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domingo, 20 de janeiro de 2019

P362 - Faz hoje (20JAN2019) 46 anos que Amílcar Cabral, Presidente do PAIGC, foi assassinado em Conacri numa acção planeada pela PIDE/DGS


Mensagem de António Marques Lopes, Coronel de Infantaria na reforma, ex. Alf. Mil./At Inf. CART 1690 - Guiné 1967/69 - Cantacunda, Banjara, Geba e Barrô.




Foto: Wikipedia, direitos reservados



Nasc.12SET1924 - Morte 20JAN1973

20 DE JANEIRO DE 1973
Amílcar Cabral, dirigente e fundador do PAIGC, é assassinado em Conacri numa acção planeada pela PIDE-DGS

Dalila Cabrita Mateus diz no seu livro “A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974” que «O assassínio de dirigentes foi um tipo de operações levado a cabo pela PIDE/DGS. No entanto, constituía um assunto delicado». E refere que o elemento dessa polícia incumbido de dar andamento ao plano para a liquidação de Amílcar Cabral escreveu à margem do processo: «Comuniquei particularmente ao chefe da Delegação que este assunto não pode ser objecto de correspondência oficial. Ou não se dizem ou não se fazem». Refere, por isso, que não é possível encontrar relatórios da PIDE sobre a liquidação de Amílcar Cabral, até porque, citando José Pedro Castanheira, in “Quem mandou Matar Amílcar Cabral”, o inspector adjunto Alberto Matos Rodrigues recomendou que «Em trabalhos desses, não se deixam provas».E houve vários planos, assevera esta investigadora dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo.

O primeiro terá sido em 1967, o do inspector Miguel António Cardoso, então chefe da delegação da PIDE na Guiné, que mandou vir de Conacri um antigo combatente para que, conhecedor dos locais por onde Cabral costumava passar nessa cidade, o matasse a tiro ou com granadas apreendidas aos guerrilheiros. Só que, azar, esse homem foi preso pela tropa portuguesa e deixou de valer. Mandou vir de Conacri mais dois elementos para o mesmo objectivo, mas, entretanto, foi substituído. O novo chefe da delegação achou que um deles era bêbedo e que o outro não tinha estofo e a operação foi abandonada.


Em 1969 houve outra tentativa, esta planeada pela Aginter Press, uma encapotada agência de informações sedeada em Portugal mas que, efectivamente, se dedicava ao recrutamento de mercenários. Tinha ligações com a PIDE e com a Legião Portuguesa desde 1966. Teve a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Casa de Portugal em Paris, e participavam um diplomata senegalês, oposicionistas a Sékou Touré e elementos da FLING. O orçamento era superior a quatro mil contos, e o prémio em caso de êxito mil contos. Foi a Operação Chèvre. Se não deu ou não foi avante, a investigadora não precisa.

Veio, depois, a Operação Mar Verde, em Novembro de 1970, planeada e comandada por Alpoim Calvão, com o apoio de Spínola e de Marcelo Caetano. No livro de António Luís Marinho, “Operação Mar Verde, Um Documento para a História”, vêm as missões atribuídas a cada um dos grupos participantes na operação. Por exemplo, uma das do comandante Benjamim Lopes de Abreu era “a eliminação física do Presidente da República da Guiné Ahmed Sékou Touré” (documento 11). A ninguém foi explicitamente atribuída a missão da “eliminação física de Amílcar Cabral”. No entanto, ao 1º Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva tinha como missão: “Ataque e destruição de elementos e instalações do PAIGC em Conacry II: …41-Secretariado e habitação de Amílcar Cabral; 42-Casa de Aristides Pereira e Propaganda”. E diz ele, no seu relatório, que “decidi atacar primeiro e rapidamente os objectivos considerados de primeira importância: 41 e 42…”. Não é credível que a eliminação de Amílcar Cabral não fosse também um dos objectivos. Dalila Mateus narra que foi lançada sobre a casa de Amílcar Cabral uma chuva de obuses, tendo um deles acertado em cheio no quarto ao lado daquele onde dormia a mulher de Cabral, que teve de sair com os filhos pelas traseiras da casa. Numa casa ao lado ficaram gravemente feridos um casal jugoslavo e uma filha, uma outra filha deles morreu com um estilhaço na cabeça. E refere que Alpoim Calvão disse ao Público de 21 de Maio de 1991 que se Cabral estivesse em Conacri teria sido seguramente eliminado.
Em 1971 foi a delegação da PIDE em Cabo Verde que mobilizou mil contos para contratar um cabo-verdiano residente em Monróvia, na Libéria, e com anteriores ligações a Cabral e Agostinho Neto. Era para, com mais seis indivíduos, assassinar Amílcar Cabral e destruir um depósito de material de guerra em Conacri. Não resultou.

Mas a PIDE andava também atenta às divisões dentro do PAIGC.
Em Junho de 1967 teriam armadilhado a casa de Cabral em Koundaré e teriam sido enviadas cartas para Catió, Cabedu, Farim, Mansoa e Bula com o intuito de não serem acatadas as ordens de Amílcar Cabral. Os conjurados foram presos e fuzilados. E a PIDE afirma ter ouvido, na altura, que Nino Vieira encarou com simpatia “o movimento conspirativo do Boé”. Também em Setembro desse ano parece ter havido um atentado contra o Secretário-geral do PAIGC. Foi também o ano, constou em Dezembro, do descontentamento dos mandingas pelas baixas sofridas em combate e pelo facto de os cabo-verdeanos serem poucos a combater.
Em Janeiro de 1968 foi assinalado novo movimento de revolta e, nesse ano, as notícias das divisões no PAIGC levaram a PIDE a tomar nota e, como consta numa das pastas dos Arquivos da PIDE, “Em face desta notícia foi considerado superiormente que se devia procurar, por todos os meios, se necessário mesmo financeiros, explorar estas divergências”.

Em Março de 1972 é o próprio Cabral que apresenta um plano, segundo ele de Spínola e dos colonialistas portugueses, com o objectivo de decapitar a direcção do PAIGC. Primeiramente com a infiltração de antigos e novos membros do Partido para gerarem a divisão na base do racismo, tribalismo, diferenças de religião e virando guineenses contra cabo-verdianos. Após isso seria a criação de uma direcção paralela para entrar em contacto com os dirigentes dos países vizinhos tentando obter o seu apoio contra a verdadeira direcção, particularmente contra o Secretário-geral. A fase seguinte seria: o assassinato do Secretário-geral e todos os dirigentes fiéis à linha do partido; mudança da designação do partido e paragem da luta; e, finalmente, entrar em contacto com o governo português para obterem a autonomia interna e a criação do “Estado da Guiné” fazendo parte da comunidade portuguesa. Spínola teria prometido postos importantes aos executantes deste plano. E não há dúvidas que eram os princípios defendidos por António de Spínola.
E foi no dia 20 de Janeiro de 1973, às 23 horas que um grupo chefiado por Inocêncio Cani prendeu Cabral e a mulher. Face à resistência deste Cani atingiu-o com um tiro no fígado, tendo depois ordenado a um seu acompanhante que lhe desse uma rajada, que o atingiu na cabeça e o matou. Um grupo chefiado por Mamadu N’Djai prendeu Aristides Pereira, meteu-o numa vedeta do PAIGC e rumou para Bissau. Um outro grupo, chefiado por João Tomás Cabral, assalta a prisão do PAIGC e liberta Mário Mamadou Touré e Aristides Barbosa, que eram os cabecilhas do golpe.

Foram cerca de uma centena os golpistas. Depois de tomarem conta das instalações do partido e terem prendido cabo-verdianos e mestiços guineenses, foram recebidos por Sékou Touré na madrugada seguinte, mas o presidente da Guiné não lhes deu cobertura mandou-os prender, deu ordens ao exército que submetesse o PAIGC e pediu a navios soviéticos que estavam nas suas águas que recuperassem a vedeta onde ia Aristides Pereira, o que aconteceu.
A maioria não tinha ligações à PIDE, nem o Inocêncio Cani, tendo sido arrastados pelo descontentamento contra a direcção do partido e contra os cabo-verdianos. Mas alguns dos principais conjurados tinham:
- Mário Mamadou Touré (conhecido por Momu) era um antigo preso do Tarrafal; o chefe da delegação da PIDE na Guiné Alberto Matos Rodrigues arranjou-lhe emprego e protegeu-o, afirmando mesmo que esta “Foi uma operação planeada e meteram-no lá” (diz José Pedro Castanheira, na obra atrás referida);
- Aristides Barbosa confessou que, após sair do Tarrafal, foi contactado por um agente da polícia de nome Gonçalves (na altura, havia na Guiné vários agentes de apelido Gonçalves) para trabalhar para a PIDE e que aceitou, pedindo “uma licença para táxi”; disse também que foi recebido por Spínola antes de sair de Bissau;
- João Tomás Cabral, que tinha sido comissário político, tinha correspondência com um informador de Pirada e com o elemento da PIDE em Buruntuma, o agente de 1ª classe Orlindo Martins Jorge Vicente; a sua acção era mentalizar os combatentes para que entregassem as armas porque o PAIGC não conseguiria ganhar a guerra;
- Valentino Cabral Mangana, comandante de Marinha (como Inocêncio Cani), propagandeava que Portugal daria a independência aos negros da Guiné desde que o PAIGC fosse extinto e os cabo-verdianos afastados, pois queria conservar Cabo Verde como uma base de grande importância estratégica para si e os seus aliados.
Claro que houve uma conspiração no interior do PAIGC para pôr termo à hegemonia dos cabo-verdianos. Mas é também evidente que a PIDE teve um papel importante na instigação do golpe. E não actuava à rédea solta. Não me parece que Alpoim Calvão tenha razão quando diz, no seu livro “De Conakry ao M.D.L.P.”, “…a verdade é que não havia a mínima lógica para que as autoridades portuguesas desejassem, em 1973, o assassinato de Amílcar Cabral”. E traz em defesa desta ideia as negociações segundo ele planeadas entre Spínola e Amílcar Cabral para a resolução política da situação na Guiné. Mas esquece-se de dizer que Marcelo Caetano já dissera a Spínola – é o próprio Marcelo que conta nas suas Memórias – que negociar na Guiné nem pensar, antes a derrota militar. E conta Otelo Saraiva de Carvalho, em “Alvorada em Abril”, que o inspector Fragoso Alas (grande amigo de Spínola, até constando que foi esta amizade que fez com que os pides fossem libertados após o 25 de Abril…) lhe terá dito que “os tipos tinham ido longe demais, porque a missão era só raptar e conseguir trazer Amílcar Cabral para Bissau como refém”.





terça-feira, 18 de dezembro de 2018

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

P357 - AS DESERÇÕES NO PAIGC NO SECTOR DE TITE AO TEMPO DO BART 2924 (1971-1972) E SUAS CONSEQUÊNCIAS - PARTE I (Jorge Araújo)


Mensagem com data de 17 de Novembro de 2018 de Jorge Alves Araújo, ex. Fur. Milº. OP ESP./Ranger, CART 3494 - Xime e Mansambo, 1972/74


Caríssimo Camarada Sousa de Castro.

Os meus melhores cumprimentos.

Na qualidade de ex-combatente, continuo a aprofundar os diferentes fenómenos que marcaram o conflito armado no CTIG (1963-1974), por via do estudo e análise historiográfica, partindo da literatura consultada.

No caso presente, partilho convosco o que consegui apurar sobre o tema "as deserções no PAIGC no sector de Tite ao tempo do BART 2924 (1971-1972) e quais as consequências que tiveram para cada uma das forças em presença.

Considerando a dimensão da narrativa, decidi dividi-la em duas partes, sendo esta, naturalmente, a primeira.

Com um forte abraço de amizade,

Jorge Araújo.

Nov/2018.



AS DESERÇÕES NO PAIGC NO SECTOR DE TITE AO TEMPO DO BART 2924 (1971-1972) E SUAS CONSEQUÊNCIAS



PARTE I
1.   - INTRODUÇÃO
Para início da temática que o título identifica, socorri-me do meu pensamento que lhe deu origem, repetindo “que o fenómeno das deserções em contexto de guerra é considerado normal, ainda que pontual e de percentagem reduzida”.
Confesso que não vi nenhum desertor no Xime. Provavelmente, porque aí não seria o melhor local para o fazer, ainda que num dia do mês de Maio’72, já fez quarenta e seis anos, tenha “apanhado” cinco guerrilheiros à mão no Cais, oriundos da Ponta do Inglês (mata do Fiofioli), que foram transportados até ao aquartelamento da CART 3494… história que contarei proximamente.
O que importa agora é dar-vos conta do que consegui apurar sobre este tema das “deserções” no PAIGC. Todos os casos sinalizados foram obtidos nas fontes bibliográficas consultadas, de ambos os lados do combate, com recurso à metodologia de “análise de conteúdo”, já que, como referi anteriormente, não conheci nenhum caso concreto.
E tudo começou quando me recordei das “Notas de Leitura” do camarada Beja Santos [P15058-LG] relacionadas com o livro «O Guardião», da autoria de Fernando dos Anjos Alves Antunes, ex-furriel de Inf/Op do BART 2924, sedeado em Tite (1970/1972), Edição de Setembro de 2011.
Aí chegado, logo o caminho da investigação se abriu a outra obra: «Memórias de África, Angola e Guiné», da Âncora Editora e do Programa Fim do Império (2016). É seu autor José Fernando Valles de Figueiredo Valente que, por coincidência, foi 2.º Cmdt do BART 2924, depois Cmdt Interino e em Janeiro de 1972 passou a ser o seu 1.º Cmdt, na sequência de ter sido promovido a Tenente-Coronel. Hoje é General aposentado.
Para além destas duas obras, recorremos uma vez mais aos arquivos de Amílcar Cabral (1924-1973) existentes na Casa Comum – Fundação Mário Soares, como mais um elemento de reforço temático e de contraditório na elaboração deste trabalho.
Para outras eventuais consultas pessoais, aqui vos deixo as duas capas dos livros supra.

2.   - AS DESERÇÕES NO PAIGC NO SECTOR DE TITE, REGIÃO DE QUINARA, AO TEMPO DO BART 2924 (JAN’71-AGO’72) E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Procurando encontrar exemplos que pudessem ilustrar o nosso propósito de partida, independentemente da época e do sector/região do CTIG, relacionados com episódios de deserções nas fileiras do PIAGC e suas consequências, a investigação, como aliás é explicado na introdução, levou-nos ao caso paradigmático e histórico do Batalhão de Artilharia 2924 [BART 2924], sedeado em Tite, região de Quinara, a sul do Rio Geba, no período compreendido entre Janeiro de 1971 e Agosto de 1972.
Para o efeito de cumprir as missões que lhe foram confiadas pelo Governador Militar e Comandante-Chefe, General António de Spínola (1910-1996), em função das características da sua Zona Operacional – Sector de Tite – onde a principal referência histórica estava ligada a 23 de Janeiro de 1963, data considerada como início do conflito armado, e daí muito próximo de completar oito anos de existência, o Comando do BART 2924 dispunha de um contingente de oito centenas de efectivos, pertencentes ao seguinte dispositivo das NT:
● Em TITE => Comando do BART 2924 com o apoio da Companhia de Comando e Serviços (CCS); Companhia de Cavalaria 2765; Pelotão de Morteiros 2114; Pelotão AM Daimler 2204; 6.º Pelotão de Artilharia (105mm – Obuses) e Pelotão de Milícias 220.
● Em NOVA SINTRA => Companhia de Artilharia 2771 e Esquadra do Pelotão de Morteiros 2114.
● Em FULACUNDA => Companhia de Artilharia 2772 e Pelotão de Milícias 221.
● Em JABADÁ => Companhia de Artilharia 2773 e Pelotão de Milícias 219.
● Em ENXUDÉ (Porto) => Pelotão de Reconhecimento 2204 e Esquadra do Pelotão de Morteiros 2114.
2.1 - ÁREA E LOCAIS DA ZONA OPERACIONAL DO SECTOR DE TITE
O mapa que abaixo se apresenta indica a azul os locais onde estavam instaladas (aquarteladas) as diferentes Unidades Orgânicas das NT acima referidas, bem como os aglomerados populacionais correspondentes à zona operacional [ZO] sob sua administração.
A vermelho referem-se os nomes de diferentes Tabancas do Sector, cujas populações acabaram por ficar sob o controlo do PAIGC, ainda que algumas delas tenham abandonado esses espaços refugiando-se na mata (no mato). A sua indicação tem por objectivo facilitar a localização dos casos abordados ao longo desta narrativa.


2.2 - MISSÕES/ACÇÕES DAS NT NO SECTOR DE TITE
Com o Comando do BART 2924 e a sua Companhia de Comando e Serviços (CCS) instalados em Tite, às subunidades de quadrícula do Batalhão foram atribuídas diferentes missões/acções consoante as características de cada um dos locais onde iriam estar fixadas. Assim a:
● CART 2771 (em Nova Sintra); tinha por missão controlar a sua zona de acção, na sua própria defesa e na colaboração da segurança afastada de Tite e, por inerência, a de Bolama. Com a construção do novo reordenamento da Tabanca de Bissássema, foi também missão desta Companhia colaborar na sua segurança afastada.
● CART 2772 (em Fulacunda); tinha por missão particular desenvolver a sua actividade de contra penetração sobre o “Corredor de Guebambol”. Foi a Companhia com maior área de acção militar e aquela que estava mais distante da sede do Batalhão.
● CART 2773 (em Jabadá); tinha por missão especial, a captação e recuperação da população, através da Acção Psicológica (“APSICO”), da península de Jabadá.
● CCAV 2765 (em Tite, e depois em Bissássema); tinha por missão, após concluído o processo de preparação do terreno e montagem de tendas de campanha em Bissássema, a defesa da construção desse reordenamento bem como da sua respectiva segurança com o apoio das forças especializadas sedeadas em Tite. 
 2.3 - INÍCIO DO REORDENAMENTO DA TABANCA DE BISSÁSSEMA E A CHEGADA A TITE DA 1.ª COMPANHIA DE COMANDOS AFRICANOS DO CAPITÃO JOÃO BACAR DJALÓ   
Chegado a Tite em Novembro de 1970, para substituir o BCAV 2867, o BART 2924 inicia no primeiro dia de 1971 o cumprimento da Directiva Operacional recebida das mãos do Comandante-Chefe durante o “IAO”, em Bolama. Nessa Directiva, para além da actividade operacional global, tinha-lhe sido atribuída a responsabilidade por implantar o reordenamento da nova Tabanca de Bissássema, fazendo regressar do mato as populações dispersas na área, maioritariamente de etnia balanta, a construção da estrada Tite-Bissássema e a melhoria do prolongamento viário até ao Enxudé.

Cais de Enxudé (1971) ao tempo do PelRec 2204 / PelMort 2114 (Foto de José Sobral, 1.º Cabo Esc. do BART 2924; in: http://ultramar.terraweb.biz/CTIG/Imagens_CTIG_ JoseSobra_ImagensGuine.htm; com a devida vénia).

É nesse dia 1 de Janeiro de 1971, sob a liderança do 2.º Cmdt do BART 2924, Major José de Figueiredo Valente [hoje General aposentado, autor do livro «Memórias de África, Angola e Guiné», como acima se refere] que tem lugar uma operação de reconhecimento do local da nova Tabanca de Bissássema, em que participam forças da CCAV 2765 e um GrComb da CART 2771.
Para a realização das diferentes obras, a sede do Batalhão é reforçada com um Destacamento do BENG 447, devidamente apetrechado com as respectivas máquinas. Quinze dias depois dá-se início aos trabalhos.
Decorrido um mês, em 15 de Fevereiro’71, devido às condições particulares das várias missões do BART 2924, que aliavam a actividade operacional com acções em proveito das populações, chega a Tite a 1.ª Companhia de Comandos Africanos [1.ª CCA], do Cmdt Capitão João Bacar Djaló para ali realizar o seu treino operacional. Durante as suas missões/acções a 1.ª CCA passou a integrar-se no conceito geral de actuação do Batalhão, em que deveria evitar que as populações fossem molestadas, procurando, de igual modo, conquistar a sua confiança.

Tite; Fev’71 – A 1.ª Companhia de Comandos Africana [1.ª CCA], do capitão João Bacar Djaló, em formatura na parada do quartel de Tite. (Foto de Fernando Antunes, ex-furriel do BART 2924, in: «O Guardião», com a devida vénia).

Em 16 de Fevereiro’71, ou seja, no dia seguinte à sua chegada, a 1.ª CCA realiza uma operação com 4 GrComb, surpreendendo o Bigrupo do Cmdt Taguemé Na Uaiê, nascido em 1943, em Ganjauará [hdl.handle.net/11002/fms_dc_40467], fazendo dois mortos ao IN, entre eles o Comissário Político Imbali. Aprisionam uma “Kalash” com três carregadores, dois “RPG2” e destroem quatro acampamentos.
Na semana seguinte, em 22 e 23 de Fevereiro’71, a 1.ª CCA e 3 GrComb da CART 2771, realizam nova operação e, do encontro com o PAIGC, resultam duas baixas para este, sendo um morto e um ferido, o Cmdt do Bigrupo Tamba Bazzoka, também conhecido por Pascoal Có.
Entretanto, em 12 e 13 de Março’71 realiza-se a Operação «Desejada Oportunidade” com a participação de várias forças, envolvendo as subunidades de Tite, Nova Sintra, Jabadá, Fulacunda e Bissau, com os seguintes efectivos: 4 GrComb da 1.ª CCA, 2 GrComb da 27.ª CCmds, 1 DFE 21, 1 GrComb da CART 2771 e 3 GrComb da CART 2773, tendo-se verificando um único contacto com o IN, e a captura de Lassana Nanqui, em Bária.
2.4 - A MORTE DO CAPITÃO COMANDO JOÃO BACAR DJALÓ (1929-1971) EM JUFÁ  
Devido a informações que foram sendo obtidas pelas NT, soube-se que o PAIGC estava a pressionar as populações não colaborantes, na região de Jufá, situada a sete quilómetros da sede do Batalhão. Em função daquela situação, em 15 de Abril’71, exactamente dois meses após a chegada a Tite da 1.ª CCA, o Major José Figueiredo Valente, à data comandante interino do BART 2924, decide lançar duas acções simultâneas na direcção da população de Jufá, com 2 GrComb da CART 2773, vindos de Jabadá, a Norte, e 3 GrComb da 1.ª CCA, a partir de Tite.
As forças da 1.ª CCA, comandadas pelo próprio capitão João Bacar Djaló e pelo alferes Domingos, deviam atravessar o Rio Louvado por um pontão existente e contactar posteriormente a população de Jufá. O desenrolar das duas acções “Nilo” teve desfechos diferentes. Enquanto as forças da CART 2773, de Jabadá, estabeleceram contacto com um grupo IN, sem consequências, a acção dos GrComb da 1.ª CCA, por outro lado, teve um desenvolvimento mais intenso e mais dramático.
Ao chegar à Tabanca, e ao falar com a população, os elementos da 1.ª CCA notaram que existia uma certa “tensão no ar” e algum nervosismo. Enquanto o capitão João Bacar falava com o Homem Grande da Tabanca e alguns elementos da população, os seus subordinados começaram a dispersar pela povoação. De súbito, um grupo IN, superior a setenta guerrilheiros, vindo de S. José (Crato), que esperava emboscado, uns no exterior e outros escondidos em casas, ao abrigo da população, abriram fogo atingindo com gravidade o alferes Domingos.
Ao grito de “comandos ao ataque”, pronunciado pelo capitão João Bacar, as “kalash” não pararam de vomitarem fogo em todas as direcções, transformando aquele palco da guerra num autêntico inferno. Ao deslocar-se para socorrer o seu camarada Domingos, o capitão João Bacar Djaló (1929-1971) é atingido por uma granada de “RPG2” que rebenta junto à sua barriga e que provoca o rebentamento das granadas de mão que habitualmente trazia à sua cintura, causando-lhe morte imediata. Tinha quarenta e um anos [n.1929.10.02, em Cacine]. A batalha termina com as forças IN em retirada, levando os vários feridos e deixando para trás quatro mortos seus e vários na população.
O seu corpo, bem como os dos cinco camaradas feridos no combate, onde estava o alferes Domingos, foram recolhidos em Jufá e helitransportados para Bissau.
Os restantes elementos da 1.ª CCA ficam cheios de “raiva”, por terem sido traídos e assistirem à trágica morte do seu Cmdt. Regressam a Tite sem o seu líder, mas com vários colaboradores do PAIGC de Jufá. Durante o caminho perdem todos os prisioneiros, devido aos seus ferimentos, excepto o prisioneiro Imbunde Cumba, de etnia balanta, que chega ferido.
Esta notícia é enviada uma semana depois por Nino Vieira a Amílcar Cabral, cujo conteúdo abaixo se reproduz. 

Citação: (1966-1974), "Relatório remetido por Nino Vieira a Amílcar Cabral expondo a situação na fronteira com a República da Guiné, designadamente os ataques entre Kebo e Guileje", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40775 (2018-11-12); com a devida vénia
2.5 - AS PRIMEIRAS DESERÇÕES NO PAIGC
        AO TEMPO DO BART 2924 (1971-1972)  
Na sequência da intensa e bem-sucedida Acção Psicológica (“APSICO”) do BART 2924, durante o mês de Maio’71 apresentam-se seis elementos IN, entre eles, Tomba Lona, Filipe Iala, Fiere Embaná e Cunhete Cabi.
Este e os restantes pontos serão abordados na segunda parte desta narrativa.
Continua…
Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
17NOV2018.