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domingo, 4 de novembro de 2018

P356 - AVIÕES “DORNIER - DO 27-A1” ABATIDOS POR MÍSSEIS SAM 7 “STRELLA” EM 6 DE ABRIL DE 1973 NA GUINÉ [Foram dois os aviões abatidos - “Do 27-A1, matrícula «FAP 3333» e Do 27-A1, matrícula «FAP 3470».]

- Mensagem com data de: 16OUT2018

GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)


- Caríssimo Camarada Sousa de Castro



Os meus melhores cumprimentos.



A presente narrativa surge do facto de ter tido acesso a fotos da colecção do médico holandês Roel Coutinho que, a exemplo de outros clínicos de várias nacionalidades, cooperou durante a Guerra Colonial com o PAIGC.



Porque se trata de testemunhos de grande significado histórico, alguns dos quais ainda desconhecidos, procedi à sua organização e, consequente, partilha.



Com um forte abraço de amizade.



Jorge Araújo. 




OS DOIS AVIÕES “DORNIER - DO 27-A1” ABATIDOS POR MÍSSEIS SAM 7 “STRELLA” EM 6 DE ABRIL DE 1973
NA FRENTE NORTE 
1.   - INTRODUÇÃO
No decorrer do XIII Encontro Nacional da Tabanca Grande, realizado no passado dia 5 de Maio, em Monte Real, tive a oportunidade de conversar com os nossos ilustres aviadores da FAP, e camaradas, Miguel Pessoa e António Martins de Matos a propósito dos acidentes da aviação militar durante a guerra na Guiné e, de entre estes, sobre os dois “Dornier - Do 27-A1”, com as matrículas «FAP 3333» e «FAP 3470», abatidos em 6 de Abril de 1973, na região Norte do território, pelo grupo de artilharia antiaérea do PAIGC, do Cmdt Manuel dos Santos “Manecas”, com recurso a mísseis Sam 7 “Strela”.
No aprofundamento desta temática apresentei-lhes um conjunto de imagens recolhidas na Net pertencentes à colecção de fotos do médico holandês Roel Coutinho que cooperou com o PAIGC, durante os anos de 1973 e 1974, tendo prestado apoio clínico aos guerrilheiros na Região Norte, tanto em bases no interior do território como no Hospital em Ziguinchor, no Senegal.
E as imagens apresentadas tinham a ver com aqueles dois Dornier abatidos. No final, concluímos que sobre estes dois casos não eram conhecidos registos fotográficos dos “acidentes” pelo que é credível estarmos perante “imagens únicas” gravadas pela câmera do clínico holandês.
De acordo com a decisão tomada pelo Doutor Roel Coutinho de autorizar o uso das suas imagens para qualquer finalidade, desde que a sua autoria seja devidamente atribuída, conforme consta na caixa abaixo, decidi partilhá-las convosco como provas históricas, e “memórias”, gravadas durante a nossa presença no CTIGuiné.
Foto 1 – O médico holandês Doutor Roel Coutinho junto a ambulância da enfermaria de Ziguinchor, Senegal. [Foto da série PAIGC Military, Guinea-Bissau, Coutinho Collection 1973-1974. Fonte: Wikimedia Commons, com a devida vénia].
2.   - OS AVIÕES “DORNIER DO 27-A1” ABATIDOS EM 6 DE ABRIL DE 73
Foram dois os aviões abatidos no dia 6 de Abril de 1973 - “Do 27-A1, matrícula «FAP 3333» e Do 27-A1, matrícula «FAP 3470».
Segundo informações recolhidas no blogue: https://acidentesaviacaomilitar.blogspot.com /2016/11/dornier-do-27.html, o “Do 3333” cai em Guidaje, tendo falecido o piloto furriel Fernando António Carvalho Ferreira e mais três ocupantes [vidé caixa abaixo].
De acordo com o referido por Nuno Mira Vaz, Coronel de Cavalaria na reserva, no seu livro “Guiné -1968 e 1973 – Soldados uma vez, sempre soldados!“, Tribuna da História-Edição de Livros e Revistas (2003), p.60, “Este avião nunca mais foi visto”.
Será que a imagem abaixo é a do “Do 27-A1 3333” [submerso] desaparecido e que foi captada pela câmera do doutor Roel Coutinho? É possível.
Foto do “Do 27-A1 3430”, em pleno voo (em Angola) … como exemplo.
O Dornier Do 27 é um avião monomotor, asa alta, trem de aterragem convencional fixo com a capacidade de transportar seis passageiros ou o equivalente em carga.
1.   - ADENDAS À NARRATIVA
Na sequência da divulgação desta narrativa no blogue da «Tabanca Grande» – P18702 [blogueforanadaevaotres.blogspot.com], os camaradas da Força Aérea que cumpriram a sua missão no CTIG, na BA 12, acrescentaram no seu blogue o seguinte:
- Voo 3516 O QUE MUITOS DE NÓS DESCONHECÍAMOS… -
Companheiros,
[…]
A [Esta] notícia é para muitos de nós uma verdadeira surpresa, não só nas fotos, mas recordo que sempre pairou entre nós a incógnita sobre o acidente do Fur. Pil. Ferreira, desde o ser abatido a se ter “passado” para o lado de lá, tudo se disse”.
Últimas notas
Cruzados os elementos recolhidos na literatura com a sequência das fotos acima é possível acrescentar:
1.    - A “DO 3333” abatida em Guidaje, que na foto do médico Roel Coutinho aparece submersa, é muito provável que tenha caído na linha de fronteira, num plano de água de um afluente do rio Casamansa, no Senegal (vidé mapa abaixo).
2.    - A “DO 3470” abatida em Talicó, essa não deixa dúvidas... A sua queda foi em território da Guiné, entre Bigene e Guidaje (mapa de Binta).
3.    - Por outro lado, se a sequência das fotos do médico Roel Coutinho corresponderem à ordem dos locais por onde passou ou esteve acampado, entre 1973 e 1974, então as primeiras imagens dos DO foram as do “3470”, seguindo-se a outra que está submersa, a do “3333”. É que a chegada à Guiné do doutor Coutinho aconteceu dois/três meses antes e a primeira referência que faz aos locais por onde andou foi Campada (base situada entre S. Domingos e Ingoré).
Obrigado pela atenção.
Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
16OUT2018.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

P355 - BALANÇO DOS COMBATES ENTRE AS NT E O PAIGC NO SECTOR DE FARIM BAIXAS E ESTUDO SOCIODEMOGRÁFICO DO BIGRUPO DO CMDT ANSÚ BODJAN (1944-1971) DO CORPO DE EXÉRCITO 199-B-70 [PARTE III]


 MSG com data de: 30SET201


GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)



Para concluir a análise aos factos e resultados dos combates entre as NT e os guerrilheiros do PAIGC, na região de Farim, durante o último trimestre de 1971, anexo a terceira e última parte.
Recordo que os episódios referidos envolveram às actividades operacionais da CCAÇ 2533 e CCAÇ 14, por parte das NT e o C.E. 199-B-70, do lado do PAIGC, de que resultou a morte de Ansú Bodjan, Cmdt daquele bigrupo.


Com um forte abraço de amizade.


Jorge Araújo.   


Vd. Postes ref. a esta série: DO OUTRO LADO DO COMBATE - BIGRUPO DE ANSÚ BODJAN [Parte II]

O OUTRO LADO DO COMBATE - A MORTE DO CMDT DO BIGRUPO ANSÚ BODJAN (1944-1971) Parte I


BALANÇO DOS COMBATES ENTRE AS NT E O PAIGC NO SECTOR DE FARIM

BAIXAS E ESTUDO SOCIODEMOGRÁFICO DO BIGRUPO DO CMDT ANSÚ BODJAN (1944-1971) DO CORPO DE EXÉRCITO 199-B-70


(Parte III)

1.   - INTRODUÇÃO

Com o presente texto, o último de três fragmentos, concluímos o balanço síntese aos combates entre as NT e o PAIGC no Sector de Farim, tendo por protagonistas, de um lado, a Companhia de Caçadores 2533 [CCAÇ 2533] e a Companhia de Caçadores 14 [CCAÇ 14] e, do outro, o bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (1944-1971), um dos quatro bigrupos de infantaria do Corpo de Exército 199-B-70, este liderado pelos Cmdt’s Braima Bangura, Joaquim N’Top e Benjamim Mendes.

Para além das duas unidades anteriormente referidas, houve necessidade de identificar, mais algumas, em particular aquelas que estiveram envolvidas nas missões operacionais das NT de contra-penetração dos diferentes bigrupos do Corpo de Exército 199-B-70 do PAIGC, em trânsito das bases existentes na zona de fronteira com a República do Senegal, na Frente Norte, nomeadamente ao longo dos “corredores” de Lamel e Sitató, e que, numa relação causa/efeito, ficaram ligadas, historicamente, às ocorrências relacionadas com as baixas constantes no relatório do Cmdt Braima Bangura, documento que está na origem deste trabalho de investigação [vidé P353 e P354].

Para finalizar esta introdução, recorda-se que é a partir da segunda metade do ano de 1970 que o PAIGC evolui para um novo modelo de organização militar, adaptando as suas estruturas a uma nova visão da sua luta armada. Partindo do conceito “bigrupo" e da união com mais unidades deste tipo, de infantaria e artilharia, são criados os “Corpos de Exército” identificados com o “n.º 199”, ao qual lhe foi adicionada, como sequência, uma letra do alfabeto latino (A, B, C, D) e o ano da sua criação.

2.   - MISSÕES, BAIXAS E UNIDADES ENVOLVIDAS (NOVAS)


Os episódios já referidos nas narrativas anteriores visaram contextualizar a questão de partida da investigação, tendo por base, no início, as missões levadas à prática por duas Companhias de Caçadores – a CCAÇ 2533 e a CCAÇ 14 – em particular nas situações de combate com os elementos do PAIGC que actuavam no Sector de Farim, no caso particular o bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan. As primeiras ocorrências (emboscadas) tiveram por cenário o território situado no itinerário entre Farim e Jumbembem, o primeiro caso envolvendo a CCAÇ 2533 (14Dez1970) e o segundo caso a CCAÇ 14 (30Dez1970).
No mapa acima [Frente Norte], indicam-se os aquartelamentos das NT alvo dos vários ataques, umas vezes de infantaria, outras com recurso a artilharia pesada com “GRAD”, e outros ainda à participação das duas armas, envolvendo a participação do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan, durante um ano: de Dez’70 a Dez’71. Na esmagadora maioria dos casos, os ataques iniciavam-se depois das 18h30. 
Citação: (1971), "Comunicado - Cumbangor [Frente Norte]", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40606 (2018-5-03) [prova do envolvimento do Cmdt Ansú Bodjan nos ataques aos aquartelamentos supra], com a devida vénia.
Quanto a baixas do lado do PAIGC, nos fragmentos anteriores já demos conta de nomes e respectivas datas em que tombaram alguns dos guerrilheiros. Para não nos alongarmos muito, apenas iremos fazer referência a mais dois casos.
● 1.º - O de Lamine Suana.
Este elemento do Corpo de Exército 199-B-70 tombou no dia 7 de Abril de 1971, 4.ª feira, na sequência dos ataques a Guidage e Bigene, ao tempo da CCAÇ 19 e CCAV 2721, respectivamente.
● 2.º - O de Ansú Bodjan, Cmdt do bigrupo do CE 199-B-70
O Cmdt do bigrupo do Corpo de Exército 199-B-70 tombou no dia 14 de Novembro de 1971, domingo, na sequência da «Operação Dura Espera», projectada pelo BART 3844 (1971/1973) sediado em Farim. Foi levada a efeito no “corredor de Sitató” durante três dias – de 14 a 16 de Novembro de 1971 – nela tendo participado forças das seguintes Unidades: CCAÇ 2753, CART 3358, CART 3359, CCAÇ 14, CCAÇ 2681, 27.ª CCmds, C Mil Cuntima, CART 2732 e CCAÇ 3476 [HU; CAP II, p3, da CCAÇ 3476].


[Primeira ambulância do PAIGC do hospital de Ziguinchor (Senegal), com motorista].
Fonte:commons.wikimedia.org/wiki/File:ASC 
[As fotos acima são da colecção de Roel Coutinho, médico holandês que esteve em missão de apoio clínico ao PAIGC, entre 1973/1974, com a devida vénia].

3.   - ANSÚ BODJAN, CMDT DE BIGRUPO DO CORPO DE EXÉRCITO
Aproveitando o acesso e posterior consulta a mais uma lista [mapa] elaborada pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra, esta relacionada com a composição do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan, elaborada em finais de 1970, avançámos para a realização de mais um estudo sociodemográfico, o primeiro a um bigrupo considerado de «grupo especial» ou de «elite» no contexto da estrutura militar do PAIGC. Trata-se de um colectivo criado a partir de guerrilheiros já experientes no contexto da guerra, com provas dadas e com um mínimo de quatro anos de combatente [igual a duas comissões das NT].
Quanto ao Cmdt Ansú Bodjan (1944-1971), este nasceu no Morés, região do Oio, em 1944. Era casado. Só durante o segundo ano do conflito armado é que “aderiu” à guerrilha. Tinha, então, vinte anos e a 2.ª classe, como habilitação escolar. Morreu aos vinte e sete anos no “corredor de Sitató”.
No seu bigrupo, três em cada quatro elementos (n-23=76.7%) eram naturais da sua região (Oio), 10% (n-3) da região do Cacheu e 13.3% (n-4) de Tombali, a região mais a Sul, conforme dá-se conta no quadro 1.
Quadro 1 – Distribuição de frequências dos locais de nascimento, por sectores e regiões da Guiné, dos elementos do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (n-30)
4.   - RESULTADOS DO ESTUDO
Partindo dos dados contidos na lista apresentada na “Parte II”, que consideramos como os casos da investigação ou a “amostra de conveniência”, procura-se compreender melhor quem estava do outro lado do combate. Com este propósito, procedemos à organização de alguns desses dados referentes a cada um dos sujeitos constituintes do “bigrupo de Ansú Bodjan” sobre os quais se pretende retirar conclusões.
Para o efeito, esses dados foram agrupados quantitativamente e apresentados em quadros estatísticos de frequências (caracterização da amostra por idade: a de nascimento e a de “adesão” ao Partido) e de quadros de variáveis categóricas em relação aos restantes elementos (ano de “adesão” ao PAIGC, idade e anos de experiência cumulativas ao longo do conflito e estado civil).
Quadro 2 – distribuição de frequências em relação ao ano de nascimento dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)
Da análise ao quadro 2, verifica-se que os anos de nascimento com maior percentagem são dois; 1941 e 1943 (13.8%) com 4 casos, seguido de 1942, 1944, 1945 e 1946 (10.4%) com 3 casos. Em terceiro, com 2 casos (6.9%), 1935 e 1940.
Quando analisado por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-14) estão nos nascidos entre 1943 e 1947 (48.3%) (grupo central), entre 1935 e 1942 (n-12= 41.4%) (grupo dos mais velhos), e entre 1949 e 1951 (n-3=10.3%) (grupo dos mais novos).
Quadro 3 – distribuição de frequências em relação ao ano de “adesão” ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)
Da análise ao quadro 3, verifica-se que o ano onde se registou maior “adesão” ao PAIGC foi 1963 com 17 casos (58.6%), seguido de 1964, com 7 casos (um dos quais Ansú Bodjan) (24.2%). Os anos de 1964 e 1965 registaram 2 casos cada (6.9%).
Quando analisados os anos antes e após o início do conflito, a percentagem está próxima da totalidade em relação à segunda premissa (n-28=96.6%), ou seja, existe um só caso onde a “adesão” aconteceu antes.
Quadro 4 – distribuição de frequências em relação à idade de “adesão” ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)
Da análise ao quadro 4, verifica-se que a idade com maior percentagem de “adesão” ao Partido é 18 anos, com 5 casos (17.3%), seguida dos 20 e 21 anos, com 4 casos cada (13.8%). As idades de 14 e 19, com 3 casos, valem 10.4% cada.
Quando analisada a “adesão” ao Partido por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-16) estão entre as idades de 18 e 21 anos (55.2%), seguido pelos grupos de idade, entre os 22 e 28 anos (mais velhos), com 8 casos (27.6%). Os mais novos, entre 14 e 16 anos, representam 17.2% (n-5).
Analisada a “adesão” ao Partido entre os 18 e 23 anos, os valores apontam para uma maioria absoluta com 19 casos (65.6%), seguida por 5 casos (17.25) cada nas idades inferiores e superiores às anteriores.
Quadro 5 – distribuição de frequências em relação à idade verificada ao longo do conflito, contados após a “adesão” individual ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)
Da análise ao quadro 5, verifica-se que aquando da constituição do Corpo de Exército 199-B-70, a idade mais alta era de 35 anos (n-2) e a mais baixa de 19 anos (n-1). O Cmdt Ansú Bodjan tinha 26 anos, vindo a falecer com 27 anos. À morte do seu líder os restantes elementos teriam a idade assinalada com sombreado azul.
Quadro 6 – distribuição de frequências em relação ao número de anos de experiência na guerrilha ao longo do conflito, contados após a “adesão” ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)
Da análise ao quadro 6, verifica-se que aquando da constituição do Corpo de Exército 199-B-70, a maioria dos combatentes do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (n-24=82.8%) tinham entre 6 e 7 anos de experiência, enquanto os mais novos de idade (n-4=13.8%) tinham já entre 4 e 5 anos de experiência.
Quadro 7 – distribuição de frequências em relação ao “estado civil” de cada bigrupo
Da análise ao quadro 7, verifica-se que o número entre “casados” e “solteiros” do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan é favorável aos segundos com mais um caso. Do grupo dos “sorteiros” nascidos após 1946 (n-7=46.7%), mantiveram esse estado civil, pelo menos até final de 1971.
1.   – CONCLUSÕES
Chegado a este ponto, e partindo da análise aos resultados apurados e apresentados nos quadros acima, é possível concluir que a maioria dos elementos do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan:
1 – Eram originários da sua região (Oio).
2 – Nasceram em 1941 e 1943.
3 – A participação na luta armada iniciou-se em 1963.
4 – Tinham 18 anos.
5 – Aquando da constituição do CE, a idade mais alta era de 35 e a mais baixa de 19 anos.
6 – Aquando da constituição do CE, o número de anos de experiência na guerrilha variava entre os 7 e os 4 anos.
7 – Quanto ao estado civil, a diferença entre “casados” e “solteiros” era apenas de uma unidade favorável aos segundos.
Termino, agradecendo a atenção dispensada.
Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
30SET2018.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

P354 - DO OUTRO LADO DO COMBATE - BIGRUPO DE ANSÚ BODJAN [Parte II] - BALANÇO DOS COMBATES ENTRE AS NT E O PAIGC NO SECTOR DE FARIM DESERÇÕES E BAIXAS NO “CORPO DE EXÉRCITO” 199-B-70 - A MORTE DO CMDT DE BIGRUPO ANSÚ BODJAN (1944-1971) -

MSG de: 
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)

com data de 12SET2018



Caríssimo Camarada Sousa de Castro,

Os meus melhores cumprimentos.

Conforme referido no fragmento anterior, juntamos a PARTE II, de um total de três, onde continuamos a abordar os factos e os resultados dos combates entre as NT e os guerrilheiros do PAIGC, na região de Farim. 
Relevamos algumas consequências desses episódios que fazem parte da historiografia da Guerra no CTIG.

Com um forte abraço de amizade,

Jorge Araújo.


- A MORTE DO CMDT DE BIGRUPO ANSÚ BODJAN (1944-1971) -
1.   - INTRODUÇÃO
Neste segundo fragmento, de um conjunto de três, continuamos a percorrer alguns dos trilhos que ficaram na história do conflito armado no CTIG [1963/1974], tendo por protagonistas elementos dos dois lados do combate, dos individuais aos colectivos.
Como já referido anteriormente, as narrativas que tenho vindo a partilhar nos diferentes blogues são corolário de um interesse pessoal na pesquisa histórica sobre um período da minha vida (das nossas vidas, enquanto ex-combatentes) e que, naturalmente, nos marcou a todos… mais ou menos, e do qual temos, ainda, muitas “memórias”.
No caso presente, a temática mantém-se a mesma da primeira parte – P353 – onde foram adicionadas outras informações avulsas obtidas de cada um dos lados do combate, que insistimos em coleccionar, no sentido de ampliar ou ajudar a reconstituir essa história com mais dados.
O “balanço dos combates entre as NT e o PAIGC” continua, pois, a ser o tema central deste fragmento, com destaque para as ocorrências negativas contabilizadas pelo Corpo de Exército 199-B-70 – deserções e baixas – registadas no relatório elaborado pelo seu principal responsável, o Cmdt Braima Bangura, respeitante ao período de um ano (dez’70 a dez’71), o primeiro desde a sua criação.
De referir que é nesse ano de 1970 que o PAIGC evolui para um novo modelo de organização militar, adaptando as suas estruturas a uma nova visão da sua luta armada. Partindo do conceito “bigrupo" e da união com mais unidades deste tipo, de infantaria e de artilharia, são criados os “Corpos de Exército” identificados com o “n.º 199”, ao qual lhe foi adicionada uma letra do alfabeto latino (A, B, C, D) e o ano da sua criação, conforme se indica no ponto seguinte, e se observa na foto abaixo tirada aquando do juramento de bandeira do Corpo de Exército 199-A-70.
Citação: (1965-1973), "Juramento de bandeira dos militares do Corpo do Exército 199 A-70 do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms _dc_44137 (2018-4-20), (com a devida vénia).

2.   - CONTEXTOS E UNIDADES ENVOLVIDAS
Recorda-se que os episódios referidos na narrativa anterior foram utilizados para contextualizar a questão de partida da investigação, tendo por base as actividades operacionais desenvolvidas pela Companhia de Caçadores 2533 [CCAÇ 2533] e pela Companhia de Caçadores 14 [CCAÇ 14], em particular nas situações de combate com os elementos do PAIGC que actuavam no Sector de Farim, nomeadamente o bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan, um dos quatro bigrupos de infantaria do Corpo de Exército 199-B-70, este liderado pelos Cmdt’s Braima Bangura, Joaquim N’Top e Benjamim Mendes




Os três restantes bigrupos eram dirigidos pelo Cmdt Cambanó Mané, nascido em 1940 em Ioncoiá; pelo Cmdt N’Benfaé N’Tudo, nascido em 1939 em Patché, e pelo Cmdt Sambú Mandján, nascido em 1940 em Sulcó. Para além da infantaria, este Corpo de Exército dispunha, ainda, de uma bataria de artilharia, com morteiros e canhões sem recuo, o primeiro do Cmdt Quintino N’Dafá, nascido em 1935 em João Landim, e o segundo do Cmdt Armando Bodjan, nascido em 1943 em Mansoa.
Para além de outras ocorrências registadas neste sector, os diversos “Corpos de Exército”, criados em 1970 por Amílcar Cabral (1924-1973), estiveram envolvidos, dois anos depois, na estratégia de isolamento de Guidaje iniciada em Abril de 1973, culminado com a “Batalha de Kumbamory”, que ficará gravada para sempre na História da Guiné como «Operação Ametista Real», realizada em 19 de Maio de 1973, onde as NT contabilizaram uma das maiores capturas e destruições de material da Guerra de África.
Croqui do plano de operações da «Operação Ametista Real», planeada e executada sob o comando do Ten Cor Almeida Bruno, para pôr fim ao cerco de Guidaje. Foi uma das mais curtas, sangrentas e brutais batalhas travadas durante a guerra da Guiné. Acabou por aliviar a pressão sobre Guidaje. Tratou-se de uma operação em solo senegalês, tendo como objectivo a destruição da base de Kumbamory, o que foi conseguido na manhã de 20 de Maio de 1973 [faz 45 anos]. O número de baixas foi elevado para ambos os lados: 67 mortos, do lado do PAIGC (que sofreu, além disso, a destruição de 22 depósitos de material de guerra), 25 mortos, do lado das NT (incluindo 2 alferes), e 25 feridos graves (incluindo 3 oficiais e 7 sargentos)”. In P2786-LG (com a devida vénia). [Mais detalhes sobre a Op Ametista Real em P1316-LG, P9898-LG e P9939-LG]. 
No contexto desta narrativa, dá-se conta da constituição das forças do PIAGC envolvidas na «Operação Ametista Real»:
Corpo de Exército 199-B-70, com quatro bigrupos de infantaria e uma bataria de artilharia; Corpo de Exército 199-C-70, com cinco bigrupos de infantaria e uma bataria de artilharia, grupo de foguetes da Frente Norte [GRAD], com quatro rampas; Corpo de Exército 199-A-70, com três bigrupos de infantaria, um grupo de reconhecimento e uma bataria de artilharia, deslocados de Sare Lali, na zona Leste; um pelotão de morteiros 120 mm e um grupo especial de sapadores.
Indicam-se, de seguida, os principais operacionais responsáveis pela estrutura político-militar acima referida:   
Citação: (1970), "Acção Política FARP - Honório Fonseca", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40452 (2018-4-20), (com a devida vénia).

A propósito da formação dos “Corpos de Exército”, enquanto novo modelo de organização da guerrilha do PAIGC, em 13 de Janeiro de 1971 Amílcar Cabral (1924-1973) envia uma carta a Osvaldo Vieira (1938-1974), na qualidade de Cmdt da Frente Norte, dando conta da sua satisfação por essa decisão, nos seguintes termos:
Caro camarada [Osvaldo Vieira],
Acuso a recepção da tua carta-relatório e dos mapas relativos aos CE [Corpos de Exército] e à distribuição de tecidos aos combatentes.
1. - Corpos de Exército - foi uma boa coisa termos formado os CE como previsto. O atraso é normal dadas as dificuldades que nós todos conhecemos, mas eu penso que a reorganização foi feita a tempo. Tanto mais que o camarada “Nino” esteve doente e tiveste tu que te dedicares a mais esse trabalho.
O que é preciso agora é fazer tudo para tirar o máximo rendimento dos CE, da sua grande força. Dar mais duro nos grandes centros e quartéis dos tugas e liquidar os campos mais fracos e isolados. O ataque a Empada foi bom, e eu penso que pudemos fazer mais: pôr os tugas fora e destruir todas as instalações. Claro que devemos evitar, como sempre, grandes perdas.
Escrevi ao “Nino” uma longa carta sobre a nossa acção e no próximo correio te enviarei uma cópia. Os CE devem agir duro e ter grande mobilidade, muita iniciativa e não parar muito numa área. […]
Citação: (1971), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/ 11002/fms_dc_34521 (2018-4-20), (com a devida vénia).
3.   - AS DESERÇÕES NO CORPO DE EXÉRCITO 199-B-70
O fenómeno das deserções em contexto de guerra é considerado normal, ainda que pontual e de percentagem reduzida. O caso da Guerra Colonial não foi, com efeito, excepção. Por isso não é de estranhar a existência de exemplos em cada um dos lados do combate.
Na situação presente, chamou-me a atenção o facto do relatório elaborado pelo Cmdt Braima Bangura, divulgado no primeiro fragmento desta narrativa, fazer referência à deserção de cinco elementos deste Corpo de Exército, mas omitindo os seus nomes.
Citação: (1971), "Relatório da acção do CE [Corpo de Exército] 199-B70, desde a sua formação, em Dezembro de 1970, até ao final do ano de 1971.", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40099 (2018-4-20), com a devida vénia.
Idêntica referência tinha já sido objecto de denúncia no relatório elaborado por Osvaldo Vieira, a propósito da sua “missão de inspecção à actividade das Forças Armadas no Norte”.
Citação: (1971), "Relatório de missão de inspecção à actividade das Forças Armadas no Norte", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_ 40059 (2018-4-20) (com a devida vénia).
Entretanto, uma outra situação de “deserção” ocorrera com o grupo “GRAD”, do Cmdt Manuel dos Santos “Manecas”, fazendo fé no conteúdo da carta enviada por Aristides Pereira (1923-2011) a “Nino” Vieira (1939-2009), em 19.12.1970, solicitando a “lista dos camaradas que estavam com o camarada Manecas e fugiram para o sul”.
Citação: (1966-1974), "Relatório remetido por Nino Vieira a Amílcar Cabral expondo a situação na fronteira com a República da Guiné, designadamente os ataques entre Kebo e Guileje", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms _dc_40775 (2018-4-20), p.55, (com a devida vénia).
4.   - O BIGRUPO DO CMDT ANSÚ BODJAN (1944-1971)
Em busca de uma eventual identificação dos “desertores”, a hipótese formulada partiu da variável “local de nascimento” (naturalidade), uma vez que em todos os documentos se refere que as “fugas” seguiram direcções concretas, ou para o Norte ou para o Sul.
Nesse sentido, seleccionámos duas amostras (bigrupos): a do Cmdt Ansú Bodjan, por ser aquele que serviu de base à elaboração desta narrativa, cuja lista se apresenta abaixo; e a do Cmdt Cambanó Mané, outro bigrupo do Corpo de Exército 199-B-70, para efeito de comparação estatística e complemento sociodemográfico.
Citação: (s.d.), "FARP - Corpo de Exército 199/B/70", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40487 (2018-4-20), (com a devida vénia).
Quadro 1 – Distribuição de frequências dos locais de nascimento, por sectores e regiões da Guiné, dos elementos do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (n-30)
Da análise ao quadro 1, verifica-se que em 30% dos casos (n-9) não foi possível identificar o sector da naturalidade dos indivíduos, situação impeditiva de tirar conclusões. Ainda assim, podemos referir que 56.7% (n-17) nasceram na região do Oio, situada mais a Norte; com 10% (n-3) na região do Cacheu e 3.3% na região de Tombali, um caso, sendo este o mais a Sul.
Quadro 2 – Distribuição de frequências dos locais de nascimento, por sectores e regiões da Guiné, dos elementos do bigrupo do Cmdt Cambanó Mané (n-27)
Da análise ao quadro 2, verifica-se a mesma situação do observado no quadro anterior, em que 25.9% dos casos (n-7) não foi possível identificar o sector da naturalidade dos indivíduos. Ainda assim, os resultados são diferentes do quadro 1, em que 25.9% dos sujeitos (n-7) têm origem na região de Tombali, situada mais a Sul do território. A região do Oio, com 22.3% (n-6) surge em segundo lugar como origem de naturalidade. As regiões de Bissau (n-1), Bafatá (n-2), Bolama (n-1), Cacheu (n-2) e Quinara (n-1), não têm expressão estatística.
Perante estes resultados, não nos é possível tirar grandes conclusões.
5.   - AS BAIXAS NO CORPO DE EXÉRCITO 199-B-70 (1970/71)
Segundo o relatório elaborado em 24 de Dezembro de 1971 pelo Cmdt Braima Bangura, um dos responsáveis militares do Corpo de Exército 199-B-70, e membro do Conselho Superior de Luta e do Comité Executivo da Luta, o número de baixas desde a sua fundação (um ano completo) foi de treze. A principal baixa vai para o seu adjunto do CE, Cmdt Benjamim Mendes, ocorrida em 11 de Agosto de 1971, o mesmo acontecendo a José N. Cus, Chefe de Grupo. Dois dias depois, mais duas baixas, as de Conko Seidy e Sana Sano. O Cmdt do bigrupo, Ansú Bodjan (1944-1971), morreu em 14 de Novembro de 1971, o último nome da lista abaixo.
Citação: (1971), "Relatório da acção do CE [Corpo de Exército] 199-B70, desde a sua formação, em Dezembro de 1970, até ao final do ano de 1971.", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40099 (2018-4-20).
As restantes baixas constam dos quadros apresentados na primeira parte.
Continua…
À vossa consideração.
Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
12SET2018.