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quarta-feira, 18 de abril de 2018

P342 - GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE - ATAQUE A BOLAMA EM 03 DE NOVEMBRO DE 1969 (JORGE ARAÚJO)


MSG com data de 12ABR2018

Dando continuidade à partilha historiográfica de factos gravados durante a nossa presença militar no CTIG, eis mais uma narrativa elaborada a partir da consulta ao Relatório dos ataques realizados no último trimestre de 1969 contra alguns dos aquartelamentos das NT, situados nas regiões de Quinara e de Tombali, todos eles mencionados no "Plano de Operações na Frente Sul", e concretizados pelas forças do PAIGC.


O presente texto corresponde ao primeiro de dois fragmentos relativos ao ataque à cidade de Bolama, realizado em 3 de Novembro de 1969, com recurso à utilização de foguetes/foguetões 122 mm, vulgo peças "GRAD".

Com um forte abraço de amizade.

Jorge Araújo.


GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)

GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
“PLANO DE OPERAÇÕES NA FRENTE SUL” [OUT-DEZ’69] - ATAQUE A BOLAMA EM 3 DE NOVEMBRO DE 1969 -
(AO TEMPO DA CCAÇ 13 E CCAÇ 14)
(Parte I)
1.  - INTRODUÇÃO
Nove dias depois do ataque a Bedanda (25OUT’69 – o 2.º) e três semanas após terem realizado igual acção a Buba (12OUT’69 – o 1.º), as forças do PAIGC voltaram a concretizar nova flagelação prevista no seu “plano”, a terceira, desta vez à cidade de Bolama, a 3 de Novembro de 1969, 2.ª feira, com recurso exclusivo a duas peças “GRAD”, cada uma delas preparada para projectar dois foguetes 122 mm.
Recorda-se que este “plano de acções militares”, num total de nove ataques, havia sido delineado para ser cumprido durante o último trimestre desse ano nas regiões de Quinara e de Tombali, situadas na zona Sul da Guiné, com recurso a uma logística considerável de equipamentos de artilharia pesada (morteiros 82 e 120; foguetes 122 “GRAD” e peças anti-aéreas “DCK”) e a mobilização de um numeroso contingente de guerrilheiros, pertencentes ao “Corpo Especial do Exército”, comandado por “Nino” Vieira (1939-2009).
No caso particular da cidade de Bolama, o efectivo destacado para esta missão era constituído por cerca de cento e vinte elementos comandados por Umaro Djaló, uma força menor do que as anteriores, uma vez que no “calendário” estavam programados outros ataques para os dias imediatos, como eram os casos de Cacine e Cabedú, por esta ordem, conforme se indica no quadro abaixo.

Para a elaboração da presente narrativa, como para todas as outras que fazem parte deste dossier específico, já publicadas ou a publicar, continuaremos a utilizar o relatório “das operações militares na Frente Sul” [http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40082 (2018-1-20)], documento dactilografado em formato A/4, sem capa e sem referência ao seu autor [mas acreditamos ser possível identificá-lo no decurso desta pesquisa], localizado no Arquivo Amílcar Cabral, existente na Casa Comum – Fundação Mário Soares.
Para além deste facto histórico a que o comandante Umaro Djaló ficou ligado [primeiro ataque a Bolama com foguetes/foguetões 122 mm], outros actos ou acontecimentos haveriam, mais tarde, de constar no seu projecto de vida, como sejam:
No pós «25 de Abril de 1974», no contexto do processo negocial com os representantes do governo português, visando a independência da Guiné-Bissau, fez parte da delegação do PAIGC que se deslocou a Londres para participar nas sessões de trabalho de 25 e 26 de Maio de 1974. A delegação do PAIGC era constituída por Pedro Pires (chefe da missão), Umaro Djaló, José Araújo, Lúcio Soares, Júlio Semedo e Gil Fernandes.
Três meses depois, a 26 de Agosto de 1974, o acordo era finalmente assinado em Argel, ficando definido o dia 10 de Setembro como o do reconhecimento da República da Guiné-Bissau. Neste acto participaram, então, como representantes do PAIGC: Pedro Pires (1934-), Umaro Djaló (1940-2014), José Araújo (1933-1992), Otto Schacht (-1980/ass.), Lúcio Soares (1942-) e Luís Oliveira Sanca.
Depois da Independência, tomou parte do I Governo da República da Guiné-Bissau, constituído por João Bernardo “Nino” Vieira (1939-2009/ass.), Umaro Djaló (1940-2014), Constantino Teixeira, Carlos Correia (1933-), Paulo Correia (-1986/ass.), Vítor Saúde Maria (1939-1999/ass.), Filinto Vaz Martins (1937-), João da Costa e Fidelis Cabral d’Almada [da esqª/ditª na imagem abaixo]. Era então Presidente da República Luís Cabral (1931-2009). Aquando do “golpe militar” de Novembro de 1980, que levou “Nino” Vieira ao poder, Umaro Djaló era chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.


Citação: (1974), "Tomada de posse do I Governo da República da Guiné-Bissau", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43933 (2018-3)


A 29 de Maio de 2014, Umaro Djaló travou o último combate da sua vida, vindo a falecer no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de aí lhe terem sido prestados, durante alguns meses, os cuidados e a intervenção clínica especializada em função do seu “problema” de saúde.
2.  – DESTINATÁRIOS DO ATAQUE A BOLAMA EM 3NOV1969:
- A CCAÇ 13 (CCAÇ 2591), A CCAÇ 14 (CCAÇ 2592) E O C.I.M.
Certamente que a data escolhida para o ataque a Bolama [Ilha] não foi por acaso, pois é credível que a mesma tenha sido aprovada sobre informações recolhidas pela sua “secreta”, aliás procedimento habitual em qualquer contexto de guerra, e mais natural seria, em função do método utilizado na guerra de guerrilha que tem no conceito “surpresa” o seu princípio estratégico.
Sendo Bolama a cidade do C.I.M. (Centro de Intrução Militar) por excelência, onde muitas das unidades metropolitanas realizavam o seu I.A.O. (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional), visando a adaptação ao clima e às condições da guerra, como foi o caso da minha CART 3494 (Xime) e restante contingente do BART 3873 (1971-1974) – [Bambadinca (CCS), Mansambo (CART 3493) e Xitole (CART 3492)] –, um ataque bem sucedido seria visto como um “grande ronco” e, por consequência, poderia influenciar o comportamento prospectivo das NT.


Recordam-se, com vista aérea de Bolama e respectiva legenda, os espaços mais frequentados pelos militares durante a sua premanência na cidade. Imagem postada pelo ex-Alf Mil Rui G. Santos, Bedanda e Bolama da 4.ª CCAÇ (1963/1965) – in: http://riodosbonssinais.blogspot.pt/search/label/bolama ou “Bolama… no meu tempo – Guerra do Ultramar”, com a devida vénia.
Entretanto no C.I.M., em finais de Outubro de 1969, estavam em fase de conclusão de formação/instrução mais duas Companhias de Caçadores designadas por CCAÇ 13 e CCAÇ 14, saídas da união entre praças africanas do Recrutamento Local e oficiais, sargentos e praças especialistas oriundos da Metrópole. Os quadros metropolitanos destas novas Unidades Independentes, mobilizados pelo Regimento de Infantaria 16, de Portalegre, pretenciam à CCAÇ 2591, que deu origem à CCAÇ 13, e a CCAÇ 2592 à CCAÇ 14, respectivamente.
Sobre as emoções, sensações e experiências gravadas por todos aqueles que, ao fim daquela tarde de 2.ª feira, a primeira do mês de Novembro de 1969, assistiram à explosão dos foguetões de 122 mm, recupero os testemunhos dos camaradas ex-furriéis Carlos Fortunato (CCAÇ 13/CCAÇ 2591) e Eduardo Estrela (CCAÇ 14/CCAÇ 2592), ambos membros da nossa «Tabanca».
Carlos Fortunato refere que “no dia 3/11/1969 quando a [companhia da etnia balanta] CCAÇ 13 [CCAÇ 2591 - “Os Leões Negros”] estava no cais de Bolama, preparando-se para embarcar numa LDG [rumo a BISSORÃ], ouviu-se um longínquo ‘pof’ vindo da parte continental (zona de Tite). Um dos africanos disse ‘saída’ sorrindo, mas logo a seguir passaram sobre as nossas cabeças 3 [no relatório constam quatro] foguetões de 122 mm. Um acertou numa das pequenas vivendas que corriam ao lado da rua principal, que ligava o porto ao largo principal da cidade, apenas a uns escassos 30m do local onde
estávamos. Outro caiu no largo principal um pouco mais acima, e o terceiro mais longe, já fora da zona habitacional. Corremos de imediato para o local dos impactos para prestar assistência às eventuais vítimas, mas felizmente apenas houve ferimentos muito ligeiros entre a população”. […] “Os morteiros 107 mm existentes no quartel de Bolama responderam ao fogo”. […] [sítio: CCAÇ 13 – Os leões Negros: Memórias da Guerra na Guiné (1969/71)]. [P9337-LG].
Por outro lado, Eduardo Estrela, da CCAÇ 14 [companhia das etnias mandinga e manjaca] - [CCAÇ 2592], acrescenta que “partimos em 3 de Novembro
de 1969 para a zona operacional que nos tinha sido destinada, CUNTIMA, junto à linha de fronteira do Senegal. Ainda em Bolama (…) sofremos, à hora da saída da LDG, um ataque onde o PAIGC utilizou pela primeira vez foguetões terra-terra. Ninguém sabia que tipo de armamento o PAIGC utilizara e só em Bissau, no dia seguinte, nos foi comunicado o tipo de arma”. [P11365-LG].
Na linha desta investigação daremos conta, no ponto seguinte, do que consta no relatório elaborado a propósito deste ataque. 
3.  - O ATAQUE A BOLAMA EM 3NOV1969… COM FOGUETES 122 MM “GRAD” LANÇADOS DA PONTA BAMBAIÃ
Objectivos da acção:
O objectivo definido para esta acção concretizou-se no dia 3 de Novembro de 1969, ao fim da tarde, com o bombardeamento da cidade de Bolama, através da utilização de quatro [testemunhas referem três]  foguetes 122 mm lançados de duas peças “GRAD” colocadas na orla costeira da zona sudoeste da região de Quinara, mais precisamente na Ponta Bambaiã. Para esta missão foram mobilizadas forças de infantaria e artilharia, as primeiras só com funções de segurança e apoio ao desempenho das segundas.
Como elemento de comparação entre as logísticas dos ataques já divulgados, apresentamos o respectivo quadro.

Desenvolvimento da acção: (as forças do PAIGC)
As nossas forças estavam constituídas por 3 bi-grupos de infantaria e duas peças de GRAD sob a responsabilidade do camarada [cmdt] UMARO DJALÓ.
Saída de Botché Chance pelas 17 horas do dia 29 de Outubro [de 1969], 4.ª feira. A operação deveria realizar-se no dia 3 de Novembro, 2.ª feira, à caída da noite. Na noite de 29 para 30 de Outubro a coluna cruzou o rio em Botché Col, e na manhã do dia 30 atingiu as imediações de Gândua. Na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro, a coluna cruzou o rio Tombali em Iangue, e na manhã do dia 1 de Novembro chegou a Bolanha Longe. A coluna deveria cruzar o rio na noite de 1 de Novembro, mas por falta de canoas só o pode fazer na noite de 2 de Novembro, domingo, tendo atingido Paiunco na manhã de 3 de Novembro, 2.ª feira. Chegada da coluna à Ponta de Bambaiã às 16 horas do dia 3 de Novembro (ponto escolhido de antemão para posição de fogo).
Citação: (1963-1973), "Umaro Djaló e outros combatentes numa base do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43455 (2018-3)
Na impossibilidade da elaboração de uma infogravura referente ao itinerário percorrido pelas forças do PAIGC mobilizadas para este ataque, por dificuldade em identificar os locais referidos no relatório, o que lamento, optei por utilizar a imagem de satélite abaixo.

Final da Parte I.
Na Parte II desta narrativa, serão abordados os seguintes pontos:
1 – O trabalho técnico da artilharia na posição de fogo – uso do GRAD.
2 – Reacção das NT.
3 – Resultados.
4 – Quadro de baixas da CCAÇ 13 (de 14Nov1969 a 23Abr1973).
5 – Quadro de baixas da CCAÇ 14 (de 11Nov1970 a 4Abr1974).


Obrigado pela atenção.
Com forte abraço de amizade,
Jorge Araújo.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

P340 - (In Memoriam) Augusto Vieira Fidalgo 05FEV1950/04ABR2018. Soldado da CART 3494/BART 3873 – Guiné - Xime, Enxalé e Mansambo - DEC1971/ABR1974


Coube-me de vos dar a notícia do falecimento de mais um camarada que trilhou os caminhos da guerra na Guiné, desta vez foi o Fidalgo. São num total de 29 camaradas que deixaram a vida terrena. Soube da notícia da sua hospitalização pelo nosso camarada e amigo Lúcio (Vizela), no dia 03 de Abril, informando-me da gravidade da situação.

Hoje recebi telefonema de seu filho dando-me conta de que seu pai padecia de um temor no fígado com ramificações nos pulmões, doença que evitou ao máximo para que a sua família não se apercebesse, desencarnou no dia 04 de Abril e foi sepultado no dia 05, no cemitério da freguesia de Coimbrões – Vila Nova de Gaia.

Em meu nome pessoal e de toda a CART 3494, apresentei aos familiares, sentidas condolências e que sua alma descanse em Paz.
XXXII convívio emTondela, 11JUN2018 - Augusto Vieira Fidalgo e sua esposa

Quem era o Fidalgo? Lembro-me, (se a memória não me atraiçoa) que o Fidalgo para além de ser um soldado disciplinado, exerceu funções de professor das crianças no Enxalé, também foi o autor da publicação da “HISTÓRIA DA UNIDADE” BART3873 – (CCS, CART 3492, CART 3493 e CART 3494).
Participou praticamente em todos os convívios que a CART 3494 realizou. Foram até ao momento 32. Exercia como sua última actividade, industrial de táxis no Porto.

Algumas fotos:
07JUN2003 - Família Fidalgo no XVIII convívio em Vila Fria - Viana do Castelo

07JUN2003 - XVIII convívio em Viana do Castelo


quinta-feira, 5 de abril de 2018

P339 - "Do outro lado do combate" [ATAQUE A BEDANDA EM 25 DE OUTUBRO DE 1969 - PARTE II] “PLANO DE OPERAÇÕES NA FRENTE SUL” [OUT-DEZ’69] - (AO TEMPO DA CCAÇ 6, 1967/1974)

MSG com data de: 03ABR2018 de Jorge Araújo

 "Do outro lado do combate"

 [ATAQUE A BEDANDA - PARTE II e última da série]



Para concluir o enquadramento e análise ao ataque ao aquartelamento das NT em Bedanda, realizado em 25 de Outubro de 1969, anexo a segunda (e última) parte.

Recordo que este ataque corresponde ao terceiro de um "programa" de oito acções militares incluídas no "Plano de Operações na Frente Sul", elaborado pelos responsáveis do PAIGC para serem levados à prática durante o último trimestre de 1969 nas regiões de Quinara e de Tombali.

Com um forte abraço de amizade.

Jorge Araújo.

Bedanda (Agosto de 1972) – O obus 14 e os artilheiros do PArt. em acção perante um ataque do PAIGC (P13324-LG). Foto de Vasco Santos (2011), com a devida vénia.

 Poste anterior da série, ataque a Bedanda PARTE I



“PLANO DE OPERAÇÕES NA FRENTE SUL” [OUT-DEZ’69] - ATAQUE A BEDANDA EM 25 DE OUTUBRO DE 1969 -
(AO TEMPO DA CCAÇ 6, 1967/1974)


1.   - INTRODUÇÃO
Com a presente narrativa, a última de duas relacionadas com o ataque a Bedanda em 25 de Outubro de 1969, ocorrido treze dias após o primeiro, encerra-se a análise à segunda missão do “plano de acções militares” do PAIGC, de um “pacote” de nove – mais uma do que inicialmente pensado, uma vez que Buba seria contemplada com outra flagelação “extra” devido aos fracassos registados por “Nino” Vieira (1939-2009), e seus guerrilheiros, na primeira – todos eles previstos concretizar durante o último trimestre desse ano, nas regiões de Quinara e de Tombali, contra os diferentes aquartelamentos das NT, cujo calendário se recorda abaixo.
Para a elaboração deste trabalho de pesquisa global, apresentado em fragmentos, continuaremos a utilizar um documento base, que é o relatório “das operações militares na Frente Sul” [http://hdl.handle.net/11002/ fms_dc_40082 (2018-1-20)], localizado no Arquivo Amílcar Cabral, existente na Casa Comum – Fundação Mário Soares, adicionando-lhe, sempre, outras informações de diferentes fontes bibliográficas, como metodologia de caracterização e de aprofundamento histórico.



2.   – O AQUARTELAMENTO DE BEDANDA E AS SUAS UNIDADES
Como foi referido no primeiro fragmento do ataque a Bedanda [P338], os antecedentes históricos da CCAÇ 6 têm a sua origem na estrutura orgânica da 4.ª CCAÇ (Companhia de Caçadores Nativos [ou Indígenas], esta criada e instalada, primeiramente, em Bolama em finais de 1959. Quatro anos e meio depois, em Julho de 1964, mudou-se para Bedanda, por necessidades operacionais, como resposta ao pedido de intervenção dos africanos no esforço da guerra. Em 1 de Abril de 1967, decorridos três anos após a instalação dos seus primeiros efectivos em Bedanda, esta Unidade foi renomeada, passando a designa-ser por Companhia de Caçadores n.º 6 [CCAÇ 6 - “Onças Negras”].

Um ano depois, em 10 de Junho de 1968, como reconhecimento da importante acção desenvolvida nas múltiplas missões que lhe foram confiadas, a CCAÇ 6 viria a ser merecedora de uma condecoração atribuída pelo Governo Central ao seu Estandarte [Cruz de Guerra de 1.ª Classe], em cerimónia pública presidida pelo Chefe de Estado, Almirante Américo Thomaz (1894/1987), de homenagem às Forças Armadas Portuguesas, realizada no Terreiro do Paço, em Lisboa.
Recorda-se o texto que originou a condecoração tornado público na comunicação social [DL, em 11 de Junho de 1968, p11; e DN, em 12 de Junho de 1968].
 
Para além da CCAÇ 6, o Aquartelemanto de Bedanda dispunha também de um Pelotão de Canhões sem Recuo [PCS/R], de um Pelotão de Artilharia «obus 14 mm» [PArt] e de um Pelotão de Milícias [PMil n.º 143] da etnia fula.
Bedanda (1970) – O obus 14 e os artilheiros do PArt. (P7693-LG) – foto de Hugo Moura Ferreira (2006), com a devida vénia

3.   - O ATAQUE A BEDANDA EM 24OUT1969… QUE PASSOU PARA 25OUT1969 DEVIDO A SUCESSIVAS FALHAS NA SUA ORGANIZAÇÃO
Desenvolvimento da acção: (Conclusão)
No dia 24 de Outubro [de 1969], às 17h15, as forças do Corpo Especial de Exército deviam atacar as instalações militares do campo de Bedanda mas, devido ao número insuficiente de transportadores não puderam concentrar no local toda a quantidade de munições necessária e muito menos distribui-la a tempo para as 3 posições de fogo, razão principal porque tiveram que adiar a missão.
No dia seguinte, com a aprovação do Comandante do Corpo Especial de Exército (“Nino” Vieira), as forças de Artilharia prontificaram-se a realizar a operação e a iniciá-la à mesma hora indicada para o dia anterior [17h15]. Às 17h00 todas as peças estavam prontas para o tiro, quando descobriram uma avaria na comunicação. Devido a esse imprevisto só meia hora mais tarde iniciaram o fogo de enquadramento com uma peça de canhão 75, desde a posição de fogo do “GRAD”. O inimigo [NT] respondeu imediatamente, cortando a instalação em dois pontos. Só 15 minutos depois foi retomada a direcção de tiro e deram por terminado o enquadramento para as [peças] GRAD [foguetes/foguetões de 122 mm]. Imediatamente as peças de canhão abriram fogo, realizando tiro indirecto desde a distância de 2.000 metros. Do posto de observação, pareceu (a visibilidade, dada a hora já avançada da tarde, era deficiente) ser um tiro efectivo, cobrindo a zona indicada.



Bedanda (Agosto de 1972) – O obus 14 e os artilheiros do PArt. em acção perante um ataque do PAIGC (P13324-LG). Foto de Vasco Santos (2011), com a devida vénia.

Terminado o fogo dos canhões, as peças do “GRAD” fizeram o seu primeiro disparo que, do posto de observação, pelo clarão produzido, pareceu-nos ter atingido o objectivo. [Este disparo ficou na história da guerra por ter sido o primeiro foguete 122 mm a ser lançado por uma peça “GRAD” contra as NT]. Mais tarde, segundo os camaradas de infantaria situados a poucas centenas de metros do objectivo, esse disparo caiu dentro do objectivo. Deu-se a ordem de tiro de bataria e, salvo um foguete danificado, foram lançados os restantes [cinco], os quais se dispersaram pela periferia do objectivo.
Finalmente, os morteiros 82 iniciaram fogo, da mesma posição de fogo dos canhões, realizando fogo rápido, mas desordenado e sem muita afectividade, devido à impossibilidade de dirigir tiro naquela altura (tinha anoitecido já completamente) pois haviam roto [danificado] completamente as instalações telefónicas.



Citação: (1963-1973), "Combatentes do PAIGC deslocando uma peça de artilharia anticarro", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_ 43753 (2018-2-12) (com a devida vénia)

Conclusão
1.    O tiro de artilharia, no seu conjunto, não foi efectivo como esperávamos, especialmente devido à falta de direcção continua e ordenada do tiro e isso motivado pelas interrupções sistemáticas das instalações telefónicas.
2.    Dada a distribuição dos quarteis (com pequenas concentrações em 3 pontos), Bedanda não é um objectivo muito favorável à utilização das [peças] “GRAD”. Prova-o o facto do primeiro obus ter caído dentro do objectivo e os restantes terem-se dispersado sem atingi-lo.
3.    Com a experiência herdada de B1, concluímos que a direcção de fogo feita com a utilização de telefone não dá a mínima garantia. A introdução de rádios impõe-se como uma necessidade urgente para que a realização dessas operações tenham o mínimo de garantia e coordenação com os bi-grupos de infantaria.




4.    Não é recomendável a realização de tiro de enquadramento de noite. A observação e as respectivas correcções são vagas e imprecisas.
   5.  O transporte de munições até aos pontos desejados é algo que deve ser encarado   com toda a responsabilidade e garantido contra quaisquer atrasos ou imprevistos



Actuação da Infantaria
A infantaria deveria actuar imediatamente depois do bombardeamento artilheiro.
Contava com os seguintes efectivos assim distribuidos:
- 3 bi-grupos no quartel do meio, com 5 bazookas RPG-7 (4 granadas cada)
- 2 bi-grupos no quartel de cima (onde estão as lojas), com 2 RPG-7 (4 granadas cada)
A acção da infantaria, prevista para as 17h45 (a operação devia ter início às 17h15) só foi possível 3 horas mais tarde, devido à reacção do inimigo [NT], que abandonou os quarteis, refugiando-se no mato, contra o intenso, embora não muito efectivo, fogo da artilharia. Três horas depois, quando o inimigo [NT] regressava aos quarteis, foi completamente surpreendido com fogo de bazookas (21 RPG-7) e outras armas de infantaria. Sofreu grande número de baixas, que, segundo informações posteriores, ultrapassou os 30 [trinta].
A retirada foi sem problemas, pois o canhão inimigo [NT] e sua dotação foram destruídos pelo primeiro foguete do “GRAD”.






Correcção às informações obtidas posteriormente pelo PAIGC:
De acordo com a base de dados existente na Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra (sítio: http://apvg.pt), relativa ao número de militares – continentais e de recrutamento local – falecidos nos TO ultramarinos, verificou-se que durante o período em que a Companhia de Caçadores n.º 6 (CCAÇ 6) prestou serviço em Bedanda [de 01Abr1967 a 27Abr1974 = sete anos] o número total de baixas foi de 12 (doze), sendo 10 (dez) do Recrutamento Local e 2 (duas) do Contingente Metropolitano.
Das 10 (dez) baixas de naturais da Guiné, 5 (cinco) morreram em combate (50%), 3 (três) por acidente (30%), 1 (um) por doença (10%) e 1 (um) por afogamento (10%).
Para que conste, foi elaborado o competente quadro nominal.


Pelo acima exposto, conclui-se que as informações obtidas por parte do PAIGC, quanto ao número de mortos durante esta acção, carecem de fundamento (são absolutamente falsas), na medida em que este seu ataque não provocou qualquer baixa mortal.
Por outro lado, desde o início do conflito [1963] e até à alteração do nome para CCAÇ 6 [1967], a 4.ª CCAÇ contabilizou 15 (quinze) baixas, sendo 5 (cinco) do Contigente Metropolitano e 10 (dez) do Recrutamento Local.
Seguindo o mesmo procedimento anterior, apresenta-se o respectivo quadro nominal.




Continuaremos a desenvolver este tema com a apresentação dos principais factos ocorridos em cada um dos restantes ataques.
Com forte abraço de amizade,
Jorge Araújo.
03ABR2018.