Mensagem do nosso amigo Jorge Araújo que foi Fur. Milº Op. Especiais (Ranger) com data de 23 de Outubro de 2015.
Caríssimos
Camaradas Sousa de Castro
Os
meus melhores cumprimentos.
Por
efeito de nova visita ao baú de memórias, e na linha temática da minha última
narrativa, seleccionei meia-dúzia de imagens com mais de quatro décadas e recuperei
mais duas efemérides que marcaram aquele nosso tempo do projecto militar: a
mobilização e respectivo embarque, e o primeiro período de férias passadas na
Metrópole, iniciadas em 24OUT1972, faz hoje quarenta e três anos.
É
obra!
Obrigado
e felicidades com muita saúde.
Jorge
Araújo.
Outubro/2015
GUINÉ
Jorge
Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo,
1972/1974)
A MOBILIZAÇÃO PARA A
GUINÉ –– CART 3494
- O
EMBARQUE EM LISBOA [BASE MILITAR DE FIGO MADURO]
E O
PRIMEIRO PERÍODO DE FÉRIAS NA METRÓPOLE
EM OUTUBRO
DE 1972 [HÁ QUARENTA E TRÊS ANOS] -
1. - INTRODUÇÃO
Eis mais duas efemérides que me proponho
partilhar convosco, resumidas nesta pequena narrativa histórica. A primeira surge
na sequência da respectiva mobilização ultramarina publicada na Ordem de
Serviço do então RAP2, Vila Nova de Gaia, em 03JAN1972, com destino ao CTIGuiné,
para completar o contingente da CART
3494, do BART 3873 [1971-1974], sediado em Bambadinca [P246]. A segunda decorre
do primeiro período de férias passadas na Metrópole, entre 24 de Outubro e 27
de Novembro de 1972, faz agora quarenta e três anos.
Trata-se, naturalmente, de duas memórias
de significado antagónico. A primeira tendo por pensamento, não a sabedoria que
o contexto impunha nem tampouco a experiência feita por episódios anteriormente
vivenciados naquele território africano banhado pelo Atlântico, lugar de
misteriosas e desconhecidas matas “com olhos”, mas, tão só, uma elevada crença
onde as expectativas deveriam orientar os nossos comportamentos, no sentido de
gradativamente ficarmos mais habilitados a jogar aquele “jogo”, em nome da defesa
da vida.
Este valor humano [o de viver] não era só uma
questão pessoal, incluía também os meus pares ex-combatentes [e vice-versa],
onde os desempenhos concertados em cada actividade [missão/acção], com alguma
audácia à mistura, deveriam ser cumulativos ao permitir a aquisição de novos
saberes e novos comportamentos, aprendendo com cada uma das diferentes
experiências, visando obter os melhores resultados possíveis, nestes se
incluindo justamente os conceitos de superação e de transcendência, sinónimos
de sobrevivência.
Lamentavelmente, no final, este objectivo colectivo
não foi conseguido na totalidade.
A segunda como possibilidade de retorno às
origens, ainda que com duração efémera traduzida em trinta e cinco dias, que
passaram depressa, e com recurso a bens económicos próprios, visando repor/recuperar
os deficits físicos e psicológicos por
efeito de sete meses de intensa e exigente actividade militar numa zona de
grande complexidade [como bem sabem todos aqueles que por lá passaram, antes e
depois de nós], como era o exemplo do Xime.
De entre os registos historiográficos
desse primeiro período destacam-se: a 1.ª emboscada à Ponta Coli [22ABR1972], a
morte de Mário Mendes na Ponta Varela [25MAI1972], o Naufrágio no Rio Geba
[10AGO1972] e os diferentes ataques ao Aquartelamento e ao Enxalé, todos eles já
aqui referenciados com razoável detalhe.
2. – O
EMBARQUE LISBOA-BISSAU EM 23MAR1972
Cumpridos
os procedimentos administrativos que antecederam o embarque para o CTIG,
como
seja a vacinação obrigatória efectuada no
Hospital
do Ultramar, sito na Junqueira, Freguesia de Alcântara [Lisboa], uma
unidade de saúde que, a par do
Instituto
de Medicina Tropical [IMT], funcionavam na dependência do Ministério da
Marinha e Ultramar e que se destinavam a dar assistência médica aos
funcionários civis e militares em trânsito, de e para o Ultramar Português,
incluindo os casos com doenças tropicais e infecciosas.
Entretanto, por efeito da aprovação do
Decreto-Lei n.º 47102, de 16JUL1966, o IMT
daria lugar à nova Escola Nacional de Saúde Pública e de Medicina Tropical
[ENSPMT], continuando esta a estar inserida no complexo do Hospital do
Ultramar. Depois do 25 de Abril de 1974, mais propriamente em 05 de Outubro
desse ano, o Hospital do Ultramar passou a designar-se por Hospital Egas Moniz no âmbito das comemorações do centenário do
nascimento do médico, neurologista e investigador português, natural de
Estarreja, António Caetano de Abreu Freire Egas
Moniz [1874-1955], galardoado em 1949 com o Nobel de Fisiologia ou
Medicina, prémio partilhado com o fisiologista suíço Walter Rudolf Hess [1881-1973], “pela
descoberta da relevância da leucotomia (lobotomia) pré-frontal no tratamento de
certas doenças mentais”.
 |
Capas dos boletins de vacinas
|
De referir que o Nobel da Fisiologia ou
Medicina, um dos prémios internacionais de investigação científica instituídos
pelo sueco Alfred Bernhard Nobel
[1833-1896] desde 1901, é atribuído anualmente pelo Instituto Karolinska, situado em Solna, arredores de Estocolmo [Suécia]. Este
Instituto sueco, que foi criado em 1811 como centro de treino para cirurgiões
do exército, chamava-se inicialmente Medico-Chirurgiska Institutet, sendo no presente a única
Universidade de Medicina existente na Suécia. Ele está associado ao Hospital
Universitário Karolinska, e
daí ser considerado como uma das maiores universidades médicas da Europa.
Concluído o processo de vacinação sem
efeitos secundários e expirados os dias de férias atribuídos no processo de
mobilização, eis que é chegado o dia «D» – o da despedida – e,
concomitantemente, o da partida aprazada para 23 de Março de 1972, uma 5.ª
feira.
Depois de um jantar [bem acompanhado] no
Restaurante-Cervejaria Solmar, nas Portas de Santo Antão [passe a publicidade],
e uma noite sem dormir, obviamente, desloquei-me pelas 08:00 horas ao Aeroporto
[Base] Militar de Figo Maduro, ali bem perto da minha casa em Moscavide, onde
um Boeing-707 dos Transportes Aéreos Militares [TAM] me/nos aguardava, preparado
para voar com mais um contingente militar de cento e noventa milicianos, entre
oficiais, sargentos e praças, rumo ao aeroporto de Bissalanca, em Bissau.
Destes, a maioria seguia em situação de
rendição individual, com o objectivo de substituir outros camaradas/combatentes
por motivos diferentes: fim da comissão, ferimentos em combate ou, ainda, casos
de morte. Esta última situação era dramática e altamente emotiva para quem dela
tinha conhecimento antecipado.
 |
Foto 2. Figo Maduro (23MAR1972).
Grupo de familiares presentes na despedida para o CTIG (imagem pouco nítida).
|
 |
Foto 3. Figo
Maduro (23MAR1972). Grupo de Militares escalando os últimos degraus rumo ao
interior do transporte aéreo que, minutos depois, os levaria até Bissau.
|
3. – AS
PRIMEIRAS FÉRIAS NA METRÓPOLE - DE 24OUT A 27NOV72
Durante os primeiros meses no Xime, onde
cheguei algumas semanas depois de aí ter ficado aquartelada a CART 3494 vinda de Bolama, onde
realizou o seu IAO durante o mês de Janeiro de 1972, não fazia a menor ideia de
qual seria o melhor período para agendar férias, particularmente por ter/termos
de cumprir, no mínimo, dois anos de comissão.
Aos poucos foram-se afinando as ideias sobre
esse tema, entre Sargentos e Oficiais da Companhia, ficando definitivamente
acordado que o primeiro grupo a marcar férias só o poderia fazer após estarem
concluídos os primeiros seis meses de comissão, de acordo com as normas então
em vigor.
A gestão do tempo foi-se fazendo com maior ou
menor dificuldade, e em finais de Setembro decidi considerar com uma excelente
hipótese balizar o primeiro período de férias de modo a fazê-lo coincidir com o
meu aniversário [10NOV]. E assim foi. Da análise ao competente plano de férias
global, eu, o Espadinha Carda [furriel do 3.º GComb] e o Mendes Pinto [furriel
do Serv. Mat.], acordamos viajar em grupo, reservando o voo para a Metrópole
para 24 de Outubro (3.ª feira) e o regresso a Bissau para 27 de Novembro de
1972 (2.ª feira).
Dois dias antes fizemos a viagem Xime-Bissau
por via marítima, ficando hospedados [se a memória não me atraiçoa] no
Hotel-Cervejaria Miramar, a tal cervejaria das ostras «***** estrelas», em que
cada travessa custava vinte e cinco pesos.
 |
Foto 4. Bissau (23OUT1972). O Mendes
Pinto, o Espadinha Carda e o Jorge Araújo, mentalizando-se para a sua primeira
viagem de férias na Metrópole.
|
 |
Foto 5. Bissau (23OUT1972). Na
marginal, junto ao monumento ícone da epopeia dos Descobrimentos Portugueses do
século XV, inaugurado em 1960 em comemoração do quinto centenário da morte do
Infante D. Henrique [1394-1460].
|
 |
Foto 6. Bissau (23OUT1972). No
jardim da marginal, depois de ter liquidado o valor da viagem de avião entre
Bissau/Lisboa/Bissau, e ter na minha posse os respectivos bilhetes.
|
 |
Foto 7. Bissau (24OUT1972).
Aeroporto de Bissalanca (Marechal Craveiro Lopes), aguardando o momento de
embarque.
|
 |
Foto 8. Bissau (24OUT1972).
Aeroporto de Bissalanca (Marechal Craveiro Lopes), a caminho do Boeing-707 da
TAP, rumo a Lisboa, com três “necessaire”, um de cada elemento do grupo, oferta
da Agência de Viagens.
|
Chegado ao aeroporto de Lisboa era
aguardado pelos familiares mais próximos, seguindo depois para a minha
residência em Moscavide. Os primeiros dias foram de completa readaptação aos
espaços, particularmente no que concerne ao trânsito intenso na capital, aos
semáforos e às passadeiras, aos cheiros, aos ruídos; em suma, a quase tudo.
Os dias passaram a ser, gradualmente, mais
tranquilos, com os familiares a não perderem a oportunidade de colocarem
questões sobre a realidade por mim vivida até então na Guiné, transmitindo-me,
nessas ocasiões, os seus medos, expectativas e ansiedades, mas também
procurando saber mais como era a sua gente, o seu ambiente, o seu clima, a sua
organização social, os seus consumos, o que era perfeitamente natural e normal
naquele contexto e naquela época.
Os amigos, alguns mais velhos, que tinham
já vivido experiências semelhantes nos diferentes cenários ultramarinos,
davam-me conselhos, sugestões e outras dicas visando ajudar-me a ultrapassar
eventuais dificuldades.
Fora deste ambiente, e uma vez que o
ex-Alf. Mil. Maurício Viegas, também ele natural e Lisboa, e que havia chegado
ao Xime em Junho de 1972 em rendição individual para comandar o 20.º Pelotão de
Artilharia, sugeriu-me que visitasse os seus pais, residentes na Freguesia da
Ajuda, facultando-me a sua morada, o que respeitei. Daí ter agendado um
encontro com eles levando-lhes as naturais saudades e palavras de conforto e ânimo
para resistirem ao tempo que ainda faltava para a conclusão da sua Comissão de
Serviço, pois contabilizava à data uns escassos quatro meses.
Na sequência do primeiro contacto
presencial, aceitei a proposta de com eles almoçar, ficando também combinada
uma sessão de slides [meus] visando uma aproximação à realidade por parte
daqueles que, estando longe do seu filho, agora na condição de militar/combatente,
gostavam de ver as suas paisagens, as suas gentes, as lavadeiras, as beijudas e
outros ícones da cultura guineense, e que para mim era o contexto para onde
teria de voltar alguns dias depois.
Como um dos tios do ex-Alf. Maurício Viegas
era pasteleiro [mestre de renome em doçaria], e o sobrinho comemorava mais um
aniversário no dia 01DEC, pediu-me para ser portador de um bolo especial para
esse dia de anos, confeccionado com uma substância que permitia aguentar os
dias em falta até à chegada ao mato. No dia 26NOV1972, véspera da partida, lá
fomos buscar o bolo ao Bairro da Boa-Hora, fazendo votos para que ele chegasse
inteiro ao seu destinatário.
Embarquei no dia seguinte prometendo
voltar, logo que possível, para um segundo período de férias.
Regressado a Bissau no dia 27NOV1972, 2.ª
feira, desci à terra e tomei consciência de que as férias tinham acabado e que
o principal objecto que teria em mãos, a partir de então, era outro, mais sério
e problemático do que nunca.
Cheguei ao aquartelamento do Xime dois
dias após a saída de Lisboa, ou seja em 29NOV1972, 4.ª feira, por volta das
17.00 horas. Mas, como tinha feito a totalidade da viagem ao sol [Geba], pois a
embarcação civil navegava a céu aberto, logo sem sombras, essa noite foi
passada num estado febril em crescendo. Antes, porém, tive a oportunidade de
entregar ao ex-Alf. Maurício Viegas, o bolo de aniversário que me tinham pedido
para lhe trazer. O dia seguinte foi passado na cama, aguardando que as drogas
produzidas no Laboratório Militar, prescritas pelo meu camarada mezinho, ex-Fur.
Mil. Enfº Carvalhido da Ponte, fizessem o seu efeito.
O dia seguinte, 01DEC1972, 6.ª feira, voltou
a ser um dia diferente, com muitas emoções/tensões, em função de nova emboscada
[a 2.ª] à Ponta Coli. Sobre este acontecimento ver P152.
 |
Foto 9. Xime (1998) – Estrada
Bambadinca-Xime. O espaço à esquerda da imagem era designado por “Ponta Coli”, local
onde ocorreram as duas emboscadas perpetradas pelo PAIGC ao efectivo da CART
3494 [4.º GComb], em 22ABR1972 e 01DEC1972, com baixas de ambos os lados.
[foto do camarada ex-Alf. Mil Acácio
Correia, datada de 1998, e obtida durante uma visita realizada por um grupo de
ex-combatentes da Companhia à Guiné-Bissau, com a devida vénia].
|
Concluída esta pequena narrativa histórica,
despeço-me com amizade, prometendo voltar logo que possível com outras memórias
da nossa passagem pelo CTIG.
Com um forte abraço e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
24OUT2015.
Fontes do ponto 2: