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terça-feira, 12 de junho de 2018

P347 - O XXXIII ENCONTRO/CONVÍVIO ANUAL DA CART 3494 “OPERAÇÃO SENHOR DAS ALMAS, NOGUEIRA DO CRAVO - SEIA” EM 9 DE JUNHO DE 2018





GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)

O XXXIII ENCONTRO/CONVÍVIO ANUAL DA CART 3494

“OPERAÇÃO SENHOR DAS ALMAS, NOGUEIRA DO CRAVO - SEIA”

 EM 9 DE JUNHO DE 2018
Carrega na foto para ver o vídeo

1.   INTRODUÇÃO
Xime1972

Quarenta e quatro anos após o seu regresso à Metrópole (Lisboa), depois de cumprida a sua Missão Ultramarina no TO da Guiné, no período de 1971 a 1974, o contingente da 


Mansambo 1973

Companhia de Artilharia 3494 [CART 3494], a terceira Unidade de quadrícula do BART 3873, que esteve aquartelado no Xime, Enxalé, Mansambo e Ponte do Rio Udunduma, continua activo, realizando as suas “operações” anuais [encontros/convívios] em diferentes regiões do território nacional.
O deste ano teve lugar no passado dia 9 de Junho, sábado, na região Centro, também conhecida pela «Região das Beiras» – ou seja, o “XXXIII” consecutivo iniciado com o (re)agrupar das/dos tropas, evento realizado em 14JUN1986, em Aver-o-Mar, Póvoa de Varzim [P184] – com o colectivo de ex-combatentes a ter de cumprir as suas tarefas em dois distritos: o de Coimbra e o da Guarda. 

No primeiro caso, no lugar da Capela do Senhor das Almas, a um quilómetro da freguesia 
de Nogueira do Cravo, Município de Oliveira do Hospital, verificou-se a chamada, e o “controlo”, das quatro dezenas de ex-combatentes disponíveis para esta acção, onde foi preparado o «golpe de mão» à Tabanca «Restaurante Pastor da Serra», sito no Município de Seia, distrito da Guarda

2.   O DESENROLAR DAS ACÇÕES
A organização da edição XXXIII, que este ano esteve a cargo do camarada José do Espírito Santo Vicente, de Nogueira do Cravo, previa a concentração a partir das 09h30 para os mais madrugadores, como era o caso dele, pois tinha de dar o exemplo como o mais responsável e, também, anfitrião. Aos poucos, cada um dos ex-combatentes, acompanhado dos seus familiares, foi chegando no seu meio de transporte ao local previamente acordado – largo da Capela do Senhor das Almas (imagem ao lado) – depois de ter percorrido mais ou menos quilómetros em função do início da viagem. Os mais atrasados (e houve alguns) não tiveram outra alternativa senão ir directamente para o local do “ataque”, em Seia.
Para uma estimativa das distâncias até Seia, referem-se alguns exemplos: de Coimbra (98 kms), da Guarda (67 kms), de Viseu (45 kms), de Lisboa (298 kms), do Porto (163 kms) e de Viana do Castelo (235 kms).

Os ex-combatentes da CART 3494 que compareceram na Capela Senhor das Almas, freguesia de Nogueira do Cravo, para a foto de “família”. 


Era meio-dia quando se deu início à marcha da “Coluna Auto(móveis)”, através da Estrada Nacional 17, rumo ao objectivo. Aí chegados, cada um dos membros ocupou a sua posição de modo a cumprir, com sucesso, a sua missão individual em interacção com os seus camaradas, dela fazendo depender, justamente, o sucesso colectivo das “forças” em presença.

Durante a operação tudo decorreu como planeado, pelo que no final a satisfação era plena para os oitenta participantes, que uma vez mais recuperaram muitas das suas memórias de tensões e emoções da “aventura africana”. Houve música, muita animação, e por último cantaram-se os parabéns por mais um aniversário. Nessa ocasião voltámos a erguer os nossos copos brindando aos presentes e aos ausentes, com votos de felicidades e de muita saúde para todos, no sentido de no próximo ano podermos repetir os resultados agora obtidos e, se possível, com mais presenças.



Como nota final, dá-se conta que entre o Encontro de 2017 e o deste ano o colectivo da CART 3494 perdeu mais três membros, a saber:

 ● António Alves Ramos (sold) – Alvoco da Serra, Seia († 7 de Julho de 2017);

 ● Orlando Bilro Bagorro (1º sarg) – Damaia, Amadora († ? de Fevereiro de 2018);

 ● Augusto Vieira Fidalgo (sold) – Santa Marinha, Vila Nova de Gaia († 4 de Abril de 2018).

Considerando que estes casos não mereceram a devida atenção durante o Encontro, por esquecimento colectivo, que só mais tarde foi notado, importa agora reparar esse lapso tornando público estas ocorrências, ao mesmo tempo que endereçamos aos familiares dos três camaradas falecidos as nossas mais sentidas condolências.

Despedimo-nos até ao próximo Encontro Anual – o XXXIV – a realizar no dia 01 de Junho de 2019, sábado, no Município de Montemor-o-Velho, organização a cargo do camarada António de Sousa Bonito. (Foto ao lado)
Até lá…  

Obrigado pela vossa atenção.

Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo 
(13JUN2018)


3.   FOTOGALERIA
O Vicente,  atarefado para controlar a escrita (organizador)





Vd poste convívio de 2017 em Tondela aqui: convivios, TONDELA 2017


quinta-feira, 31 de maio de 2018

P346 - PAIGC - BIGRUPO DE QUINTINO GOMES (PARTE II)

Caríssimo Camarada Sousa de Castro,
Os meus melhores cumprimentos.

Para concluir os estudos sócio-demográficos sobre os bigrupos dos Cmdt Mário Mendes e Quintino Gomes, anexo a segunda, e última, parte.

É de referir que este segundo fragmento surge na sequência de diversos comentários postados no Blogue da «Tabanca Grande», onde o estudo foi divulgado inicialmente.

Até breve.

Com um forte abraço de amizade.

Jorge Araújo

Maio'2018.



GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
OUTROS ELEMENTOS SOCIODEMOGRÁFICOS DOS BIGRUPOS DOS CMDT MÁRIO MENDES (1943-1972) E DE QUINTINO GOMES (1946-1972)

1.   INTRODUÇÃO
Não podia ficar indiferente aos importantes contributos transmitidos pelos diferentes tertulianos nos seus comentários, postados nos P18487-LG e P18493-LG, a propósito dos meus trabalhos de investigação sociodemográfica tendo por universo dois bigrupos de guerrilheiros do PAIGC, o primeiro relacionado com o do Cmdt Mário Mendes (1943-1972) e este último com o do Cmdt Quintino Gomes (1946-1972), falecidos em combate em Maio e Fevereiro de 1972, no Xime e em Empada, respectivamente.
A todos agradeço os seus comentários de igual modo, mas com particular destaque para os do nosso amigo, e colaborador permanente, Cherno Baldé, que continua a ajudar-nos a decifrar alguns dos enigmas socioculturais dos seus pares e da sua terra, território onde passámos mais de dois anos da nossa juventude. Obrigado!
Pelo superior valor que lhes atribui, fui em busca de novos dados sociodemográficos de modo a alargar e/ou a complementar os já publicados.
Em resultado dessa investigação, curta no tempo mas bem-sucedida, apresento-vos abaixo o que consegui apurar, agora no âmbito do “estado civil” de cada um dos sujeitos da investigação, cujo tema poderá servir de ponto de partida para novas reflexões, singulares e colectiva.
Mais uma vez a análise centra-se nos documentos consultados no acervo de Amílcar Cabral disponíveis na CasaComum - Fundação Mário Soares.
Quanto à data da elaboração das fichas de inspecção e coordenação do Conselho de Guerra das FARP/PAIGC, acreditamos que elas tenham ocorrido no início do ano de 1970, uma vez que os documentos agora consultados, que também não estão datados, referem a existência da “Bateria Especial Grad” da Frente Sul e que, como sabemos, foi criada no último trimestre de 1969.

2.   – RESULTADOS DO ESTUDO SOBRE O “ESTADO CIVIL” DOS CONSTITUINTES DOS DOIS BIGRUPOS
O quadro abaixo foi elaborado a partir das fichas de inspecção coordenação do Conselho de Guerra, já publicadas anteriormente. Foi dividido por bigrupo, correspondente a cada um dos Cmdt’s, e agrupado quantitativamente por frequências relacionadas com o ano de nascimento de cada sujeito. Consideram-se apenas as duas variáveis categóricas do “estado civil” referidas na ficha: solteiro e casado.
Não nos é possível referir o ano da “união” ou “uniões”, por desconhecimento, uma vez que o segundo documento consultado dá-nos conta da existência de casos de “poligamia”.
Na segunda coluna da esquerda indicam-se as idades dos sujeitos no ano de 1970, por ser o ano (deduzimos) em que foi elaborado o documento acima referido, respeitante ao número de sujeitos “casados” em cada um dos bigrupos, número de mulheres e filhos, e que daremos conta em quadros originais obtidos na investigação.
Quadro 1 – distribuição de frequências em relação ao “estado civil” de cada bigrupo

Da análise ao quadro 1, verifica-se que o bigrupo do Cmdt Quintino Gomes regista sete “casados” (20.6%) em trinta e quatro casos, enquanto o bigrupo do Cmdt Mário Mendes tem treze “casados” (34.2%) em trinta e oito casos.
Quando comparados os dois bigrupos, e estratificadas as idades, constata-se que o maior número de “casados”, três em cada bigrupo, nasceram no ano de 1946. O bigrupo de Mário Mendes repete igual cifra em 1942.
Por outro lado, os nascidos no ano de 1948 e seguintes, sete (9.7%) eram “solteiros” (n=72), não existindo nenhum “casado”.

Da análise ao quadro 2, verifica-se que os “casados” do bigrupo do Cmdt Mário Mendes eram treze (34.2%), cada um com uma mulher. Dois “casados”, no mínimo, não tinham filhos.

Quadro 3 – distribuição de frequências dos “casados”, mulheres e filhos, do bigrupo do Cmdt Quintino Gomes, tendo por base a região do Quinara (frente Sul)
Citação: (s.d. [1970]), "Tabela referente ao estado civil e situação familiar dos militares do CE da Frente Sul e Leste", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40459 (2018-4-6) (com a devida vénia)
Da análise ao quadro 3, verifica-se que os “casados” do bigrupo do Cmdt Quintino Gomes eram sete (20.6%), sendo as mulheres em número superior (nove). Algumas das mulheres teriam mais de um filho.

Citação: (1963-1973), "Costureira numa tabanca", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43991 (2018-4-6). (com a devida vénia).

3.   – CONCLUSÕES
Da análise aos quadros supra concluímos:
1.    Existe diferença no número total de “casados” entre os dois bigrupos.
2.    No bigrupo do Cmdt Mário Mendes existe um rácio igual entre o número de homens e mulheres, sendo que nem todas as mulheres têm filhos (ou são mães).
3.    No bigrupo do Cmdt Quintino Gomes, o número de homens é inferior ao das mulheres, o que pressupõe a existência de casos em que há homens que têm mais do que uma mulher (poligamia). Neste bigrupo, o número de filhos é superior ao número de mulheres (mães) o que significa a existência de mulheres (mães) com mais de um filho. Pode-se considerar, como hipótese académica, a existência de mulheres sem filhos.
À vossa consideração.
Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
25MAI2018.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

P345 - UM NOVO OLHAR SOCIODEMOGRÁFICO DE UM BIGRUPO - O CASO DO BIGRUPO DO CMDT QUINTINO GOMES (1946-1972) - Jorge Araújo


Depois de um primeiro estudo sociodemográfico a um bigrupo do PAIGC, este relacionado com o Cmdt Mário Mendes (1943-1972), morto em combate na Ponta Varela (Xime) em 25 de Maio de 1972, facto ocorrido quatro semana depois de ter comando a força que nos atacou na Ponta Coli, em 22 de Abril desse ano, eis agora um segundo estudo.

 

Trata-se de um trabalho sobre o bigrupo do Cmdt Quintino Gomes (1946-1972), falecido em combate em Fevereiro do mesmo ano, em Empada, na Região de Quinara.

 

Esta narrativa é a primeira de duas partes.


GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE

UM NOVO OLHAR SOCIODEMOGRÁFICO DE UM BIGRUPO

- O CASO DO BIGRUPO DO CMDT QUINTINO GOMES (1946-1972) -


1.   INTRODUÇÃO

No primeiro dia do ano de 2017 – P296 – apresentei neste espaço de partilha aquele que foi considerado o primeiro estudo sociodemográfico de um bigrupo de guerrilheiros, com o título «Mário Mendes (1943-1972) - O último Cmdt do PAIGC a morrer no Xime».

A vontade, o interesse e a motivação para a realização deste estudo, nascera há quatro décadas e meia atrás, naquele já longínquo «22 de Abril de 1972», sábado, e que no mesmo dia, mas do ano seguinte (1973), correspondeu ao Domingo de Páscoa. E a principal razão estava ligada ao meu “baptismo de fogo”, e ao do meu Gr Comb (o 4.º) da CART 3494, episódio dramático ocorrido no lugar designado por «Ponta Coli», na estrada Xime-Bambadinca, local onde diariamente cada um dos 3 Gr Comb, em regime de rotação, desempenhava a missão de garantir a segurança a pessoas e bens, civis e militares, em trânsito de ou para Bissau, por via marítima.

Aí aconteceu o primeiro grande combate da CART 3494, em que estiveram frente a frente, a uma distância de escassas dezenas de metros, um efectivo de 20 operacionais, mais 2 condutores e o picador Malan Quité [NT], e um bigrupo reforçado do PAIGC, superior a cinquenta unidades que, agindo de surpresa como seria espectável, e habitual, nos procurou aniquilar. Alguns dias depois, soube-se que tinha sido o bigrupo do Cmdt Mário Mendes.
Desse combate resultaram dezassete feridos, entre graves e menos graves, e um morto, o meu/nosso camarada furriel Manuel Rocha Bento (1950-1972), natural da Ponte de Sor, a nossa única baixa em combate. Eu saí ileso, o mesmo acontecendo aos condutores das duas viaturas e mais dois operacionais do meu Gr Comb.

Do outro lado, ainda não consegui apurar as consequências de tamanha ousadia.

Quatro semanas após ter organizado e comandado aquela emboscada na «Ponta Coli», voltaríamos a estar com Mário Mendes e o seu grupo, em novo frente a frente, desta feita na Ponta Varela (zona mítica do Xime), em 25 de Maio de 1972, 5.ª feira, quando este se preparava para realizar nova “aventura”. Aí Mário Mendes viria a morrer, por intervenção de elementos da CCAÇ 12 (ex-CCAÇ 2590), na acção «GASPAR 5», em que participaram seis Gr Comb [três da CART 3494 e três da CCAÇ 12], tendo-lhe sido capturada a sua Kalashnicov, bem como três carregadores da mesma e documentos que davam conta do calendário das “acções” a desenvolver naquela zona pelo seu bigrupo. [vidé P148 + P191 + P234 + P242].

Foi a partir desse(s) palco(s) do TO, onde se praticava o “jogo da sobrevivência”, durante o qual se fazia apelo à superação permanente, ou transcendência, individual e grupal, que no meu processo cognitivo emergiram um certo número de questões/ interrogações, por exemplo: “Quantos e quem eram aqueles que tinham estado à minha/nossa frente, e se puseram em fuga passados 15/20 minutos? Quais os seus nomes? Onde nasceram? Que idade tinham? Há quantos anos andavam naquela vida? Como viviam e de que se alimentavam?... Ou seja, alguns enigmas da guerra.

Algumas das respostas consegui obter, justamente, naquele primeiro estudo.


Hoje, passados quinze meses após a realização desse primeiro trabalho, volto de novo ao fórum para apresentar/partilhar um segundo estudo, concretizando, deste modo, uma promessa que formulei a mim mesmo de o fazer logo que encontrasse uma amostra semelhante à do primeiro. E isso aconteceu… e ainda bem!

Assim, utilizando a mesma metodologia do primeiro caso, este novo estudo tem como universo o bigrupo do Cmdt Quintino [Amisson] Gomes (1946-1972), morto em combate, em Fevereiro de 1972, nos arredores de Empada, região de Quinara, ao tempo da CCAÇ 3373 - “Os Catedráticos de Empada”, ou seja, três meses antes do Cmdt Mário Mendes (1943-1972).

2.   QUINTINO [AMISSON] GOMES, CMDT DE BIGRUPO EM ACÇÃO NA REGIÃO DE QUINARA

O presente estudo sociodemográfico sobre o bigrupo do Cmdt Quintino Gomes nasce por ramificação da investigação que tenho vindo a realizar a propósito do “relatório relacionado com as operações militares na Frente Sul”, acções efectuadas na região de Quinara e de Tombali, durante o último trimestre de 1969, uma vez que nele é referido o seu nome.

Soube que Quintino Gomes era Cmdt do bigrupo do PAIGC e que actuava no Sector de Cubisseco de Baixo, tendo por missão, até meados de 1969, controlar a estrada de Nhala, que passa em Uana, antigo quartel das NT, em direcção a Mampatá. Quintino Gomes nasceu em 1946 [desconhece-se o dia e o mês], na Vila de Empada, na região de Quinara. Era casado. Em 1962 aderiu ao PAIGC, com 15/16 anos, como aconteceu com muitos outros, de que é exemplo o caso de Mário Mendes, desde quando deu início à sua actividade na guerrilha. Era Cmdt de bigrupo, pelo menos desde 1966, ano que foram elaboradas pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra as listas [mapas] das FARP referentes à constituição dos bigrupos existentes em cada Frente, conforme demonstra o exemplo abaixo, onde consta o nome de Quintino Gomes e de mais trinta e três elementos.

Como reforço do acima exposto, no “Relatório da Comissão de Inspecção das FARP para a Frente Sul e Leste”, datado de 21 de Maio de 1969, e assinado por Pedro Ramos, consta que, após reunião de 9-3-69 (Bigrupo de Quintino Amisson Gomes e de Pana Djata), “este bigrupo que se encontra estacionado a uns quilómetros do antigo quartel inimigo [NT] de nome Uana (Tabanca) tem como missão de controlar a estrada de Nhala, que passa em Uana em direcção a Mampatá. Na primeira formação do bigrupo, este perdeu uma AK[-47]. A última operação efectuada foi em 15-2-69 no aquartelamento de Nhala. O último contacto com o Comando do sector foi em Janeiro de 1969. Com o Comando da Frente nunca tiveram contactos no lugar de estacionamento. A última reunião do Comissário Político do bigrupo com os combatentes teve lugar no dia 28-2-69. O comandante do sector, o camarada Iafal Camará, declarou que tem reunido com os combatentes sempre no fim de cada mês”.

Ainda no que concerne ao Cmdt Quintino Gomes, o “Relatório sobre o Sector de Cubisseco de Baixo”, elaborado por José [Eduardo] Araújo (1933-1992), datado de 10 de Dezembro de 1971 e enviado a Amílcar Cabral (1924-1973), refere que […] “Tive uma impressão muito boa do camarada Quintino Gomes, comandante do sector, que tem rara “particularidade” de nunca ter visto o Secretário-Geral, facto que lamenta. Da opinião de toda a gente trata-se de um bom camarada. Escreve razoavelmente, o que significa que tem algum grau de instrução primária [3.ª classe]”.

Dois meses depois deste relatório, em [?] Fevereiro de 1972, Quintino Gomes morreria em combate na Vila que o viu nascer – Empada.

Em 25 de Fevereiro de 1972, em carta enviada a “Nino” Vieira (1939-2009), em resposta às suas missivas de 11 de Janeiro e 15 de Fevereiro [1972], Amílcar Cabral (1924-1973) lamenta a morte do Cmdt Quintino Gomes nos seguintes termos: […] “Mas os camaradas têm que ter muito cuidado nos ataques, para não acontecer o que se passou em Empada no último ataque [que teria sido antes de 15Fev’72]. Lamento muito a perda do camarada Quintino Gomes que era dos nossos melhores combatentes e quadros do Partido. Discutiremos na próxima reunião da Direcção a tua proposta para que seja considerado herói”.


Entretanto, no passado domingo, 4 de Março de 2018, numa feliz coincidência para a conclusão deste trabalho, o Correio da Manhã Jornal publica uma entrevista com um camarada (não identificado, mas certamente o da foto abaixo) da CCAÇ 3373 (Empada, Mai’71 a Mai’72), conduzida pela jornalista Fernanda Cachão.

No contexto desta narrativa, e como elemento de validação da data da morte do Cmdt Quintino Gomes, citamos a seguinte passagem: […] “Foi no mês de Fevereiro desse ano
[1972], tínhamos feito uma operação em que apreendemos muito material de guerra – e feito também mortos e feridos -, e tal como à ida regressámos já de noite. Fomos atacados por canhões sem recuo e foguetões [“GRAD”]. Tínhamos chegado ao aquartelamento em Empada, e foi terrível”. […]

Em função deste depoimento, não me é difícil aceitá-lo como elemento factual relacionado com o episódio da morte do Cmdt Quintino Gomes. Será que esta é também a opinião do fórum? [in: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/uma -mina-levou-a-perna-ao-furriel-rente-ao-joelho? ref=HP_Ticker CMAoMinuto].




3.   RESULTADOS DO ESTUDO

A partir dos dados contidos na lista acima [mapa], que consideramos como os casos da investigação ou a “amostra de conveniência”, procura-se compreender melhor quem estava do outro lado do combate. Com este propósito, procedemos à organização de alguns desses dados referentes a cada um dos sujeitos constituintes do “bigrupo de Quintino Gomes”, sobre os quais pretendemos retirar conclusões.

Para o efeito, esses dados foram agrupados quantitativamente e apresentados em quadros estatísticos de frequências (caracterização da amostra por idade: a de nascimento e a de adesão ao Partido) e de quadros de variáveis categóricas em relação aos restantes elementos (ano de adesão ao PAIGC e idade e anos de experiência cumulativas ao longo do conflito).

Quadro 1 – distribuição de frequências em relação ao ano de nascimento dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 1, verifica-se que os anos de nascimento com maior percentagem são dois; 1941 e 1945 (14.7%) com 5 casos cada, seguido de 1947 (11.8%), com 4 casos, e 1934, 1942 e 1944 (8.9%), em terceiro, com 3 casos cada.

Quando analisado por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-16) estão os nascidos entre 1943 e 1947 (47.1%) (grupo central), entre 1933 e 1942 (n-13= 38.2%) (grupo dos mais velhos), e entre 1948 e 1952 (n-5=14.7%) (grupo dos mais novos).

Quadro 2 – distribuição de frequências em relação à idade de adesão ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 2, verifica-se que a idade com maior percentagem de adesão ao Partido é 16 anos, com 7 casos (20.6%), seguida dos 17 e 21 anos, com 4 casos cada (11.8%). As idades de 18, 19, 22 e 23, com 3 casos cada, valem no seu conjunto 35.2%.

Quando analisada a adesão ao Partido por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-14) estão entre as idades de 14 e 17 anos (41.2%) (mais novos), seguido pelos grupos de idade média, entre os 18 e 21 anos, e idade superior, entre os 22 e 30 anos (mais velhos), com 10 casos cada (29.4%).

Analisada a adesão ao Partido entre os 18 e 23 anos, os valores apontam para uma maioria relativa com 16 casos (47.1%), seguida por 14 casos nas idades inferiores (41.2%) e somente quatro casos nas idades superiores (11.7%).

Quadro 3 – distribuição de frequências em relação ao ano de adesão ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 3, verifica-se que o ano onde se registou maior adesão ao PAIGC foi 1963 com 11 casos (32.4%), seguido de 1962, com 10 casos (um dos quais Quintino Gomes) (29.4%). O ano de 1964 foi o terceiro com 7 casos (20.6%).

Quando analisada a partir da soma dos dois primeiros anos (1962 + 1963), anos de preparação e início do conflito, a percentagem sobe para 61.8% (n-21).

Quadro 4 – distribuição de frequências em relação à idade verificada ao longo do conflito, contados após a adesão individual ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 4, e partindo da hipótese meramente académica de que o bigrupo se manteve constante ao longo do conflito, pelo menos até Fevereiro de 1972, data da presumível morte de Quintino Gomes, este teria, então, vinte e cinco/seis anos [sombreado castanho]. Os restantes elementos teriam a idade referida na linha [sombreado verde] do ano de 1972.

Quadro 5 – distribuição de frequências em relação ao número de anos de experiência na guerrilha ao longo do conflito, contados após a adesão ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Quintino Gomes (n-34)

Da análise ao quadro 5, e partindo da hipótese meramente académica apresentada no quadro anterior, Quintino Gomes teria, no mínimo, nove anos de experiência na guerrilha [sombreado castanho], bem como de outros nove combatentes. Os restantes elementos teriam os anos de experiência referidos na linha [sombreado verde] do ano de 1972.

1.   – CONCLUSÕES

Partindo da análise aos resultados apurados, apresentados nos quadros acima, procedemos à elaboração de um último quadro (o 6.º), este comparativo entre os dois comandantes de bigrupos, considerados como os “casos” da investigação.

Quadro 6 – Elementos sociodemográficos de comparação entre os sujeitos do estudo – Quintino Gomes (n-34) e Mário Mendes (n-38) – a partir das variáveis categóricas em análise, para efeito da elaboração de conclusões.



Da análise ao quadro supra concluímos:

1. - A diferença de idade entre ambos era de 3 anos, sendo Quintino Gomes o mais novo.

2. - Nasceram em locais diferentes separados por dois rios importantes da Guiné: o Rio Geba e o Rio Grande de Buba; Mário Mendes mais a Norte (Região do Oio - Frente Norte); Quintino Gomes, mais a sul (Região de Quinara - Frente Sul).

3. - Ambos aderiram ao PAIGC no mesmo ano (1962), Quintino Gomes, com 15/16 anos, e Mário Mendes, com 18/19 anos. Morreram em combate dez anos depois, também no mesmo ano (1972), com uma diferença de três meses entre si. Cada um deles teria, aproximadamente, o mesmo tempo de experiência como combatente.

4. - Quanto às lideranças: Quintino Gomes foi Cmdt de um grupo de guerrilheiros com média de idades mais alta (28.1/34, em 1972), quando comparada com a do grupo do Cmdt Mário Mendes (27.9/38, em 1972).

5. - Quanto às idades: a maioria dos elementos do grupo de Quintino Gomes eram mais velhos que ele (n-20=58.8%) em comparação com os mais novos (n-9=26.5%). Por outro lado, a maioria dos elementos do grupo de Mário Mendes eram mais novos que ele (n-22=57.9%), enquanto os mais velhos eram metade dos mais novos (n-11=28.9%).

Caso surja outra oportunidade de investigação semelhante, prometo realizá-la e partilhar no fórum os seus resultados.

À vossa consideração.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

11MAI2018.