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terça-feira, 23 de março de 2010

P-58 ACTIVIDADE DA CART 3494 DO BART 3873 NO TEATRO DE O. P. GUINÉ (4)


DEZEMBRO1971/ABRIL 1974
Este texto foi elaborado a partir do livro: - BART 3873
“HISTÓRIA DA UNIDADE”
CART 3492 – CART 3493 – CART 3494
NA GUERRA CONSTRUINDO A PAZ
(autor desconhecido)


4º FASCÍCULO


JULHO 1972


20. SITUAÇÃO GERAL
- O facto dominante foi o esforço acentuado despendido pelo P.A.I.G.C. sobre a população, através da violência tendente a intimidá-la para que a sua colaboração com PORTUGAL cesse.

21. TERRENO

- Executaram-se trabalhos de capinação nos locais mais vulneráveis o que obriga as NT a fazer protecção aos capinadores.

 Passeando descontraidamente pela Tabanca do XIME em 1972
TRMS: Ramos, Sousa de Castro, Vicente, Romão, Marinho e Pereira (condutor)


22. INIMIGO

a) Sub-Sector do XIME
- Em 19 de Julho pelas 20,30 horas o Destacamento do ENXALÉ foi intensamente atacado e flagelado durante 20 minutos com armas pesadas e ligeiras. A nossa reacção surgiu pronta e ajustada. Sofremos 01 morto (Milícia) e 02 feridos; o inimigo 04 mortos, 07 feridos e 01 prisioneiro.
Salienta-se o tiro acertado de ARTILHARIA do XIME em apoio às forças atacadas.
Em 24 de Julho pelas 11,30 horas 01 elemento da população, recém-apresentado, quando se dirigia a MADINA para trazer a família sob controlo IN, accionou 01 mina A/P reforçada, em (XIME3A2-83) que lhe provocou morte imediata.


b) Conclusões
- Conforme se ilidi da leitura da actividade dos guerrilheiros no período, a população foi o alvo seleccionado, no sentido de a intimidar e de, coactivamente, a fazer mudar de atitude relativamente às NT.

23. POPULAÇÃO

- O comportamento da população é-nos francamente favorável: MERO, catalogada como «duplo controle» a sua «diplomacia», podendo afirmar-se que o acto repressivo do rapto a fez pender para o nosso lado, pois serviu para cavar um fosso entre os seus habitantes e o P.A.I.G.C. e simultaneamente aproximá-los mais de nós. Perante um tratamento violento e um tratamento amigável os homens MERO escolheram naturalmente o segundo.
Sentido-se inseguros e ameaçados reclamaram a presença da tropa o que antes não viam com bons olhos. Depois de terminada a lavoura na bolanha, comprometeram-se a dar unidades para a organização dum PEL MIL.
No ENXALÉ apresentaram-se 04 pessoas fugidas de MADINA. Ligando o fluxo que não é só de agora com o do rebentamento da mina na alínea a), cremos que o partido presentemente não goza de grande aceitação, empregando portanto métodos extremos.
Acrescente-se que o juízo se adapta inteiramente à série de acções violentas desencadeadas no período.
Em primeiro plano: Alf. Milº. Serradas Pereira seguido de 1º cabo radiot. Castro


24. NOSSAS TROPAS

a) Acções e Operações mais importantes
- Além da actividade mais restrita e de rotina tiveram lugar:
Operação «AGARRA CABRITOS» de 10 a 12 pelo GEMIL’S 309 e 310 mais uma Secção do COE, com percurso ENXALÉ-MADINA. Os resultados foram 01 morto e 03 feridos infligidos ao IN e capturada 01 arma «Kalashnicov».
Sem consequências para as Nossas Forças.
Acção «GARLOPA» no dia 19 pela CCAÇ 12 com 04 GRCOMB, 03 da CART 3494, e 02 da CCP 121, apoio aéreo da DO-27 e Heli-Canhão. O percurso foi: BAMBADINCA/XIME/PTA INGLÊS/PTA VARELA/XIME, constituindo numa batida, precedida de batimento da Artilharia do 20.º Pel Art.ª e Heli-canhão. As NT destruíram 08 tabancas, vários celeiros e recuperaram 10 elementos da população. As NT não sofreram consequências.





b) Conclusões
- Pensa-se que a acção contra o ENXALÉ foi uma retaliação à Acção «GARLOPA» e, por outro lado, que o adversário se furta a enfrentar directamente as NT, especialmente quando elas se compõem de tropa especializada (Pára-quedistas) e apoio da FAP.


5º FASCÍCULO


AGOSTO 1972


25. SITUAÇÃO GERAL

- Ao invés do período anterior a actividade IN não incidiu sobre as populações, mediante assaltos ou raptos o que, em boa medida, se explica pelas precauções tomadas pelas NT em vista da sua defesa.
No domínio climatérico a escassez das chuvas justifica parcialmente o não abrandamento das acções inimigas, como é comum acontecer na época que se atravessa.

26. TERRENO

-As derivadas da capinagem exclusivamente.


27. INIMIGO

a)Sub-Sector do XIME
- Uma flagelação durante 20 minutos em 03 de Agosto pelas 05,18 horas com armas ligeiras e RPG-7, sem consequências.

b) Conclusões
- Revendo o exposto oportunamente, dir-se-á que o XIME não passa um mês que não seja atingido pala guerrilha.


28. POPULAÇÃO

-Na sequência da ideia de que o P.A.I.G.C. coage a população sobre o seu controle, a qual sempre que pode furtar-se à sua vigilância vem apresentar-se às autoridades, no ENXALÉ, ponto de íntimo contacto com o pessoal da mato, apresentaram-se 36 elementos (não guerrilheiros).

É crível, inclusivamente, que haja informadores do Partido instalados na tabanca.
A população sob nosso controle mantêm-se fiel e colaboradora, especialmente a etnia FULA.


29. NOSSAS TROPAS

a) Acções e Operações Mais Importantes
- Foram as seguintes: - De 02 Agosto das 06,00 às 11,00 horas realizou-se a acção «GARO 5» por 03 GRCOMB da CART 3494 com patrulhamento na área XIME/MADINA COLHIDO/GUDAGUÉ BEAFADA/PTA VARELA. Foi detectada e levantada 01 mina A/P.
De 22 das 03,30 às 15,30 horas do mesmo dia, desencadeou-se a acção «GARLOPA 2» por 03 GRCOMB da CART 3494, 04 da CCAÇ 12, 01 da CART 3493, 20.º Pel Artª, 01 Heli-Canhão e 01 DO-27 armado, com patrulhamento, emboscada e prévio batimento da zona, na área de XIME/MADINA COLHIDO/PTA DO INGLÊS/POIDON. Destruiriam-se 01 Tabanca de 17 moranças e captraram-se peças de fardamento usado.
IN flagelou com RPG-2 a CART 3494, causando-lhe 01 ferido ligeiro.

b) Conclusões
- As missões de reabastecimento continuam a não ser perturbadas e dum modo genérico a actuação das NT não deparou com grande resistência.
Além disso cumpre assinalar o de-nodo e destemor com que os Militares empenhados encaram os momentos de perigo, tal como sucedeu na flagelação havida no desenrolar da acção «GARLOPA 2», aspecto este que se pode e deve reputar uma constante.

c) Alteração do Dispositivo
- 02 ESQ do Pel Mort 2268 estacionado no XIME foi substituído por 02 ESQ do Pel Mort 4575/72, por o primeiros terem findado a comissão. Os novos Esquadrões ocuparam o seu lugar no esquema do dispositivo contido nos períodos transactos.

NOTA DO EDITOR:

- No ponto 29. Da alínea a) Acções e Operações mais importantes 

Não foi considerada uma acção ao MATO-CÃO que levou a que a CART 3494, tivesse sofrido um acidente no Rio Geba em que perdemos 03 homens, considerados: Baixas, por outras causas.

Desenrolar da acção, segundo apontamentos escritos na época:

- CART 3494 - 10-08-1972. A companhia neste dia recebeu instruções para uma operação no MATO-CÃO. Consistia em atravessar rio Geba em lanchas e depois entrar no mato e seguir então para MATO-CÃO. O Major de Operações, para além de ter sido avisado por quem conhecia as marés e a hora em que passaria o «MACARÉU», achou que haveria tempo para fazer a travessia do rio e levar a cabo a operação.

(«Macaréu» Sm. Sublevação brusca das águas, que produz em certos estuários no momento da cheia e que progride rapidamente para as nascentes sob forma violenta, capaz de fazer estragos em pequenas embarcações).

Os pelotões envolvidos nesse patrulhamento não tiveram outra alternativa senão obedecer. Os soldados pela experiência já adquirida, ao longo de 08 meses de comissão, sabiam que uma desgraça iria acontecer e, então acontece o que já se esperava. São apanhados pelo Macaréu.
As embarcações viraram e então todos tentam desenrascar-se como podem, do perigo de morrerem afogados, muitos não sabiam nadar, depois, com todo peso de armamento que transportavam, para além da farda que envergavam, viram-se e desejaram para se safarem, mas nem todos o conseguiram.
Três camaradas foram levados pela corrente das águas agitadas.
 Sepultura em Bambadinca - Guiné do Soldado, José Maria da Silva e Sousa. Agosto 1972

Só apareceu um, no dia seguinte. Foi o Soldado, José Maria da Silva Sousa, residia em Santo Tirso, ficou sepultado na Guiné, em Bambadinca, Manuel Salgado Antunes, casado residia em Famalicão e o terceiro Abraão Moreira Rosa, este da Póvoa de Varzim, não mais apareceram. O pessoal da companhia muito perturbada com este acontecimento, desdobraram-se em esforços tentando encontrar os que desapareceram, mas em vão.
Sousa de Castro

quarta-feira, 17 de março de 2010

P-57 ACTIVIDADE DA CART 3494 DO BART 3873 NO TEATRO DE O. P. GUINÉ (3)




Este texto foi elaborado a partir do livro: - BART 3873
“HISTÓRIA DA UNIDADE”
CART 3492 – CART 3493 – CART 3494
NA GUERRA CONSTRUINDO A PAZ
(autor desconhecido)


2º FASCÍCULO

MAIO 1972

12. SITUAÇÃO GERAL

- A actividade do IN não se incrementou. O próprio Aquartelamento do XIME não sofreu ataques ou flagelações o que indica retorno a uma relativa tranquilidade.
Sobre a população por nós controlada não se registou alteração, ou seja, persiste colaborante. Na dominada pelo P.A.I.G.C. ela continua a ser alvo de uma forte doutrinação e mentalização políticas em MINA e GALO-CORUBAL, porém é admissível a fragmentação da unidade população/Partido.
A intenção do inimigo crê-se que devem ser coincidentes com a do trimestre pretérito.

 13. TERRENO
- As modificações continuam a ser as provenientes da capinagem, desmatação e queimadas para protecção das NT tanto ofensiva como defensivamente.
Note-se que os habitantes das tabancas procedem igualmente para benefício de si mesmos.

14. INIMIGO

a) Sub-Sector do XIME
- De harmonia com a correspondência retirada a MÁRIO MENDES (aniquilado pela CCAÇ12), o IN planeava nova acção na estrada XIME-BAMBADINCA, o que nos leva a concluir que no futuro acções deste teor venham a ser cometidas, pois que a suceder seria a segunda vez no espaço de 02 meses.

b) Conclusões
- Denotou-se um recrudescimento da actividade guerrilheira no tocante à colocação de minas, o prolongamento da sua actividade no Sub-Sector de BAMBADINCA e o aspecto saliente do pressionamento gorado do tráfego entre XIME-BAMBADINCA.

15. NOSSAS TROPAS

a) Acções e Operações mais importantes
- Para além dos patrulhamentos habituais, emboscadas nocturnas, seguranças descontínuas, picagens de itinerários etc., não houve neste mês nenhuma operação relevante em que a CART 3494 estivesse envolvida.

3º FASCÍCULO

JUNHO 1972

16. SITUAÇÂO GERAL

-A flagelação do XIME e o ataque de AMADALAI confirmam a vontade do IN obstar o tráfego da estrada XIME-BAMBADINCA.
Enquanto isso, a tentativa frustrada de golpe de mão ao Aquartelamento do XITOLE comprovam, porventura, maior agressividade da guerrilha.
De resto a situação manteve-se nos moldes constantes do período anterior.

17. TERRENO

- Assinala-se o início da estação das «chuvas» e a transformação da natureza como consequência adveniente.

18. INIMIGO

a) Sub-Sector do XIME
- A Auto-Defesa de AMEDALAI foi atacada durante 05 minutos sem resultados.
Em 26JUN72, pelas 20,30 horas o Quartel e a Tabanca do XIME, em repetição do que se disse na primeira alínea, foram uma vez mais flagelados e desta feita igualmente sem consequências para a população e nossas tropas.
Nota do Editor: No ponto atrás referido, tenho anotado num livrinho, que neste dia pelas 20,15 Horas, houve tentativa de golpe de mão junto ao arame farpado tendo a Artilharia reagido eficazmente, provocando ao IN 16 mortos e 04 feridos. Sem consequências para as nossas forças.

b) Conclusões
- O XIME não escapou à regularidade de figurar como objectivo número 1 do P.A.I.G.C. em todo sector L1 o que explica pela posição estratégica ocupada pelo citado Aquartelamento.
A ineficácia das iniciativas adversárias continua a ser praticamente norma.
A sede do BART 3873, decorridos já 05 meses, não teve qualquer ataque ou flagelação o que se percebe pelo cordão protector que a rodeia a dificultar, ou a impedir mesmo, a retirada da força atacante.

19. NOSSAS TROPAS

a) Acções e Operações mais importantes
- Acção «GARO3» com patrulhamento e emboscada por 03 GRCOMB da CART 3494 e apoio de Heli-Canhão. Desencadeou-se na área entre MADINA COLHIDO e GUDAGUÉ BEAFADA sem ter visto ou sentido o IN.
- Acção «GUARDEAR 1» a 03 GRCOMB da CART 3493, 02 GRCOMB da CART 3494, PEL’S MIL 241, 242, e 243, GEMIL’S 309 e 310, 04 GRCOMB da CCAÇ 12, PEL REC DAIMLER 3085, 01 PEL da CCS/BART 3873, PEL’S CAÇ NAT 52, 54 e 63 e PEL MIL 201, a fim de estabelecer a segurança afastada a BAMBADINCA, aquando da visita de SUA EXA O GOVERNADOR E COMANDANTE-CHEFE. Servia de apoio aéreo 01 Heli-Canhão. 
Não houve contactos nem se observaram vestígios inimigos.

- Operação «ACHA CAMINHO» de 30 de Maio a 02 de Junho, a 03 GRCOMB da CCAÇ 12 e 02 GRCOMB da CART 3494 os quais realizaram patrulhamentos e emboscadas na região entre TAIBATÁ-CHICAMEL-GUNDAGUÉ FUTA-FULA e GUNDAGUÉ BEAFADA. O apoio aéreo esteve a cargo de 01 Heli-Canhão, não se registando consequências.
Uma emboscada empreendida pelo PEL CAÇ NAT 63 na estrada FINETE-MISSIRÁ provocou ao inimigo 01 morto, 01 ferido e 01 prisioneiro.

b) Conclusões
Sublinha-se a ausência de contactos com a guerrilha, bem como a sua inactividade no tocante às nossas colunas de reabastecimento, ao invés do que seria de esperar neste domínio da logística.

(continua)

segunda-feira, 15 de março de 2010

P-56 Efectivos do PAIGC em 1971 (Partido Africano Independência Guiné e Cabo Verde)

Tropas do PAIGC - Posto de controlo 1974 (autor desconhecido)

De acordo com o livro Guerra Colonial: "Angola, Guiné, Moçambique" (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, e com base em estimativa do comando militar português, em 1971, os efectivos do PAIGC empenhados na luta pela independência eram assim constituídos:


Efectivos por unidade:


- bigrupo: 38/44 unidades
- bigrupo reforçado: 70 unidades
- grupo de artilharia: 50 unidades
- grupo de canhões/morteiros: 23 unidades
- grupo de foguetões/antiaéreos: 16 unidades


Efectivos por regiões:


Inter-Região Norte:


- Frente S. Domingos/Sambuiá: 630 unidades
- Frente CanchungoBiambe: 760 unidades
- Frente Morés/Nhacra: 680 unidades
- Frente Bafatá/Gabu Norte: 730 unidades


Inter-Região Sul:


- Frente Bafatá/Gabu Sul: 200 unidades
- Frente Bafatá/Xitole: 160 unidades
- Frente Buba/ Quitafine: 1230 unidades
- Frente do Quínara: 560 unidades
- Frente de Catió: 370 unidades.


Além destes efectivos, que totalizavam 5500 elementos para o Exército Popular, há que acrescentar cerca de 2000 milícias, 900 a 1000 em cada inter-região [Ou seja, o PAIGC não teria mais do que 7500 homens em armas].


O PAIGC, atendendo à taxa de natalidade e mortalidade existente, podia aumentar os seus efectivos em cerca de 5000 combatentes, valendo-se somente das populações controladas.


Sousa de Castro

P-55 A MINHA PUTA (Victor Junqueira, ex. Alf. Mil. Inf. CCAÇ 2753 (Os Barões)


 O Dr. Vitor Junqueira, no CUSCO - PERU http://kurtviagens.blogspot.com/
com a devida vénia

- Dr. Vitor Junqueira, foi Alf. Mil. Inf. da CCAÇ 2753 (Os Barões) Guiné - Bironque, K3 e Mansabá AGO70/JUL72

A minha puta ...
De: Vitor Junqueira


1. Reflexão:

Toda a gente tem a sua puta. Que nem sempre é a doce puta-amante. Na maioria das vezes é uma bem amarga puta de vida, ou uma puta de sorte ...

Não sendo um expert em matéria de putedo, tenho sobre este assunto algumas ideias próprias, nem sempre consensuais com a moral e os bons costumes prevalecentes na família portuga. Começo por dar conta de um facto: Há muita gente que, com a maior naturalidade, visiona no leitor de DVD ou televisor da sua sala, filmes contendo cenas raiando o mais puro hard core, e no entanto, se numa conversa de circunstância o tema descamba para o lado das meninas, lá vem o inevitável e embaraçoso constrangimento. Tal como proclamava o nosso bem conhecido cónego Remédios, “não havia nechechidade” ... também estes benzetas não se coíbem de grunhir moengas contra estas sem-vergonhices. Repudio os seus argumentos bacocos, moralistas e reaccionários, quase sempre eivados de indisfarçável hipocrisia.

Afinal, todos sabemos que as putas como as cadeias existem, porque existem homens e mulheres. Reconheço contudo que entre nós, este continua a ser um tema meio tabu, com conotações geralmente negativas. Veja-se, a título de exemplo, algumas designações aplicadas às principais linhagens de putas:

Entre as plebeias, assumem posição de relevo as putas do c... São uma estirpe comum que pode desabrochar virtualmente no seio de qualquer honrada família. Porém, o grosso do efectivo é constituído pelas putas reles, putas manhosas e putas rafeiras. Há quem se refira a uma variante urbana particularmente desqualificada, como putéfia de merda, também conhecida como gatinha do Cacém. Não possuindo forçosamente qualquer vínculo nobiliárquico, as reais putas, cuja patrona-mor até foi por mero acaso uma conhecida princesa, são intocáveis, quase sagradas aos olhos dos milhões de putas sérias que por aí andam e com quem dormimos habitualmente!

As putarronas têm experiência, têm estatuto e acima de tudo possuem bons amigos. Sabidonas, cuidado com elas! As minhas preferidas são as refinadas putas. São o que são e não enganam ninguém. Distinguem-se pelo seu elevado grau de profissionalismo. Fora deste elenco, ficam as putas finas. Como dizia uma comadre minha tentando defender a honra da filha: são tão putas quanto as outras, mas sabem escrever à máquina! Têm carreira própria e à pala de umas cambalhotas com peixe graúdo, tornam-se alpinistas. Olhem em redor, e vejam até onde algumas conseguiram trepar!...

Por mim, rejeito qualquer expressão ou atitude classicista ou discriminatória em relação a um grupo profissional tão antigo quanto a humanidade. Que, por sinal, até tem merecido a atenção de alguns dos maiores pensadores e poetas que a humanidade já produziu. Como argumento final e para não me esticar em demasia, direi apenas que dentro de cada um de nós, existe certamente uma putinha adormecida.

Isto não significa que não fique deveras chateado se algum chifrudo me apelidar injustamente, de filho da puta. E se o mandassem para a puta que o pariu, como é que o meu prezado amigo reagiria? Como eu, mal. Pois é, paradoxos ...

2. Vamos à estória:


Era eu um chavaleco de merda na casa dos vinte e poucos anos, quando conheci na Guiné uma refinada puta. Tão puta, que suspeito que tenha nascido já sem cabaço. Ou se o teve, foi por pouco tempo! Não era uma puta comum. Esta veio ao mundo por uma causa, com uma missão. Tinha o seu código de honra e levava-o muito a sério: À sua beira, ninguém deveria padecer à míngua de sexo, ainda que estivesse teso!

A Fanta Baldé era uma mandinga retinta, grande, de feições fortes quase viris, voz meiga e riso espalhafatoso. Nunca soube qual era a sua idade, mas julgo que seria idêntica à minha. Ouvi-a dizer que nasceu lá para os lados de BINTA, e por lá se manteve até ter peso suficiente para um tuga lhe fazer um mulatinho, o Mário. Já a criança era nascida quando à cata de melhores oportunidades de negócio montou estaminé num tugúrio em FARIM.

Aí, acolheu no aconchego do seu corpo torrentes de esperma, em troca dos pesos que tanta falta lhe faziam para criar o seu rebento. Mais tarde, acabou por atravessar o Cacheu vindo a fixar residência em SALIQUINHEDIM (K3), dedicando-se à prestação de serviços em regime de exclusividade aos Barões da CCAÇ 2753 (1).

Foi aí que nos encontrámos pela primeira vez e, desde logo, uma forte antipatia nasceu entre nós. Armado em cão com pulgas, eu via naquela mulher uma fonte de complicações. Já imaginava o mais do que provável abandalhamento da Companhia com quebra na disciplina e, sabe-se lá, a possibilidade da prática de actos de rebelião na hora de sair para o mato. Assim como a exploração, a favor do IN, de fontes de informação às quais tinham acesso privilegiado os nossos militares, seus clientes, sobre os quais possuía notório ascendente. O que, diga-se, representava uma enorme e inaceitável desvantagem estratégica das nossas forças face às tropas do PAIGC.

O tempo veio a demonstrar que era apenas uma mulher e mãe. Uma boa mãe. Como nenhum daqueles temores se concretizou, acabámos por nos tornar amigos íntimos. Demasiado até, tendo em conta as marciais regras do decoro e bons exemplos!

Mas ela assim quis, e quando a mulher quer, Deus ordena. E foi assim que moenga aconteceu:

Como assíduo frequentador da tabanca, situada arames meios com as instalações militares, procurava na convivialidade com a população local o alento para o stressante dia a dia dos golpes de mão, das colunas, patrulhamentos, emboscadas, em suma, da vida em estado de guerra. Sentados no chão ou estendidos sobre esteiras, gozando a frescura relativa da tarde sob a ramagem frondosa das mangueiras, a modorra tomava conta dos corpos enquanto a neura se apoderava das mentes. Entediados por meses de permanência naquele buraco do fim do mundo, amarfanhados pela saudade dos familiares e amigos que tinham ficado na metrópole, aquelas eram as tardes mais longas de todas as tardes, como no poema do Ary dos Santos (3).

A noite, porém, metamorfoseava aquele escafundó num pedacinho de paraíso. No tabancal, quase não havia homens, pois estavam praticamente todos exilados nos pelotões da milícia de Binta e Bigene. Deles, só se sabia quando apareciam para gozar uns dias de férias e esvaziar os sacos da saudade! Talvez por isso, os lusos eram muito bem recebidos. As esposas e namoradas, carentes como se compreende, lá se amanhavam com os nossos bacanos. Mas também as mães, primas, amigas ou irmãs que nos lavavam os camuflados, o pescoço e a alma em troca de quase nada.

Depois do jantar, que era geralmente servido ao lusco-fusco, distribuíam-se as armas aos putos que tinham a seu cargo a auto-defesa da tabanca. Eram na sua maioria adolescentes, a quem os nossos antecessores tinham ensinado o manejo da G3 e do morteiro. Recolhiam as armas da mão da tropa ao fim da tarde e entregavam-nas pela manhã do dia seguinte. E sempre souberam dar conta do recado.

Quanto a nós, magníficos representantes do marialvismo nacional, uma vez montada a segurança, o objectivo passava a ser bajudame e cada um se safava como podia. No terreiro da aldeia, localizado no centro de um aglomerado de 20 ou 30 moranças, ardia uma fogueira alimentada com lenha que todos ajudavam a recolher e transportar. Espantava os mosquitos, aquecia e alegrava o ambiente. Ao seu redor, apertavam-se os nossos à molhada com os indígenas.

Havia lugar para todos e todos tinham o seu lugar. Lado a lado, brancos e pretos, fulas e mandingas, homens, mulheres grandes, jovens adultos e crianças, escutavam interessados o relato feito por alguém, que em tom jocoso, dramatizava o acontecimento social ou peripécia desse dia. Via de regra, havia sempre uma vítima, alvo de dura chacota. Que ninguém levava a mal.

Às tantas, um ritmo de batuque, cantoria e risos de mulher enchiam o ar fresco da noite com cheiro a África. Para tanto, bastava que alguém desse início a um som com as palmas. E logo as palmas de muitas mãos acompanhavam aquele ritmo. Qualquer velha lata ou cabaceira, primorosamente percutidas por mãos experientes ou improvisadas baquetas, produzia uma música a que os corpos não resistiam, e recusando o controlo da vontade, gingavam ao ritmo da batida. Para o centro da roda, saltava então uma mulher, depois outra e outra. Curvadas para a frente, muitas vezes com os pequenitos na costa, batiam o chão, forte e compassadamente, com os pés nus. E logo a pequenada toda, as bajudas, honradas mães de família e outras menos honradas, toda a gente participava naquela dança quase frenética em que os cânticos entoados por conhecedores transformavam num ritual cataléptico que podia durar horas, e só terminava quando os corpos trémulos e suados pediam descanso, ou o quadro que fornecia luz à tabanca era desligado. Na esteira ficavam apenas os coxos e o mija na escada, moi, eu!

O convívio continuava então, mais terno, mais íntimo, com a cumplicidade da escuridão traída por esquivos reflexos das labaredas moribundas. Numa dessas noites, quando a maioria do pessoal já havia recolhido a penates, a Fanta aproximou-se de mim, risonha, e num crioulo palpitante disse-me:
- Zunqueira (tinha problemas com a dicção do meu nome), preciso falar contigo.
- Então fala, diz o que é que queres, respondi.
- Zunqueira, aquilo que tenho para te dizer ... tem de ser em minha casa. Vem por favor - disse ela. Disse-o como se fosse uma ordem, e num passo ligeiro e silencioso, pôs-se a caminhar à minha frente.

Fiquei intrigado, receoso mesmo. Ocorreu-me que quisesse pedir qualquer coisa para o filhote. Ou estaria ela a tramar alguma armadilha, a mando do IN? Mas, dado que noblesse oblige ..., senti-me impelido a seguir-lhe a silhueta através do labirinto de moranças, àquela hora escuro e deserto. Chegados à sua porta, no extremo oposto da tabanca quase junto ao arame farpado, accionou a taramela que garantia a segurança da sua espartana habitação.
- Vem, disse em voz ciciada, afastando-se para me deixar passar.

Instintivamente agarrei a coronha da [pistola] walter que levava escondida no bolso do dólmen. Contudo, o seu sorriso descomprometido tranquilizou-me. Entrei.

A casa tinha apenas uma divisão com chão de terra batida. Do lado esquerdo, arrumado à parede, um leito de ferro sobre o qual um colchão de espuma coberto com uma colcha cor de rosa impecavelmente limpa, sem uma ruga. Um pequeno caixote servia de mesa de cabeceira e evidenciava a singeleza do local. Em cima dele, um luxo, um candeeiro a petróleo cuja luz subiu. Pude então destrinçar junto à parede oposta um camita de madeira onde dormia placidamente o pequeno Mário. Esta visão acabou com os meus receios, senti-me completamente descontraído.

No pouco espaço disponível entre as duas camas, a Fanta volta-se para mim e apontando com o queixo para o pequenito, apoiou o indicador sobre os lábios em sinal de silêncio. Ostentava um sorriso enigmático a que luz velada do candeeiro realçava o brilho dos olhos e a brancura dos dentes. Acheia-a diferente, parecia uma garota.

Num gesto rápido fecha a porta, e sem uma palavra aproxima-se mais. Sinto-lhe o hálito, as formas e o calor do corpo. Delicadamente, como a pedir licença, envolve-me com os braços e aproxima a sua boca da minha. Um beijo rápido, carregado de promessas que me deixa paralisado. Balbucio uns nãos pouco convictos que só servem para reforçar o ímpeto com que se atira à tarefa de me despojar da farda e das botas. Sinto as suas mãos percorrerem-me o corpo à procura de fechos e botões enquanto me vai tocando com os lábios.

Sei que estou arrumado. Cheio de princípios e convicções, já não disponho de forças nem vontade para bater em retirada. Vejo-a pegar no cinturão carregado de artilharia, que atira sem cerimónias para cima das roupas caídas no chão. Troça despudoradamente:
- Zunqueira, para que andas com isto? Se eu quisesse fazer-te mal de que é que estas coisas te serviriam?

Xeque-mate, sem discussão! Num abrir e fechar de olhos, está nua. À volta dos quadris, um cordão de cheirinho, realça-lhe a feminilidade. Trata-se de uma enfiada de pequenas bagas escuras colhidas no mato que libertam uma oleosidade perfumada. Afasta a colcha e estende-se sobre o lençol branco. O contraste com a cor do seu corpo tem um efeito estonteante. E que corpo, Senhor! Que coxas, que mamas! Fico ali, ridículo, confuso, convulso, com tusa, em três pernas.

Aí, ela estendeu-me a mão e num convite cheio de sensualidade, puxou-me para junto de si. Acaricio-lhe a pele macia e aveludada com que a natureza brindou as mulheres negras. Percorro-lhe a pentelheira de um crespo sedoso, perfeitamente recortada, na busca dos recantos mais secretos daquele verdadeiro monumento ao amor. Claramente excitada, o seu corpo procura o meu que, tomado por uma espécie de frenesim, já só pede os finalmente.

A Fanta porém, conhecedora do seu ofício e com o saber fazer que o profissionalismo confere, com a docilidade e delicadeza que lhe eram próprias, lá foi tomando conta das operações. Controlando-me os gestos e moderando o impulso, ensina-me a beber repetidamente da cantarinha.

Alta madrugada, enrosca-se, envolve-me, retém-me o mais que pode. Faço-a entender que o meu regresso ao aquartelamento é imperioso. Submissa cede, e acompanhando-me à porta sussurra:
- Zunqueira, logo espero por ti.
- Não sei Fanta. Vou precisar de descansar porque o dia vai ser duro - respondi de forma evasiva para não criar falsas expectativas.

E abalei, ciente de que aquele só poderia ter sido deslize único que de forma alguma poderia repetir-se. À vista da sentinela, passo pela suprema humilhação de ter que me identificar:
-Quem vem lá faz alto! - diz o cabrão, perdido de gozo!

Sorrateiramente, para não acordar o camarada com quem partilhava o quarto, enfiei-me debaixo do mosquiteiro. Adormeci que nem uma pedra a pensar que aquela (volto a citar o Ary):

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram... Aquela e as seguintes. Porque durante mais de um ano, foram poucas as noites em que não dormi entre as pernas da Fanta. O caso assumiu foros de escândalo. O alferes Junqueira que alguns consideravam o homem mais disciplinado e disciplinador da Companhia, caíra de joelhos numa rendição incondicional, vencido pelo feitiço de uma mulher ... pública. Inacreditável. Ela deu-lhe alguma mezinha a beber, diziam uns, ou o caso tem mistério afirmavam outros. Nada disso, garanto eu. O que houve foi uma luta desigual. De um lado, os atributos físicos e a juventude de uma mulher simples, extremamente doce e feminina na cama. Do outro, a fraqueza da carne, bem rija na altura.

A Fanta nunca frequentou a escola mas possuía uma notável sabedoria de experiência feita. Acho que era sábia. Tinha tiradas de índole filosófica que me deixavam de cara à banda. Com ela aprendi bastante. Sobre a vida, o mundo e as pessoas. E o sexo, já agora! Fiquei a saber, por exemplo, que até as coisas têm alma, podendo continuar a existir mesmo depois de materialmente terem desaparecido!

Avizinhava-se o final da comissão. Havia uma data prevista para a rendição, com entrega das instalações a uma Companhia de periquitos. Por maior sigilo que se quisesse guardar quanto a estas movimentações, o segredo era invariavelmente quebrado como se sabe. No entanto, talvez por dever, mas certamente por cobardia, eu nada disse à mulher com quem tinha literalmente vivido nos últimos meses. Mas ela sabia de tudo havia tempo, mas nunca tocou no assunto. No dia da partida, pouco depois do sol nascer, estava eu ainda deitado quando bateu à porta, pedindo licença para entrar. Levantou o mosquiteiro e sentou-se a meu lado. Estávamos sós. Voltou-se para mim e sorriu, ao mesmo tempo que as lágrimas lhe corriam pela face.
- Zunqueira, tu ias embora sem te despedires de mim!? - O tom era de mágoa e tristeza.

Senti-me um verme. Gaguejei sem saber o que dizer, mas lá arranjei arte para arquitectar umas mentirolas:
- Estás maluca Fanta, vou lá embora agora ...

Bem, eu devia meter dó, porque foi isso que li nos seus olhos. Limpou as lágrimas e passando-me para a mão um pequeno embrulho, foi dizendo:
- Zunqueira, quero que leves esta lembrança. É coisa pouca, mas acho que vais gostar.

Fiquei siderado. Pela atenção e carinho que não merecia. Pelo remorso. Desfiz o embrulho e retirei uma lanterna eléctrica daquelas de tipo espalmado, com uma grande pilha rectangular, dentro de uma caixa metálica cor de tijolo. Devia tê-la mandado vir de Bissau, com a devida antecedência. Muito tempo antes, eu tinha deixado escapar que, ao regressar todas as madrugadas ao quartel, tinha alguma dificuldade em orientar-me por entre as tabancas (moranças) na noites mais escuras.

Durante todo o tempo em que dormi com a Fanta, ela nunca me pediu nada, nunca aceitou nada. A não ser algumas latas de leite condensado Néstlé, meia dúzia talvez, que lhe levei para o filho ainda bebé. Terá vivido julgo eu, de economias, porque durante esse período se absteve completamente do negócio. Se aquele pequeno objecto valia uma fortuna para uma população que praticamente não tinha acesso ao dinheiro, para ela então, teria sido uma autêntica extravagância.
- Fanta, eu não posso aceitar. Desculpa, mas não posso mesmo. Na casa onde compraste, talvez te possam fazer a troca por qualquer coisa útil para o teu filho, insisti.

Dei-lhe a entender que se por um lado, aceitar o presente me deixava embaraçado, por outro, aquilo era um desperdício ... dinheiro perdido.

Cada cavadela, cada minhoca, como se vê. A emenda estava a sair pior que o soneto. Nesse momento a expressão da Fanta tornou-se séria e fixando-me nos olhos, retorquiu:
- Sabes, Zunqueira, só se perde e deixa completamente de ter valor, aquilo que consumimos para satisfazer o nosso egoísmo. O que oferecemos ou partilhamos com os outros, existirá para sempre. Porque mesmo depois de já se ter transformado em pó, continuará a existir na cabeça e no coração daqueles de quem um dia gostámos.

Não voltei a encontrar a Fanta. Confesso que durante muito tempo, após a passagem à disponibilidade, continuava a lembrar-me dela, com saudade. Tive vontade de regressar à Guiné para a visitar, saber se precisava de alguma coisa. Encontrei sempre desculpas para não o fazer.
Aproveito agora para comunicar a quem possa interessar que a Fanta Baldé faleceu em Julho de 2005 no Bairro Militar, em Bissau.

Como diz o povo na sua bondade: Paz à sua alma e que a terra lhe seja leve.

Quanto ao filho Mário, estive com ele há uns três anos. Era então um jovem robusto de trinta e quatro anos de idade, pouco dado ao trabalho, casado, com um filho pequeno. A vida não lhe corria nada bem, pois uma espécie de Bar-Discoteca que geria em Farim, havia falido uns sete ou oito meses antes.

Descobri entretanto que o pai é um ex-militar de uma Companhia que chegou a Binta por volta de 1969/1970, de nome Mário Figueiredo. Originário da zona de Mangualde, encontrava-se na altura (2003), emigrado no Reino Unido.

Dedico esta narrativa absolutamente naïve, ao estilo de conto da revista Maria, à memória da Fanta. Com este despretensioso texto, pretendo também homenagear todas as Putas do mundo, muito em particular aquelas que conhecemos enquanto combatentes na guerra colonial.

Mulheres anónimas, a quem a sociedade continua a aplicar o labéu de fáceis, franquearam-nos a alma enquanto nos vendiam corpo. Foram amigas e confidentes discretas. Ofereceram-nos o colo ou simplesmente um ombro sereno que nos ajudou a apaziguar a torturante saudade de esposas, namoradas e, porque não admiti-lo, até das mães. Não posso prová-lo, mas estou convicto de que, sem o seu oportuno apoio, alguns teriam sucumbido àqueles tempos difíceis e não seriam os cidadãos equilibrados e válidos que são hoje.

Vitor Junqueira

Pombal, 17 de janeiro de 2007


Nota do Editor: E-mail do Dr. Junqueira, recebido já à algum tempo atrás e com a devida autorização para o publicar. 

sexta-feira, 12 de março de 2010

P-54 - ACTIVIDADE DA CART 3494 DO BART 3873 NO TEATRO DE O. P. GUINÉ (2)



DEZEMBRO1971/ABRIL 1974
Este texto foi elaborado a partir do livro: - BART 3873
“HISTÓRIA DA UNIDADE”
CART 3492 – CART 3493 – CART 3494
NA GUERRA CONSTRUINDO A PAZ
(autor desconhecido)


1º. FASCÍCULO

FEVEREIRO – MARÇO – ABRIL 1972

8. SITUAÇÃO GERAL

Fevereiro
- A actividade IN considera-se fraca e a população por ele dominada dá mostras na área de MADINA de se querer libertar.
Prosseguiu a campanha psicológica da rádio «Voz da Revolução» tendente a subverter as NT e a população fiel.
O inimigo conjectura flagelar os nossos Aquartelamentos, Destacamentos e Auto-Defesas, atacar a navegação no Rio Geba, e reagir à penetração das NF, implantar minas na picada BAMBADINCA – XITOLE e acelerar a organização político-administrativa.

Março
- Em face da flagelação ao XIME é provável que o IN deseje conturbar o tráfego na estrada XIME-BAMBADINCA-BAFATÁ, segundo o que se esclareceu no mês anterior.
 Estrada BAMBADINCA - BAFATÁ

As populações aliadas conservam-se calmas, mas sabe-se que em MINA e GALO-CORUBAL o PAIGC erigiu uma notável organização político-administrativa.
As suas intenções, pensa-se não se modificaram.

Abril
- «O status quo» não sofreu profundas alterações, ressalvando os sintomas de dissociação no binómio população/Partido e o eventual desencadeamento de terrorismo selectivo.

9. TERRENO

Fevereiro:
- Em plena época seca recorre-se às queimadas, expediente que garante maior visivilidade e maior protecção às NT nos seus aquartelamentos e patrulhamentos.
A natureza, como é sabido, oferece uma panorâmica bem diversa daquela de que se reveste nas «chuvas», de vegetação exuberante.

Março:
- Mês ainda abrangido pela estação seca, não trouxe nada de novo quanto à configuração do terreno.

Abril:
- Não houve mudança considerável.
Note-se que ao longo do trimestre nenhuma modificação introduzida pelo homem há a mencionar, excepto as capinações e desmatações.


10. INIMIGO

a) Sub-Sector do XIME
Fevereiro:
- Em 11FEV72 o IN flagelou da margem esquerda do RBURUNTONI as NT no decorrer da Operação «PIRIQUITO RAIVOSO» no local (XIME 3B1-12), sem consequências.
- Em 15FEV72 grupo IN não estimado interceptou 02 milícias e 01 civil de TAIBATÁ, matando este e ferindo um milícia. Capturou 01 espingarda MAUSER. Retirou à reacção do Morteiro 82 daquela tabanca e Artilharia do XIME, abandonando 01 granada de RPG-2. A ocorrência verificou-se em (XIME 6C9-54).

«Sector L-1», do blogue, http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/ com a devida vénia.

Março:
- Em 27MAR72 pelas 23,00 horas, grupo IN não estimado flagelou e atacou a Aquartelamento do XIME durante 35 minutos, provocando 01 ferido na população civil.

Abril:
- Em 22ABR72 pelas 06,00 horas, grupo IN emboscou a segurança à estrada XIME- BAMBADINCA-BAFATÁ na PTA COLI (4º. Pelotão da CART 3494). As NT e Artilharia do XIME puseram o IN em fuga.
Sofremos 01 morto (Furriel), 07 feridos graves e 12 ligeiros.

 Um dos três «OBUS 10,5» que existia no XIME

b) Conclusões
- O sub-Sector do XIME foi o mais perturbado, em contraste com o de MANSAMBO que não acusou actividade de guerrilha.
Observou-se a insistência no referente à colocação de engenhos explosivos no sub-sector do XITOLE, no sentido de obstar os contactos da CART 3492 com o exterior e a emboscada da PTA COLI revela o interesse em levantar obstáculos à circulação na rodovia XIME-BAFATÁ, aliás dentro das previsões colhidas.

11. NOSSAS TROPAS

a) Acções e Operações mais importantes

Fevereiro:
- Para além da actividade rotineira salientamos:
- Operação «Piriquito Raivoso» de 10 a 11FEV72 com forças das CART’s 3492 e 2716 que patrulharam as áreas de SATECUTA e GALO-CORUBAL e forças das CART’s 3494 e 2715 que patrulharam a PTA do INGLÊS-PTA VARELA-POINDON. O 1º. Agrupamento (E, F) destruiu 16 palhotas e apreendeu 01 granada de RPG; o 2º. Agrupamento (A, B) sofreu uma flagelação sem consequências e capturou 01 granada de RPG. Nas zonas de RBISSARI e RSAMBA URIEL forças da CART 3493 formam o 3º. Agrupamento (C, D). Em BAMBADINCA 01Avioneta DO, armada assegurava o apoio aéreo.
Não houve contactos com o IN.

- Operação «TRAMPOLIM MÁGICO» de 24 a 26 FEV72 com 04 GRCOMB da CART 3492 reforçada por 01 GRCOMB da CCAÇ 3489 e outro da CCAÇ 3490, integrando o agrupamento «LARANJA». 04 GRCOMB da CART 3493 reforçada por 02 GRCOMB da CCAÇ 3491 integrando o agrupamento «CASTANHO». Desembarcaram conjuntamente na presença de Sua Excelência o Governador e Comandante-Chefe, após batimento de zona pela Artilharia da LDG e da FAP.
Paralelamente aqueles agrupamentos atravessam as regiões de PTA LUIS DIAS e TUBACUTA.
Actuaram em apoio, o agrupamento «AZUL» (CART 3494 mais 02 GRCOMB da CCAÇ 12), agrupamento «AMARELO» (GEMIL’s 309 e 310), agrupamento «PRETO» (CCAÇ 3490) -)), agrupamento «VERDE» (CCP 123); 01 parelha de FIAT’s de BISSAU, 01 parelha de T-6, 02 Helicópteros e 01 Heli-Canhão (BAMBADINCA).
Foram recolhidos 32 elementos da população, aprendida documentação e material de secundária importância e destruídas várias tabancas. As NT sofreram 10 evacuados por cansaço, insolação e desidratação.

 «Morteiro 81» XIME - A pose do Sousa de Castro - 1972

Março:
- Excluindo a actividade habitual, há a realçar:
- Operação «DESFILE FESTIVO» em 14 e 15MAR72, executada por 03 GRCOMB da CCAÇ 12, 02 da CART 3494, 01 (+) da CART 2715, 02 da CART 3493, PEL CAÇ NAT 52 (-), PEL CAÇ NAT 54, GEMIL’s 309 e 310, PEL’s MIL 241, 242, 243, nas regiões de BAMBADINCA, MATO CÃO, ENXALÉ, XIME, PTA COLI e MANSAMBO.
Não se verificaram vestígios ou contactos IN.

Abril:
- O quadro operacional conteve-se nos mesmos moldes, salientando:
- Operação «PROTEGE RODOVIA» de 07 a 08ABR72, por 02 GRCOMB da CCAÇ 12, 01 da CART 3494, PEL’s CAÇ NAT 52, 54 e 63, PEL’s MIL 241 e 242 em MATO CÃO, FINETE, DEMBATACO, PTA COLI, GUNDAGUÉ BEAFADA e MADINA COLHIDO.
- Acção «GASPAR 5» em 25MAI72 pela CCAÇ 12 na PTA VARELA.
Loi eliminado o chefe do bigrupo MÁRIO MENDES (Notícia A-2), capturada a sua Kalashnikov», 03 carregadores da mesma e documentos.

b) Conclusões
- A actividade das NT no trimestre foi intensa, positiva e eficiente, apesar do reduzido tempo de comissão passado até ao momento.

Continua

sexta-feira, 5 de março de 2010

P-53 A CART 3494 DO BART 3873 NO TEATRO DE O. P. GUINÉ (1)







DEZEMBRO1971/ABRIL 1974
Este texto foi elaborado a partir do livro: - BART 3873
“HISTÓRIA DA UNIDADE”
CART 3492 – CART 3493 – CART 3494
NA GUERRA CONSTRUINDO A PAZ
(autor desconhecido)








CAPÍTULO I



MOBILIZAÇÃO

a) Nota circular
– A nota circular nº. 4496/PM-Procº 18/3873 da 1ª Repartição de Estado Maior do Exército, datada de 04NOV71, ordenou que se procedesse à mobilização do Batalhão de Artilharia nº. 3873 o qual renderia, na Província da Guiné, o BART 2917 a atingir o termo da sua comissão de serviço.
b) Unidade Mobilizadora
- Foi unidade mobilizadora o Regimento de Artilharia Pesada 2 (RAP 2), em Vila Nova de Gaia

c) Pessoal
- O pessoal que compôs os seus quadros – CCS, CART 3492, CART 3493 e CART 3494, metropolitano de origem, era natural em grande parte do Norte (MINHO e DOURO) e Centro (BEIRAS), particularidade conducente à afirmação de a África constituir, para a maioria, quase uma incógnita mais ou menos próxima da imaginação de cada um.

d) CONCENTRAÇÃO
- A concentração dos novos mobilizados começou a 15NOV71 e terminou a 27NOV71.

e) Instrução
- A instrução geral (I. A. O.) teve lugar já no Ultramar (Ilha de Bolama) de 29DEC71 a 27JAN72, decorreu a um nível positivo e satisfatório, o resultado obtido foram animadores



1. MISSÃO
- Tem por missão global a neutralização da subversão, através duma manobra simultaneamente psicológica, social e militar.
A actuação concretiza-se nas seguintes tarefas:
- Impedir e destruir o avanço do inimigo
- Defender as populações
- Integração dos guineenses no contexto nacional
- Apoiar as autoridades civis
- Promover o progresso moral e material das diversas etnias, sem quebra do seu habitat natural
- Recuperar os elementos extraviados, etc.

2. LOCALIZAÇÃO DO SECTOR - L 1


- O sector situa-se sensivelmente no centro da Guiné. Não confina com qualquer território estrangeiro, nem com o Oceano e deve considerar-se um dos sectores de maior vastidão em todo T. O.

«Sector L1» Do Blogue, com a devida vénia

3. CONDIÇÕES GEOGRÁFICAS
a) Clima
- O clima é tropical (quente e húmido) com alteração de duas estações: A «Seca» que vai de Dezembro a Junho e a das «Chuvas» de Junho a Dezembro. Não difere, por conseguinte, do resto da Província.
Do SAHARÁ sopra o vento «Leste» quente e seco que em choque com a «Monção Marítima» provoca os «Tornados», cuja velocidade chega a atingir os 100 Kms/hora.
Precisamente no período pluvioso, é que, se formam os «Tornados» surgidos bruscamente e precedidos por trovoadas, anunciadas por calor sufocante.
b) Terreno
- A sua configuração é plana. Durante as chuvas transforma-se numa extensa área lacustre, onde os africanos lavram as «bolanhas» e as «lalas».
Uma densa rede hidrográfica corta o território, sobressaindo os rios GEBA e CORUBAL.
A composição geológica do solo é de natureza dorelítica.

4. VIAS DE COMUNICAÇÃO
- Recorde-se que a sede do BART 3873 – BAMBADINCA-, desempenha o importante papel de centro reabastecedor do LESTE, por isso as vias de comunicação aéreas, terrestes e aquáticas oferecem um interesse primacial. Enumeramos os principais:
- Aeródromos: - BAMBADINCA
- XITOLE
- Pistas de heliportagem nos Aquartelamentos e Destacamentos disseminados pelo mato-
- TERRESTES_ - Estrada XIME-BAMBADINCA-BAFATÁ, asfaltada, qualidade que lhe permite um escoamento mais rápido e seguro.
- Estrada BAMBADICA-MANSAMBO-XITOLE.
- Portos: - XIME e BAMBADINCA
- A estes portos acostam barcos civis e militares que circulam no rio GEBA

5. INIMIGO
a) Organização
- Actualmente organiza-se em Frentes. O Sector L1 é abrangido a Ocidente pela Frente MORÉS-NHACRA; a Oriente e Sul pela frente BAFATÁ-XITOLE; a Sudoeste pela Frente de QUINARA; ainda a SUL pela frente BUBA-QUITAFINE e a Norte pela Frente BAFATÁ-GABÚ NORTE.

b) Instalação
- As suas zonas de instalação nos limites do Sector são:
- Regulado XIME-BISSARI (Frente BAFATÀ-XITOLE)
POINDON-BAIO/BURUNTONI-MINA-MANGAI
- Regulado do CUOR
MADINA/ENXALÈ
- Efectivos na 1º zona:
- 03 Bigrupos de Infantaria
- 01 Grupo Especial de Bazookas
- Efectivos na 2ª zona:
- 01 Bigrupo de Infantaria
- 01 Bigrupo de Artilharia
O Abrigo das Transmissões, vendo-se ao lado direito os depósitos da água 1972 

 Efectivos por unidade:


- bigrupo: 38/44 unidades
- bigrupo reforçado: 70 unidades
- grupo de artilharia: 50 unidades
- grupo de canhões/morteiros: 23 unidades
- grupo de foguetões/antiaéreos: 16 unidades

De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes 




6. DISPOSITIVO DAS NOSSAS TROPAS


a) Sub-Sector do XIME


- CART 3494 – XIME, 01 PELOTÃO – ENXALÉ
- 20º PEL ART 10,5 – XIME
- GEMIL 309 e 310 – ENXALÉ
- C. MIL. XIME – TAIBATÁ
- PEL MIL 241 – AMEDALAI
PEL MIL 242 – TAIBATÁ
PEL MIL 243 – DEMBATACO

Vista parcial do XIME em 1972

7. SOBREPOSIÇÃO
- Antes de a CART 3494 do BART 3873 ter assumido, efectivamente, as inerentes funções, desenrolou-se a sobreposição que excepcionalmente e por retardamento de embarque do CART 2715 do BART 2917 se prolongou de 28JAN72 a 14MAR72.
A utilidade desta fase de transição é, como se sabe, a de adaptar ao local de actuação e inteirar sobre o estado de coisas reinante.
(Continua)