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sábado, 20 de abril de 2013

P175: (IV) UMA PARTURIENTE QUE NÃO DEU À LUZ E UM (AUTO) PARTO NÃO ASSISTIDO [Entre duas emoções fortes vividas no mesmo dia em 1973]



Texto com data de: 19ABR2013 do nosso camarada d’armas ex. Fur. Milº Op. Esp./Ranger, Jorge Alves Araújo.

Caríssimo Camarada Sousa de Castro,
Os meus melhores cumprimentos.


Depois de uma pausa de cerca de sete meses, eis que tomei a iniciativa de escrever mais umas linhas abordando mais uma ocorrência que consta do meu currículo vivido na Guiné.Trata-se de uma resposta ao desafio proposto pelo nosso camarada Luís Graça, pelo que este texto, com os ajustes adequados, irá, também, estar disponível no blogue da «Tabanca Grande».
Espero ter feedback aos pedidos solicitados no fnal do mesmo.
Obrigado!


Com um forte abraço,
Jorge Araújo


GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
UMA PARTURIENTE QUE NÃO DEU À LUZ
E UM (AUTO) PARTO NÃO ASSISTIDO
- Entre duas emoções fortes vividas no mesmo dia em 1973 - 


 Influenciado pela sugestão do camarada Luís Graça, editor do Blogue «Luís Graça & Camaradas da Guiné», que nos lançou o mote para a narrativa de (mais) episódios ocorridos durante a comissão de serviço na Guiné, mas agora na especialidade de «parteiros/aparadeiros…», decidi dar um passo em frente e, recorrendo à minha memória de longo prazo, pois já fez ou vai fazer quarenta anos de gravação, dar-vos conta de uma história que acabou por se transformar em duas, como o próprio título sugere, e que foi vivida por alguns camaradas da CART 3494.

IUMA PARTURIENTE QUE NÃO DEU À LUZ

Num domingo do mês de Abril ou Maio de 1973, que não consigo precisar, agora no aquartelamento de Mansambo para onde a nossa Companhia se transferiu após a sua saída do Xime em Março desse ano, o meu pelotão estava de «intervenção».
Por volta das 08:00 horas, a central rádio da Companhia recebe uma mensagem dando conta de uma mulher guineense, localizada numa tabanca a cerca de doze quilómetros de distância, em final de tempo de gravidez, estava em dificuldades no seu processo de trabalho de parto, devido à criança estar atravessada no seu ventre, apelando por auxílio urgente.
Para o desempenho desta missão específica foi convocado o nosso camarada ex-Furriel (mesinho) Carvalhido da Ponte (também ele muito activo no nosso Blogue) por ser o mais especializado na matéria. Como não podia ir sozinho (ninguém o deixaria fazer!) reuni os elementos do meu GComb e em duas viaturas Unimog lá fomos em socorro de quem o solicitara. O itinerário foi todo ele percorrido em picada, e parte dele feito a pé, por razões de segurança, como não poderia deixar de ser.
Chegados ao destino, os elementos do GComb foram-se posicionando ao longo do perímetro das moranças, mas o mais operacional era agora o camarada Carvalhido da Ponte, pois tinha de arregaçar as mangas e pôr-se a trabalhar para salvar uma vida .. ou as duas. O tempo ia passando e … nem bebé, nem luz, nem ambos.
Enquanto aguardávamos pelas notícias positivas vindas do Carvalhido da Ponte,
eis que:

IIUM (AUTO)PARTO NÃO ASSISTIDO
Neste tempo de expectativa e, simultaneamente, de descanso mais ou menos activo, em que era obrigatório estar-se atento a tudo o que era passível de ser observado à minha/nossa volta, por tratar-se da primeira vez que aí nos deslocávamos, local cujo nome não consigo recordar, particularmente porque a ele não voltei, pelo que não o poderei referir neste contexto, o que lamento.
Quando vagueava por entre as diferentes palhotas, seleccionando as melhores sombras, pois o calor aumentava a cada minuto, e os ponteiros do relógio indicavam então (já!) 13:30 horas (hora de almoço), foi grande o espanto provocado pelas imagens que estavam no meu horizonte visual.
No interior de uma palhota, sem porta, mas com uma entrada um pouco maior do que era habitual, uma mulher guineense, numa posição de pernas afastadas, com os joelhos flectidos e com o tronco a 90º, segurava com as suas duas mãos uma pequena cabeça de um novo Ser que estava em processo de dar à luz, em regime de autoparto, ou parto não assistido, mas com um assistente, não convidado, a curta distância do acto.
A primeira avaliação sobre o que os meus olhos registavam não dava por adquirido tratar-se do nascimento de um bebé, uma vez que o corpo desnudo da mulher/mãe estava a três-quartos, de costas para o exterior. Mas com uma pequena correcção da nossa posição, ficámos sem dúvidas: era mesmo verdade. Era uma imagem plena de significado e um momento singular poder assistir a um fenómeno da natureza humana como é o do nascimento, ou seja, a primeira grande transcendência da vida … sendo a morte a derradeira transcendência do Homem.
Com as pernas ensanguentadas, a criança totalmente fora e com recurso a um canivete acastanhado, tal era a ferrugem de que estava impregnado, a mulher/mãe corta o cordão umbilical, prepara o umbigo do bebé, coloca a sua criança em cima de uma esteira que está perto de uma pequena fogueira situada a um canto daquele espaço térreo e sai com uma terrina de cabaça na mão, enrolando a parte inferior do seu corpo com um pano tradicional (semelhante à imagem).

Segue em direcção à vegetação que se encontra (+/-) a vinte metros da sua palhota, penetrando no seu interior. O seu destino era uma fonte ali existente, onde tomou o seu primeiro banho pós-parto. Acompanhei com curiosidade o seu regresso, continuando a gravar este “filme” de uma realidade bem diferente da dos povos mais desenvolvidos, e em que, neste caso, o actor é simultaneamente o seu realizador.
Com a terrina à cabeça cheia de água, esta destinava-se a ser utilizada na limpeza daquele que era o seu quinto filho, como vim a saber depois de ter estabelecido um pequeno diálogo com aquela mulher grande, tal era a minha admiração.
Contemplei o que foi possível, mas a jornada tinha ainda outras tarefas para cumprir.
De regresso ao local onde a outra mulher gemia com dores, e o camarada Carvalhido da Ponte, no seu labor, não conseguia resolver o problema que estava à sua frente, foi decidido requisitar/chamar um helicóptero para evacuar esta mulher para o Hospital de Bissau, uma vez que corria risco de vida.
Concluída esta missão, regressámos ao aquartelamento a meio da tarde, para um tardio mas merecido almoço, depois de termos vivido entre várias emoções com significados bem diferentes.


IIIO CONCURSO «UMAGUERRACEMPALAVRAS»
Em Setembro de 1997, o Diário de Notícias lançou à opinião pública, em particular aos ex-combatentes dos três T.O., o concurso «Uma GuerraCemPalavras», ao qual decidimos participar com a história referente à primeira situação.
Porque o concurso foi realizado há mais de quinze anos, e porque certamente nem todos a ele tiveram acesso, tomei a liberdade de Vos dar conta do seu regulamento, bem como do meu conteúdo sujeito à avaliação do júri. 
O DN sugeria:
Escreva uma história sobre a Guerra Colonial e Ganhe 8 viagens a África.
Regulamento
1.    “uma GuerraCemPalavras” é uma iniciativa do Diário de Notícias que acolhe narrativas ficcionadas sobre o tema da guerra colonial em África (1961-1974) ou relacionadas com as suas origens e consequências directas, em que o limite máximo do texto é de cem palavras, incluindo o título.
2.    Para efeito de contagem, consideram-se palavras todos os vocábulos autónomos, independentemente do seu tamanho ou função gramatical. Por exemplo: em “a Joana e a Maria disseram-me que tinham usado pó-de-arroz” são contadas dez palavras.
3.    Todas as histórias têm de incluir título e texto.
4.    Podem participar nesta iniciativa todas as pessoas que o desejem, independentemente da idade, profissão ou local de trabalho e sem número limite de histórias concorrentes.
5.    Um júri presidido pelo director do Diário de Notícias apreciará os trabalhos e decidirá da sua publicação, não havendo direito a recurso da sua decisão.
6.    Os participantes nesta iniciativa prescindem, por esse facto, de todos os direitos autorais pelos trabalhos publicados, excepto aqueles que venham eventualmente a ser-lhes atribuídos no caso de ser editada uma colectânea em livro.
7.    Os 4 melhores trabalhos apresentados, um em cada semana, além da publicação nas páginas do Diário de Notícias, irão receber como prémio (para cada um dos trabalhos) uma viagem para duas pessoas (não inclui alojamento) para um destes destinos: Maputo, Luanda ou Bissau.
8.    Para participar, basta enviar – ao Diário de Notícias, “Uma GuerraCemPalavras”, Avenida da Liberdade, 266, 1250 Lisboa – um exemplar dactilografado ou manuscrito em letra legível, assinado com nome próprio ou pseudónimo, acompanhado dos elementos de identificação do autor (nome completo, bilhete de identidade, morada e assinatura). Os originais não serão devolvidos aos seus autores.
9.    Os textos podem ser enviados ao DN até ao próximo dia 7 de Outubro.
10. As histórias vencedoras (uma por semana) serão publicadas, aos sábados, de 27 de Setembro a 18 de Outubro.

Texto a Concurso
«Na Guerra para salvar vidas; outras estão em risco»
Eram oito da manhã quando a mensagem chegou via rádio: uma jovem guineense estava em dificuldades no trabalho de parto.
Mobilizados os militares disponíveis e o respectivo transporte – o aldeamento ficava a quinze quilómetros – logo partimos em seu auxílio munidos dos escassos recursos que dispúnhamos.
Queríamos salvar uma vida … ou duas.
Mas, chegar à mãe angustiada, era necessário percorrer doze quilómetros de picada, a pé, sujeitos a emboscadas e a rebentamento de minas. Por coincidência, foram detectadas duas. Chegámos ao destino passadas duas horas.
A criança, porque estava atravessada na barriga da mãe, foi necessário evacuá-la(s) de helicóptero para Bissau.  
                                                          Fantasma do Xime
Por desconhecimento e, ainda, por falha de memória em alguns dos detalhes não esclarecidos acima, gostaria de poder contar com a V. participação, dando-os a conhecer oportunamente.
Porque o camarada Carvalhido da Ponte é um informante privilegiado nesta história, porque dela fez parte, certamente que terá algo de muito importante para nos transmitir.
Aguardo notícias.
Um forte abraço para todos, com muita saúde e energia.
Jorge Araújo.

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