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segunda-feira, 11 de maio de 2015

P237 - CART 1690 GEBA 1967 - Mortos em Sinchã Jobel



Visitando o meu arquivo de vários documentos recebidos relacionados com a Guerra da Guiné, reli este com data do ano de 2007 transcrito abaixo, do António Manuel Marques Lopes, coronel DFA na situação de reforma, ex. Alf. Milº da CART 1690, GEBA 1967 e da CCAÇ 3, BARRÔ 1968
A CART 1690 foi formada no RAL-1 Amadora

De: A. Marques Lopes
Enviado: Terça-feira, 30 de Outubro de 2007 20:01


 MORTOS EM SINCHÃ JOBEL

Por: A. M.Marques Lopes, Cor. DFA na situação de reforma


Na CART1690 foram dados como "desaparecidos em campanha" o alferes Fernando da Costa Fernandes, o soldado Agostinho Francisco da Câmara e o Soldado António Domingos Gomes. Sabemos que "desaparecido" era o termo para designar, também, aqueles cujos corpos não se recuperavam, e podemos aceitar que assim fosse, dado que até podiam ter ficado no terreno, mas feridos.

Mas, muito tempo depois, e acabada a guerra, regressados a casa muitos desertores e alguns que se passaram para o outro lado (sem estar a pôr em causa as suas razões), os nomes destes homens deviam constar da lista dos mortos em combate na Guiné, porque assim sucedeu de facto.


O alferes Fernando da Costa Fernandes morreu em Sinchã Jobel em 19 de Dezembro de 1967, durante a Operação Invisível. Diz quem fez o relatório desta operação: "Começou também nessa altura o IN a fazer fogo com o Mort 82, com que abateu o alferes miliciano Fernandes; verifiquei que nessa altura já o Destacamento B tinha as seguintes baixas: Alferes Miliciano Fernandes, 1º Cabo Sousa, da CART 1742, e que estava a fazer fogo com a Metralhadora Ligeira MG-42, soldado Metropolitano Fragata e um soldado milícia que não consegui identificar, além de vários feridos. Procurei trazer o alferes miliciano Fernandes para a retaguarda e quando o puxava pelos pés, fui surpreendido por um grupo IN, que corriam em direcção aos furriéis milicianos Marcelo e Vaz e em minha direcção gritando que nos iriam apanhar vivos.

"Note-se que neste grupo IN avistei elementos brancos os quais usavam o
cabelo bastante compridos (a cobrir as orelhas), facto também confirmado
pelos já citados furriéis milicianos. Devido a tal tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar."

Mas morreu também nesta operação o soldado Vito da Silva Gonçalves, que
foi dado como "morto em combate", porque o corpo foi recuperado. Mas
também não vem nessa lista! E porque é que não foi dado como "desaparecido em campanha" o soldado Metropolitano Fragata, o Manuel Fragata Francisco, que também ficou nesta operação?


É uma história das teias que o império tecia. Eu conto (o que também contei em "As Duas Faces da Guerra"): ele foi crivado com uma roquetada
nessa operação, mas vivo, e os guerrilheiros do PAIGC levaram-no numa maca, atravessando a mata do Oio, o rio Mansoa e o rio Cacheu, até ao hospital que servia o PAIGC em Ziguinchor, no Senegal, onde, coincidência, foi tratado pelo doutor Pádua (actualmente no Hospital Pulido Valente, em Lisboa), que se tinha passado para o outro lado. A PIDE sabia disso, claro. Parece lógico que se pense que teriam feito o mesmo com o alferes Fernandes se ele tivesse ficado vivo. Mas foi muito claro que estava morto. 

O soldado Agostinho Francisco da Câmara (e não Camará...) morreu também em Sinchã Jobel em 16 de Outubro de 1967, aquando da Operação Imparável. O mesmo relator disse assim: "O nosso bazuqueiro (passe o termo) Soldado Agostinho Camará que estava a fazer um fogo certeiro, foi atingido mortalmente (note-se que este L.G.F. era o único que estava a fazer fogo). Foi o Soldado enfermeiro Alípio Parreira que se encontrava próximo e que estava a fazer fogo com a ML MG-42 (para a qual o referido soldado se oferecera como voluntário) pegar no LGF e continuar a fazer fogo com ele. Nesta altura tive que pegar na MG-42 e fazer fogo com ela.


Logo a seguir tive que me dirigir à retaguarda a fim de falar com o PCV que me chamava. Quando regressei à frente verifiquei o já referido soldado enfermeiro recomeçara a fazer fogo com a ML MG-42 que passado mais alguns momentos ficou impossibilitado de fazer fogo devido a uma avaria, ao mesmo tempo que o soldado enfermeiro e o municiador eram feridos por estilhaços."

"Atingido mortalmente" não quererá dizer que ficou morto?... Com essa
expressão a língua portuguesa não cometeu nenhuma traição. Ele morreu lá, de facto. Mas o relatório desta operação diz mais à frente: "Ainda foram abatidos a tiro de G-3 2 elementos IN um destes pretendiam agarrar o Soldado Armindo Correia Paulino". E o soldado Armindo Correia Paulino também lá ficou. Mas há dúvidas se ficou morto ou vivo: há quem diga que foi agarrado e há quem diga que morreu. De qualquer modo foi considerado como "retido pelo IN", mas não foi libertado (vejam a lista dos que foram libertados aquando da operação "Mar Verde").
O meu grupo de combate

O soldado António Domingos Gomes era um guineense de Bissau, do"recrutamento da Província", portanto, e era o guarda-costas do capitão da CART 1690. Sei que morreu às 8 horas do dia 21 de Agosto de 1967 na picada de Geba para Banjara. Ficou feito em bocados por uma mina anti-carro, espalhado pelas árvores e pela mata. Eu e o meu guarda-costas, o Lamine Turé, ficámos feridos e o capitão, que quis ir comigo nesse dia, também ficou muito ferido. Na esperança de ainda o salvar, fui rapidamente para Bafatá, onde havia o médico do batalhão. O Domingos Gomes lá ficou espalhado nas bermas da picada, e o capitão acabou por morrer. Não há relatório da ocorrência, por razões óbvias, mas eu vi e dei testemunho disso, assim como os que me acompanhavam. O Domingos Gomes morreu. Parece brincadeira de muito mau gosto, mas deram-no como "desaparecido em campanha".

Junto-vos um croqui do monumento que foi erigido pela CART1690 aos seus
mortos. Foi este monumento que tanto emocionou a Diana Andringa.



Fotogaleria















3 comentários:

Anónimo disse...

Agradeço isto,meu amigo. Alguns são factos que escrevi em "Cabra-cega". É bom que todos conheçam, é verdade.
Abraço
A. Marques Lopes

Sousa de Castro disse...

Neste texto desmistifica-se que nem sempre o que se escrevia nos sitreps (relatórios) enviados para o comando correspondiam à verdade.

A. Castro

Lucineide Brito disse...

Gostei dr ler,um abraço pra amigo ML...