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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

P392 - MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO DURANTE A GUERRA NO CTIG (1963-1974) - OS TRÊS ACIDENTES NA HIDROGRAFIA DA GUINÉ - IV (e última) PARTE (Jorge Araújo)


MSG com data de 02FEV2020

Caríssimo Camarada Sousa de Castro,

Os meus melhores cumprimentos.

Com a presente narrativa - a quarta - dou por concluído o dossier relacionado com as mortes, por afogamento nos rios da Guiné, de militares do Exército ocorridas durante a "Guerra do Ultramar".

Nesta última parte, aprofundaremos aquele que foi considerado o terceiro acidente mais grave registado na hidrografia da Guiné, e no qual estiveram envolvidos elementos do 1.º Gr Comb da CART 3494. Este episódio de má memória, no qual também participei, e onde pereceram três dos seus membros, ocorreu no dia 10 de Agosto de 1972, 5.ª feira.

Com um forte abraço de amizade, e votos de boa saúde.
Jorge Araújo.
Postes da série
Parte 3: 
MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO DURANTE A GUERRA NO CTIG [Comando Territorial Independente da Guiné] (1963-1974) [Jorge Araújo]

Parte 2:
AS MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO DURANTE A GUERRA NO CTIG (1963-1974) - OS TRÊS ACIDENTES NA HIDROGRAFIA DA GUINÉ - [PARTE II]

Parte 1: 
MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO PORTUGUÊS DURANTE A GUERRA NO CTIG (Guiné 1963-1974) - CORPOS ‘RECUPERADOS’ E ‘NÃO RECUPERADOS’ - [PARTE 1]



















sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

P391 - Memória do 1º ataque ao aquartelamento da CART 3494 no Xime Guiné [Sousa de Castro]


CART 3494/BART 3873 Guiné, Xime, Enxalé e Mansambo
DEC1972/ABR1974


Sousa de Castro, ex. 1º cabo radiotelegrafista 



Sousa de castro 1972
Sousa de Castro 2019
Aí vem elas! PUUUM PUUUM PUUUM. É o primeiro ataque ao quartel sofrido pela CART 3494 Guiné- Xime. Estamos no dia 27 de março de 1972, pelas 23,00 horas, praticamente no início da comissão, os velhinhos da cart 2715 que nós rendemos tinham ido embora nesse dia.
É de noite, o Alf. Pinho cmdt da artilharia (obuses) está no posto de trms á conversa com o pessoal quando surge o ataque. Diz; é um ataque com morteiro 82 mm e canhão s/recuo, à minha ordem toda a gente para o abrigo tal, vamos ouvir a saída das canhoadas… é agora, corram rápido, temos pouco tempo entre a saída das canhoadas e o rebentamento.
Xime 1972 - OBUS 10,5 cm
Assim fizemos, alguns atiraram-se de cabeça para o abrigo, daí resultaram


alguns ferimentos ligeiros em alguns camaradas, foi o pânico geral, algumas canhoadas e morteiradas rebentaram ao lado da cozinha, foi o desespero, agachei-me debaixo da mesa onde tínhamos o E/R AN-GRC9 no posto de TRMS, lembro-me de rezar a nossa senhora em surdina, para nos proteger, fugi para o abrigo conforme ordem do homem experiente de muitos meses de comissão, um ataque com 15 ou 20 minutos de duração que nos pareceu uma eternidade, nessa noite ninguém dormiu, muitos lamentos, tudo em alerta máximo, qualquer sinal parecido com uma saída de canhoada ou morteirada era uma correria a fugir para os abrigos, devo dizer que nós TRMS não tínhamos abrigo, tanto o posto de rádio como o local onde dormíamos, era um espaço coberto com chapas de zinco.

Assim sendo, e devido à situação em que vivíamos,  por iniciativa do Fur. TRMS Luís Coutinho Domingues, procedeu-se à reconstrução e ampliação de um abrigo, (foto ao lado) onde montamos o novo posto de rádio e um espaço a que chamávamos de caserna, sendo aproveitado o chassis da carroçaria traseira de uma viatura, fazendo de vigamento, para reforço. A  cobertura em chapa de bidões de duzentos litros previamente cortados, por cima colocamos troncos de árvores que fomos cortar na mata, auxiliados por um GR de combate a fazer segurança, enchemos com bastante terra e de novo a chapa de bidões, assim sentíamos mais ou menos seguros. Esse abrigo foi deixado pelo Alf. Pinho (cmdt dos Obuses) quando foi embora por ter terminado a sua comissão de serviço. Aquela primeira noite, foi de terror. Foram 17 ataques ao quartel, à média de um por mês, sempre que havia lua cheia, era de esperar um ataque. Felizmente que não houve danos mortais. Em 27 de abril de 1973 mudamos para Mansambo devido ao baixo moral da companhia, era uma zona muito boa em ralação ao que passamos no Xime. Mas foi muito complicado. Nota: O Alf. Mil. Art. Pinho na sua despedida, ofereceu-me um livro autografado, de ALL CAINE "O ESCRAVO" que ainda disponho, muito obrigado Alf. Pinho.

Sousa de Castro ex. 1º cabo radiotelegrafista
07 de Março de 2020

Fotogaleria



Xime 1972 - Matança da Vaca para refeições ao lado a cozinha, ao fundo refeitório


Da esq. para drtª: Castro (trms), Machado (cozº), Torres (cozº) e Ramos (trms) já falecido

Nota: comentários extraidos do Facebook com a devida vénia

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

P - 390 MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO DURANTE A GUERRA NO CTIG [Comando Territorial Independente da Guiné] (1963-1974) [Jorge Araújo]


Caríssimo Camarada Sousa de Castro,

Os meus melhores cumprimentos.

Antes de mais, reforço os votos de um BOM ANO de 2020.

Após um pequeno interregno, devido à quadra natalícia, eis mais um fragmento - o terceiro - relacionado com as mortes, por afogamento nos rios da Guiné, de militares do Exército ocorridas durante a "guerra do ultramar".

Depois de no texto anterior termos analisado o primeiro dos três principais acidentes na hidrografia da Guiné, como foi o caso no Rio Cacheu, em 05Jan1965 (uma efeméride com cinquenta e cinco anos), neste aprofundaremos mais alguns elementos historiográficos do segundo, este no Rio Corubal, em Ché-Ché, no dia 06Fev1969, portanto, quatro anos após o anterior, deixando para o último poste a análise ao acidente no Rio Geba, em 10Ago1972, onde estiveram envolvidos militares da CART 3494.

Com um forte abraço de amizade, e votos de muita saúde.

Jorge Araújo. 



GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
ENSAIO SOBRE AS MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO DURANTE A GUERRA NO CTIG (1963-1974)
- OS TRÊS ACIDENTES NA HIDROGRAFIA DA GUINÉ -




PARTE III
1.   - INTRODUÇÃO

Recordamos que nos dois primeiros fragmentos – P383 e P385 – demos a conhecer alguns dos resultados globais já apurados neste projecto de investigação titulado de «Ensaio sobre o número de militares do Exército que morreram afogados nos diferentes planos de água existentes na Guiné, durante o conflito armado (1963-1974)».

Ainda que continuemos a expandir os campos de consulta fora do âmbito das fontes “Oficiais”, a presente análise demográfica, quantitativa e qualitativa, reporta-se aos “casos da investigação” já coletados, onde se procedeu à sua organização estratificada em dois grupos (amostras): “corpos recuperados” e “corpos não recuperados”, com identificação das suas respectivas Unidades.

No primeiro fragmento, a análise estatística foi apresentada com quadros de distribuição de frequências, simples e acumuladas, em função das variáveis categóricas ou quantitativas relacionadas com os objectivos de cada contexto. No segundo, o método seguido foi a representação gráfica de distribuição de frequências, simples e acumuladas, expressa através de gráficos de barras ou de gráficos circulares, metodologia que continuaremos a utilizar no presente.

Como complemento à introdução estatística, a que corresponde um segundo ponto em cada um dos fragmentos, serão descritas as causas, factos e resultados que fazem parte da “História” dos três principais acidentes na hidrografia da Guiné, como foram os casos ocorridos no Rio Cacheu, em 05Jan65, durante a «Operação Panóplia» [já abordado no P385]; no Rio Corubal, em 06Fev69, na «Operação Mabecos Bravios», em Ché-Ché [a desenvolver na presente narrativa]; e no Rio Geba, no Xime, no âmbito de uma missão das NT, em 10Ago72 [a incluir no próximo poste].

2.   – ANÁLISE DEMOGRÁFICA DAS MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO DURANTE A GUERRA NO CTIG (1963-74)
 (UNIVERSO - n=144)
Relembramos que a análise demográfica que comporta esta investigação incidiu sobre os casos das mortes por afogamento de militares do Exército durante a guerra no CTIG (1963-1974), identificados nos “Dados Oficiais” publicados pelo Estado-Maior do Exército, elaborados pela Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974), 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II, Guiné; Livros 1 e 2; 1.ª Edição, Lisboa (2001).



O estudo mostra que durante o período em análise (1963-1974) em todos os anos ocorreram mortes por afogamento. No final foram contabilizados cento e quarenta e quatro náufragos. Durante os doze anos em que decorreu o conflito, por quatro vezes (1/3) o número de mortes ultrapassou a dezena de casos, com destaque para o ano de 1969, onde os números ultrapassaram a meia centena, em consequência do «desastre da Jangada do Ché-Ché». Para esses valores globais muito contribuíram os “acidentes” nos rios da Guiné – Cacheu, Corubal e Geba – como foram os três casos referidos na introdução, equivalente a 40,3% (n=58). Quanto aos “corpos não recuperados”, estes representam 43,8% (n=63), contra 56,2% (n=81) dos “recuperados”. Sobre esta cifra não se consideraram os “corpos recuperados” no Ché-Ché, por desconhecimento do número exacto, ainda que no blogue da Tabanca Grande [P6073] se refira que foram onze.


Da análise global ao quadro e gráfico acima, verificou-se que nos anos 1963 (n=3), 1971 (n=8), 1973 (n=6) e 1974 (n=5), todos os náufragos foram “recuperados”. Durante o segundo triénio (1966-1968), dos vinte e sete afogamentos, só três, um em cada ano, não foram “recuperados” (1,1%). Em sentido contrário está o caso do ano de 1969, pelas razões já analisadas anteriormente, com 96,1% (n=49).




3.   – OS TRÊS ACIDENTES NOS RIOS DA GUINÉ:
    - CONTEXTO DE CADA UMA DAS OCORRÊNCIA





Para a estruturação deste ponto, relativo a cada uma das três ocorrências identificadas no gráfico acima, foi relevante a consulta efectuada ao vasto espólio de informação disponível no blogue da «Tabanca». No caso particular do episódio da “Jangada do Ché-Ché”, ocorrido no âmbito da «Operação Mabecos Bravios”, existem algumas dezenas de referências, onde se cruzam os dois conceitos, por exemplo, as dos P DXXVI; P509; P5778; P5858; P5866; P5954; P6063 e P6073 (as mais antigas) e P12136; P18871; P19473 e P19474 (as mais recentes). Para além desse significativo contributo, e mantendo a metodologia anterior, os conteúdos utilizados neste capítulo têm por base os documentos “Oficiais”, publicados pelo Estado-Maior do Exército, elaborados pela Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974), 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II, Guiné; Livros II; 1.ª Edição, Lisboa (2015).
3.1  - O CASO NO RIO CORUBAL EM 06FEV1969 = O SEGUNDO



Infogravura (Rio Corubal). No estuário do Geba (a Oeste) vem desembocar, entre a Ponta Varela e Gampará, um dos mais importantes cursos de água da Guiné, talvez mesmo o maior. É o Corubal (traço a vermelho). Este rio nasce a cerca de 160 kms da fronteira, no maciço de Mali, pertencente ao grupo de montanhas do Futa-Djalon, na sua parte norte, recebendo vários tributários importantes, até que entra no território da Guiné pelo norte de Cadé, servindo aí de fronteira entre Candica e os rápidos de Chibata. […] Inflecte então para oeste, passa através de alguns rápidos e vaus, desviando-se finalmente para noroeste até desembocar no Geba. Na parte inferior do seu curso, até ao vau de Ugui [onde há a possibilidade de passagem a pé através do rio, dada a sua escassa profundidade], é navegável. Aí fica a Tabanca de Xitole, na margem direita. Este rio tem para montante várias secções navegáveis por canoas, o que facilita as comunicações com o Forreá [Aldeia Formosa/Mampatá/Chamarra] e as demais regiões ricas que atravessa. Contudo, os seus rápidos e secções de perfil diferenciado tornavam impossível a navegação por embarcações um pouco maiores.
Fonte: João Freire (2018) – A Colonização Portuguesa da Guiné (1880-1960): Contributos sobre o papel da Marinha - com dois apêndices sobre Cabo Verde e São Tomé e sobre a caça aos negreiros de Angola. Lisboa. Edição: Comissão Cultural da Marinha. Maio de 2018, p. 242. 
3.1.1 - O CONTEXTO DA «JANGADA DO RIO CORUBAL» EM 06FEV1969

Na sequência do trágico acidente no Rio Corubal, em 06 de Fevereiro de 1969, uma das datas mais dramáticas vividas pelas Forças Armadas Portuguesas durante a Guerra do Ultramar, ou da Guerra Colonial, foi elaborado pelo Cmdt da CCAÇ 1790, Cap Inf José Alberto Ponces de Carvalho Aparício [hoje, TCor Apos.], um relatório [classificado de “NOTA”] do qual retirámos a seguinte passagem sobre a “história da Jangada”.
“Na Guiné [Bissau] nos anos 60 [do século passado] a travessia do Rio Corubal para a região do Boé era feita [como naquela data] junto à povoação do Ché-Ché onde durante a guerra se encontrava ali em permanência uma força militar de um pelotão de infantaria, reforçado com uma secção de morteiros 81 mm.
Esta travessia era então obrigatória para a rendição das forças militares portuguesas estacionadas em Madina do Boé e Beli, e ainda para o reabastecimento daquelas forças que na época das chuvas (cerca de seis meses) ficavam completamente isoladas. Por isso, durante a época seca realizavam-se normalmente duas colunas por mês, cada uma escoltada por uma companhia reforçada com um pelotão de autometralhadoras “Fox” ou “Daimler” e com protecção aérea permanente. Cada Coluna era constituída por um elevado número de viaturas, cerca de 20 a 30, carregadas com munições e reabastecimentos.
A travessia do Rio Corubal era então feita por uma jangada constituída por uma plataforma sobre duas canoas; um longo cabo ligando dois pontos fixos instalados em cada margem corria numa roldana instalada na plataforma; a impulsão necessária para mover a jangada erar dada pela força braçal dos militares puxando manualmente o cabo. Como segurança do movimento, uma embarcação “Sintex” com motor fora de bordo acompanhava lateralmente cada movimento de vaivém, pronta para qualquer emergência.” (Op. Cit; 6.º Vol, p 353).
3.1.2 - ANTECEDENTES HISTÓRICOS QUE LEVARAM AO ABANDONO DAS FORÇAS INSTALADAS EM MADINA DO BOÉ E NO CHÉ-CHÉ
Com a chegada a Bissau, no início de Junho de 1968, do então Brigadeiro António Sebastião Ribeiro de Spínola [1910.04.11-1996.08.13], em substituição do General Arnaldo Schulz [1910.04.06-1993], são elaboradas pelo novo Governador e Comandante Militar da Guiné [promovido a General em 04Jul69], as primeiras directivas.
A primeira Directiva – a n.º 1/68, de 08Jun – tinha em vista a remodelação do dispositivo na região do Boé. Determinava a transferência do aquartelamento de Madina do Boé para local mais adequado, na região do Ché-Ché. Ordenava a recolha imediata a Madina do Boé do Destacamento de Béli, devendo ser destruídas as instalações e material que não fosse recuperável. Determinava, ainda, o reconhecimento da região do Ché-Ché, em ordem a escolher o local do novo aquartelamento, devendo satisfazer as seguintes condições: situar-se em “área-chave” da região do Ché-Ché, de modo a permitir o lançamento de acções dinâmicas na região do Boé e na margem norte do Rio Corubal. Se possível, que desse garantias de segurança à passagem deste rio no Ché-Ché (Ibidem. p.175).
Uma outra Directiva – a n.º 59/68, de 26Dez – mandava executar a manobra esquematizada na Directiva anterior – a n.º 58/68, de 16Dez – onde se determinava a execução de diferentes acções/missões no Sector Leste, entre elas: “(i) - Exercer acções de reconhecimento, em ordem a detectar eixos de infiltração do IN na faixa fronteiriça com a República do Senegal e República da Guiné-Conacri até ao “marco 49” e a norte do Rio Corubal a partir deste “marco”, com especial incidência nos regulados de Pachisse, Maná e Chanha. (ii) - Reforçar o efectivo das NT na ponte do Saltinho, com vista a garantir a defesa efectiva da ponte e a exercer acção dinâmica no regulado do Corubal. (iii) - Consolidar o esforço de autodefesa nas tabancas marginais da estrada Bambadinca-Xitole-Saltinho. (iv) - Retirar as forças instaladas em Madina do Boé e em Ché-Ché, minando e armadilhando as instalações para que possam ser utilizadas pelas NT em fase ulterior da manobra de contra-subversão.” (…) (Ibidem. p 206).
Para a execução da manobra prevista nas Directivas acima mencionadas, foi organizada uma operação, designada por «Mabecos Bravios», a levar a cabo entre 02 e 07Fev1969. Para esse efeito foram mobilizadas as seguintes Unidades militares: CCaç 1790, CArt 2338, CCaç 2403, CCaç 2405, CCaç 2436, CArt 2440, 1 GC/CCaç 5, PMil 161, PAMetr "Daimler" 1258, PSap BCaç 2835, com APAR, as quais efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Madina do Boé - Nova Lamego. (…) Na travessia do Rio Corubal, um acidente com a jangada que transportava forças de segurança da retaguarda provocou a morte de quarenta e sete militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 Milícias). (Ibidem. p 353).
Sobre o desenrolar desta operação, no relatório acima citado, elaborado pelo Cap Inf José Carvalho Aparício [hoje, TCor Apos.], Cmdt da CCAÇ 1790, é referido o seguinte: “Em Fevereiro de 1969, após a decisão do Comando-Chefe da Guiné de abandonar todo o Boé – Beli já tinha sido abandonado meses antes retirando para Madina do Boé todas as forças ali estacionadas – foi desencadeada a operação "Mabecos Bravios" sob o Cmd do Agr 2957 [sedeado em Bafatá]. Uma enorme coluna com cerca de 50 viaturas pesadas escoltadas por duas CCaç’s, e dois pelotões de autometralhadoras, e com apoio aéreo permanente, chegou a Madina do Boé na tarde de 05Fev69. 



 [Antes] a esquadra de helicópteros simulou durante a tarde lançamento de forças nas colinas de Madina para tentar evitar as habituais flagelações por morteiros e canhões sem recuo. Durante toda a noite desse dia as viaturas foram carregadas com toneladas de munições, armamento pesado, e todo o equipamento e material aproveitável ali existente. Na manhã de 05Fev iniciou-se o movimento para o Ché-Ché, onde a coluna chegou no final da tarde desse dia. Por decisão do comandante da operação [TCor Hélio Augusto Esteves Felgas (1920.8.25-2008.6.23)], o número de dias previsto para a sua realização foi reduzido de vários dias, para libertar os meios aéreos empenhados; e a travessia do Rio Corubal iniciou-se logo de seguida, com inúmeras travessias efectuadas durante a noite com muitas dificuldades e problemas no embarque na jangada das viaturas carregadas ao limite.(Ibidem. pp 354-355).

O relatório refere ainda:
“Para a realização da operação de evacuação do Boé foi contruída uma jangada nova, maior que a anterior, com um estrado sobre três canoas. Em vez da corda inicial, o movimento da embarcação era garantido pelo “Sintex” com motor fora de bordo amarrado à jangada, do lado de jusante do rio, e operado por um sargento da Marinha requisitado para o efeito. A velha jangada esteve sempre acostada na margem direita. Nas travessias do rio durante a noite, com as viaturas foram também indo passando secções dos militares empenhados. No início da tarde de 06Fev69, na última e fatídica viagem, embarcaram a parte que restava dos militares das CCAÇ 2405 e da CCAÇ 1790, cerca de 80 a 90 militares. A meio do rio, uma aceleração brusca do motor do “Sintex” fez erguer a frente de bombordo da jangada, tendo sido dada logo ordem para reduzir a velocidade, a jangada fez o movimento pendular inverso, desta vez mergulhando ligeiramente no rio a frente de estibordo, as canoas ficaram cheias de água mas o tabuleiro ficou flutuando, com os militares a bordo com água pelos tornozelos. Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de quarenta e sete militares das duas Companhias”. (Ibidem. p 355). [sendo: 26 da CCAÇ 2405, 19 da CCAÇ 1790 e mais dois milícias, conforme se indica nos dois quadros abaixo]: 




No final, o relatório refere que “o acidente em causa deu origem a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa, no 3.º Tribunal Militar Territorial, que durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano comandante do Destacamento estacionado no Ché-Ché.” (Ibidem. p 355).
3.1.3 – AS DECISÕES QUE FORAM TOMADAS PARA RECUPERAR OS CORPOS DOS MILITARES NAUFRAGADOS EM 06FEV1969 NO CHÉ-CHÉ
Em reunião de Comandos realizada em Bissau, o Comandante-Chefe Militar entregou ao CDMG [Comando de Defesa Marítima da Guiné] e ao CZAGCV [Comando da Zona Aérea da Guiné e Cabo Verde], com data de 19Fev, a Directiva n.º 16/69, determinando a realização de uma «Operação no Rio Corubal», constituída por quatro pontos, a saber:
1 – Confirmando a ordem verbal dada em reunião de Comandos, determino a realização de uma operação no Rio Corubal, com o fim de recuperar os corpos dos militares mortos no trágico acidente de 06Fev69, que se encontram à superfície das águas.
2 – A operação deve realizar-se na base do helitransporte de uma vaga de “Fuzileiros Especiais”, fortemente apoiada por meios aéreos.
3 – Os corpos devem ser agrupados e enterrados no local, devendo as campas ser assinaladas com cruzes de ferro.
4 – Desejo ser helitransportado ao local, conjuntamente com um capelão para assistir à cerimónia fúnebre, e colocar nas campas e lançar ao rio coroas de flores com a legenda “A Pátria agradecida”. […] (Ibidem. p 317).
Sobre esta “Operação”, no P6073-LG, como indicado no ponto 2, o camarada Rui Ferrão, acrescenta que “foi do seu Destacamento de Fuzileiros Especiais – o 10.º - que saíram duas secções, passados alguns dias, para o local do acidente, com a missão de recolher os corpos a boiar no referido rio. Dos 47 afogados, foram resgatados 11 cadáveres, que foram sepultados com todas as honras militares na margem do rio. Os restantes [?] ficaram dispersos pelo rio à mercê dos crocodilos e doutras espécies afins.” […]
Entretanto, como complemento desta informação, o camarada Vítor Oliveira, ex-1.º Cabo Melec, BA 12 (1967/1969), na sua narrativa no P5853-LG, a que chamou “O desastre do Cheche visto do ar”, afirma no ponto 7º: “passados uns dias [?] com uma DO 27 o TCor Pilav Costa Gomes, um Ten Pilav, do qual não recordo o nome, e eu, sobrevoámos o rio e vimos cenas horríveis, os corpos a boiar e os crocodilos à volta deles. O TCor Pilav Costa Gomes entrou em contacto com os Fuzileiros para recolher os corpos. Creio que fizeram um pequeno cemitério próximo do Cheche onde colocaram os corpos.”
Eis, em suma, algumas das memórias que fazem parte da “historiografia” deste trágico acidente, impregnado de dor e sofrimento, não só para os sobreviventes, como para todos os camaradas que nele estiveram envolvidos directamente, ou indirectamente, os familiares e amigos de todos aqueles jovens que pereceram nas águas do Rio Corubal.
Continua…
Fontes consultadas:
Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; 1.ª edição, Lisboa (2015).
Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 1; 1.ª edição, Lisboa (2001); pp 23-569.
Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 2; 1.ª edição, Lisboa (2001); pp 23-304.
Ø  Outras: as referidas em cada caso.
Termino, agradecendo a atenção dispensada.
Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
07JAN2020.