficiais, sargentos e praças especialistas oriundos da Metrópole. Os quadros metropolitanos destas novas Unidades Independentes, mobilizados pelo Regimento de Infantaria 16, de Portalegre, pretenciam à CCAÇ 2591, que deu origem à CCAÇ 13, e a CCAÇ 2592 à CCAÇ 14, respectivamente.
No caso deste ataque a Bolama, ele foi presenciado pelos colectivos das duas Unidades acima, uma vez que se encontravam no cais da cidade preparando-se para o embarque em LDG, rumo a Bissorã e a Cuntima, locais onde passariam a desempenhar as suas missões operacionais.

De entre aqueles que viveram a emoção/tensão de ouvirem e sentirem o rebentamento dos foguetes 122 mm, recupero os testemunhos dos camaradas ex-furriéis Carlos Fortunato (CCAÇ 13/CCAÇ 2591) e Eduardo Estrela (CCAÇ 14/CCAÇ 2592), ambos membros da nossa «Tabanca».

Carlos Fortunato refere que “no dia 3/11/1969 quando a CCAÇ 13 [CCAÇ 2591 - “Os Leões Negros”] estava no cais de Bolama, preparando-se para embarcar numa LDG [rumo a BISSORÃ], ouviu-se um longínquo ‘pof’ vindo da parte continental (zona de Tite). Um dos africanos disse ‘saída’ sorrindo, mas logo a seguir passaram sobre as nossas cabeças 3 [no relatório constam quatro] foguetões de 122 mm. Um acertou numa das pequenas vivendas que corriam ao lado da rua principal [imagem abaixo], que ligava o porto ao largo principal da cidade, apenas a uns escassos 30m do local onde estávamos. Outro caiu no largo principal um pouco mais acima, e o terceiro mais longe, já fora da zona habitacional. Corremos de imediato para o local dos impactos para prestar assistência às eventuais vítimas, mas felizmente apenas houve ferimentos muito ligeiros entre a população”. […] “Os morteiros 107 mm existentes no quartel de Bolama responderam ao fogo”. […] [sítio: CCAÇ 13 – Os leões Negros: Memórias da Guerra na Guiné (1969/71)]. [P9337-LG].
Rua principal de Bolama, onde caiu o primeiro foguete 122 mm. Imagem postada pelo camarada grã-tabanqueiro ex-Alf Mil Rui G. Santos, Bedanda e Bolama da 4.ª CCAÇ (1963/65) – in “Bolama… no meu tempo – Guerra do Ultramar”, com a devida vénia.

Por outro lado, Eduardo Estrela, da CCAÇ 14 [CCAÇ 2592], acrescenta que “partimos em 3 de Novembro de 1969 para a zona operacional que nos tinha sido destinada, CUNTIMA, junto à linha de fronteira do Senegal. Ainda em Bolama (…) sofremos, à hora da saída da LDG, um ataque onde o PAIGC utilizou pela primeira vez foguetões terra-terra. Ninguém sabia que tipo de armamento o PAIGC utilizara e só em Bissau, no dia seguinte, nos foi comunicado o tipo de arma”. [P11365-LG].
Cuntima (1970) – 4.º Pelotão da CCAÇ 14, do ex-fur António Bartolomeu, o 1.º da direita. [P9456-LG], com a devida vénia.
Para concluir esta narrativa histórica resta-nos referir, no ponto seguinte, alguns aspectos técnicos relacionados com o uso da peça “GRAD”, arma utilizada neste ataque a Bolama, assim como dos resultados obtidos que constam no relatório.
Encerraremos o trabalho apresentando os quadros das baixas [mortes] de cada uma das Unidades, desde a sua criação [1969] até ao final do conflito [1974].
3.   - O ATAQUE A BOLAMA EM 3NOV1969… COM FOGUETES 122 MM “GRAD” LANÇADOS DA PONTA BAMBAIÃ
Objectivos da acção:
O objectivo definido para esta acção previa o bombardeamento de Bolama, através da utilização de quatro foguetes 122 mm lançados de duas peças “GRAD” colocadas na orla costeira da zona sudoeste da região de Quinara, mais precisamente na Ponta Bambaiã [ver imagem de satélite abaixo].
Porém, a escolha deste local está ligado a muitos outros antecedentes históricos. O primeiro de todos, a 23 de Janeiro de 1963, teve por cenário o ataque ao quartel de Tite, aquele que ficaria gravado como o do início do conflito armado, e que faz parte da mesma região, Quinara.
De acordo com a obra do historiador africano Leopoldo [Victor Teixeira] Amado, nascido em Catió em 1960, e que em 2010 concluiu o seu doutoramento em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa, nela é referido que “a partir do dia 12 de Março de 1963 o PAIGC aumentou substancialmente a sua actividade. Assim, destruíram vários pontões nas áreas de Tite e de Buba; flagelaram Dar-es-Salam, na península de Empada; cortaram as estradas de acesso a esta povoação e os locais de embarque para Bolama; incendiaram o barco a motor da carreira Bolama-Ponta Bambaiã; impediram o carregamento de mancarra e arroz num barco atracado em Dana, a nordeste de Fulacunda, no rio Corubal; atacaram a tabanca fula de Priame, junto a Catió; flagelaram Cufar e Fulacunda… […] Finalmente, em 25 [Março’63], capturaram no porto de Cafine (rio Cumbijã) os barcos a motor «Mirandela», da Casa Gouveia, e «Arouca», da Casa Brandão, tendo-os levado para a República da Guiné-Conacri com a conivência de parte da tripulação”. In: “Guineidade & Africanidade: Estudos, Crónicas, Ensaios e Outros Textos”, Lisboa, Edições Vieira da Silva, 2013, pp 117-118.
A 30 de Março de 1963, cinco dias depois desta ocorência, Amílcar Cabral (1924-1973) dirige uma carta a “Nino” Vieira [MARGA, pseudónimo de guerra] elogiando o seu desempenho na captura dos barcos, nos seguintes termos:
Em particular quero felicitar-te pela operação que terminou pelo envio para aqui dos motores «Mirandela» e «Arouca». Esta operação, pela sua importância no quadro da nossa luta, do género de luta que o nosso Partido adoptou, pelo sucesso total de que foi coroado, vem provar-nos que somos capazes de realizar tudo o que o nosso Partido projectou fazer para a conquista da liberdade, e para a construção da felicidade do nosso povo”. […] 
Citação: (1963), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/ 11002/fms_dc_36648 (2018-3-10)
Trabalho técnico da artilharia na posição de fogo [peças “GRAD”]
1.    Localização exacta da posição de fogo no mapa.
2.    Medição, pelo mapa, da distância entre a posição de fogo e o centro da cidade – 9.800 metros.
3.    Localização no terreno e no mapa de um ponto de referência bem determinado (observatório do porto de Bolama).
4.    Medição, pelo mapa, do desvio angular entre a direcção do ponto de referência escolhido e a direcção de fogo – o-35, à esquerda.
5.    Determinação aproximada das correcções a introduzir em virtude da pressão atmosférica e temperatura – (-100 metros).
6.    Determinação da alça pela tabela de tiro.
7.    Determinação da deriva a partir do ponto de referência. Como há que introduzir sempre uma correcção de (0-35, à direita) resultou que a deriva foi de 30-00 apontando para o ponto de referência.
8.    Instalação das peças, introdução dos dados obtidos e fogo.
Reacção das tropas colonialistas que abriram fogo de várias armas – metralhadoras, morteiros, canhões (de barco), sem no entanto terem localizado o local donde tinham partido os foguetes.
Retirada sem problemas pelo mesmo itinerário do acesso ao lugar.
Resultados
Segundo informações [pouco ou nada] fidedignas, na manhã do dia 4 de Novembro, 3.ª feira, ainda havia incêndio em Bolama. Todos os obuses caíram dentro da cidade e provocaram grandes destruições.
Na impossibilidade da elaboração de uma infogravura referente ao itinerário percorrido pelas forças mobilizadas para este ataque, já referido na introdução, optei por utilizar a imagem de satélite abaixo, indicando a vermelho a Ponta Bambaiã, local escolhido para o disparo dos foguetes 122 mm sobre Bolama.
4.   – BAIXAS
        - CCAÇ 13 (ex-CCAÇ 2591)
Desde a sua criação [Nov’1969], a CCAÇ 13 contabilizou 9 (nove) baixas, sendo 2 (duas) do Contigente Metropolitano e 7 (sete) do Recrutamento Local.
        - CCAÇ 14 (ex-CCAÇ 2592)
Desde a sua criação [Nov’1969], a CCAÇ 14 contabilizou 8 (oito) baixas, sendo 2 (duas) do Contigente Metropolitano e 6 (seis) do Recrutamento Local.
Continua…

Obrigado pela atenção.
Com forte abraço de amizade,
Jorge Araújo.
24ABR2018.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

P342 - GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE - ATAQUE A BOLAMA EM 03 DE NOVEMBRO DE 1969 (JORGE ARAÚJO)


MSG com data de 12ABR2018

Dando continuidade à partilha historiográfica de factos gravados durante a nossa presença militar no CTIG, eis mais uma narrativa elaborada a partir da consulta ao Relatório dos ataques realizados no último trimestre de 1969 contra alguns dos aquartelamentos das NT, situados nas regiões de Quinara e de Tombali, todos eles mencionados no "Plano de Operações na Frente Sul", e concretizados pelas forças do PAIGC.


O presente texto corresponde ao primeiro de dois fragmentos relativos ao ataque à cidade de Bolama, realizado em 3 de Novembro de 1969, com recurso à utilização de foguetes/foguetões 122 mm, vulgo peças "GRAD".

Com um forte abraço de amizade.

Jorge Araújo.


GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)

GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
“PLANO DE OPERAÇÕES NA FRENTE SUL” [OUT-DEZ’69] - ATAQUE A BOLAMA EM 3 DE NOVEMBRO DE 1969 -
(AO TEMPO DA CCAÇ 13 E CCAÇ 14)
(Parte I)
1.  - INTRODUÇÃO
Nove dias depois do ataque a Bedanda (25OUT’69 – o 2.º) e três semanas após terem realizado igual acção a Buba (12OUT’69 – o 1.º), as forças do PAIGC voltaram a concretizar nova flagelação prevista no seu “plano”, a terceira, desta vez à cidade de Bolama, a 3 de Novembro de 1969, 2.ª feira, com recurso exclusivo a duas peças “GRAD”, cada uma delas preparada para projectar dois foguetes 122 mm.
Recorda-se que este “plano de acções militares”, num total de nove ataques, havia sido delineado para ser cumprido durante o último trimestre desse ano nas regiões de Quinara e de Tombali, situadas na zona Sul da Guiné, com recurso a uma logística considerável de equipamentos de artilharia pesada (morteiros 82 e 120; foguetes 122 “GRAD” e peças anti-aéreas “DCK”) e a mobilização de um numeroso contingente de guerrilheiros, pertencentes ao “Corpo Especial do Exército”, comandado por “Nino” Vieira (1939-2009).
No caso particular da cidade de Bolama, o efectivo destacado para esta missão era constituído por cerca de cento e vinte elementos comandados por Umaro Djaló, uma força menor do que as anteriores, uma vez que no “calendário” estavam programados outros ataques para os dias imediatos, como eram os casos de Cacine e Cabedú, por esta ordem, conforme se indica no quadro abaixo.

Para a elaboração da presente narrativa, como para todas as outras que fazem parte deste dossier específico, já publicadas ou a publicar, continuaremos a utilizar o relatório “das operações militares na Frente Sul” [http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40082 (2018-1-20)], documento dactilografado em formato A/4, sem capa e sem referência ao seu autor [mas acreditamos ser possível identificá-lo no decurso desta pesquisa], localizado no Arquivo Amílcar Cabral, existente na Casa Comum – Fundação Mário Soares.
Para além deste facto histórico a que o comandante Umaro Djaló ficou ligado [primeiro ataque a Bolama com foguetes/foguetões 122 mm], outros actos ou acontecimentos haveriam, mais tarde, de constar no seu projecto de vida, como sejam:
No pós «25 de Abril de 1974», no contexto do processo negocial com os representantes do governo português, visando a independência da Guiné-Bissau, fez parte da delegação do PAIGC que se deslocou a Londres para participar nas sessões de trabalho de 25 e 26 de Maio de 1974. A delegação do PAIGC era constituída por Pedro Pires (chefe da missão), Umaro Djaló, José Araújo, Lúcio Soares, Júlio Semedo e Gil Fernandes.
Três meses depois, a 26 de Agosto de 1974, o acordo era finalmente assinado em Argel, ficando definido o dia 10 de Setembro como o do reconhecimento da República da Guiné-Bissau. Neste acto participaram, então, como representantes do PAIGC: Pedro Pires (1934-), Umaro Djaló (1940-2014), José Araújo (1933-1992), Otto Schacht (-1980/ass.), Lúcio Soares (1942-) e Luís Oliveira Sanca.
Depois da Independência, tomou parte do I Governo da República da Guiné-Bissau, constituído por João Bernardo “Nino” Vieira (1939-2009/ass.), Umaro Djaló (1940-2014), Constantino Teixeira, Carlos Correia (1933-), Paulo Correia (-1986/ass.), Vítor Saúde Maria (1939-1999/ass.), Filinto Vaz Martins (1937-), João da Costa e Fidelis Cabral d’Almada [da esqª/ditª na imagem abaixo]. Era então Presidente da República Luís Cabral (1931-2009). Aquando do “golpe militar” de Novembro de 1980, que levou “Nino” Vieira ao poder, Umaro Djaló era chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.


Citação: (1974), "Tomada de posse do I Governo da República da Guiné-Bissau", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43933 (2018-3)


A 29 de Maio de 2014, Umaro Djaló travou o último combate da sua vida, vindo a falecer no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de aí lhe terem sido prestados, durante alguns meses, os cuidados e a intervenção clínica especializada em função do seu “problema” de saúde.
2.  – DESTINATÁRIOS DO ATAQUE A BOLAMA EM 3NOV1969:
- A CCAÇ 13 (CCAÇ 2591), A CCAÇ 14 (CCAÇ 2592) E O C.I.M.
Certamente que a data escolhida para o ataque a Bolama [Ilha] não foi por acaso, pois é credível que a mesma tenha sido aprovada sobre informações recolhidas pela sua “secreta”, aliás procedimento habitual em qualquer contexto de guerra, e mais natural seria, em função do método utilizado na guerra de guerrilha que tem no conceito “surpresa” o seu princípio estratégico.
Sendo Bolama a cidade do C.I.M. (Centro de Intrução Militar) por excelência, onde muitas das unidades metropolitanas realizavam o seu I.A.O. (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional), visando a adaptação ao clima e às condições da guerra, como foi o caso da minha CART 3494 (Xime) e restante contingente do BART 3873 (1971-1974) – [Bambadinca (CCS), Mansambo (CART 3493) e Xitole (CART 3492)] –, um ataque bem sucedido seria visto como um “grande ronco” e, por consequência, poderia influenciar o comportamento prospectivo das NT.


Recordam-se, com vista aérea de Bolama e respectiva legenda, os espaços mais frequentados pelos militares durante a sua premanência na cidade. Imagem postada pelo ex-Alf Mil Rui G. Santos, Bedanda e Bolama da 4.ª CCAÇ (1963/1965) – in: http://riodosbonssinais.blogspot.pt/search/label/bolama ou “Bolama… no meu tempo – Guerra do Ultramar”, com a devida vénia.
Entretanto no C.I.M., em finais de Outubro de 1969, estavam em fase de conclusão de formação/instrução mais duas Companhias de Caçadores designadas por CCAÇ 13 e CCAÇ 14, saídas da união entre praças africanas do Recrutamento Local e oficiais, sargentos e praças especialistas oriundos da Metrópole. Os quadros metropolitanos destas novas Unidades Independentes, mobilizados pelo Regimento de Infantaria 16, de Portalegre, pretenciam à CCAÇ 2591, que deu origem à CCAÇ 13, e a CCAÇ 2592 à CCAÇ 14, respectivamente.
Sobre as emoções, sensações e experiências gravadas por todos aqueles que, ao fim daquela tarde de 2.ª feira, a primeira do mês de Novembro de 1969, assistiram à explosão dos foguetões de 122 mm, recupero os testemunhos dos camaradas ex-furriéis Carlos Fortunato (CCAÇ 13/CCAÇ 2591) e Eduardo Estrela (CCAÇ 14/CCAÇ 2592), ambos membros da nossa «Tabanca».
Carlos Fortunato refere que “no dia 3/11/1969 quando a [companhia da etnia balanta] CCAÇ 13 [CCAÇ 2591 - “Os Leões Negros”] estava no cais de Bolama, preparando-se para embarcar numa LDG [rumo a BISSORÃ], ouviu-se um longínquo ‘pof’ vindo da parte continental (zona de Tite). Um dos africanos disse ‘saída’ sorrindo, mas logo a seguir passaram sobre as nossas cabeças 3 [no relatório constam quatro] foguetões de 122 mm. Um acertou numa das pequenas vivendas que corriam ao lado da rua principal, que ligava o porto ao largo principal da cidade, apenas a uns escassos 30m do local onde
estávamos. Outro caiu no largo principal um pouco mais acima, e o terceiro mais longe, já fora da zona habitacional. Corremos de imediato para o local dos impactos para prestar assistência às eventuais vítimas, mas felizmente apenas houve ferimentos muito ligeiros entre a população”. […] “Os morteiros 107 mm existentes no quartel de Bolama responderam ao fogo”. […] [sítio: CCAÇ 13 – Os leões Negros: Memórias da Guerra na Guiné (1969/71)]. [P9337-LG].
Por outro lado, Eduardo Estrela, da CCAÇ 14 [companhia das etnias mandinga e manjaca] - [CCAÇ 2592], acrescenta que “partimos em 3 de Novembro
de 1969 para a zona operacional que nos tinha sido destinada, CUNTIMA, junto à linha de fronteira do Senegal. Ainda em Bolama (…) sofremos, à hora da saída da LDG, um ataque onde o PAIGC utilizou pela primeira vez foguetões terra-terra. Ninguém sabia que tipo de armamento o PAIGC utilizara e só em Bissau, no dia seguinte, nos foi comunicado o tipo de arma”. [P11365-LG].
Na linha desta investigação daremos conta, no ponto seguinte, do que consta no relatório elaborado a propósito deste ataque. 
3.  - O ATAQUE A BOLAMA EM 3NOV1969… COM FOGUETES 122 MM “GRAD” LANÇADOS DA PONTA BAMBAIÃ
Objectivos da acção:
O objectivo definido para esta acção concretizou-se no dia 3 de Novembro de 1969, ao fim da tarde, com o bombardeamento da cidade de Bolama, através da utilização de quatro [testemunhas referem três]  foguetes 122 mm lançados de duas peças “GRAD” colocadas na orla costeira da zona sudoeste da região de Quinara, mais precisamente na Ponta Bambaiã. Para esta missão foram mobilizadas forças de infantaria e artilharia, as primeiras só com funções de segurança e apoio ao desempenho das segundas.
Como elemento de comparação entre as logísticas dos ataques já divulgados, apresentamos o respectivo quadro.

Desenvolvimento da acção: (as forças do PAIGC)
As nossas forças estavam constituídas por 3 bi-grupos de infantaria e duas peças de GRAD sob a responsabilidade do camarada [cmdt] UMARO DJALÓ.
Saída de Botché Chance pelas 17 horas do dia 29 de Outubro [de 1969], 4.ª feira. A operação deveria realizar-se no dia 3 de Novembro, 2.ª feira, à caída da noite. Na noite de 29 para 30 de Outubro a coluna cruzou o rio em Botché Col, e na manhã do dia 30 atingiu as imediações de Gândua. Na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro, a coluna cruzou o rio Tombali em Iangue, e na manhã do dia 1 de Novembro chegou a Bolanha Longe. A coluna deveria cruzar o rio na noite de 1 de Novembro, mas por falta de canoas só o pode fazer na noite de 2 de Novembro, domingo, tendo atingido Paiunco na manhã de 3 de Novembro, 2.ª feira. Chegada da coluna à Ponta de Bambaiã às 16 horas do dia 3 de Novembro (ponto escolhido de antemão para posição de fogo).
Citação: (1963-1973), "Umaro Djaló e outros combatentes numa base do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43455 (2018-3)
Na impossibilidade da elaboração de uma infogravura referente ao itinerário percorrido pelas forças do PAIGC mobilizadas para este ataque, por dificuldade em identificar os locais referidos no relatório, o que lamento, optei por utilizar a imagem de satélite abaixo.

Final da Parte I.
Na Parte II desta narrativa, serão abordados os seguintes pontos:
1 – O trabalho técnico da artilharia na posição de fogo – uso do GRAD.
2 – Reacção das NT.
3 – Resultados.
4 – Quadro de baixas da CCAÇ 13 (de 14Nov1969 a 23Abr1973).
5 – Quadro de baixas da CCAÇ 14 (de 11Nov1970 a 4Abr1974).


Obrigado pela atenção.
Com forte abraço de amizade,
Jorge Araújo.