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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

P419 - MEMÓRIAS CRUZADAS NAS “MATAS” DA GUINÉ (1963-1974): RELEMBRANDO OS QUE, POR MISSÃO, TINHAM DE CUIDAR DAS FERIDAS CORPOREAS PROVOCADAS PELA METRALHA DA GUERRA COLONIAL: «OS ENFERMEIROS»

MSG com data de 22 de Setembro 2021

Com este quarto fragmento - ou PARTE IV - continuamos a recuperar algumas das "memórias cruzadas nas matas da Guiné", estas relativas ao universo dos camaradas da "Saúde Militar" do Exército que foram condecorados com a medalha de «Cruz de Guerra» por actos em combate, num total de 24 casos, durante as suas comissões de serviço no CTIG (1963-1974).

Com um abraço de amizade,

Jorge Araújo.

GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)

OS CONTEXTOS DOS “FACTOS E FEITOS” EM CAMPANHA DOS VINTE E QUATRO CONDECORADOS DO EXÉRCITO COM “CRUZ DE GUERRA”, DA ESPECIALIDADE “ENFERMAGEM”

PARTE IV




Continuação do P418 (III) (07.09.21)

1.   - INTRODUÇÃO

Através da consulta e análise do vasto espólio documental produzido pela geração dos ex-combatentes, que não pára de aumentar em cada dia das nossas vias – e ainda bem, digo eu (dizemos nós!) –, visando contribuir para a reconstrução do puzzle da memória colectiva da «Guerra Colonial / Guerra do Ultramar / Guerra de África», em particular a da Guiné [CTIG], continuamos a partilhar, no seio da «Tabanca Grande», os resultados obtidos nas «Memórias Cruzadas» implícitas no tema em título e subtítulo.

Para além do enunciado supra, enquanto objecto da investigação, com o tema em apreço procura-se valorizar o importante papel desempenhado pelos nossos camaradas da “saúde militar” (e igualmente no apoio a civis e população local) – médicos e enfermeiros/as (por exemplo a da foto 2) – na nobre missão de socorrer todos os que deles necessitassem, quer em situação de combate (por exemplo a da foto 1), quer noutras ocasiões de menor risco de vida (medicina geral), mas sempre a merecerem atenção e cuidados especiais (por exemplo a da foto 3).

Considerando a dimensão global da presente investigação, esta teve de ser dividida em partes, onde procuramos descrever cada um dos contextos da “missão”, analisando “factos” e “feitos” (os encontrados na literatura) dos seus actores directos “especialistas

 de enfermagem”, que viram ser-lhes atribuída uma condecoração com «Cruz de Guerra», maioritariamente de 3.ª e 4.ª Classe. Para esse efeito, a principal fonte de consulta/informação foi a documentação oficial do Estado-Maior do Exército, elaborada pela Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974).

2.   - OS “CASOS” DO ESTUDO

De acordo com a coleta de dados da pesquisa, os “casos do estudo” totalizaram vinte e quatro militares condecorados, no CTIG (1963/1974), com a «Cruz de Guerra» pertencentes aos «Serviços de Saúde Militar», três dos quais a «Título Póstumo», distinção justificada por “actos em combate”, conforme consta no quadro nominal elaborado por ordem cronológica e divulgado no primeiro fragmento – P415.

Neste quarto fragmento analisaremos mais dois “casos”, o último de 1965 e o primeiro de 1966, onde se recuperam mais algumas memórias, sempre dramáticas quando estamos perante situações irreversíveis, como é a da morte.

3.   - OS CONTEXTOS DOS “FEITOS” EM CAMPANHA DOS MILITARES DO EXÉRCITO CONDECORADOS COM “CRUZ DE GUERRA”, NO CTIG (1963-1974), DA ESPECIALIDADE DE “ENFERMAGEM” - (n=24)

 

3.7     - LUÍS PEREIRA JORGE, 1.º CABO AUXILIAR DE ENFERMEIRO DA CCAÇ 1418, CONDECORADO COM A CRUZ DE GUERRA DE 4.ª CLASSE 

A sétima ocorrência a merecer a atribuição de uma condecoração a um elemento dos «Serviços de Saúde» do Exército, esta com medalha de «Cruz de Guerra» de 4.ª Classe - a quarta e última das distinções contabilizadas durante o ano de 1965 - teve origem no desempenho tido pelo militar em título, durante a «Operação Perseguição», realizada em 09 de Setembro de 1965 (5.ª feira), na zona de Búgula – Badã, na região de Bula (infografia abaixo), quando o grupo de combate de que fazia parte foi emboscado.

► Histórico


 
◙ Fundamentos relevantes para a atribuição da Condecoração

▬ O.S. n.º 82, de 06 de Outubro de 1965, do BCAÇ 1856:

“Agraciado com a Cruz de Guerra de 4.ª Classe, nos termos do artigo 12.º do Regulamento da Medalha Militar, aprovado pelo Decreto n.º 35667, de 28 de Maio de 1946: O 1.º Cabo, auxiliar de enfermeiro, n.º 1204/64, Luís Pereira Jorge, da Companhia de Caçadores 1418 [CCAÇ 1418] – Batalhão de Cavalaria 790, Regimento de Infantaria n.º 1”.

● Transcrição do louvor que originou a condecoração:

 “Louvado, pelo Exmo. Comandante do BCAÇ 1856, o 1.º Cabo auxiliar de enfermeiro, n.º 1204/64,


Luís Pereira Jorge, pelo seu meritório comportamento no decorrer da «Operação Perseguição» [09Set65], quando o grupo de combate de que fazia parte foi emboscado.

Tendo sido ferido no início, pelo rebentamento de uma granada de mão lançada pelo In, que de imediato arremessou outra que caiu na posição por si ocupada, teve ainda a calma necessária, extraordinária presença de espírito e sangue-frio, para a devolver para o local de onde havia sido lançada, a qual então rebentou, ao mesmo tempo que abriu fogo com a sua arma, nessa direcção, tendo atingido dois elementos In ali acoitados e que se puseram em fuga.

Debaixo de fogo e a rastejar, foi então tratar o seu comandante de Pelotão e em seguida um outro camarada gravemente ferido, indo depois ocupar novamente o seu posto na linha de fogo.

Já durante o trajecto para o aquartelamento mais próximo, distante cerca de 5 km, foi ele ainda quem ajudou a transportar às costas um seu camarada mais gravemente ferido, só aceitando transferi-lo para outro militar, quando já extremamente cansado, devido aos seus próprios ferimentos, se viu obrigado a tal.” (CECA; 5.º Vol.; p 185).

CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA

Para contextualização da ocorrência, que esteve na base da condecoração do 1.º Cabo enfermeiro, Luís Pereira Jorge, socorremo-nos das fontes oficiais (CECA, 6.º Vol.; p. 335), onde consta: “Em cumprimento da Directiva Operacional, no Sector Oeste, as NT desenvolveram intensa actividade operacional realizando, entre outras, as operações - «Perseguição»: em 09Set65. O IN emboscou as forças do BCAV 790 [no caso a CCAÇ 1418], próximo de Búgula, causando 6 feridos e sofrendo 2 mortos.”

3.7.1   - SUBSÍDIO HISTÓRICO DA COMPANHIA DE CAÇADORES 1418

= BISSAU - BULA - BURUNTUMA - CAMAJABÁ - RIO CAIUM – FÁ MANDINGA

Mobilizado pelo Regimento de Infantaria 1 [RI 1], da Amadora, para cumprir a sua missão ultramarina no CTIG, a Companhia de Caçadores 1418 [CCAÇ 1418], a terceira unidade de quadrícula do BCAÇ 1856, do Cmdt TCor Inf António de Anunciação Marques Lopes, embarcou em Lisboa em 31 de Julho de 1965, sábado, a bordo do N/M «NIASSA», sob o comando do Capitão de Infantaria António Fernando Pinto de Oliveira, tendo desembarcado em Bissau a 6 de Agosto, 6.ª feira.

3.7.2         - SÍNTESE DA ACTIVIDADE OPERACIONAL DA CCAÇ 1418

Após o seu desembarque, a CCAÇ 1418 ficou colocada em Bissau durante quinze dias como


subunidade de intervenção e reserva do Comando-Chefe, tendo seguido, em 21Ago65 para Bula, a fim de realizar uma instrução de adaptação operacional sob a orientação do BCAV 790 [28Abr65-08Fev67; do TCor Cav Henrique Alves Calado], e seguidamente reforçar este Batalhão em acções realizadas nas regiões de Naga, Inquida e Choquemone, entre outras.

Até 20Out65, continuou depois a ser atribuída em reforço de outros batalhões, com vista à realização de diversas acções na região do Jol, em reforço do BCAÇ 1858 [24Ago65-03Mai67; do TCor Inf Manuel Ferreira Nobre Silva], de 05 a 18Nov65. Na região de Gussará-Manhau, em reforço do BART 645, de 16 a 23Dez65. Nas regiões de Naga e Biambe, em reforço do BCAV 790, de 2 a 16Jan66 e novamente de 12 a 26Mar66. Na região do Morés, em reforço do BCAÇ 1857 [06Ago65-03Mai67; do TCor Inf José Manuel Ferreira de Lemos], de 13 a 23Fev66, onde tomou parte na «Operação Castor» [em 20Fev66], um golpe-de-mão à base central do Morés bem-sucedido, já que foi capturada elevada quantidade de armamento e outro material.


Deslocada seguidamente para Buruntuma, a CCAÇ 1418 assumiu, em 08Mai66, a responsabilidade do respectivo subsector, em substituição da CCAV 703 [24Jul64-14Mai66; do Cap Cav Fernando Manuel dos Santos Barrigas Lacerda], ficando integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão [BCAÇ 1856], tendo destacada uma secção para Camajabá e, a partir de 21Set66, um Gr Comb para a ponte do Rio Caium. Em 03Abr67, foi rendida no subsector de Buruntuma pela CCAÇ 1588 [04Ago66-09Mai68; do Cap Inf Álvaro de Bastos Miranda] e seguiu para Fá Mandinga, onde substituiu, temporariamente, a CCAÇ 1589 [04Ago66-09Mai68; do Cap Inf Henrique Vítor Guimarães Peres Brandão] na função de reserva do Agr1980. Em 09Abr67, seguiu para Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso à metrópole, o qual teve lugar a 18 do mesmo mês, a bordo do N/M «UÍGE».

Para além da quantidade de armamento capturado na base do Morés, como a imagem acima testemunha, no decurso da «Operação Castor» ocorreu, também, entre outras, a morte de Simão António Mendes, responsável da área da saúde do C.I.R.N.

Este acontecimento é divulgado a partir da base central (Morés), em comunicado manuscrito por Chico Té? [Francisco Mendes], que abaixo se reproduz, com o seguinte teor:

“No dia 20 de Fevereiro [de 1966] o inimigo [NT] apoiado por 8 caçadores [?] invadiu a Base Central [Morés]. O combate durou 6 horas de tempo, teve como resultado a retirada em debandada inimiga que caiu em 3 (três) emboscadas sucessivas [CCAÇ 1418; fazendo fé no depoimento do camarada Rui Silva - P3806-LG - que diz: “o êxito da operação deve-se em grande parte à táctica usada. O papel da CCAÇ 1418 ao servir de isco foi preponderante. Mostrou-se, foi detectada pelo inimigo e então este convergiu para o trajecto daquela. Soubemos que esta Companhia se continuasse a avançar, o que não era preciso, tinha 7 (sete) emboscadas inimigas já montadas”].

O comunicado acrescenta que “o inimigo [NT] não podendo realizar o plano, reforçou a aviação. Com o fim de bombardear a base, onde os nossos camaradas de armas anti-aéreas deram uma grande prova de coragem, não os deixando realizar o plano. Depois de duas horas de combate, só conseguiram lançar uma bomba dentro da Base causando a morte de 3 camaradas entre os quais o responsável da saúde do C.I.R.N, Simão António Mendes.

Dois aviões foram atingidos pelo fogo da D.C.K. [metralhadora pesada de 14.5 mm].

Região Óio, Zona Morés, Base Central.”


 3.8  - JOÃO VIEIRA DE MELO, 1.º CABO AUXILIAR DE ENFERMEIRO DA CCAV 1485, CONDECORADO A TÍTULO PÓSTUMO COM A CRUZ DE GUERRA DE 4.ª CLASSE 

A oitava ocorrência a merecer a atribuição de uma condecoração (a título póstumo) a um elemento dos «Serviços de Saúde» do Exército, esta com medalha de «Cruz de Guerra» de 4.ª Classe - a primeira de oito distinções contabilizadas durante o ano de 1966 - teve origem no desempenho tido pelo militar em título, durante a «Operação Falcão II», realizada em 13 de Fevereiro de 1966 (domingo), na região da mata de Cassum, Susana (infografia abaixo), quando os grupos de combate da CCAV 1483 e CCAV 1485, da qual fazia parte, foram emboscados.

► Histórico


 
◙ Fundamentos relevantes para a atribuição da Condecoração

▬ O.S. n.º 19, de 12 de Maio de 1966, do QG/CTIG:

“Condecorado com a Cruz de Guerra de 4.ª Classe, nos termos do artigo 12.º do Regulamento da


Medalha Militar, aprovado pelo Decreto n.º 35667, de 28 de Maio de 1946, por despacho do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, de 11 de Maio de 1966: O 1.º Cabo auxiliar de enfermeiro, João Vieira Melo, da Companhia de Cavalaria 1485 [CCAV 1485] – Batalhão de Cavalaria 790, Regimento de Infantaria n.º 7, a título póstumo.”

● Transcrição do louvor que originou a condecoração:

“Louvo, a título póstumo, o 1.º Cabo auxiliar de enfermeiro, n.º 06235965, João Vieira de Melo, da CCAV 1485, pelo seu comportamento notável revelado no decorrer da «Operação Falcão II», levada a efeito em 13 de Fevereiro de 1966.

Atingido com certa gravidade numa fase inicial do combate, não hesitou em arrastar-se para o local onde o fogo In era mais intenso, por saber que naquela zona havia outros feridos que necessitavam de receber tratamento. Veio a ser atingido mortalmente quando prestava assistência aos seus camaradas.

Demonstrou excepcional espírito de abnegação e camaradagem, extraordinárias qualidades de coragem, sangue-frio, calma e serena energia debaixo de fogo, tornando-se credor do respeito e admiração dos seus camaradas e superiores e digno de ser apontado como exemplo.” (CECA; 5.º Vol.; p. 310).

CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA

Para contextualização da ocorrência que esteve na base da condecoração do 1.º Cabo enfermeiro João Vieira de Melo, socorremo-nos das fontes oficiais (CECA, 6.º Vol.; p. 335), e da obra de Mário Leitão «Heróis Limianos da Guerra do Ultramar», onde consta:

“Em 13 de Fevereiro de 1966, domingo, realizou-se a «Operação Falcão II», que contou com forças da CCAV 1485 e alguns elementos da CCAV 1483 [26Out65-27Jul67; do Cap Cav José Olímpio Caiado Costa Gomes], com a missão de explorar notícias que referiam a existência de um acampamento na área de Cassum/Susana. Ao aproximarem-se da orla da mata de Cassum, o In desencadeou sobre as NT intenso tiroteio. As NT reagiram, mantendo-se nas posições durante 3 (três) horas, ao fim das quais o PVC deu ordem para retirar. Protegidas pela FA, as NT retrocederam, perseguidas ainda por alguns guerrilheiros. Foram causados ao In dois mortos e outras baixas prováveis. As NT sofreram dois mortos e seis feridos, três dos quais vieram a falecer posteriormente depois de terem sido heli-evacuados para o HM 241, em Bissau. No caso do João Vieira de Melo, este veio a falecer no HMP (Estrela, Lisboa) em 20Fev66. Era natural da Ribeira, uma das trinta e nove freguesias do Município de Ponte de Lima.


Como complemento da narrativa oficial, recuperámos o excelente trabalho de pesquisa biográfico, “dos quarenta e cinco rapazes limianos que morreram ao serviço de Portugal nos três teatros operacionais, para além de mais oito em território continental”, dado à estampa pelo camarada Mário Leitão no livro acima identificado, onde é descrito o contexto da ocorrência em análise.

Da biografia referente ao 1.º Cabo João Vieira Melo, reproduzimos: […] “Pouco antes de completar quatro meses de comissão, o 1.º Cabo Melo fez parte de dois grupos de combate que a sua unidade enviou para a “Operação Falcão II”, iniciada nos primeiros minutos do dia 13 de Fevereiro de 1966, na área de Susana, onde o inimigo construíra um forte acampamento com abrigos contra morteiros e aviação, na orla de uma mata em Cassum. Um soldado atravessou o rio a nado transportando a corda que, uma vez esticada, serviria para a travessia do restante pessoal, que terminou às duas da manhã. Dessas forças faziam parte vários elementos da CCAV 1483. O numeroso grupo inimigo que os emboscou possuía um morteiro 82, uma ou duas metralhadoras pesadas e inúmeras pistolas-metralhadoras e espingardas automáticas, que causaram 5 mortos e 3 feridos às nossas tropas”. […] “As nossas tropas aguentaram o combate durante três horas, esquivaram-se aos vários fogos de capim incendiado pelo IN, mas tiveram de retirar para proceder à evacuação dos feridos e porque grande número de armas estavam encravadas e o número de munições era reduzido. A ordem foi dada pelo PVC, e a Força Aérea assegurou a protecção, pois vários elementos In iniciaram a sua perseguição”. […] (Op. cit., pp.142-143).

Segue o quadro das baixas em combate registadas durante a «Operação Falcão II». É de mencionar o facto de que os corpos dos dois primeiros nomes não puderam ser recuperados. (CECA; 8.º Vol.; pp 174-176).

Nota: Sobre este tema, consultar: P17180-LG e P17307-LG


 3.8.1   - SUBSÍDIO HISTÓRICO DA COMPANHIA DE CAVALARIA 1485

= BISSAU - BINAR - BULA - INGORÉ - SUSANA - PELUNDO - BIAMBE - ENCHEIA

Mobilizado pelo Regimento de Cavalaria 7 [RC 7], em Lisboa, para cumprir a sua missão ultramarina no CTIG, a Companhia de Cavalaria 1485 [CCAV 1485], independente, embarcou em Lisboa em 20 de Outubro de 1965, 4.ª feira, a bordo do N/M «NIASSA», sob o comando do Capitão de Cavalaria Luís Manuel Lemos Alves, tendo desembarcado em Bissau seis dias depois.

3.8.2   - SÍNTESE DA ACTIVIDADE OPERACIONAL DA CCAV 1485

              

Após a sua chegada, a CCAV 1485 ficou instalada em Bissau tendo sido atribuída ao BCAÇ 1857


[06Ago65-03Mai67; do TCor Inf José Manuel Ferreira de Lemos], a fim de substituir a CCAÇ 1419 [06Ago65-03Mai67; do Cap Mil Inf António dos Santos Alexandre] na segurança e protecção das instalações e das populações da área tendo, cumulativamente, destacada os seus Grs Comb, por períodos variáveis, para adaptação operacional e reforço das guarnições locais de Binar, Bula e Ingoré, e empenhamento em operações efectuadas no sector do BCAV 790.

Em 01Dez65, foi colocada em Bula em reforço do BCAV 790 [28Abr65-08Fev67; do TCor Cav Henrique Alves Calado], sendo deslocada em 05Dez65 para Susana, onde assumiu a responsabilidade de um subsector, criado por agravamento da situação na zona e retirado ao subsector de São Domingos, a fim de actuar na contra-penetração e interdição da fronteira norte (Senegal).

Entretanto, cedeu também dois Grs Comb para reforço das guarnições locais de Ingoré, de 08Dez65 a 08Ago66 [oito meses] e Pelundo, de 09Dez65 a 17Abr66 [quatro meses]. Em 15Abr66, o subsector temporário de Susana foi extinto, voltando a ser incluído no subsector de São Domingos, tendo os efectivos da subunidade sido deslocados para Bula, entre 11 e 17Abr66.

Em 18Abr66, a CCAV 1485 deslocou-se para Binar, a fim de tomar parte na «Operação Arranque» [20-21Abr66], com vista à ocupação e instalação em Biambe, de cujo subsector assumiu a responsabilidade em 20Abr66, continuando integrada no dispositivo e manobra do BCAV 790.

Quanto à manobra desenvolvida pelas unidades participantes na ocupação de Biambe, e posterior instalação do respectivo aquartelamento, missão atribuída à CCAV 1485, creio que o livro de Manuel Costa Lobo, «Biambe e os Biambenses - História de um sítio em tempo de Guerra (1966/1974)» (capa ao lado), delas fará, certamente, referência (ainda que não o possa confirmar por não o ter lido).   

Em 31Ago66, a sua zona de acção foi alargada da área de Encheia, para onde, em 30Out66, foi destacado um Gr Comb, em substituição de idêntico efectivo da CCAÇ 816 [26Mai65-08Fev67; do Cap Inf Luís Fernando Gonçalves Riquito]. Em 06Jun67, a CCAV 1485 foi rendida, por troca, no subsector de Biambe pela CART 1688 [01Mai67-02Mar69; do Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges], sendo colocada em Bissau, onde veio a substituir esta subunidade no dispositivo e manobra do BART 1904 [18Jan67-31Out68; do TCor Art Fernando da Silva Branco], com vista à segurança e protecção das instalações e das populações da área. Em 25Jul67, foi substituída no sector de Bissau pela CCAV 1748 [25Jul67-07Jun69; do Cap Mil Inf Emílio Augusto Pires], a fim de efectuar o embarque de regresso ao continente, viagem iniciada em 27Jul67 a bordo do N/M «UÍGE».

Continua…



► Fontes consultadas:

Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 5.º Volume; Condecorações Militares Atribuídas; Tomo II; Cruz de Guerra, 1962-1965; Lisboa (1991).

Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 7.º Volume; Fichas das Unidades; Tomo II; Guiné; 1.ª edição, Lisboa (2002).

Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 1; 1.ª edição, Lisboa (2001).

Ø  Outras: as referidas em cada caso.

Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

22SET2021

terça-feira, 7 de setembro de 2021

P418 - MEMÓRIAS CRUZADAS NAS “MATAS” DA GUINÉ (1963-1974): RELEMBRANDO OS QUE, POR MISSÃO, TINHAM DE CUIDAR DAS FERIDAS CORPOREAS PROVOCADAS PELA METRALHA DA GUERRA COLONIAL: «OS ENFERMEIROS» PARTE III

MSG com data de: 25JUL2021 

Caríssimo camarada Sousa de Castro

 Os meus melhores cumprimentos.

 Com esta PARTE III, continuamos a recuperar algumas das "memórias cruzadas nas matas da Guiné", estas relativas ao universo dos camaradas da "Saúde Militar" do Exército que, durante as suas comissões de serviço no CTIG (1963-1974), foram condecorados com a medalha de «Cruz de Guerra» por actos em combate, num total de 24 casos.

 Até breve.

Com um abraço de amizade.

Jorge Araújo.

GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)

MEMÓRIAS CRUZADAS

NAS “MATAS” DA GUINÉ (1963-1974):

Foto 1 - Região do Óio > “Evacuação de ferido das matas do Morés”. [Fonte: «Guerra Colonial - Angola, Guiné, Moçambique». Autores: Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. Edição: Diário de Notícias (s/d), p 95], com a devida vénia.

RELEMBRANDO OS QUE, POR MISSÃO, TINHAM DE CUIDAR DAS FERIDAS CORPOREAS PROVOCADAS PELA METRALHA DA GUERRA COLONIAL: «OS ENFERMEIROS»

OS CONTEXTOS DOS “FACTOS E FEITOS” EM CAMPANHA DOS VINTE E QUATRO CONDECORADOS DO EXÉRCITO COM “CRUZ DE GUERRA”, DA ESPECIALIDADE “ENFERMAGEM”



PARTE III

Foto 2 - Matas da Guiné (1970) > “Assistência a Feridos”. Margarida Calafate Ribeiro, «Dois depoimentos sobre a presença e a participação femininas na Guerra Colonial», Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 68 / 2004, Online since 01 October 2012. Fonte: Zulmira André. URL: https://journals.openedition.org/rccs/docannexe/image/1212 /img-3.jpg, com a devida vénia.


Foto 3 – Nova Lamego > 1973 > o 1.º Cabo Enf Alfredo Dinis, da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, 1973/1974), a “tratar de graves queimaduras do Filipe, resultantes da explosão de um gerador de energia, no quartel”. Foto do álbum de Alfredo Dinis (já falecido) – P6060-LG, com a devida vénia. Ver, também, “Memórias de Gabú (José Saúde): Recordando o saudoso enfermeiro Dinis” – P14106-LG.   

► Continuação do P416 (II) (12.07.21)

     1.   - INTRODUÇÃO

Na génese do presente trabalho de investigação, tal como o verificado nas anteriores temáticas, continua a prevalecer a ideia [a nossa] de que é possível ampliar o quadro historiográfico da designada «Guerra Colonial / Guerra do Ultramar / Guerra de África» (1962-1974), através do recurso ao vasto espólio documental produzido pela geração dos ex-combatentes, onde nos incluímos, pondo em prática a técnica metodológica de “análise de conteúdo”, conceito intrínseco ao por nós titulado de «Memórias Cruzadas».

No caso em apreço, procuramos salientar o importante papel desempenhado pelos nossos camaradas da “saúde militar” (e igualmente no apoio a civis e população local) – médicos e enfermeiros/as (as paraquedistas, por exemplo a da foto 2) – na nobre missão de socorrer todos os que deles necessitassem, quer em situação de combate (por exemplo a da foto 1), quer noutras ocasiões de menor risco de vida (medicina geral), mas sempre a merecerem atenção e cuidados especiais (por exemplo a da foto 3).

Recordamos, a propósito da estrutura global deste trabalho que ele foi dividido em partes, onde procuramos descrever cada um dos contextos da “missão”, analisando “factos” e “feitos” (os encontrados na literatura) dos seus actores directos “especialistas de enfermagem”, onde cada caso acabaria por influenciar a Chefia Militar na argumentação para um “louvor” e que se transformaria, depois, em condecoração com «Cruz de Guerra», maioritariamente de 3.ª e 4.ª Classe. Para o efeito, a principal fonte de informação/consulta utilizada foi a documentação oficial do Estado-Maior do Exército, elaborada pela Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974).

     2.   - OS “CASOS” DO ESTUDO

De acordo com a coleta de dados da pesquisa, os “casos do estudo” totalizaram vinte e quatro militares condecorados, no CTIG (1963/1974), com a «Cruz de Guerra» pertencentes aos «Serviços de Saúde Militar», três dos quais a «Título Póstumo», distinção justificada por “actos em combate”, conforme consta no quadro nominal elaborado por ordem cronológica e divulgado no primeiro fragmento – P415.

Neste terceiro fragmento analisaremos mais dois “casos”, ambos registados no ano de 1965, onde se recuperam mais algumas memórias, sempre dramáticas quando estamos perante situações que fazem apelo à sobrevivência de um SER.

       3.   - OS CONTEXTOS DOS “FEITOS” EM CAMPANHA DOS MILITARES DO EXÉRCITO CONDECORADOS COM “CRUZ DE GUERRA”, NO CTIG (1963-1974), DA ESPECIALIDADE DE “ENFERMAGEM” - (n=24)

          3.5        - ARMANDO REIS MARQUES, 1.º CABO AUXILIAR DE ENFERMEIRO DA CCAV 487, CONDECORADO COM A CRUZ DE GUERRA DE 4.ª CLASSE 

A quinta ocorrência a merecer a atribuição de uma condecoração a um elemento dos «Serviços de Saúde» do Exército, esta com medalha de «Cruz de Guerra» de 4.ª Classe, que seria a segunda de quatro distinções contabilizadas durante o ano de 1965, teve origem no desempenho tido pelo militar em título, ao socorrer os camaradas da sua unidade [CCAV 487] feridos durante a «Operação Ebro», realizada em 24 de Março de 1965, com o objectivo da conquista de Canjambari Praça.


► Histórico

◙ Fundamentos relevantes para a atribuição da Condecoração

▬ O.S. n.º 65, de 10 de Agosto de 1965, do QG/CTIG:

“Agraciado com a Cruz de Guerra de 4.ª Classe, nos termos do artigo 12.º do Regulamento


da Medalha Militar, aprovado pelo Decreto n.º 35667, de 28 de Maio de 1946, por despacho do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, de 19 de Março de 1966: O 1.º Cabo auxiliar de enfermeiro, n.º 276/62, Armando Reis Marques, da Companhia de Cavalaria 487 [CCAV 487] – Batalhão de Cavalaria 490, Regimento de Infantaria n.º 3.”

● Transcrição do louvor que originou a condecoração:

“Louvo o 1.º Cabo auxiliar de enfermeiro, n.º 276/62, Armando Reis Marques, da CCAV 487, porque ao longo de vinte e dois meses em que prestou serviço na Companhia, demonstrou que, além de ser muitíssimo competente na sua especialidade, possui muitas e apreciáveis qualidades, nomeadamente de coragem, desembaraço, sangue- frio, dedicação e desprezo pelo perigo.

Numa acção realizada em 24 de Março de 1965 [4.ª feira] na região de Canjambari [«Operação Ebro»], ao serem feridos três camaradas, não hesitou em, imediatamente, lhes prestar os necessários socorros, apesar da zona em que estes se encontravam continuar a ser batida por intenso fogo.

Militar correcto, aprumado e cumpridor, é um dos melhores elementos da sua Companhia e é merecedor do reconhecimento do Exército e da Nação.” (CECA; 5.º Vol, Tomo III, p 184).

CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA

Para contextualização da ocorrência que esteve na base da condecoração do 1.º Cabo


enfermeiro, Armando Reis Marques, socorremo-nos das memórias reproduzidas pelo camarada António Bastos, do PCAÇ 953 (Teixeira Pinto e Farim, 1964/1966), relacionadas com a «Operação Ebro», na qual também participou.

No P9636, António Bastos dá-nos conta que o objectivo daquela missão militar era a ocupação de Canjambari Praça, local onde a sua Unidade iria ficar, doravante, instalada. As forças mobilizadas para o cumprimento da “acção”, comandadas pelo TCor Cav Fernando José Pereira Marques Cavaleiro (1917-2012), Cmdt do BCAV 490, eram constituídas pela CCAV 488, um Gr Comb da CCAV 487, PRec Fox 693, PRec Daimler 810, PSap CCS/BCAV 490, PMil 5, um Gr Comb da 1.ª CCAÇ, e o seu PCAÇ 953.

No decurso da progressão, o IN flagelou o PCAÇ 953 reforçado com o PRec Daimler 810, em Canjambari. As NT deixaram o grupo IN – com elementos armados, fardados e com capacete – aproximar-se até cerca de 10 metros, antes de abrir fogo. O IN reagiu durante cerca de 30 minutos, causando três feridos às NT e sofrendo alguns mortos. Enquanto decorria a emboscada, as NT foram flageladas da margem sul de Tita Sambo.

Como complemento ao relato anterior, recuperámos um depoimento mais detalhado, também da autoria de António Bastos, localizado no «cmjornal», edição de 21 de Junho de 2009, domingo, onde refere:

[…] “A Farim chegámos no dia 16 de Março de 1965 (2.ª feira). Eram 11h00. Fomos recebidos pelo comandante do Batalhão de Cavalaria 490 [BCAV 490], TCor Fernando Cavaleiro, e instalados na caserna do pelotão de morteiros [PMort 980], onde passámos alguns dias até começarem as operações. Uma semana depois [24Mar65] fomos acordados a meio da madrugada para participar na operação de invasão de Canjambari Praça (nome de código “Ebro”).

Estávamos no terreno há duas horas e meia quando rebentou uma mina sob uma viatura carregada de chapas e bidões abertos, entre outros materiais para a construção do destacamento. Não se registaram baixas, mas mal nos tínhamos refeito do susto fomos alvo de uma emboscada, que durou até meio da tarde. Depois os bombardeiros (T6) entraram em acção e, pelas 17h00, conseguimos avançar na conquista de Canjambari Praça (infografia acima).

Quando a situação estava controlada, recuámos para Canjambari Morcunda, a três quilómetros, onde foi construído o aquartelamento. Foi todo feito com a força humana do meu pelotão e de um pelotão de africanos [1.ª CCAÇ]”. […]

(Fonte: https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/sofremos-castigo-por-causa-da-comida), com a devida vénia.

 

Foto 4 – Região do Óio > Farim > Canjambari > (24Mar65): “Foto tirada minutos antes de rebentar a emboscada. A secção que ia na frente deixou de ouvir os pássaros e os macacos, e fez alto à coluna. Logo a seguir ficava a bolanha e depois uma grande árvore atravessada na estrada onde eles diziam que era a porta-de-armas. Aí a secção (do PCAÇ 953) começou a embrulhar.” [Foto do álbum de António Bastos, publicada no P9636-LG], com a devida vénia.

        3.5.1   - SUBSÍDIO HISTÓRICO DA COMPANHIA DE CAVALARIA 487

= FARIM E BISSAU [PARTICIPOU NA OPERAÇÃO «TRIDENTE» INTEGRADA NO SEU BATALHÃO (BCAV 490)] (1963-1965)

Mobilizada pelo Regimento de Cavalaria 3 [RC3], de Estremoz, para cumprir a sua missão ultramarina no CTIG, a Companhia de Cavalaria 487 [CCAV 487], embarcou em Lisboa, em 17 de Julho de 1963, quarta-feira, a bordo do N/M «NIASSA», sob o comando do Capitão de Cavalaria António Varela Romeiras Júnior. Na mesma viagem seguiram também as “unidades gémeas”, CCAV 448 e CCAV 449, assim como a CCS e o restante colectivo do BCAV 490. A sua chegada a Bissau ocorreu na segunda-feira seguinte, ou seja, em 22 de Julho de 1963.

       3.5.2   - SÍNTESE DA ACTIVIDADE OPERACIONAL DA CCAV 487

Após o desembarque, a Companhia de Cavalaria 487 «CCAV 487» permaneceu em Bissau, às ordens do comando do seu Batalhão, como unidade de intervenção, em reforço do BCAÇ 512 [22Jul63-12Ago65, do TCor Inf António Emílio Pereira de Figueiredo Cardoso]. Nesse âmbito foi destacada para diversas operações na região do Óio-Morés, nas zonas de Encheia, Fajonquito, Bissorã e Morés, em reforço de outros Batalhões. De 14Jan64 a 24Mar64, foi integrada no seu Batalhão, na operação «Tridente», realizada nas Ilhas de Como, Caiar e Catunco, reforçada com outras subunidades, incluindo fuzileiros especiais e paraquedistas.

Concluída a sua participação na Região do Como, seguiu para Farim a fim de substituir a CART 640 [03Mar64-27Jan66; do Cap Art Carlos Alberto de Matos Gueifão] na função de subunidade de intervenção e reserva do Sector, inicialmente na dependência do BCAÇ 512 e despois do seu próprio Batalhão até ao embarque de regresso, ocorrido em 12 de Agosto de 1965.

Em 25 de Março de 1965, no âmbito da «Operação Ebro», instalou forças para ocupação da povoação de Canjambari, no seu sector, tendo as suas subunidades ficado integradas no dispositivo e manobra do seu Batalhão, a partir de 31 de Maio de 1964. (CECA; p 253).

    3.6   - JOSÉ ANDRÉ DOS SANTOS, SOLDADO MAQUEIRO DO EREC 693, CONDECORADO COM A CRUZ DE GUERRA DE 3.ª CLASSE 

A sexta ocorrência a merecer a atribuição de uma condecoração a um elemento dos «Serviços de Saúde» do Exército, esta com medalha de «Cruz de Guerra» de 3.ª Classe - a terceira de quatro distinções contabilizadas durante o ano de 1965 - teve origem no desempenho tido pelo militar em título, durante a «Operação Início», realizada em 18Jul65 (domingo), na região de Dunane (infografia abaixo), ao socorrer os camaradas feridos, tal como ele, até ao momento em que teve de ser evacuado de helicóptero, por se ter agravado o seu estado de saúde.

► Histórico


 
◙ Fundamentos relevantes para a atribuição da Condecoração

▬ O.S. n.º 73, de 03 de Setembro de 1965, do QG/CTIG:

“Manda o Governo da República, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 3.ª Classe, ao abrigo dos artigos 9.º e 10.º do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província da Guiné Portuguesa: O Soldado maqueiro, n.º 207/64, José André dos Santos, do Esquadrão de Reconhecimento 693 [EREC 693] – Batalhão de Cavalaria 705, Regimento de Infantaria n.º 8.”

● Transcrição do louvor que originou a condecoração:

“Louvado o Soldado n.º 207/64, José André dos Santos, do EREC 693, porque durante a


emboscada sofrida na «Operação Início» [18Jul65], apesar de duramente atingido na cabeça pelo fogo inimigo, não se deixou desanimar pelo sofrimento, nem pelo sangue que jorrava em abundância e foi incansável e decidido nos primeiros socorros prestados aos restantes camaradas feridos, mantendo sempre debaixo de fogo autodomínio, abnegado espírito de sacrifício, de altruísmo e de camaradagem, dignos de especial destaque, tanto mais que o seu estado veio a impor pouco depois a sua evacuação por helicóptero.” (CECA; 5.º Vol.; Tomo III; p 348).

CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA

Na bibliográfica consultada, quer a de âmbito oficial quer o espólio a que habitualmente recorremos, não foi encontrada qualquer referência ao contexto relacionado com a «Operação Início», a acção militar que está na origem da condecoração atribuída ao soldado maqueiro José André dos Santos, do EREC 693, o que se lamenta.

         3.6.1   - SUBSÍDIO HISTÓRICO DO ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO 693

= BAFATÁ - FARIM - MANSOA - CANQUELIFÁ - PICHE - SARE GANÁ - (1964-1966)

Mobilizado pelo Regimento de Cavalaria 8 [RC8], de Castelo Branco, para cumprir a sua missão ultramarina no CTIG, o Esquadrão de Reconhecimento 693 [EREC 693] embarcou em Lisboa em 15 de Julho de 1964, quarta-feira, sob o comando do Capitão de Cavalaria Jaime Alexandre Santos Marques Pereira, tendo o seu desembarque ocorrido em 21 do mesmo mês.

        3.6.2   SÍNTESE DA ACTIVIDADE OPERACIONAL DO EREC 693

Após a sua chegada a Bissau, o EREC 693 seguiu para Bafatá, a fim de substituir o EREC


385 [02Ago62-23Jul64, do Cap Cav José Olímpio Caiado da Costa Gomes] como subunidade de reserva móvel do Sector do BCAÇ 506 e depois do BCAV 757. De 08Nov64 a 07Abr66, destacou um pelotão para Farim, onde reforçou o dispositivo do BCAV 490 e depois do BART 733 [14Out64-07Ago66, do TCor Art José da Glória Alves]. Por períodos variáveis, destacou pelotões para reforço de outros sectores, nomeadamente para Mansoa, de 14Jan65 a 31Mai65, em reforço do BART 645 [10Mar64-09Fev66, do TCor Art António Braamcamp Sobral], ou para reforço temporário das guarnições de Canquelifá, de 11Ago64 a 06Set64 e de 24Fev65 a 29Mar65, Piche e Sare Gana.

A partir de 01Jun65, passou à dependência operacional do CmdAgr24, mantendo a anterior missão de patrulhamento, escoltas, emboscadas e protecção, segurança e limpeza de itinerários e intervenção em operações destacando-se a «Operação Início», na região de Dunane, entre Piche e Canquelifá, em 18 de Julho de 1965, e a «Operação Aurora», na região de Banjara, de 27Abr66 a 09Mai66, entre outras.

Ainda no que concerne à «Operação Início», para além dos feridos a necessitarem de apoio de enfermagem (primeiros socorros), entre os quais se incluía o soldado maqueiro José André dos Santos, como ficou descrito no ponto da fundamentação que determinou a condecoração, um elemento do EREC 693, o soldado condutor auto rodas, Carlos Ribeiro Pereira, não resistiu vindo a falecer. Foi inumado no Cemitério de Bafatá, Campa n.º 19, conforme se pode conferir na nota de óbito abaixo (CECA; 8.º Vol., p 133).  

Entretanto, o EREC 693 continuou a ceder pelotões para reforço de diversos sectores, nomeadamente do BCAV 757 [23Abr65-20Jan67, do TCor Cav Carlos de Moura Cardoso, que era composto apenas por Comando e CCS] e depois do BCAÇ 1856 [06Ago65-15Abr67, do TCor Inf António da Anunciação Marques Lopes], em Bafatá, desde princípios de Jan66 e do BCAV 705 [24Jul64-14Mai66, do TCor Cav Manuel Maria Pereira Coutinho Correia de Freitas], em Piche, desde finais de Mar66. Em 13Mai66, foi substituído pelo EREC 1578 [13Mai66-25Jan68, do Cap Cav António Francisco Martins Marquilhas] e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso, que se realizou em 14Mai66, a bordo do N/M «UÍGE». (CECA; 7.º Vol., p 553).

Continua…

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

25JUL2021

Vd Poste da série aqui: Parte I - MEMÓRIAS CRUZADAS NAS “MATAS” DA GUINÉ (1963-1974): RELEMBRANDO OS QUE, POR MISSÃO, TINHAM DE CUIDAR DAS FERIDAS CORPOREAS PROVOCADAS PELA METRALHA DA GUERRA COLONIAL: «OS ENFERMEIROS» (Jorge Araújo)

PARTE II - «OS ENFERMEIROS» RELEMBRANDO OS QUE, POR MISSÃO, TINHAM DE CUIDAR DAS FERIDAS CORPOREAS PROVOCADAS PELA METRALHA DA GUERRA COLONIAL (Jorge Araújo)