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terça-feira, 28 de abril de 2020

P397 - Hoje, 25 DE ABRIL DE 2020. TAMBÉM A MIM ME APETECE CONTAR ALGUMAS HISTÓRIAS DAS MINHAS VIVÊNCIAS DA ÉPOCA EM QUE FUI MILITAR AO SERVIÇO DO ESTADO PORTUGUÊS NA GUINÉ. Por: Edgar Soares

Mensagem com data de 28/04/2020 de:


Guiné, Bambadinca DEC71/04ABR74





Edgar Tavares Morais Soares, ex. Fur Milº OP Especiais - CCS/BART 3873 


Fur. Milº Edgar Soares, 1971

Como todos os Portugueses de boa memória, é óbvio e natural que rejubilei com os acontecimentos e princípios que presidiram ao 25 de abril de 1974. Todavia, existe um passado que se torna sempre muito recente no meu ego, que me persegue muito profundamente e, como tal, não posso mais calar. Como à data, 1974, denunciei, fui militar na Guiné, durante 27 meses e meio, com términos da comissão a 04 de abril de 1974, data de desembarque em Lisboa. Na Guiné, estive integrado no BART 3873, sediado no setor Leste, na região de Bambadinca. Do nosso Batalhão, faziam parte as companhias CCS, 3492, 3493 e 3494, que ocuparam os aquartelamentos, respetivamente, de Bambadinca, Xitole, Mansambo e Xime. Em Bambadinca, tínhamos um centro de formação de tropas nativas, e, afeta à CCS, uma companhia de intervenção nativa, CCAÇ 12, comandada pelo capitão Bordalo, RANGER, que viveu os seus últimos anos em Lamego, sendo os mais graduados do continente. Posteriormente, a CCAÇ 12, foi rendida por uma outra companhia de nativos, na sua totalidade, a CCAÇ 21, comandada pelo magnifico tenente Jamanca.
Ainda como tropas nativas, tínhamos múltiplos pelotões de milícias, em autodefesa, nas zonas de Mato Cão, Amedalai, Finete, Fá Mandinga, Missirá, Enxalé, no reordenamento de Nhabijões, Etc…
Bambadinca
Durante o Comando Chefe do General Spínola, na Guiné, foi desenvolvida toda uma ação Psicológica, junta das populações  nativas e até das nossas tropas, onde destaco a máxima “Guiné  de Hoje Guiné Melhor”, e houvesse daquele que agredisse, fisicamente ou verbalmente, um nativo… Mais se dizia nessa “Psíco”, “juntem-se a nós, porque quando a independência chegar, vocês serão os futuros detentores do poder que vier a ser constituído”.

Edgar Soares, 1972
Foi então naquele contexto militar, e já com o General Bettencourt Rodrigues a render o General Spínola, que ali permaneci com os meus camaradas de armas.
Após 15 dias do regresso, por términos de comissão, aconteceu o 25 de Abril, estando eu nesse mesmo dia, por coincidência, no quartel do RAP 2, em Gaia, quando chegou a notícia que estava a haver um levantamento militar em Lisboa…
Muito rapidamente, notou-se o Povo a começar a vir para a rua e então logo se começaram a ouvir alguns gritos, que se foram tornando muitos: - “liberdade, abaixo o fascismo, morte à Pide…” e muitos outros slogans que as circunstâncias impunham…
Lembro-me de estar no meio de um tiroteio, na Av. Rodrigues de Freitas, frente à biblioteca, em S. Lázaro e ter socorrido uma jovem que ao fugir tropeçou, bateu com a cabeça na berma do passeio e desmaiou. Os tiros vinham da esquadra da PSP e de uma viatura da mesma polícia que, entretanto, estava a ser apedrejada pelos populares…
Sim! Sim! Sim! Viva o 25 de Abril, enquanto movimento de uns tantos militares, “os capitães de abril”, em luta pela liberdade intelectual e moral de um Povo amordaçado no falar, no dizer, de pensamento condicionado pela censura, com toda a sua juventude refém de acontecimentos inopinados, motivados pela obrigatoriedade do cumprimento do serviço militar…
Entretanto, decorridos os primeiros entusiasmos, eis que o poder, depois de ter passado pela rua, “MFA/POVO/POVO/MFA”, é entregue aos supra interesses “manipulados e manipuláveis” dos emergentes políticos, que, com retoricas, quais as mais iluminadas, perante um povo vazio de doutrinas ideológicas, mais preparado para um seguidismo fácil, e foi assim que vimos o processo a evoluir, abruptamente, com vários ziguezagues, até ao ponto aonde eu agora quero chegar. A descolonização.
BAMBADINCA
Com aquele processo de descolonização, das nossas então províncias ultramarinas, surgiu, quanto a mim, uma das maiores vergonhas da nossa história…. Após guardarem os CRAVOS, eis que se fez jorrar o SANGUE dos “mártires portugueses agora anónimos” do 25 de Abril…
Sabiam que de um momento para o outro, àqueles portugueses, tropa nativa, que sempre estiveram na linha da frente,  ao nosso lado, a lutar tal como nós, por ideias e ideais um tanto desconhecidos de muitos, mas que nos eram impostos, ao serviço da PÁTRIA, Lhes foram retiradas todas as armas e mais elementos de defesa, pessoal e coletiva? Sabiam que aqueles autênticos guerrilheiros foram deixados ficar para trás, pela sua Pátria de então, entregues única e exclusivamente às suas sortes, acabando, na sua grande maioria, foragidos nas matas? Sabiam que os nossos políticos outorgantes da Independência ao PAIGC, os deixaram sem qualquer obrigatoriedade de indulto impositivo, para não terem de enfrentar os pelotões de fuzilamento, do inimigo de outrora? Sabiam que todos aqueles que estiveram identificados como nossos tropas ou aliados, foram passados a bala, em fuzilamentos individuais e coletivos, sem qualquer possibilidade de defesa, vindo a ser sepultados uns e enterrados outros, quais campos nazis, em balas comuns, quantos deles, soldados sargentos e oficiais, “Tenente JAMANCA”, com condecorações múltiplas por atos e atitudes de distinção ao serviço da PATRIA? Pois tudo isto se passou e muito mais, o que considero a vergonha do “25 de ABRIL” …
Guiné > Brá > 1966 > O Alf Mil Briote, à esquerda, ladeado de dois dos primeiros comandos africanos, o Jamanca e o Joaquim - Foto do blogue: Luis Graça & camaradas da Guiné

Mas, reparem os comentadores e nossos historiadores, que não foram só os nossos soldados, sargentos e oficiais nativos que enterramos ingloriamente!!!  Que havemos de pensar e dizer de todos aqueles que um dia também daqui partiram com os mesmos propósitos militares, ao serviço da PÁTRIA, e lá tombaram, ou regressaram, com problemas de natureza múltiplas, outros tantos com as mesmas condecorações, pelos mesmos atos de distinções??? Não estará na hora de nos perguntarmos, portugueses, se tudo pelo que passamos, os de cá e os de lá, valeu a pena?...

É bem capaz que os maiores culpados dos acontecimentos supra, sejam os do velho regime, “Fascismo”, ate por não terem sabido ou querido resolver os problemas da independência a seu tempo!!! Na realidade, cada um por si, se me afigura que o socialismo e as outras ditas ideologias, democráticas, também não estiveram em nada melhor na gestão daquela “herança”, e bem pior, desonraram-se e desonraram historicamente todo um Povo... “Por negligência agnóstica?”, Não acredito. Com certeza, outros valores que a razão ainda quer desconhecer, estiveram por de trás de todos aqueles acontecimentos…
Uma coisa  é certa, toda uma geração, que também é a minha, terá que ficar com a amargura dos factos  da história não contada,  desvirtuada no nosso desempenho de serviço à dita PÁTRIA, ficando-nos sem dúvida, como maior consolação, as muitas amizades que ao tempo fomos acumulando, lá e cá, e que vamos alimentando nos momentos que promovemos dos sãos convívios dos velhos “guerrilheiros”…  

Como dizia o Camões, para o bem e para o mal: - “…DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS TENS” (?)… “Glória aos vencedores, honra aos vencidos”!... Descansa em Paz JAMANCA e Todos Aqueles que te acompanharam na dita e na desdita!...

Alvarenga 25 de abril de 2020
Edgar Soares


terça-feira, 21 de abril de 2020

P396 - COMUNICADO: Cancelamos a realização do XXXV encontro/convívio da CART 3494 que estava programado para o dia 06 de junho de 2020. NOVA DATA: 05 de junho de 2021


 

Camarada,

Tendo em conta a situação que estamos a atravessar devido á crise pandémica do novo CORONAVÍRUS Covid-19, decidimos cancelar o nosso encontro/convívio, para o bem da nossa saúde, que estava agendado para o dia 06 de junho 2020, assim entendemos marcar desde já o dia 05 de junho de 2021 a realização do 35º encontro/convívio, no mesmo local que estava programado, ou seja, em MONTEMOR-O-VELHO junto ao Castelo para comemorar os 47 anos da nossa chegada da Guiné.

Vamos vencer esta guerra, protege-te, fica em casa, lembra-te que somos de alto risco. Resistiremos!

21ABR2020
SdC


Último poste, 04ABR2020: [EFEMÉRIDES] FOI À 46 ANOS QUE A CART 3494 REGRESSOU DA GUINÉ, ONDE CUMPRIU 27 MESES DE COMISSÃO DISTRIBUÍDOS POR BOLAMA (IAO), XIME, ENXALÉ E MANSAMBO [03ABR1974/03ABR2020]

sábado, 4 de abril de 2020

P395 - [EFEMÉRIDES] FOI À 46 ANOS QUE A CART 3494 REGRESSOU DA GUINÉ, ONDE CUMPRIU 27 MESES DE COMISSÃO DISTRIBUÍDOS POR BOLAMA (IAO), XIME, ENXALÉ E MANSAMBO [03ABR1974/03ABR2020]


Aeroporto de Bissalanca, Guiné - Foto de Antero Santos ex Fur. Milº CCAÇ 3566 e CCAÇ 18
Faz hoje precisamente 46 anos (03ABR1974/03ABR2020) que a CART 3494/BART3873 embarcou no aeroporto de Bissalanca na
Guiné Bissau
num Boeing com destino a Portugal Continental por ter terminado a sua comissão, ao serviço do Estado Português. Foram 27 meses numa zona que era fortemente atacada pelo inimigo de então (PAIGC), distribuídos por Bolama (IAO), Xime, Enxalé e Mansambo. Após a chegada ao aeroporto Figo Maduro em Lisboa, gerou-se uma ansiedade, uma pressa em abraçar os seus ente-queridos. Recordo a azafama para entregar o fardamento no quartel em Lisboa e sair dali o mais rápido possível, não me lembro de me ter despedido de alguém em especial.
Fiz a viagem de taxi juntamente com o Fur. TRMS Domingues, Fur. Dias e Fur. Enf.
José Carvalhido da Ponte
. Mantenho o documento de transporte de comboio do Ministério do Exército, da estação de Stª Polónia/Viana do Castelo. Foi uma viagem monótona, paramos para jantar, (não me recordo onde) também em Coimbra para tomar café. Muitos pensamentos durante a viagem sobre o dia seguinte, como seria o reencontro com a família, o trabalho, reconstruir a vida etc. Se fosse hoje preferia ter feito a viagem de comboio. Mas, pronto, já passaram 46 anos, 34 camaradas já não se encontram entre nós, incluindo os quatro que lá ficaram. É a lei da vida. Muita saúde para todos. Agora temos de vençer um inimigo traiçoeiro e muito perigoso que é esse terrível vírus COVID-19 que anda por aí. Abraços.
Protejam-se.



Enxalé, 1972
Mansambo 1973