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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

P 143 - OS ÚLTIMOS MILITARES PORTUGUESES A ABANDONAR A GUINÉ

MSG de Luís Vaz, filho do último CEM/CTIG Cor. Henrique Gonçalves Vaz) com data de: 21FEV2012

Caros Editores:

Conforme o prometido, segue em anexo finalmente, o meu artigo sobre "OS ÚLTIMOS MILITARES PORTUGUESES A RETIRAR DA GUINÉ (Dia 14 de Outubro de 1974)" -“RETIRADA FINAL DO TEATRO DE OPERAÇÕES  DA GUINÉ”
.
Para este artigo, além de consultar as notas pessoais do meu falecido pai, também entrevistei um primo meu, que era na altura marinheiro radio-telegrafista da "guarnição do Patrulha Lira (LFG Lira), com quem estive ainda na Guiné, mas que ficou lá até ao último dia, o dia 14 de Outubro de 1974, juntamente com muitos outros militares, um deles, o meu falecido pai, o último CEM/CTIG. Este meu primo, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, relatou-me na 1ª pessoa, as últimas horas  da retirada para o Navio UIGE, dos militares portugueses ainda presentes nesse dia em terra, para assegurarem a última cerimónia, o "Arrear da Bandeira Portuguesa", bem como me forneceu um conjunto de fotografias, que ilustram o "Artigo" e que poderão ser publicadas. Espero que não tenha "distorcido muito" estas últimas horas da nossa "Retirada Final" da Guiné, se o fiz, foi sem intenção. Por outro lado, peço desculpa não "elencar o nome" de todos aqueles militares que nesse mesmo dia, "deram o seu máximo" para não Manchar o Bom Nome da Nação, numa altura difícil da nossa longa história... se um de vós lá estava, então deixe aqui "o seu depoimento", pois assim enriquecerá este relato de mais um dos "episódios históricos da descolonização portuguesa".

Grande Abraço
Luís Gonçalves Vaz


(Dia 14 de Outubro de 1974)

“RETIRADA FINAL DO TEATRO DE OPERAÇÕES DA GUINÉ”

A ponte-cais em T, em Bissau, imagem tirada de bordo do navio Uíge,  onde se podem ver os últimos militares a aguardarem a vez de embarcarem. Na imagem são visíveis as viaturas GMC, Unimog,  Willys, viaturas do Exército características da época.  Ao fundo, a avenida marginal para o Pijiguiti, e o Forte da  Amura. Fotografia de Alberto Lima Santos in: http://especialistasdaba12.blogspot.com.





Os últimos Aquartelamentos a serem entregues ao PAIGC, foram o “Complexo militar de STª Luzia”, onde se encontrava o QG/CTIG (Quartel General do Comando Territorial Independente da Guiné), e o QG/CCFAG (Quartel General do Comando-chefe das Forças Armadas da Guiné) instalado no histórico Forte da Amura, que se localiza mesmo em frente à ponte-cais em Bissau (ver figura). A entrega destes dois últimos redutos das Forças Armadas Portuguesas na Guiné, foram  “negociados” em 11 de Outubro (apenas 3 dias antes da saída dos últimos militares portugueses deste território),  numa reunião  no Forte da  Amura com os comandantes do PAIGC, Gazela,  Bobo Keita e o comandante  Correia,  sob a coordenação do então CEM/CTIG (Chefe do Estado-Maior do CTIG) coronel Henrique Gonçalves Vaz.  Os “Planos  de Entrega destes Aquartelamentos”, foram realizados pelo Coronel CEM/CTIG, coronel Henrique G. Vaz com a colaboração do sr. Major Mourão, e entregues  ao Brigadeiro Fabião , no dia 10 de Outubro de 1974, um dia antes da reunião com os comandantes do PAIGC.  A entrega do “complexo militar de STª Luzia” foi efectuada no dia 13 de Outubro, pelas 15 horas, enquanto o Forte da Amura, o último “reduto militar português” a ser entregue, foi entregue apenas no dia 14 de Outubro, o dia previsto para a “retirada final”, e reservado para o embarque do que restava das tropas portuguesas na Guiné. Como tal foi concentrado aí na véspera da partida, o último contingente do Exército Português .

A lancha de fiscalização grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais,  poucos dias antes da “retirada final” em 14 de Outubro de 1974. (Fotografia do marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz)
O ex-marinheiro radiotelegrafista , Manuel Beleza
Ferraz, (da guarnição do Patrulha Lira), testemunha da
Missão“Retirada Final” da Guiné, em 14/10/1974
O que vos vou passar a relatar, será uma pequena narrativa, dos últimos momentos da nossa “retracção do dispositivo militar”, deste último reduto de militares portugueses, para os navios da Armada Portuguesa e para o navio Uíge (o navio Niassa já se encontrava ao largo de Bissau) , que se encontravam frente à Ponte-cais, mas a alguns metros do cais, com os motores ligados (pairavam todos os navios). Esta descrição foi-me feita pelo meu primo  e ex-marinheiro radiotelegrafista da Armada Portuguesa, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, que fazia parte da guarnição da LFG (Lancha de Fiscalização Grande) Lira, um dos navios que fez a segurança de rectaguarda, durante o embarque dos últimos militares portugueses na Guiné.
Foto actual;
Ex-marinheiro radiotelegrafista 812/70
Manuel Beleza Ferraz
No dia 14 de Outubro, decorreu a última cerimónia de “Arrear da Bandeira Portuguesa”, ao qual se seguiu o “Hastear de Bandeira da República da Guiné-Bissau”, como tal nesse mesmo momento, todo o que restava do contingente militar português, encontrava-se agora em território estrangeiro. Nessa cerimónia encontrar-se-iam o Governador (Brigadeiro Carlos Fabião), o Comandante Militar (brigadeiro Galvão de Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (coronel Henrique Gonçalves Vaz), outros oficiais, alguns sargentos e praças. Os primeiros depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios que se encontravam ao largo no estuário do Rio Geba, seguiram para o Aeroporto, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança. Mal acabou a cerimónia referida anteriormente, e segundo testemunho do ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Aurélio A. Beleza Ferraz, que se encontrava nesta altura na LFG LIRA, todas as guarnições dos nossos navios que se encontravam na zona, estavam por ordens superiores, em posição de combate (para qualquer eventualidade), estando todos os operacionais equipados com coletes salva-vidas, capacetes metálicos e as Bofors (peças de artilharia antiaéreas de 40 mm) sem capa e municiadas, prontas a realizar fogo de protecção à retirada das nossas tropas, que ainda se encontravam em terra. Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a “segurança de rectaguarda” mais próxima, ás tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira. Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Quanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “retirada Final”.

Evacuação de pessoal civil de Jemberem ou de Gadamae (?), passagem dos civis de uma lancha de desembarque, para a LFG Lira, em pleno Rio Cacine, muito abaixo da “marca lira”. (Fotografia do ex-marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz)
Após o “Arrear da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos 3 Ramos das Forças Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida, foram transportadas em Zebros e LDM (lanchas de desembarque médias) para o Navio Uige, que os aguardava no meio do Rio Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento (pairavam) por razões de segurança.

4 Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG), uma pequena, e uma LDM na Ponte-Cais em Bissau, no ano de 1974, poucos dias antes da “retirada final” do dia 14 de Outubro do mesmo ano. É visível o navio Uige ao fundo, preparado para transportar os últimos militares portugueses da Guiné. (Fotografia do ex-marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz).
O ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão, aos Comandantes das duas LFG (Órion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu comandante, 1º Tenente Martins Soares. Como tal, os comandantes destes três navios  que constituiam nesse dia,  a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas, “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40 mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de rectaguarda á retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o UIGE. Felizmente tudo correu bem, não sendo preciso fazer fogo nenhum, já que a retirada se desenrolou como o previsto, sem altercação de qualquer natureza. De seguida, no final dos transbordos, os Zebros e as lanchas (LDM) foram presas numa boia em frente ao cais (abandonadas), e imediatamente a “Flotilha portuguesa”, escoltou  o  navio Uige e o Niassa (este já navegava mais à frente) até águas internacionais, seguindo a maioria dos navios da Armada para Cabo-Verde, de onde alguns deles, partiriam pouco depois, em direcção a Angola.
As Tropas portuguesas na ponte-cais, em Bissau a prepararem-se para embarcar no Navio Uíge, com destino a Lisboa. Fotografia de Alberto Lima Santos in: http://especialistasdaba12.blogspot.com

O marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, ainda informou que a “flotilha” que rumou em direção a Cabo-verde, além dos navios já referidos (NRP Comandante Roberto Ivens, LFGs  Órion e Lira e patrulha Cuanza) faziam parte também as LDGs “Ariete”,“Alfange” e “Bombarda”,  tendo estes navios da Armada atracado em 20 de Outubro no porto de Mindelo na ilha de  S. Vicente, Cabo Verde.

A comitiva constituída pelo Governador (Brigadeiro Carlos Fabião), o Comandante Militar (brigadeiro Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (coronel Henrique Gonçalves Vaz),  bem como alguns outros oficiais do Estado-Maior, sargentos e praças, depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios, que se encontravam ao largo do estuário do Rio Geba, e assegurando-se que tudo tinha corrido sem problemas e de acordo com o previsto nos “Planos de Retirada”, elaborados pelo CTIG/CCFAG que nesta altura, se afirmava como o único Comando das Forças Armadas Portuguesas neste TO da Guiné, seguiram directamente para o Aeroporto de Bissalanca, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança.

Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que no dia 14 de Outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné. Estima-se que seriam algumas centenas de militares dos 3 Ramos das Forças Armadas Portuguesas. Neste grupo estavam representadas as várias especialidades do navio, nomeadamente, artilheiros, eletricistas, telegrafistas e manobras. Este navio, o NRP Lira, sob o comando do 1º Tenente Martins Soares, teve um papel importante na missão de “Retirada Final”, já que era o navio de apoio de rectaguarda que se encontrava mesmo em frente à Ponte-cais de Bissau, como tal o navio mais próximo do Forte da Amura. O marinheiro radio-telegrafista, Manuel Beleza Ferraz é o que está a olhar para o fotógrafo.
Às 23 horas do dia 14 de Outubro de 1974, estes militares serão os últimos a retirar da Guiné, nesse momento estiveram presentes alguns Comandantes do PAIGC, que quiseram despedir-se dos “seus antigos inimigos”, e assim foi o Fim da colonização da guiné com cerca de 500 anos. Mas antes, de finalizar este artigo, gostaria aqui de referir o árduo trabalho atribuído ao último CEM/CTIG, Coronel Henrique Manuel Gonçalves Vaz, já que foi o responsável, por “despacho escrito do Brigadeiro/ Governador”, Carlos Fabião, pela elaboração dos “Planos de Retirada do nosso Exército”, da “Carta sobre a Redução de Efectivos e Comissões Liquidatárias”, dos “Planos de entrega dos Aquartelamentos da Ilha de Bissau”,  do “Estudo da Comissão Liquidatária do QG/CTIG em Lisboa”,  das "Cargas dos aviões", entre outras responsabilidades .

Enfim o Brigadeiro Carlos Fabião, determinou que este oficial do Corpo do Estado Maior e Chefe do Estado-Maior do CTIG/CCFAG, coronel Henrique Gonçalves Vaz, se responsabilizasse por todos estes assuntos, como tal fica aqui a minha homenagem a ele, bem como a todos os oficiais, sargentos e praças, que sob o seu comado, o ajudaram a realizar essa importante tarefa, nomeadamente o sr. Tenente-coronel de Art.ª Joaquim José Esteves Virtuoso, o  sr. Major Mourão, o sr. Capitão Lomba, e outros oficiais, sargentos e praças, que colaboraram nesta última missão militar no TO da Guiné, a “Retirada Final”, a todos eles, a minha homenagem, o meu respeito e uma grande admiração, pois ficaram neste episódio da longa história portuguesa.
20 de Fevereiro de 2012
Luís Filipe Beleza Gonçalves Vaz (filho do último CEM/CTIG)







Nota do Autor: Um agradecimento especial ao meu primo e ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, marinheiro da guarnição de um dos últimos navios a abandonar as águas da Guiné, o Patrulha Lira, pois sem o seu testemunho, não poderia ter dado parte importante das informações, relatadas nesta minha pequena narrativa sobre a “retirada final da Guiné”. A ele o meu muito obrigado.

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