No portal Dos veteranos da guerra do Ultramar com a devida vénia.
Paz á sua alma!
CART 3494 - Sub-Sector do Xime, transferida em Março/73 para Mansambo. Faz parte do BART 3873, o qual renderia no Sector L1 o BART 2917. Composto pelas unidades da CCS - Sub-Sector de Bambadinca, CART 3492 - Sub-Sector do Xitole e CART 3493 - Sub-Sector de Mansambo, transferida em 01ABR73 para Cobumba, ficando operacionalmente subordinada ao COP 4. Unidade mobilizadora: Regimento de Artilharia Pesada 2 (RAP 2) Vila Nova de Gaia. Embarque 22DEC71 N/M "NIASSA", Regresso 03ABR74 (via aérea)
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(Guiné, 1972–1974)
A Mobilização
Após concluir a formação da especialidade de radiotelegrafista no Rtm (Porto),
Nota curiosa: Sabia que, tendo em conta a
minha classificação seria automaticamente promovido a 1º cabo, mas, não houve
cerimónia nem me deram as respetivas divisas, fui para a Guiné sem as mesmas,
muito embora o meu bilhete de identidade constasse como 1º cabo
radiotelegrafista, assim para não ter problemas com a Polícia Militar, em Bissau
comprei as divisas. Foi através da caderneta militar que fiquei a saber que a
data da minha promoção ocorreu no dia 07NOV1971. O mais caricato desta
situação, foi que no espolio pediram-me um par de divisas que não me tinham
sido entregues.
O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a
fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num
avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC‑6 em Lisboa com a
inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado,
como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no
fundo do peito.
A viagem até Bissau durou nove horas, uma
travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar.
A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal,
em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o
tempo — como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho
definitivo na guerra.
Foi naquele lugar seco e brilhante que escrevi e enviei o meu primeiro postal à minha esposa. Ela não sabia a data do meu embarque, porque eu preferi não lha dizer para não a preocupar.
«As despedidas
tinham sido feitas em 25 de dezembro de 1971, na estação de Barroselas, quando tive de me apresentar no quartel RAP-2, em Vila Nova de Gaia, depois dos dez dias de
licença antes do embarque.
Por indicação superior, voltei a casa para passar
o Natal com a família e regressar no dia seguinte. Depois de me apresentar no
quartel, alguns dias mais tarde, recebo ordem para me apresentar no Depósito
Geral de Adidos, em Lisboa, onde os militares recebiam a guia de marcha antes
de seguirem para o Ultramar.
Lá, passados uns dias entregaram-me a respetiva
guia para embarcar para a Guiné, no dia 26 de janeiro, por avião. No entanto,
quando já estávamos prontos para partir, tivemos de desembarcar por causa de
uma avaria mecânica, regressando ao DGA para voltar no dia seguinte.»
Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC‑6
avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável.
Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um
aviso silencioso: a partir daqui, és outro.
Levaram-me para o quartel dos adidos, em Brá,
passados um dia ou dois fui apresentar-me no Agrupamento de transmissões em
Santa Luzia.
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Bissau – 1972, 1º
sarg. Caldas em 1º plano, eu, de costas |
Fiquei um mês em Bissau, frequentei
estágio de radiotelegrafista. Era um tempo de adaptação, mas também de
disciplina. Passava horas a fio a praticar grafia, o velho morse que se
tornaria a minha segunda respiração. O som seco dos pontos e traços marcava o
ritmo dos dias, como se cada mensagem fosse um pequeno exercício de
sobrevivência.
Ali aprendi não apenas a transmitir — aprendi a ouvir.
A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma
mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos
de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha
colocasse homens em risco.
Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias
Dakota no AM43 – Camaxilo – Crédito: CLUBE DE ESPECIALISTAS DO AB4
O destino final era o Xime, onde a minha companhia CART 3494 estava aquartelado. E o Xime não era
apenas um aquartelamento — era um teste diário à resistência de cada homem.
Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada,
aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar,
um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo — pesada, espessa, cheia
de sombras que pareciam mover-se sozinhas.
O posto de Transmissões, era num local sem
segurança, sempre que eramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo.
Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em
fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (racal). Eu
pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num
posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas
cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR‑28) e com o AVP‑1,
acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos
reconhecimentos.
Xime 1972 -
junto ao posto de TRMS com o meu amigo Ramos à esq., apontador de morteiro 81
mm, fal. em 22/11/2012 vítima de doença súbita
Para além de numerosos contactos com o inimigo no
terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes
flagelados (17) com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente: AK 47 (Kalashnikov)
canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG – 7, RPG – 2 e Foguetões.
1972 – À minha
esq. Op Cripto Cândido (Pinóquio) com armas apreendidas ao IN
O Regresso
A guerra molda-nos sem pedir licença. E, quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.
Regressei por via aérea num Boeing 707, como
tinha chegado. Partimos do aeroporto Osvaldo Vieira, em Bissau, às 13 horas
locais, 15 horas na Metrópole, e aterrámos no aeroporto de Figo Maduro, em
Lisboa, por volta das 18h45. Nesse mesmo local, entregámos toda a farda militar
que nos havia sido distribuída.

Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa
Créditos: Página dos Especialistas do AB4 e Luís Graça & Camaradas da Guiné
Embora tivesse bilhete do Exército para a viagem
de comboio, aceitei, a convite de um furriel, fazer a viagem de táxi de Lisboa
até casa, juntamente com três furriéis: Domingues, Dias e Carvalhido da Ponte.
Tinha apenas 200$00, que um camarada me emprestara e que eu julgava suficientes
para pagar a minha parte da viagem. No entanto, fizemos uma paragem para
jantar, creio que em Rio Maior, e o dinheiro deixou de chegar. Mais tarde, em
Coimbra, parámos para tomar café, pago por um dos furriéis. A viagem prosseguiu,
sempre com a preocupação de como resolver a situação.
O Dias e o Domingues ficaram no Porto, e eu e o Carvalhido da Ponte continuámos até às nossas casas. Ao chegar, disse-lhe que iria pedir dinheiro aos meus pais para lhe pagar, ao que ele respondeu: “Depois encontramo-nos em Viana do Castelo e resolvemos isso.” Foi um grande alívio.
Acabámos por nos encontrar e saldar a dívida, bem
como devolver os 200$00 emprestados por Dionísio Dantas Fernandes, ajudante de
cozinheiro.
Mas o homem que regressou não era o mesmo que
partira. Tinham passado 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Naquela altura da minha chegada a casa, em
Barroselas, concelho de Viana do Castelo, no dia 4 de abril de 1974, antes de
bater à porta, olhei à minha volta e senti tudo muito estranho. Dei comigo a
pensar: ainda há pouco estava na Guiné… tinham passado apenas umas horas e
agora já estava em casa.
Bati à porta, mais ou menos pelas três da manhã,
ou coisa parecida. De dentro, ouvi a voz do meu pai:
— Quem é?
Respondi:
— Não é ninguém!
Imediatamente, me surpreendeu aquela efusividade
da minha esposa com o filho de 20 meses que não conhecia pessoalmente, dos meus
Pais e minha irmã, a dizerem:
— É o Tono, é o Tono! (António)
E pronto: foram abraços, alegria, emoção… E eu sem jeito nenhum, sem saber o que dizer.
Logo pela manhã, fui dar uma volta pela zona.
Voltei a sentir-me estranho, com vergonha de entrar nos cafés, de enfrentar as
pessoas e de ter de responder a tantas perguntas que, para mim, não faziam
sentido. Custava-me dar respostas.
Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não
foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor,
na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.
E cada vez que nos juntamos — em cada convívio,
em cada abraço, em cada história repetida — é como se o rádio voltasse a ganhar
vida, e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.
Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens
que a viveram nunca se perdem uns dos outros.
António Castro,
ex. 1º cabo radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026
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| Crédito: https://ultramar.terraweb.biz/ |
Camaradas e Amigos,
Passaram-se 52 anos desde que os nossos pés pisaram
de novo o solo da pátria, vindos da Guiné. Regressámos homens diferentes,
marcados pela distância e pela dureza, mas unidos por um laço que nem o tempo,
nem a distância, conseguiram apagar.
No próximo dia 6 de junho de 2026, voltamos a reunir
a nossa "família de armas". Sob o lema "NA GUERRA CONSTRUINDO
A PAZ", celebramos a nossa resiliência e a alegria de estarmos aqui,
mais de meio século depois, a partilhar a mesma mesa e as mesmas histórias.
📍 Roteiro do Encontro:
11:30 horas – Seguimos em
caravana auto até Pinhanços - Seia
6270-141 PINHANÇOS – concelho de Seia,
distrito da Guarda
Contacto: 238 481 004
Mais do que um almoço, este é um tributo à nossa juventude,
à nossa camaradagem e à paz que, juntos, ajudámos a construir e que hoje
desfrutamos.
Que este trigésimo nono encontro seja mais um marco na nossa
história. Porque mais do que uma companhia de artilharia, somos uma família que
o tempo não apaga.
Contamos convosco!
José Vicente
Sousa de Castro
"52
anos depois, a CART 3494 continua presente!"
Data: 6 de junho de 2026
Confirmações
até: 17 de maio de
2026 para os contactos: José do Espírito Santo Vicente n.º 913 070 993
António
Castro, 963 673 628 – E-mail: sousadecastro@gmail.com
O preço: 37,00€
MENU
- Pasteis de Bacalhau, Rissóis, Bola, Presunto, Paio e
Queijo.
- Porto, Martini e Favaios
- Sopa Regional
- Bacalhau assado com Batata a Murro ou Vitela Estufada
c/arroz, Batata Frita e Salada
- Buffet de Sobremesas
- Bolo comemorativo
- Águas Minerais e de Mesa, Refrigerantes, Espumante e
Vinho Branco e Tinto da Região - Café
Nota de Óbito – Abílio Pereira de Brito, faleceu em: 25 de dezembro 2025
Abílio Pereira de Brito, ex‑Furriel Miliciano da CART 3492 / BART 3873, serviu
Para além do seu empenho e dedicação na CART 3492, integrou também o Pelotão de Caçadores Nativos 54, em Missirá, onde continuou a demonstrar o mesmo espírito de missão e camaradagem.
Manteve sempre viva a ligação aos seus camaradas de armas, participando em vários convívios da CART 3494, nomeadamente no encontro realizado em Montemor‑o‑Velho, em junho de 2025, onde a fotografia registou a sua presença — sendo ele o primeiro a contar da esquerda.
Em nome de todo o coletivo do BART 3873, apresentamos o nosso voto de pesar aos seus familiares para que consigam superar esta terrível perda. Que a alma de quem partiu descanse em Paz.
Descansa em paz, camarada.
Informação prestada por: António Sousa Bonito, ex‑Furriel Miliciano de Infantaria, CART 3494
Caríssimo Camarada Sousa de Castro.
Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.
Que esta época festiva traga paz aos corações, saúde às famílias e força para continuarmos juntos, como sempre estivemos.
📅 Próximo convívio: Será realizado na zona de Oliveira do Hospital, no dia 6 de junho de 2026.
Para mais informações, contacta o camarada José do Espírito Santo Vicente pelo número 913 070 993
Um forte abraço a todos os irmãos de armas. Boas Festas e um
Ano Novo cheio de esperança e reencontros! 🎁✨
Sousa de
Castro
Terça-feira, 15 de julho de 2025
No passado dia 28 de junho de 2025, a Comissão dos Antigos Combatentes de Barroselas, Viana do Castelo, deu continuidade a uma tradição iniciada aquando da inauguração do monumento aos combatentes do Ultramar em: 30-06-2001. Como é já hábito, homenagearam os seus companheiros, tanto os que ainda estão entre nós como os que já partiram.
As celebrações tiveram início às 11:00 horas com o hasteamento da Bandeira Nacional no mastro junto ao monumento, seguido de uma missa na Capela de S. Sebastião da mesma localidade.
Após a missa, junto ao monumento, vários oradores partilharam palavras de homenagem e reflexão. Nomeadamente o antigo combatente Rogério Pereira, o Presidente da Junta de Freguesia, Rui Sousa, e a vereadora da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Fabíola Oliveira.
Seguidamente, no momento de profundo respeito, foi colocada uma coroa de flores na base do monumento, ao som do toque de silêncio executado pelo Agrupamento 85 dos Escuteiros de Barroselas.
É importante sublinhar que Barroselas sofreu uma perda significativa, com quatro jovens a tombar em Angola durante o conflito.
Para encerrar a cerimónia, foi servido um Porto de honra a todos os presentes, num ambiente de convívio e camaradagem.
Diversos núcleos de antigos combatentes fizeram-se representar, sublinhando a união e o espírito de corpo. Estiveram presentes, nomeadamente, o Núcleo dos Comandos de Viana do Castelo, o Núcleo do Minho da Força Aérea, e a CART 3494, representada por António Castro.
Fotografias: Arnaldo da Costa Pereira (com a devida vénia)
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