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terça-feira, 9 de junho de 2026

P471 - «OPERAÇÃO PINHANÇOS – SEIA» EM 6 DE JUNHO DE 2026 - O XXXIX ENCONTRO/CONVÍVIO ANUAL DA CART 3494 - O QUADRAGÉSIMO CONVÍVIO JÁ TEM DATA, 5 DE JUNHO DE 2027 EM ESPINHO A CARGO DO EX. SOLDADO - ARMANDO ALVES DIAS

 

Alguns camaradas foram diretamente para o restaurante


GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)


O XXXIX ENCONTRO/CONVÍVIO ANUAL DA CART 3494

«OPERAÇÃO PINHANÇOS – SEIA»

 EM 6 DE JUNHO DE 2026

1.   INTRODUÇÃO

No início de 1971, cada um de nós (os milicianos) começaram a sentir que o seu anterior projecto de vida acabara de sofrer uma significativa e profunda mudança de rumo em todas as dimensões humanas – bio-psico-sociais – e que todos os “mancebos”, jovens adolescentes, tinham de adaptar-se ao, então, contexto militar, que continuava imparável desde 1961, e sem soluções à vista, em cada uma das três frentes ultramarinas: Guiné, Angola e Moçambique.

Todos sabiam, ainda, que um destes destinos estava reservado para nós, e que deveríamos estar bem preparados para nele “vivermos”, “convivermos” e “sobrevivermos”, onde a dor, o sofrimento e eventuais ferimentos incuráveis, pudessem ser partilhados por todos que, tal como acontece numa equipa desportiva, o seu colectivo vale mais do que o desempenho individual.

da esq.: ex. fur. Dias, Vicente Trms, ex. fur. Bonito, Peixoto ex. cond. auto, Castro Trms, Ferreira cond. auto, Alcindo enf, e Azevedo cond. auto.

Aqui chegados, os jovens adolescentes, oriundos sobretudo da região norte do País, após a sua formação de especialidade, concentraram-se no Regimento de Artilharia Pesada (RAP2), sito na Serra do Pilar, Vila Nova de Gaia, em obediência ao desígnio da nova “missão” das suas vidas – uma expedição militar a desempenhar na Guiné Portuguesa, durante um determinado tempo.

Esse tempo, que foi sendo dilatado ao longo da nossa presença e que, no início começou por ser de 18 meses, passou para 21 e, depois, para 24, acabando por atingir mais de 27 meses, um “record”. A chegada à metrópole (conceito da época) foi a 3 de Abril de 1974, desde quando passámos a ser conhecidos por «Veteranos de Guerra» ou «Ex-Combatentes da Guerra do Ultramar».

O lema da Companhia de Artilharia 3494 (CART 3494), que se expressa numa curta frase «Na Guerra Construindo a Paz» mantém uma actualidade inquestionável, sendo uma “Marca d’Água”, cada vez mais nítida, para que, em vários pontos do planeta, sobre ela se possam inspirar, reflectir e praticar.

2.   A «OPERAÇÃO PINHANÇOS – SEIA»


A «Operação Pinhanços», a 39.ª desde que se deu início ao (re)agrupar das tropas, acontecimento que ficou grafado com a data de 14 de junho de 1986 em Aver-o-Mar, Póvoa de Varzim, e que, desde então, nos permitiu regressar às origens, e que faz agora quarenta anos. É incrível!

Esta Operação, baptizada de “PINHANÇOS» voltou a ficar sob a responsabilidade logística do camarada José Espírito Santo Vicente, com assessoria do camarada Sousa de Castro, ambos já com provas dadas em eventos anteriores, provando que “quem sabe, dificilmente esquece”, aliás, em conformidade com o conhecimento científico produzido nas nossas Academias.

Tal como em 2018, a concentração dos operacionais começou cedo, pelas 09h30, no local previamente acordado e indicado no plano de acção – Largo da Capela do Senhor das Almas, a um quilómetro da Freguesia de Nogueira do Cravo, e a vinte e cinco do local da “emboscada”, em Pinhanços, realizando-se o “Golpe de Mão” à base, com colher, faca e garfo, conhecida por «Restaurante Manjar da Serra».

Porém, durante a concentração, local onde foi feito o respectivo controlo de presenças, notou-se a ausência de vários elementos inscritos que, tudo indicava serem de força maior, em particular no âmbito da saúde (ou falta dela!). E as previsões bateram certo, lamentavelmente. Estão neste quadro clínico os casos dos camaradas Acácio Correia, sujeito a uma intervenção cirúrgica no dia anterior; o Lúcio Silva (Vizela); o Nelson Cardoso, ambos devido a situações clínicas que aconselhavam a ficar em casa, e outras maleitas da época e da idade. Desejamos a todos rápidas melhoras! Mas, tantos outros que queriam participar e por razões óbvias não o poderem fazer. Estou a lembrar-me de um camarada que se encontra acamado e outro com sintomas de Alzheimer. 

Chegados ao local combinado, as forças foram distribuídas por pontos estratégicos, onde havia mesas e cadeiras. Durante cinco horas, todos deram o seu melhor para desbaratar o que se apresentava pela frente, e ainda sobrou tempo para darmos mais uma voltinha pela Guiné-Bissau, do antigamente

O circuito começou em Varela, Susana e São Domingos, entrámos pela fronteira no Senegal, regressámos, depois, a Bissorã, Farim, Mansabá, Bafatá, Nova Lamego, Canquelifá, Gabú, Madina do Boé, Galomaro, Saltinho, Xitole, Mansambo e Bambadinca, as mais importantes.

Depois, com muito cuidado e atenção, fizemos um trajecto pela região do Fiofioli, com passagem pela Ponta do Inglês, Poidon, Ponta Varela, Ponte do Rio Undunduma, Ponta Coli (de má memória) e Xime. Do outro lado do Geba, na margem direita, parámos no Enxalé, demos um saltinho a Mato Cão, seguindo, por via marítima, até Bissau.

Comemos algum marisco, nomeadamente camarões e ostras, acompanhados por umas bazucas, seguindo depois por Brá, Bissalanca, tendo terminado no Aeroporto Internacional, agora designado por Osvaldo Vieira (1938-1974), antigo combatente e quadro dirigente do PAIGC.

Esta viagem, durante a qual se recuperaram memórias de factos e feitos de cada contexto, foi partilhada e escutada, com o máximo interesse e atenção pelos filhos e netos dos veteranos presentes, onde as suas “companheiras”, já licenciadas em “História da Guerra”, iam acrescentado detalhes com alguma pertinência.

Para finalizar o evento, o Coronel Pereira da Costa, o nosso 2,º Cmdt a constar na história da Unidade, usou da palavra para, de improviso, relevar o desempenho, a camaradagem e a solidariedade existente entre todos os militares que constituíram e construíram laços de união que continuam fortes.

Foi guardado um minuto de silêncio em homenagem aos camaradas que tombaram em combate e aos que até hoje deixaram de fazer parte do grupo dos vivos.

A “emboscada” terminou com o uso da célebre “Espada do CMDT Pereira da Costa” que, com a ajuda do neto do nosso mestre de cozinha “Machado”, dividiram, em partes iguais, o bolo confeccionado para comemorar duas efemérides: a da 39.ª Operação (almoço/convívio) e a do 52.º Aniversário da passagem “à peluda”, acompanhado por uma taça de champanhe, como manda o protocolo.

Finalmente, todos prometeram continuar a fazer exercício físico para se manterem em forma, ou seja, bem preparados para a próxima “Operação”, será em Espinho, em 5 de Junho de 2027 a cargo do Armando Alves Dias.


Saúde e um forte abraço para o colectivo.

Jorge Araújo.

Fotogaleria



























terça-feira, 26 de maio de 2026

MSG 461 - Recordando os combatentes da CART 3494 que partiram na Guiné e os que nos deixaram após o regresso

 

🕊️ Combatentes da CART3494 que Já Partiram para a Eternidade

Recordando os que partiram na Guiné e os que nos deixaram após o regresso


A CART 3494, integrada na BART 3873, cumpriu a sua missão na Guiné com coragem, camaradagem e sentido de dever. Ao longo dos anos, muitos dos nossos camaradas partiram, alguns ainda em campanha, outros já em Portugal, depois de uma vida inteira de trabalho, família e memórias partilhadas. Esta homenagem recorda, com respeito profundo, todos aqueles que deixaram a vida terrena e permanecem vivos na nossa memória coletiva.

Ex‑combatentes da CART 3494 falecidos na Guiné

  1. Fur. Mil. Art. - Manuel da Rocha Bento, Galveias – Ponte de Sor Morto em combate na Ponta Coli, Xime, em 22ABR1972.
  2. Soldado - Abraão Moreira Rosa, Póvoa de Varzim Desaparecido no rio Geba, Xime, em 10AGO1972, vítima de acidente com o bote Sintex devido ao forte “macaréu”.
  3. Soldado - Manuel Salgado Antunes, Quimbres – Coimbra Desaparecido no rio Geba, Xime, em 10AGO1972, vítima do mesmo acidente provocado pelo “macaréu”.
  4. Soldado -José Maria da Silva e Sousa, S. Tiago de Bougado – Santo Tirso Afogamento no rio Geba, Xime, em 10AGO1972, vítima do acidente com o Sintex. Sepultado em Bambadinca; trasladado para Bissau em 2009.

 Após o término da comissão de serviço

Após o regresso a Portugal, ao longo das décadas, muitos camaradas da CART 3494 foram partindo. Cada um deixou a sua história, a sua família, o seu contributo e a sua marca na memória coletiva da companhia. Esta página regista, com respeito e sobriedade, todos aqueles cujo falecimento é do nosso conhecimento.

  1. Soldado - Joaquim de Jesus Fernandes, Poço – Vila Nova de Monsarros 28AGO1992, vítima de acidente de viação.
  2. 1.º Cabo - Manuel Pais Moreira, Vila Verde – Parada de Gatim, 1996. 
  3. Soldado - Silvino Vaz da Rosa e Silva, Figueiredo – Oliveira de Azeméis 09MAR2002.
  4. Soldado - Radiotelegrafista Rogério Tavares da Silva, Branca – Albergaria-a-Velha 16JUN2002, vítima de acidente de viação.
  5. Cap. Art. - Victor Manuel da Silva Marques, Algés – Lisboa 29SET2004.
  6. Soldado - Ilídio Ferreira Amaral, S. João da Pesqueira – Ervedosa do Douro 17ABR2009.
  7. Soldado - Adão Manuel Gomes da Silva, Figueiró – Paços de Ferreira Outubro de 2009.
  8. Soldado - António da Costa, Pinheiro de Baixo – Mangualde Data desconhecida.
  9. 1.º Cabo - Laurentino Bandeira dos Santos, Guifões – Matosinhos. Data desconhecida.
  10. Soldado - Joaquim Torres Trindade, Brandinhais – Maia. Data desconhecida.
  11. Fur. Mil. Inf. - Raul Magro de Sousa Pinto, Meadela – Viana do Castelo 01ABR2012.
  12. Soldado - António Jorge Gomes, Granjal – Sernancelhe 08MAI2012.
  13. Alf. Mil. Art. - José Henrique Fernandes Araújo, Arcos de Valdevez Agosto de 2012.
  14. 1.º Cabo Apontador de Morteiro 81 mm - Manuel da Cruz Ramos, Póvoa de Varzim 22NOV2012.
  15. Soldado - Mário Rodrigues da Silva Nascimento, Figueira da Foz 08JUN2014.
  16. Alf. Mil. Art. - Manuel Jorge Martins Gomes, Mem Martins – Lisboa 15DEZ2014.
  17. Soldado - António Ferreira Lopes, Palhaça – Oliveira do Bairro Data desconhecida.
  18. Soldado - Ricardo Silva do Nascimento, Cadafaz – Celorico da Beira Data desconhecida.
  19. Soldado - Carlos Dias da Silva, Caxias – Lisboa 06JUL2016, vítima de doença prolongada.
  20. Soldado TRMS Inf. - Mário Campos Marinho, Sr.ª da Hora – Matosinhos 25AGO2016, vítima de doença prolongada.
  21. Sol. - Carmindo de Oliveira Moreira, Sandim – Vila Nova de Gaia, 2016.
    1.  
  1. Fur. Mil. Art. - Inácio José Carola Figueira, Palmela – Pinhal Novo 09FEV2017, vítima de doença prolongada.
  2. Soldado - José Gomes Leopoldino, Cela – Alcobaça - Data desconhecida.
  3. Soldado - António Alves Ramos, Alvoco da Serra – Seia 07JUL2017, 67 anos, vítima de doença prolongada.
  4. 1.º Sarg. Art. - Orlando Bilro Bagorro, Damaia – Amadora Fevereiro de 2018.
  5. Soldado - Augusto Vieira Fidalgo, Santa Marinha – Vila Nova de Gaia 04ABR2018, 68 anos, vítima de doença oncológica.
  6. Soldado - David Fernandes, Bendada - Sabugal 28JUN2018
  1. Soldado TRMS - Augusto de Oliveira Meireles, Guifões – Matosinhos 22ABR2019, 69 anos.
  2. Soldado - Silvério Augusto Mano Reverendo, Orgal – Vila Nova de Foz Côa 15DEZ2019, 68 anos.
  3. Soldado - Adriano Almeida da Conceição, Canedo – Santa Maria da Feira 20JAN2020, 69 anos, vítima de doença oncológica.
  4. Fur. Mil. Art. - Cláudio Manuel Marques Ferreira, Abitureiras – Santarém 18JAN2021, 71 anos.
  5. 1.º Cabo - Carlos Bento Fialho, Chouto – Chamusca 20OUT2021, 71 anos.
  6. Soldado - José Fernando Moreira Dias, Sobrado – Valongo 18FEV2022.
  7. Soldado - Amândio Martins Domingues, Lombo Meão – Vagos 14NOV2022.
  8. Soldado Pel. Mort. 4575/72 - José Damásio da Silva Vicente, Alcobaça 04ABR2023, 72 anos.
  9. Soldado - José Mano Sebastião, Santa Cruz do Bispo – Coimbra 21ABR2024, 74 anos.
  10. Soldado - Celestino da Cunha Rodrigues, Barbudo – Vila Verde Junho de 2024.
  11. 1.º Cabo - Jacinto Dias Nunes, S. Martinho do Campo – Santo Tirso 04JAN2025, 74 anos.
  12. Soldado - Licínio Domingues Andrade, Morros – Bom Sucesso – Figueira da Foz 05FEV2025, 74 anos.

Homenagem Final

A todos estes camaradas — os que tombaram na Guiné e os que partiram já em Portugal — deixamos a nossa memória, o nosso respeito e a certeza de que continuam presentes em cada reencontro, em cada lembrança e em cada gesto de camaradagem que mantemos vivo.

Foram homens de coragem, de sacrifício e de honra. Serviram longe da pátria, enfrentaram o desconhecido, e regressaram para construir as suas vidas, as suas famílias e o futuro do país. Hoje, recordamo‑los com gratidão e com a serenidade de quem sabe que a memória é a forma mais justa de manter viva a presença de quem já partiu.

Na guerra construindo a paz.

Nota: Outros camaradas, de data não registada, permanecem igualmente na nossa lembrança.

Maio 2026


sexta-feira, 17 de abril de 2026

P459 -A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde Por: Sousa de Castro

 


Memórias da ida para a Guerra da Guiné
integrado na CART 3494/BART 3873

 António Castro, ex. 1º Cabo Radiotelegrafista

(Guiné, 27 de janeiro de1972 a 03 de abril 1974)


A Mobilização

Xime 1972
Após concluir a formação da especialidade de radiotelegrafista no Rtm (Porto),
localizado em Arca d'Água, com duração de 4 meses, entre 04 de julho e 06 de novembro de 1971, com a classificação de 17,25 valores, radiotelegrafista (TE), permaneci no mesmo quartel até à data da mobilização, que ocorreu a 14 de dezembro, data em que tive de me apresentar em Vila Nova de Gaia no RAP-2 (Regimento de Artilharia Pesada 2). Ali encontrei os meus camaradas da CART 3494/BART 3873 já mobilizados, que partiriam no dia seguinte para Lisboa por via férrea a fim de embarcarem no N/M Niassa com destino à Guiné. Eu teria de gozar ainda os 10 dias de licença que obrigatoriamente tínhamos direito antes do embarque.

Nota curiosa: Sabia que, tendo em conta a minha classificação seria automaticamente promovido a 1º cabo, mas, não houve cerimónia nem me deram as respetivas divisas, fui para a Guiné sem as mesmas, muito embora o meu bilhete de identidade constasse como 1º cabo radiotelegrafista, assim para não ter problemas com a Polícia Militar, em Bissau comprei as divisas. Foi através da caderneta militar que fiquei a saber que a data da minha promoção ocorreu no dia 07NOV1971. O mais caricato desta situação, foi que no espolio pediram-me um par de divisas que não me tinham sido entregues.




 - O Embarque

O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC‑6 em Lisboa com a inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado, como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no fundo do peito.

Douglas DC6 dos Transportes Aéreos Militares (TAM) Créditos: Página dos Especialistas do AB4 e Luís Graça & Camaradas da Guiné

A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o tempo — como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho definitivo na guerra.

Foi naquele lugar seco e brilhante que escrevi e enviei o meu primeiro postal à minha esposa. Ela não sabia a data do meu embarque, porque eu preferi não lha dizer para não a preocupar. 

«As despedidas tinham sido feitas em 25 de dezembro de 1971, na estação de Barroselas, quando tive de me apresentar no quartel RAP-2, em Vila Nova de Gaia, depois dos dez dias de licença antes do embarque. 

Por indicação superior, voltei a casa para passar o Natal com a família e regressar no dia seguinte. Depois de me apresentar no quartel, alguns dias mais tarde, recebo ordem para me apresentar no Depósito Geral de Adidos, em Lisboa, onde os militares recebiam a guia de marcha antes de seguirem para o Ultramar. 

Lá, passados uns dias entregaram-me a respetiva guia para embarcar para a Guiné, no dia 26 de janeiro, por avião. No entanto, quando já estávamos prontos para partir, tivemos de desembarcar por causa de uma avaria mecânica, regressando ao DGA para voltar no dia seguinte.»  

Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC‑6 avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável. Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um aviso silencioso: a partir daqui, és outro.

Levaram-me para o quartel dos adidos, em Brá, passados um dia ou dois fui apresentar-me no Agrupamento de transmissões em Santa Luzia.

Bissau, 1972 - 1º sarg. Caldas em 1º plano, eu, de costas

Durante o mês em que permaneci em Bissau, tive a sorte de ser acolhido na casa
de um conterrâneo do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele, chefe do STM — “Serviço de Telecomunicações Militares” — no agrupamento TRMS do Quartel de Santa Luzia, abriu-me a porta como se eu fosse um filho que regressava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu‑me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a rotina possível — tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.

 - O Estágio no Quartel de Santa Luzia em Bissau

Fiquei um mês em Bissau, frequentei estágio de radiotelegrafista. Era um tempo de adaptação, mas também de disciplina. Passava horas a fio a praticar grafia, o velho morse que se tornaria a minha segunda respiração. O som seco dos pontos e traços marcava o ritmo dos dias, como se cada mensagem fosse um pequeno exercício de sobrevivência.


Bissau 1972 - Agrupamento das TRMS

Ali aprendi não apenas a transmitir — aprendi a ouvir. A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha colocasse homens em risco.

A fonia também fazia parte do treino, mas era a grafia que exigia mais de mim. A fonia era rápida; o morse era preciso. E na Guiné, a precisão salvava vidas.

 - A Ida para o Xime

Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias

Dakota no AM43 – Camaxilo – Crédito: CLUBE DE ESPECIALISTAS DO AB4

O destino final era o Xime, onde a minha companhia CART 3494 estava aquartelado. E o Xime não era apenas um aquartelamento — era um teste diário à resistência de cada homem.

Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada, aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar, um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo — pesada, espessa, cheia de sombras que pareciam mover-se sozinhas.

O posto de Transmissões, era num local sem segurança, sempre que eramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo. Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (racal). Eu pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR‑28) e com o AVP‑1, acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos reconhecimentos.

O meu mundo era outro. Eu ficava no coração das comunicações, onde a guerra chegava em forma de sons metálicos, interferências, códigos e urgências. Fazia escuta permanente e transmitia quando era preciso — e era preciso muitas vezes. Era ali, naquele posto fixo, que mantinha vivas as ligações com Bambadinca, Mansambo, Enxalé e Xitole. Era ali que recebia pedidos, alertas, relatórios, mensagens codificadas. E era dali que partiam as comunicações que podiam decidir se uma operação avançava, recuava ou pedia evacuação. A guerra, para mim, não era a picada. Era o som seco do morse, a tensão da escuta, o silêncio que precedia uma mensagem urgente, a responsabilidade de não falhar. E, no fim, era a certeza de que, mesmo sem sair do aquartelamento, eu estava ligado a todos os que lá fora arriscavam a vida.

Xime 1972 - junto ao posto de TRMS com o meu amigo Ramos à esq., apontador de morteiro 81 mm, fal. em 22/11/2012 vítima de doença súbita

Para além de numerosos contactos com o inimigo no terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes flagelados (17) com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente: AK 47 (Kalashnikov) canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG – 7, RPG – 2 e Foguetões.

1972 – À minha esq. Op Cripto Cândido (Pinóquio) com armas apreendidas ao IN


O Regresso

A guerra molda-nos sem pedir licença. E, quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.

Regressei por via aérea num Boeing 707, como tinha chegado. Partimos do aeroporto Osvaldo Vieira, em Bissau, às 13 horas locais, 15 horas na Metrópole, e aterrámos no aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, por volta das 18h45. Nesse mesmo local, entregámos toda a farda militar que nos havia sido distribuída.

Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa

Créditos: Página dos Especialistas do AB4 e Luís Graça & Camaradas da Guiné

Embora tivesse bilhete do Exército para a viagem de comboio, aceitei, a convite de um furriel, fazer a viagem de táxi de Lisboa até casa, juntamente com três furriéis: Domingues, Dias e Carvalhido da Ponte. Tinha apenas 200$00, que um camarada me emprestara e que eu julgava suficientes para pagar a minha parte da viagem. No entanto, fizemos uma paragem para jantar, creio que em Rio Maior, e o dinheiro deixou de chegar. Mais tarde, em Coimbra, parámos para tomar café, pago por um dos furriéis. A viagem prosseguiu, sempre com a preocupação de como resolver a situação.

O Dias e o Domingues ficaram no Porto, e eu e o Carvalhido da Ponte continuámos até às nossas casas. Ao chegar, disse-lhe que iria pedir dinheiro aos meus pais para lhe pagar, ao que ele respondeu: “Depois encontramo-nos em Viana do Castelo e resolvemos isso.” Foi um grande alívio. 

Acabámos por nos encontrar e saldar a dívida, bem como devolver os 200$00 emprestados por Dionísio Dantas Fernandes, ajudante de cozinheiro.

Mas o homem que regressou não era o mesmo que partira. Tinham passado 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.


Ao chegar a casa


A 9 dias de assentar praça no RI-8 em Braga, a minha casa em fundo

Naquela altura da minha chegada a casa, em Barroselas, concelho de Viana do Castelo, no dia 4 de abril de 1974, antes de bater à porta, olhei à minha volta e senti tudo muito estranho. Dei comigo a pensar: ainda há pouco estava na Guiné… tinham passado apenas umas horas e agora já estava em casa.

Bati à porta, mais ou menos pelas três da manhã, ou coisa parecida. De dentro, ouvi a voz do meu pai:

— Quem é?

Respondi:

— Não é ninguém!

Imediatamente, me surpreendeu aquela efusividade da minha esposa com o filho de 20 meses que não conhecia pessoalmente, dos meus Pais e minha irmã, a dizerem:

— É o Tono, é o Tono! (António)

E pronto: foram abraços, alegria, emoção… E eu sem jeito nenhum, sem saber o que dizer.

Logo pela manhã, fui dar uma volta pela zona. Voltei a sentir-me estranho, com vergonha de entrar nos cafés, de enfrentar as pessoas e de ter de responder a tantas perguntas que, para mim, não faziam sentido. Custava-me dar respostas.

Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor, na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.

E cada vez que nos juntamos — em cada convívio, em cada abraço, em cada história repetida — é como se o rádio voltasse a ganhar vida, e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.

Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens que a viveram nunca se perdem uns dos outros.

António Castro,

ex. 1º cabo radiotelegrafista da CART 3494

07ABR2026