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sexta-feira, 10 de março de 2017

P303 - GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE; SIMÃO ANTÓNIO MENDES MORTO NA BASE DO MORÉS EM 20 DE FEVEREIRO DE 1966 (...) Depois de duas horas de combate, só conseguiram lançar uma bomba dentro da Base causando a morte a 3 camaradas entre os quais o responsável da saúde do C.I.R.N., Simão António Mendes.

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494(Xime-Mansambo, 1972/1974)


Tendo por temática específica a dimensão «Saúde», abordada durante a realização do I Congresso do PAIGC organizado em fevereiro de 1964 nos arredores da Tabanca de Cassacá, a Sul de Cacine (Frente Sul), volto hoje a ela para vos dar conta de factos pouco conhecidos sobre a figura de Simão António Mendes, responsável por esta área na Frente Norte, Região do Oío, Base Central (Morés).
Foi neste local, onde desenvolvia a sua actividade de quadro dirigente, que em 20 de fevereiro de 1966 viria a morrer na sequência da actividade operacional das NT, em particular da FAP por via do bombardeamento dessa base.    
Com um forte abraço de amizade. 
Jorge Araújo.

MAR’2017.

GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
SIMÃO ANTÓNIO MENDES – RESPONSÁVEL PELA ÁREA DA SAÚDE DO C.I.R.N. DO PAIGC

- MORTO NA BASE DO MORÉS EM 20 DE FEVEREIRO DE 1966 -

1.   INTRODUÇÃO
Apresentei no início deste ano uma resenha histórica relacionada com a realização do I Congresso do PAIGC, organizado nos arredores da Tabanca de Cassacá (Frente Sul), entre 13 a 17 de fevereiro de 1964 [P297].
Nela dei conta, com particular destaque, à importância social da saúde e da instrução literária analisadas um mês depois, em 21 de março, na Base Central (Morés), por iniciativa dos responsáveis dessa Frente [Norte], Ambrósio Djassi [nome de guerra de Osvaldo Vieira, 1938-1974] e Chico Té [nome de guerra de Francisco Mendes, 1939-1978], cumprindo deste modo as resoluções aprovadas no Encontro de Cassacá.
Nesse âmbito, e no que concerne à área da Saúde, Simão António Mendes [enfermeiro de formação], seu principal responsável na Região Norte, apresentou um relatório [normas ou regulamento] com dez pontos, que foi aprovado por unanimidade.
Ao ler no Blogue da Tabanca Grande o P17119, da responsabilidade do camarada Jorge Ferreira [ex-alf mil da 3ª CCAÇ, Bolama, Nova Lamego, Buruntuma e Bolama, 1961/63], onde se faz referência a Simão [António] Mendes, nome com que foi baptizado o Hospital Nacional de Bissau [imagem abaixo], “antigo enfermeiro da época colonial, militante do PAIGC, morto em combate no Morés, e sobre o qual se sabe muito pouco”, tomei a iniciativa de partilhar convosco o que apurei sobre este tema.
2.   SIMÃO ANTÓNIO MENDES – As suas funções e a sua morte
   - O que apurei
Como fonte de investigação bibliográfica, utilizei para este caso os arquivos da Casa Comum da Fundação Mário Soares.
Confirma-se, pela nota abaixo reproduzida, que Simão António Mendes fazia parte, de facto, da Direcção de Saúde do PAIGC.
No documento, por si assinado, enviado à Direcção Central do PAIGC em 24 de Março de 1964, ou seja, três dias após ter apresentado na Base Central (Morés) as normas de funcionamento da sua estrutura, pode ler-se:
I – Junto se remete a requisição dos medicamentos e mais artigos para um trimestre para consumo de guerrilheiros e povo da zona libertada por esses últimos não poderem deslocar a outra parte à procura de assistência sanitária.
II – Tomámos boa nota da última carta do nosso camarada Lourenço Gomes [responsável no exterior (Senegal; Base de Samine) pelo acompanhamento dos evacuados do interior da Guiné], sobre doentes a enviar para a fronteira que passarão a ser só os feridos por arma de fogo, tais como fracturas e certos casos graves que não podemos resolver cá, por falta de recursos.
Cumprimentos cordiais.
Simão António Mendes e João Augusto Costa


Citação: (1964), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_35806 (2017-3-09)
Fonte:
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 04613.065.155
Assunto: Remete a requisição de medicamentos e mais artigos para os guerrilheiros e população (para um trimestre). Refere que tomaram boa nota das indicações de Lourenço Gomes de enviar para a fronteira apenas os feridos com arma de fogo.
Remetente: Simão António Mendes, João Augusto Costa.
Destinatário: Direcção do PAIGC.
Data: Terça, 24 de Março de 1964.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Correspondência 1963-1964 (dos Responsáveis da Zona Sul e Leste).
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.
Tipo Documental: Correspondência
   - A sua morte em 20 de fevereiro de 1966
De acordo com o comunicado da Base Central (Morés), a morte de Simão António Mendes ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1966, domingo, sendo descrita nos seguintes termos:
“No dia 20 de fevereiro [de 1966] o inimigo apoiado por 8 caçadores [?] invadiu a Base Central [Morés]. O combate que durou 6 horas de tempo, teve como resultado a retirada em debandada inimiga que caiu em 3 emboscadas sucessivas.
O inimigo não podendo realizar o plano, reforçou a aviação. Com o fim de bombardear a base, onde os nossos camaradas de armas anti-aéreas deram uma grande prova de coragem não os deixando realizar o plano.
Depois de duas horas de combate, só conseguiram lançar uma bomba dentro da Base causando a morte a 3 camaradas entre os quais o responsável da saúde do C.I.R.N., Simão António Mendes.
Dois aviões foram atingidos pelo fogo da D.C.K. [metralhadora pesada de 14.5 mm]
Região Oío, Zona Morés, Base Central.

Citação: (s.d.), "Comunicado [Região 3]", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40720 (2017-3-09)

Fonte:
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07065.068.011
Título: Comunicado [Região 3]
Assunto: Comunicado da Base Central, na Região de Oío, Zona de Morés, dando conta da invasão desta Base pelo exército e aviação portugueses, tendo sido atingidos dois aviões pelos combatentes do PAIGC, munidos de armas antiaéreas.
Data: s.d.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Exército Popular Zona Norte (Comunicados)
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.
Tipo Documental: Documentos.

Mapa da Região do Oío - Base Central (Morés)
Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
10MAR2017.

1 comentário:

Carlos Paulo disse...

Estive no Olossato entre 64/65 fazendo parte da CART.566 fizemos nesse período de comissão várias operações a' Base do Mores.onde capturamos vário material de guerra ao inimigo.Ainda hoje recordo situações vividas nessas operações e já passaram tantos anoslembro-me como se fosse hoje.Tenho fotos do material capturado na minha página.Um Abraço para todos os camaradas que passaram pela Guiné!!!