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sexta-feira, 6 de maio de 2011

P106 - "Liderei um encontro com guerrilheiros" - Amílcar José das Neves Ventura, Guiné 1973/1974

1. Mensagem publicada no jornal "CORREIO DA MANHÃ" com a devida vénia.
                                             
A Minha Guerra - Amílcar José das Neves Ventura, Guiné 1973/1974
Ex. Furril Mil. Batalhão de Cavalaria 8323 ("Os Cavaleiros de Gábu")
GUINÉ 1973/74
22 de Fevereiro de 2009
Amílcar Ventura, ex. Fur. Mil.
"Liderei um encontro com guerrilheiros"
Passei três meses em Santarém e seis em Sacavém. Tirei aqui a especialidade de mecânico auto, na Escola Prática de Serviço de Material. Em Abril, antes de partir, fui para a Cavalaria 3, em Estremoz
No dia 22 de Setembro de 1973 embarquei no navio Niassa com destino a Bissau. A viagem demorou seis dias: para nós, sargentos, foram umas férias, porque os nossos camarotes eram bons, mas os soldados iam no porão, pior instalados do que animais. Quando chegámos, seguimos numas lanchas de transporte de gado com destino à ilha de Bolama, onde fizemos a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, que durou um mês.
Voltámos a Bissau e no dia 31 de Outubro subimos o rio Geba até Xime, seguindo depois em coluna por Bambadinca, Bafatá e Nova Lamego, até Pirada, no Leste, na fronteira com o Senegal. Aqui, rendemos um batalhão que já estava na Guiné há 28 meses. As companhias do meu batalhão foram distribuídas pelos aldeamentos em volta de Pirada e a minha, a primeira, foi para Bajocunda, a 11 km.
O martírio de cinco meses começou no dia 13 de Dezembro, quando ficamos sem o sapador de minas Fernando Almeida, num rebentamento. Passados cinco dias, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) atacou Amedalai, uma tabanca a 5 km de nós. Só lá estavam civis e, como também fomos atacados, não pudemos ir em seu socorro. Queimaram quase toda a tabanca, como represália por a população não lhes ter dito que nós lá tínhamos estado em patrulha.

No Dia de Natal de 1973, o capitão Ângelo Cruz quis fazer uma patrulha. Eu, apesar de muito contrariado, arranjei-lhe as viaturas. No dia 18 de Dezembro, quando os guerrilheiros atacaram Amedalai e Bajocunda, deixaram na retirada minas espalhadas pelo campo. Uma rebentou à passagem de um macaco, outra matou uma vaca. Quando a coluna ia a passar perto, o capitão quis ver o local. Infelizmente, teve azar e pisou uma mina. Ficou sem uma perna abaixo do joelho e com a outra muito maltratada. O guia e três soldados também ficaram feridos.
No dia 7 de Janeiro de 1974, numa emboscada a uma coluna de viaturas, que ia levar comida a um pelotão da minha companhia, que estava em Copá, a 21 km de Bajocunda, morreram o Sebastião Dias e o José Correia, e duas Berliés foram destruídas: uma rebentou uma mina e a outra ardeu.
Em Março entrou em acção a aviação. Copá estava há vários dias debaixo do fogo e os nossos militares quase não dormiam. Pedimos apoio aéreo, mas o avião Fiat que veio em nosso auxílio foi abatido com um míssil terra-ar. Os militares já estavam a ficar malucos e as chefias ordenaram-nos que abandonássemos Copá. Tivemos de fazer uma operação de resgate de grande envergadura, com mais de 300 soldados, porque se não as tropas do PAIGC matavam-nos a todos.
Nessa operação, mais a Norte, limpando a zona de guerrilheiros, seguia o célebre grupo do alferes Marcelino da Mata, comandado pelo capitão pára-quedista ‘Astérix’. Numa emboscada ao PAIGC, conseguiram apanhar aos guerrilheiros uma ambulância russa, utilizada no transporte de feridos. Eu fui contactado pelo meu comandante, o coronel Jorge Mathias, para ir buscar a viatura, pois o grupo do Marcelino não a conseguia pôr a trabalhar. Disse-me que a ambulância estava na coluna que ia para Copá, só que quando me dirigi, com o soldado mecânico Grou para o helicóptero, o piloto, meu conhecido, disse-me que a viatura estava no Senegal. E era preciso trazê-la a todo o custo, mesmo com perda de vidas humanas, pois seria a primeira apanhada no Ultramar. Com a ajuda de um héli-canhão conseguimos trazer a ambulância até à coluna, mas sempre em alerta máximo, pois sabíamos que as tropas do PAIGC nos seguiam com a intenção de resgatar a viatura.
Tivemos de passar uma noite no mato, junto da coluna. De manhã, partimos em direcção a Bajocunda, com o grupo do Marcelino a fazer protecção à viatura. Ele avisou-me de que íamos ter uma emboscada, o que viria a acontecer. Não se registou qualquer baixa e, com esta operação, conseguiu-se resgatar o pelotão que estava em Copá, sem registo de mortos ou feridos.
Entretanto, veio o 25 de Abril de 1974. Tivemos o primeiro encontro com as tropas do PAIGC da zona passados dois dias. Sinto um grande orgulho por ter liderado esse encontro, onde os guerrilheiros nos contaram como faziam os ataques. Hoje ainda guardo um gorro que troquei por uma lente com o comandante do PAIGC, que já conhecia há muito tempo. No dia 22 Agosto de 1974 entregámos Bajocunda. Depois seguimos para Bissau e no dia 9 de Setembro regressei à minha Pátria.
AMIGO EVITOU QUE FOSSE PARA A GUERRA DE MOÇAMBIQUE
Amílcar José das Neves Ventura nasceu a 9 de Dezembro de 1951, em Silves. Tem o 9.º ano de escolaridade (Curso de Formação de Serralheiro). Entre Novembro de 1974 e Dezembro de 1984 foi chefe de armazém da Cooperativa de Retalhistas de Mercearias 'Alicoop', em Silves, e depois fotógrafo profissional por conta própria, durante 24 anos. Neste período trabalhou para vários jornais, entre os quais o ‘Record’ e o Correio da Manhã. Tem dois filhos, de 34 e 30 anos. Gosta de caçar e pescar e é coleccionador de tudo o que tenha o emblema do Sporting. Tem perto de 800 destes objectos. Hoje é fiel de armazém na Câmara de Silves. Um amigo no Ministério do Ultramar evitou que fosse para a guerra em Moçambique, considerada pior do que na Guiné

1 comentário:

Amilcar Ventura Ex. Furriel Mil da 1ª comp BCAV8323 disse...

Obrigado Amigo pela publicação deste comentário.

UM ABRAÇO DO TAMANHO DA GUINÉ PARA TODOS OS EX-COMBATENTES