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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

P249 - VACINAÇÃO OBRIGATÓRIA ANTES DO EMBARQUE PARA O CTIG. VARÍOLA, CÓLERA E FEBRE-AMARELA (Sousa de Castro ex. 1º cabo radiotelegrafista, CART 3494/BART 3873, Guiné - Xime e Mansambo, 1971/74)

Caros amigos,


Em ref. á mensagem do nosso camarada e amigo Jorge Araújo “p248” dizer quais as vacinas que obrigatóriamente tinhamos de apanhar antes do embarque para o CTIG e as outras Províncias Ultramarinas. Para além da vacinação contra a febre-amarela, foi também contra a varíola e a cólera conforme se pode constatar no meu certificado de vacinas internacional passado pelos Serviços de Saúde e Assistência da Província da Guiné. Certificado pedido por mim, creio que em Bissau antes de vir para a Metrópole no sentido de poder emigrar tendo em conta que os certificados passado pela “Direcção do Serviço de Saúde” do Ministério do Exército não tinham qualquer valor legal para efeitos de saída do País. Por outro lado, na Guiné havia uma outra doença transmitida através do mosquito para a qual não eramos vacinados, muito grave, os sintomas são muito semelhantes aos da gripe, muitos de nós não se livrou de padecer desse mal, estou a referir-me ao PALUDISMO também conhecida por MALÁRIA.

A.  Castro









quarta-feira, 28 de outubro de 2015

P248 - O EMBARQUE EM LISBOA [BASE MILITAR DE FIGO MADURO] E O PRIMEIRO PERÍODO DE FÉRIAS NA METRÓPOLE EM OUTUBRO DE 1972 [HÁ QUARENTA E TRÊS ANOS]

Mensagem do nosso amigo Jorge Araújo que foi Fur. Milº Op. Especiais (Ranger) com data de 23 de Outubro de 2015.


Caríssimos Camaradas Sousa de Castro
Os meus melhores cumprimentos.
Por efeito de nova visita ao baú de memórias, e na linha temática da minha última narrativa, seleccionei meia-dúzia de imagens com mais de quatro décadas e recuperei mais duas efemérides que marcaram aquele nosso tempo do projecto militar: a mobilização e respectivo embarque, e o primeiro período de férias passadas na Metrópole, iniciadas em 24OUT1972, faz hoje quarenta e três anos.
É obra!
Obrigado e felicidades com muita saúde.
Jorge Araújo.

Outubro/2015



GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
A MOBILIZAÇÃO PARA A GUINÉ –– CART 3494
- O EMBARQUE EM LISBOA [BASE MILITAR DE FIGO MADURO]
E O PRIMEIRO PERÍODO DE FÉRIAS NA METRÓPOLE

EM OUTUBRO DE 1972 [HÁ QUARENTA E TRÊS ANOS] -

1. - INTRODUÇÃO
Eis mais duas efemérides que me proponho partilhar convosco, resumidas nesta pequena narrativa histórica. A primeira surge na sequência da respectiva mobilização ultramarina publicada na Ordem de Serviço do então RAP2, Vila Nova de Gaia, em 03JAN1972, com destino ao CTIGuiné, para completar o contingente da CART 3494, do BART 3873 [1971-1974], sediado em Bambadinca [P246]. A segunda decorre do primeiro período de férias passadas na Metrópole, entre 24 de Outubro e 27 de Novembro de 1972, faz agora quarenta e três anos.
Trata-se, naturalmente, de duas memórias de significado antagónico. A primeira tendo por pensamento, não a sabedoria que o contexto impunha nem tampouco a experiência feita por episódios anteriormente vivenciados naquele território africano banhado pelo Atlântico, lugar de misteriosas e desconhecidas matas “com olhos”, mas, tão só, uma elevada crença onde as expectativas deveriam orientar os nossos comportamentos, no sentido de gradativamente ficarmos mais habilitados a jogar aquele “jogo”, em nome da defesa da vida.
Este valor humano [o de viver] não era só uma questão pessoal, incluía também os meus pares ex-combatentes [e vice-versa], onde os desempenhos concertados em cada actividade [missão/acção], com alguma audácia à mistura, deveriam ser cumulativos ao permitir a aquisição de novos saberes e novos comportamentos, aprendendo com cada uma das diferentes experiências, visando obter os melhores resultados possíveis, nestes se incluindo justamente os conceitos de superação e de transcendência, sinónimos de sobrevivência.
Lamentavelmente, no final, este objectivo colectivo não foi conseguido na totalidade.
A segunda como possibilidade de retorno às origens, ainda que com duração efémera traduzida em trinta e cinco dias, que passaram depressa, e com recurso a bens económicos próprios, visando repor/recuperar os deficits físicos e psicológicos por efeito de sete meses de intensa e exigente actividade militar numa zona de grande complexidade [como bem sabem todos aqueles que por lá passaram, antes e depois de nós], como era o exemplo do Xime.
De entre os registos historiográficos desse primeiro período destacam-se: a 1.ª emboscada à Ponta Coli [22ABR1972], a morte de Mário Mendes na Ponta Varela [25MAI1972], o Naufrágio no Rio Geba [10AGO1972] e os diferentes ataques ao Aquartelamento e ao Enxalé, todos eles já aqui referenciados com razoável detalhe.
2.O EMBARQUE LISBOA-BISSAU EM 23MAR1972
Cumpridos os procedimentos administrativos que antecederam o embarque para o CTIG,
como seja a vacinação obrigatória efectuada no Hospital do Ultramar, sito na Junqueira, Freguesia de Alcântara [Lisboa], uma unidade de saúde que, a par do Instituto de Medicina Tropical [IMT], funcionavam na dependência do Ministério da Marinha e Ultramar e que se destinavam a dar assistência médica aos funcionários civis e militares em trânsito, de e para o Ultramar Português, incluindo os casos com doenças tropicais e infecciosas.
Entretanto, por efeito da aprovação do Decreto-Lei n.º 47102, de 16JUL1966, o IMT daria lugar à nova Escola Nacional de Saúde Pública e de Medicina Tropical [ENSPMT], continuando esta a estar inserida no complexo do Hospital do Ultramar. Depois do 25 de Abril de 1974, mais propriamente em 05 de Outubro desse ano, o Hospital do Ultramar passou a designar-se por Hospital Egas Moniz no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do médico, neurologista e investigador português, natural de Estarreja, António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz [1874-1955], galardoado em 1949 com o Nobel de Fisiologia ou Medicina, prémio partilhado com o fisiologista suíço Walter Rudolf Hess [1881-1973], “pela descoberta da relevância da leucotomia (lobotomia) pré-frontal no tratamento de certas doenças mentais”.
Capas dos boletins de vacinas
De referir que o Nobel da Fisiologia ou Medicina, um dos prémios internacionais de investigação científica instituídos pelo sueco Alfred Bernhard Nobel [1833-1896] desde 1901, é atribuído anualmente pelo Instituto Karolinska, situado em Solna, arredores de Estocolmo [Suécia]. Este Instituto sueco, que foi criado em 1811 como centro de treino para cirurgiões do exército, chamava-se inicialmente Medico-Chirurgiska Institutet, sendo no presente a única Universidade de Medicina existente na Suécia. Ele está associado ao Hospital Universitário Karolinska, e daí ser considerado como uma das maiores universidades médicas da Europa.
Concluído o processo de vacinação sem efeitos secundários e expirados os dias de férias atribuídos no processo de mobilização, eis que é chegado o dia «D» – o da despedida – e, concomitantemente, o da partida aprazada para 23 de Março de 1972, uma 5.ª feira.
Depois de um jantar [bem acompanhado] no Restaurante-Cervejaria Solmar, nas Portas de Santo Antão [passe a publicidade], e uma noite sem dormir, obviamente, desloquei-me pelas 08:00 horas ao Aeroporto [Base] Militar de Figo Maduro, ali bem perto da minha casa em Moscavide, onde um Boeing-707 dos Transportes Aéreos Militares [TAM] me/nos aguardava, preparado para voar com mais um contingente militar de cento e noventa milicianos, entre oficiais, sargentos e praças, rumo ao aeroporto de Bissalanca, em Bissau.
Destes, a maioria seguia em situação de rendição individual, com o objectivo de substituir outros camaradas/combatentes por motivos diferentes: fim da comissão, ferimentos em combate ou, ainda, casos de morte. Esta última situação era dramática e altamente emotiva para quem dela tinha conhecimento antecipado.
Foto 2. Figo Maduro (23MAR1972). Grupo de familiares presentes na despedida para o CTIG (imagem pouco nítida).
Foto 3. Figo Maduro (23MAR1972). Grupo de Militares escalando os últimos degraus rumo ao interior do transporte aéreo que, minutos depois, os levaria até Bissau.
3.AS PRIMEIRAS FÉRIAS NA METRÓPOLE - DE 24OUT A 27NOV72
Durante os primeiros meses no Xime, onde cheguei algumas semanas depois de aí ter ficado aquartelada a CART 3494 vinda de Bolama, onde realizou o seu IAO durante o mês de Janeiro de 1972, não fazia a menor ideia de qual seria o melhor período para agendar férias, particularmente por ter/termos de cumprir, no mínimo, dois anos de comissão.
Aos poucos foram-se afinando as ideias sobre esse tema, entre Sargentos e Oficiais da Companhia, ficando definitivamente acordado que o primeiro grupo a marcar férias só o poderia fazer após estarem concluídos os primeiros seis meses de comissão, de acordo com as normas então em vigor.
A gestão do tempo foi-se fazendo com maior ou menor dificuldade, e em finais de Setembro decidi considerar com uma excelente hipótese balizar o primeiro período de férias de modo a fazê-lo coincidir com o meu aniversário [10NOV]. E assim foi. Da análise ao competente plano de férias global, eu, o Espadinha Carda [furriel do 3.º GComb] e o Mendes Pinto [furriel do Serv. Mat.], acordamos viajar em grupo, reservando o voo para a Metrópole para 24 de Outubro (3.ª feira) e o regresso a Bissau para 27 de Novembro de 1972 (2.ª feira).
Dois dias antes fizemos a viagem Xime-Bissau por via marítima, ficando hospedados [se a memória não me atraiçoa] no Hotel-Cervejaria Miramar, a tal cervejaria das ostras «***** estrelas», em que cada travessa custava vinte e cinco pesos. 
Foto 4. Bissau (23OUT1972). O Mendes Pinto, o Espadinha Carda e o Jorge Araújo, mentalizando-se para a sua primeira viagem de férias na Metrópole.
Foto 5. Bissau (23OUT1972). Na marginal, junto ao monumento ícone da epopeia dos Descobrimentos Portugueses do século XV, inaugurado em 1960 em comemoração do quinto centenário da morte do Infante D. Henrique [1394-1460]. 
Foto 6. Bissau (23OUT1972). No jardim da marginal, depois de ter liquidado o valor da viagem de avião entre Bissau/Lisboa/Bissau, e ter na minha posse os respectivos bilhetes.
Foto 7. Bissau (24OUT1972). Aeroporto de Bissalanca (Marechal Craveiro Lopes), aguardando o momento de embarque.
Foto 8. Bissau (24OUT1972). Aeroporto de Bissalanca (Marechal Craveiro Lopes), a caminho do Boeing-707 da TAP, rumo a Lisboa, com três “necessaire”, um de cada elemento do grupo, oferta da Agência de Viagens.
Chegado ao aeroporto de Lisboa era aguardado pelos familiares mais próximos, seguindo depois para a minha residência em Moscavide. Os primeiros dias foram de completa readaptação aos espaços, particularmente no que concerne ao trânsito intenso na capital, aos semáforos e às passadeiras, aos cheiros, aos ruídos; em suma, a quase tudo.
Os dias passaram a ser, gradualmente, mais tranquilos, com os familiares a não perderem a oportunidade de colocarem questões sobre a realidade por mim vivida até então na Guiné, transmitindo-me, nessas ocasiões, os seus medos, expectativas e ansiedades, mas também procurando saber mais como era a sua gente, o seu ambiente, o seu clima, a sua organização social, os seus consumos, o que era perfeitamente natural e normal naquele contexto e naquela época.
Os amigos, alguns mais velhos, que tinham já vivido experiências semelhantes nos diferentes cenários ultramarinos, davam-me conselhos, sugestões e outras dicas visando ajudar-me a ultrapassar eventuais dificuldades.
Fora deste ambiente, e uma vez que o ex-Alf. Mil. Maurício Viegas, também ele natural e Lisboa, e que havia chegado ao Xime em Junho de 1972 em rendição individual para comandar o 20.º Pelotão de Artilharia, sugeriu-me que visitasse os seus pais, residentes na Freguesia da Ajuda, facultando-me a sua morada, o que respeitei. Daí ter agendado um encontro com eles levando-lhes as naturais saudades e palavras de conforto e ânimo para resistirem ao tempo que ainda faltava para a conclusão da sua Comissão de Serviço, pois contabilizava à data uns escassos quatro meses.
Na sequência do primeiro contacto presencial, aceitei a proposta de com eles almoçar, ficando também combinada uma sessão de slides [meus] visando uma aproximação à realidade por parte daqueles que, estando longe do seu filho, agora na condição de militar/combatente, gostavam de ver as suas paisagens, as suas gentes, as lavadeiras, as beijudas e outros ícones da cultura guineense, e que para mim era o contexto para onde teria de voltar alguns dias depois.
Como um dos tios do ex-Alf. Maurício Viegas era pasteleiro [mestre de renome em doçaria], e o sobrinho comemorava mais um aniversário no dia 01DEC, pediu-me para ser portador de um bolo especial para esse dia de anos, confeccionado com uma substância que permitia aguentar os dias em falta até à chegada ao mato. No dia 26NOV1972, véspera da partida, lá fomos buscar o bolo ao Bairro da Boa-Hora, fazendo votos para que ele chegasse inteiro ao seu destinatário.
Embarquei no dia seguinte prometendo voltar, logo que possível, para um segundo período de férias.
Regressado a Bissau no dia 27NOV1972, 2.ª feira, desci à terra e tomei consciência de que as férias tinham acabado e que o principal objecto que teria em mãos, a partir de então, era outro, mais sério e problemático do que nunca.
Cheguei ao aquartelamento do Xime dois dias após a saída de Lisboa, ou seja em 29NOV1972, 4.ª feira, por volta das 17.00 horas. Mas, como tinha feito a totalidade da viagem ao sol [Geba], pois a embarcação civil navegava a céu aberto, logo sem sombras, essa noite foi passada num estado febril em crescendo. Antes, porém, tive a oportunidade de entregar ao ex-Alf. Maurício Viegas, o bolo de aniversário que me tinham pedido para lhe trazer. O dia seguinte foi passado na cama, aguardando que as drogas produzidas no Laboratório Militar, prescritas pelo meu camarada mezinho, ex-Fur. Mil. Enfº Carvalhido da Ponte, fizessem o seu efeito.
O dia seguinte, 01DEC1972, 6.ª feira, voltou a ser um dia diferente, com muitas emoções/tensões, em função de nova emboscada [a 2.ª] à Ponta Coli. Sobre este acontecimento ver P152.
Foto 9. Xime (1998) – Estrada Bambadinca-Xime. O espaço à esquerda da imagem era designado por “Ponta Coli”, local onde ocorreram as duas emboscadas perpetradas pelo PAIGC ao efectivo da CART 3494 [4.º GComb], em 22ABR1972 e 01DEC1972, com baixas de ambos os lados.
[foto do camarada ex-Alf. Mil Acácio Correia, datada de 1998, e obtida durante uma visita realizada por um grupo de ex-combatentes da Companhia à Guiné-Bissau, com a devida vénia].  
Concluída esta pequena narrativa histórica, despeço-me com amizade, prometendo voltar logo que possível com outras memórias da nossa passagem pelo CTIG.

Com um forte abraço e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

24OUT2015.


Fontes do ponto 2:

sábado, 17 de outubro de 2015

P247 - Um 'fuzo' esquecido junto aos mortos do Corubal





Publico com as devidas vénias ao jornal EXPRESSO, mais um caso de um ex. combatente, fuzileiro das forças armadas portuguesas, abandonado, andou 20 anos fugido para não ser fuzilado, ainda mantém a esperança que os companheiros e o governo português o vão buscar e trazê-lo para Portugal.
SC

  
16.09.2015 18h59

Há quase meio século que um homem espera sentado numa canoa na margem do rio Corubal. Não tem nada. Apenas a mágoa de ter sido abandonado, uma revista antiga e um velho cartão de combatente. Espera pelos antigos companheiros que o venham buscar, junto às águas que servem de cemitério para dezenas de portugueses

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5 DE FEVEREIRO DE 1969, CHECHE

Aquele rio parece calmo. Mas tem mortos e vivos que querem ser levados para cá. Em fevereiro de 1969, nove meses após ter sido nomeado governador militar da Guiné, Spínola manda retirar de Madina do Boé. Era um esforço militar inútil. Um quartel isolado a sul de Nova Lamego (hoje, Gabu), cortado por um rio, constantemente fustigado pelo PAIGC, colado à fronteira com Conacri. Essa pequena língua de terra não valia o esforço militar. Mas a travessia do rio Corubal iria ficar associada a uma das maiores tragédias militares portuguesas. E Madina do Boé seria o local onde se proclamaria unilateralmente a independência, em 1973.

Ainda hoje é uma longa e penosa viagem até à passagem do rio Corubal. De Bissau aponta-se a Leste até Gabu e é tudo alcatrão. Umas horas de viagem. Depois, em pista de terra vermelha, vira-se a sul de Conacri para Cheche. Queríamos chegar a Madina do Boé. Mais precisamente ao antigo quartel e ao monumento da independência que lá dizem existir. Mas o Corubal não quis. Do lado de lá está a jangada que consegue transportar viaturas. Mas não atravessa porque o rio está cheio e a corrente forte de mais. Só em outubro. E o que atravessa? São canoas, escavadas a um tronco, com um remador. Levam até motorizadas, mulheres com bebés. É uma operação de risco. O remador avança furiosamente em direção a montante e é arrastado pela corrente até um ponto neutro. Depois desse ziguezague é preciso repetir a operação até conseguir chegar à margem de lá. Uns 200 metros.

Na margem do rio Corubal
Alfredo Cunha


É assim que se percebe o poder brutal da corrente do Corubal, que levou a vida a 47 militares portugueses na noite de 5 para 6 de fevereiro de 1969. A companhia de Caçadores 1790 já tinha percorrido os 30 quilómetros entre o quartel e a margem, com forte apoio aéreo para não ser atacada. O atravessamento do material militar e das viaturas foi feito exatamente com pirogas dessas, com lacas de madeira e um zebro de borracha a empurrar. Foram 28 viaturas pesadas, 100 toneladas de munições, três autometralhadoras e 500 homens. Já de madrugada, na última passagem, quando a jangada vinha carregada de homens, o comandante da operação decide mandar umas morteiradas para uns alegados locais do PAIGC. Os homens a meio do rio entram em pânico por não saberem de onde vem a fogachada. A barcaça começa a cuspir homens vestidos e carregados de munições. Morreram 47. A maioria ficou para sempre naquele rio. Alguns foram enterrados nas margens.

Antigo Fuzileiro português com um exemplar da revista "Combatente"
Alfredo Cunha


E, contudo, há ali um que espera que o venham buscar. Está sentado numa canoa. Aliás, disse-o logo: “Sou fuzileiro especial português Silai, curso NATO, quero ir para Portugal. Estou à espera que me venham buscar.” Esta é uma das muitas histórias que se misturam em remoinho na margem do rio Corubal. Não tem nada. Ou melhor, tem mágoa por ter sido abandonado pelos seus camaradas fuzileiros. Mostra uma revista “Combatente” já muito usada com uma foto de uma reunião de antigos ‘fuzos’ da Guiné: “Somos colegas.” Esteve fugido 20 anos para não ser morto. “Andei pelo Burkina Faso.” E o Burkina é muito longe.
E chegam outras pessoas que querem contar histórias. No início, nada. Agora saem como numa nascente de água, às golfadas. Sobre a morte dos portugueses. De como nos dias seguintes à tragédia apareceram uns helicópteros e não conseguiram levantar os corpos do rio, de como durante anos aparecerem malas e objetos...

Vê aqui vídeo: http://expresso.sapo.pt/internacional/2015-09-16-Um-fuzo-esquecido-junto-aos -mortos-do-Corubal


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

P246 MEMÓRIAS ENTRE A MOBILIZAÇÃO PARA A GUINÉ E O XXX ENCONTRO ANUAL DA CART 3494 [1971-2015] (Jorge Araújo)

Caríssimo Camarada Sousa de Castro
Os meus melhores cumprimentos.
Com este pequeno puzzle de memórias – escritas e imagens – pretendi recuperar alguns dos momentos mais marcantes da nossa história, enquanto ex-combatentes pertencentes ao RAP2 [agora RA5], a começar pelos actos administrativos que tornaram pública a mobilização e consequente nomeação individual e colectiva constituída em Batalhão, seguida do acto solene de despedida para o CTIG em 21DEC1971, vai fazer quarenta e quatro anos.
Aproveitei ainda para dar conta do processo que determinou a minha inclusão no contingente da CART 3494, justificando os factos que influenciaram o calendário na chegada ao Xime com algumas semanas de atraso.
Muitas felicidades com saúde.

Jorge Araújo.

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
O REGIMENTO DE ARTILHARIA PESADA N.º 2 [RAP2] (Serra do Pilar – Vila Nova de Gaia)
- MEMÓRIAS ENTRE A MOBILIZAÇÃO PARA A GUINÉ E O
XXX ENCONTRO ANUAL DA CART 3494 [1971-2015] -
1. - INTRODUÇÃO
Na sequência da conclusão do 2.º ciclo do Curso de Sargentos Milicianos na especialidade de Operações Especiais ocorrida em 11DEC1971, que funcionou nas instalações de Penude (Lamego) do Centro de Instrução de Operações Especiais [C.I.O.E], fui transferido para o então Regimento de Artilharia Pesada n.º 2, sito na Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia [hoje RA-5], em cuja Unidade Militar deveria aguardar a competente nomeação para um dos três Teatros de Operações Ultramarinos (O.S. do CIOE de 17-12-1971).
Aí chegado, tomei conhecimento que o contingente do BART 3873, nomeado para servir na Guiné em rendição do BART 2917 [1970/1972], acabara de gozar a licença de mobilização nos termos do Art.º 20.º das NNCCMU, considerando-se apto para embarcar depois de 16DEC1971, viagem que se veio a concretizar somente a 22DEC1971.
Durante a cerimónia de despedida verificada na véspera, em 21DEC1971, 3.ª feira, foi realizada uma Missa celebrada pelo Capelão da Unidade no Mosteiro da Serra do Pilar, seguida da alocução de um Oficial Superior, em representação do Exmo. Governador da Região Militar do Porto, encerrando-se o acto com o desfile das tropas em parada. 
Foto 1. RAP2 (21DEC1971). As entidades oficiais presentes na cerimónia de despedida do contingente militar do BART 3873 e da Companhia Independente de Artilharia 3521.
No dia seguinte, o contingente do BART 3873 [CCS - CART 3492 - CART 3493 - CART 3494] e da CART 3521 [Companhia Independente de Artilharia] seguiram por caminho-de-ferro até à estação de Santa Apolónia (Lisboa), onde viaturas militares os transportaram para o Cais de Alcântara a fim de zarparem, a bordo do N/M «NIASSA», rumo à Guiné, facto ocorrido por volta das 12:00 horas, com a chegada a Bissau a verificar-se seis dias depois.
2. - MEMÓRIAS PESSOAIS NO RAP2 – 1971-1972
Considerando que o embarque desta Unidade Orgânica [BART 3873], mobilizada para o CTIG pelo RAP2, ocorreu três dias antes do Natal/1971, e a concentração de novo contingente só teria lugar nas primeiras semanas de 1972, fui contemplado com quinze dias de férias natalícias, aí regressando em 03JAN72, 2.ª feira.

Nesse mesmo dia, após o regresso a Gaia, recebi então a notícia mais aguardada na época… a da Mobilização para a Guerra no/do Ultramar.
Na Ordem de Serviço constava:
«Nomeado para servir no Ultramar, na Província da Guiné, nos termos da alínea c) do Art.º 20.º do Decreto-Lei 49107 com destino à CART 3494/BART 3873/RAP2, conforme nota 6319, da RSP/DSP/ME».
Concluída a leitura desta já esperada O.S., a quantidade de adrenalina no organismo registava um aumento significativo, com os pelos dos braços a ficarem eriçados, tal foi a emoção/tensão sentida. Iria seguir, tão breve quanto possível, para a Guiné, particularmente para o Xime, para me juntar ao colectivo da CART 3494.
Como elemento histórico, tomei a iniciativa de vos dar conta da substância que fundamentou a elaboração do Decreto-Lei 49107, de 7 de Julho de 1969, aprovado pelo Conselho de Ministros, em 25JUN1969, presidido por Marcello Caetano, promulgado pelo Presidente da República, Américo Deus Rodrigues Thomaz, e publicado, naquela data, no Diário do Governo - 1.ª série, n.º 157, pp. 798/801.
Com este Decreto-Lei pretende-se reorganizar a estrutura das forças armadas nas províncias ultramarinas onde as circunstâncias obriguem a realização de operações militares, com vista a garantir a soberania nacional sobre o território e a manter a ordem e a tranquilidade pública.
O espírito desta Lei 49107 fundamentava-se nos seguintes princípios:
«A experiência adquirida em oito anos de operações militares no ultramar aconselha a que sejam efectuadas algumas alterações nas estruturas de comando por forma a obter uma melhor adaptação do emprego dos meios militares à evolução da subversão e uma mais completa e estreita colaboração entre comandos militares e autoridades administrativas no esforço comum.
Na reorganização que é objecto do presente diploma, considera-se a plena responsabilidade operacional do comandante-chefe, em cada um dos teatros de operações, e a necessidade de o referido comandante-chefe constituir e acionar directamente comandos operacionais subordinados compreendendo forças de um ou mais ramos das forças armadas, quando a situação o aconselhe, por forma a adaptar o emprego das forças militares à evolução da situação em determinadas zonas.
O comando operacional será exercido pelo comandante-chefe sobre as forças de cada ramo das forças armadas através dos comandos terrestre, naval e aéreo ou de comandos operacionais, normalmente conjuntos, constituídos para actuação, em certas zonas ou sectores, os quais lhe ficam directamente subordinados para este efeito. […]».
Quanto ao Art.º 20.º da Lei supra, em obediência do/da qual fomos mobilizados, pode ler-se:
Art.º 20.º -
1.    O pessoal para serviço nas províncias ultramarinas pode ser nomeado por:
a)    - Escolha.
b)    - Oferecimento.
c)    - Imposição de Serviço (o nosso caso).
2. Nas nomeações por escolha ou por imposição de serviço, a duração das comissões é, normalmente, de dois anos.
3. As comissões voluntárias serão de quatro anos, prorrogáveis por períodos de um ano, até ao máximo de dois períodos, a requerimento dos interessados.
4. Os cargos em que pode ser aplicada a nomeação por escolha serão objecto de despacho do Ministro da Defesa Nacional, ouvidos os titulares dos departamentos das forças armadas.
5. As condições em que se processam as nomeações por oferecimento ou por imposição de serviço são estabelecidas pelo titular do respectivo departamento.
Para memória futura, procedi à gravação de uma imagem daquele momento relacionado com a publicação/divulgação da nomeação.   

3. - MEMÓRIAS DA CART 3494 NO RA5 [ex-RAP2] – 13JUN2015

Por efeito da realização do XXX Almoço/Convívio Anual dos ex-combatentes da CART 3494 ter lugar, este ano [13JUN2015], no Município de Vila Nova de Gaia, no Restaurante Quinta da Paradela, sito na Freguesia de Pedroso, a Comissão Organizadora eleita tomou a iniciativa de homenagear, na sua Unidade Mobilizadora para o CTIGuiné [ex-RAP2], agora Regimento de Artilharia 5, os camaradas que tombaram nos diferentes Teatros de Operações Ultramarinos, em particular, o nosso camarada Furriel Manuel Rocha Bento [ver P241 + P242].
Foto 5. RA5/ex-RAP2 (13JUN2015). Guarda d’Honra na cerimónia oficial de homenagem aos militares da Unidade mortos em combate.
Nesse contexto, e no mesmo local da foto 3, aproveitei para recuperar o dia em que saiu em Ordem de Serviço a minha mobilização, “batendo uma chapa”, quarenta e três anos e meio depois daquela emoção forte, mas desta vez trajando, naturalmente, à civil.
Fotos 6 e 7. RA5/ex-RAP2 (13JUN2015). Quarenta e três anos e meio depois da foto 3, para mais tarde recordar.
Foto 8. RA5/ex-RAP2 (13JUN2015). Memorial aos mortos em combate

4. - O XXX ALMOÇO/CONVÍVIO ANUAL DA CART 3494 - 2015
       – MAIS ALGUMAS IMAGENS
Ainda a propósito do nosso último Encontro Anual, eis mais algumas imagens.

Concluo esta curta narrativa enviando para todos um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
23SET2015