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Memórias da ida para a Guerra da Guiné
integrado na
CART 3494/BART 3873
(Guiné, 1972–1974)
O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a
fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num
avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC‑6 em Lisboa com a
inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado,
como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no
fundo do peito.
Douglas DC6 dos Transportes Aéreos Militares (TAM) Créditos: Página dos Especialistas do AB4 e Luís Graça & Camaradas da Guiné
A viagem até Bissau durou nove horas, uma
travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar.
A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal,
em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o
tempo — como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho
definitivo na guerra.
Foi ali, naquele pedaço de terra árida e
luminosa, que escrevi e enviei à minha esposa o meu primeiro postal. As
palavras eram simples, mas carregavam tudo o que eu não sabia dizer em voz
alta: a saudade antecipada, a incerteza, a necessidade de manter um fio de
ligação ao mundo que estava a deixar para trás.
Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC‑6
avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável.
Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um
aviso silencioso: a partir daqui, és outro.
Levaram-me para o quartel dos adidos, em Brá,
passados um dia ou dois fui apresentar-me no Agrupamento de transmissões em
Santa Luzia.
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Bissau – 1972, 1º
sarg. Caldas em 1º plano, eu, de costas |
de um conterrâneo do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele, chefe do STM — “Serviço de Telecomunicações Militares” — no agrupamento TRMS do Quartel de Santa Luzia, abriu-me a porta como se eu fosse um filho que regressava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu‑me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a rotina possível — tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.
Fiquei um mês em Bissau, frequentei
estágio de radiotelegrafista. Era um tempo de adaptação, mas também de
disciplina. Passava horas a fio a praticar grafia, o velho morse que se
tornaria a minha segunda respiração. O som seco dos pontos e traços marcava o
ritmo dos dias, como se cada mensagem fosse um pequeno exercício de
sobrevivência.
Ali aprendi não apenas a transmitir — aprendi a ouvir.
A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma
mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos
de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha
colocasse homens em risco.
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Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias
Dakota no AM43 – Camaxilo – Crédito: CLUBE DE ESPECIALISTAS DO AB4
O destino final era o Xime. E o Xime não era
apenas um aquartelamento — era um teste diário à resistência de cada homem.
Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada,
aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar,
um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo — pesada, espessa, cheia
de sombras que pareciam mover-se sozinhas.
O posto de Transmissões, era num local sem
segurança, sempre que eramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo.
Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em
fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (racal). Eu
pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num
posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas
cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR‑28) e com o AVP‑1,
acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos
reconhecimentos.
Xime 1972 -
junto ao posto de TRMS com o meu amigo Ramos à esq., apontador de morteiro 81
mm, fal. em 22/11/2012 vítima de doença súbita
Para além de numerosos contactos com o inimigo no
terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes
flagelados com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente: AK 47 (Kalashnikov) canhão
s/recuo, morteiro 82 mm, RPG – 7, RPG – 2 e Foguetões.
1972 – À minha
esq. Op Cripto Cândido (Pinóquio) com armas apreendidas ao IN
A guerra molda-nos sem pedir licença. E, quando
chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás
uma parte de mim que nunca mais recuperaria.
Regressei por via aérea num Boeing 707, como
tinha chegado. Partimos do aeroporto Osvaldo Vieira, em Bissau, às 13 horas
locais, 15 horas na Metrópole, e aterrámos no aeroporto de Figo Maduro, em
Lisboa, por volta das 18h45. Nesse mesmo local, entregámos toda a farda militar
que nos havia sido distribuída.

Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa
Créditos: Página dos Especialistas do AB4 e Luís Graça & Camaradas da Guiné
Embora tivesse bilhete do Exército para a viagem
de comboio, aceitei, a convite de um furriel, fazer a viagem de táxi de Lisboa
até casa, juntamente com três furriéis: Domingues, Dias e Carvalhido da Ponte.
Tinha apenas 200$00, que um camarada me emprestara e que eu julgava suficientes
para pagar a minha parte da viagem. No entanto, fizemos uma paragem para
jantar, creio que em Rio Maior, e o dinheiro deixou de chegar. Mais tarde, em
Coimbra, parámos para tomar café, pago por um dos furriéis. A viagem prosseguiu,
sempre com a preocupação de como resolver a situação.
O Dias e o Domingues ficaram no Porto, e eu e o Carvalhido da Ponte continuámos até às nossas casas. Ao chegar, disse-lhe que iria pedir dinheiro aos meus pais para lhe pagar, ao que ele respondeu: “Depois encontramo-nos em Viana do Castelo e resolvemos isso.” Foi um grande alívio.
Acabámos por nos encontrar e saldar a dívida, bem
como devolver os 200$00 emprestados por Dionísio Dantas Fernandes, ajudante de
cozinheiro.
Mas o homem que regressou não era o mesmo que
partira. Tinham passado 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Ao chegar a casa
Naquela altura da minha chegada a casa, em
Barroselas, concelho de Viana do Castelo, no dia 4 de abril de 1974, antes de
bater à porta, olhei à minha volta e senti tudo muito estranho. Dei comigo a
pensar: ainda há pouco estava na Guiné… tinham passado apenas umas horas e
agora já estava em casa.
Bati à porta, mais ou menos pelas três da manhã,
ou coisa parecida. De dentro, ouvi a voz do meu pai:
— Quem é?
Respondi:
— Não é ninguém!
De imediato, ouvi a agitação dentro de casa, a
dizerem:
— É o Tono, é o Tono! (António)
E pronto: foram abraços, alegria, emoção… e eu,
sem jeito, sem saber o que dizer.
Logo pela manhã, fui dar uma volta pela zona.
Voltei a sentir-me estranho, com vergonha de entrar nos cafés, de enfrentar as
pessoas e de ter de responder a tantas perguntas que, para mim, não faziam
sentido. Custava-me dar respostas.
Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não
foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor,
na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.
E cada vez que nos juntamos — em cada convívio,
em cada abraço, em cada história repetida — é como se o rádio voltasse a ganhar
vida, e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.
Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens
que a viveram nunca se perdem uns dos outros.
António Castro,
ex. 1º cabo radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026





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