Os meus melhores cumprimentos.
O Naufrágio no Rio Geba
ocorrido no dia 10AGO1972, independentemente de estar a uma distância de
quarenta e dois anos – faz hoje – foi, é e continuará a ser um tema sensível no
contexto dos ex-combatentes da CART 3494, do BART 3873, por ter provocado, de
forma perfeitamente estúpida, o desaparecimento de três dos seus membros por
afogamento.Por esse facto, e porque estivemos envolvidos nessa experiência de forma intensa, em que durante alguns minutos vivemos entre a água e o céu, entre a terra e o inferno, entre a vida e a morte, como referimos na introdução, consideramos tarefa difícil fazer-se o seu luto, tão fortes foram as emoções e as tensões que ocasionaram.
Dito isto, não podia deixar de prestar, nesta data, mais uma singela homenagem aos camaradas naufragados, relembrando/recordando alguns detalhes desse evento, adicionando-lhe outros factos associados que merecem a nossa relevância social e histórica.
Obrigado.
Um forte
abraço.
Jorge
Araújo.
10Ago2014.
GUINÉ
Jorge
Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo,
1972/1974)
RELEMBRANDO O RIO
GEBA E O MACARÉU
- O NAUFRÁGIO DE
10AGO1972 E FACTOS ASSOCIADOS -
I – O NAUFRÁGIO NO RIO GEBA – 10AGO1972
-
Introdução
Em 2012, faz hoje
precisamente dois anos [Vd. P159], tomei a iniciativa de divulgar, na primeira
pessoa, as ocorrências relacionadas com um acontecimento que marcou a vida
colectiva dos ex-combatentes da CART 3494, em particular daqueles que
directamente nele estiveram envolvidos – uma secção do 1.º GComb – e
que ficou conhecido, na história da Companhia e do BART 3873, como o «Naufrágio no Rio Geba».
Como referi nesse
testemunho histórico, durante alguns minutos vivemos entre a água e o céu,
entre a terra e o inferno, entre a vida e a morte, sendo que este último conceito
viria a aplicar-se, lamentavelmente, a três dos catorze militares que naquela 5.ª
feira, 10AGO1972, faz hoje quarenta e
dois anos, tinham por missão fazer a travessia entre as margens esquerda e
direita do Rio Geba, por esta ordem, com o objectivo operacional de sinalizar eventuais
vestígios deixados no terreno pelo IN (inimigo), vulgo reconhecimento à zona
circunvolvente ao Destacamento de Mato Cão.
Relembramos, neste
contexto, que a travessia do Rio Geba, a iniciar-se no Cais do Xime, sito a
250/300 metros do Aquartelamento da Companhia, seria feita com recurso a um
bote de fibra de vidro conhecido por Sintex,
com motor fora de bordo de 50 cavalos, sendo sugerido no protocolo de
utilização, como elemento de segurança, que a sua lotação não deveria
ultrapassar a dezena de indivíduos, incluindo o barqueiro. Contudo o universo
de efectivos militares destacados para esta missão era constituído por nove
praças devidamente equipados, por mim próprio, e ainda pelo CMDT da Companhia,
o ex-Cap. Pereira da Costa, pelo ex-Alf. Sousa, em situação de Estágio
Operacional e pelo ex-Major de Operações Henrique Jales Moreira [o mais
graduado], bem como pelo barqueiro do Sintex.
- O naufrágio [relembrando alguns detalhes]
Com a navegação a cargo do barqueiro, como seria natural e normal, com o motor a desempenhar a sua função e com as águas muito agitadas por efeito do macaréu*, cada um de nós não deixou de se interrogar quanto ao sucesso da «aventura» em que tínhamos embarcado e que, pouco tempo depois, deixou de ter hipóteses de retrocesso.
O pânico subia à medida que a embarcação se aproximava da cabeça do macaréu, cada vez com mais agitação e remoinhos à mistura. Naquele momento, um novo conceito surgiu no léxico dos militares, particularmente nas praças, que traduzia o sentimento que estavam a viver… “eu não sei nadar”, no princípio entre-dentes e depois mais audíveis e expressivos. O cenário começava, então, a ficar cinzento, deslizando para uma cor cada vez mais escura, independentemente de estar um dia óptimo, cheio de sol e com a temperatura ambiente a aumentar.
- O naufrágio [relembrando alguns detalhes]
Com a navegação a cargo do barqueiro, como seria natural e normal, com o motor a desempenhar a sua função e com as águas muito agitadas por efeito do macaréu*, cada um de nós não deixou de se interrogar quanto ao sucesso da «aventura» em que tínhamos embarcado e que, pouco tempo depois, deixou de ter hipóteses de retrocesso.
O pânico subia à medida que a embarcação se aproximava da cabeça do macaréu, cada vez com mais agitação e remoinhos à mistura. Naquele momento, um novo conceito surgiu no léxico dos militares, particularmente nas praças, que traduzia o sentimento que estavam a viver… “eu não sei nadar”, no princípio entre-dentes e depois mais audíveis e expressivos. O cenário começava, então, a ficar cinzento, deslizando para uma cor cada vez mais escura, independentemente de estar um dia óptimo, cheio de sol e com a temperatura ambiente a aumentar.
Xime, "Macaréu" - Foto de David Guimarães da CART 2716 do BART 2917 |
A pergunta filosófica
que, certamente, cada um formulou para si, era a de saber como poderíamos sair
daquele imbróglio, sãos e salvos? Entretanto, uma nova ordem foi dada, visando
criar alguma réstia de esperança quanto à possibilidade e/ou às probabilidades
de sobrevivência colectiva, apontando para uma “navegação o mais perto
possível da margem esquerda”, ou seja, a mesma donde partíramos.
Quando nos encontrávamos a cerca de quatro/cinco metros do tarrafo – zona de lodo ainda não submersa, e onde habitualmente a comunidade de crocodilos [alfaiates; conceito militar] se organizava em frisa apanhando os seus banhos de sol [imagem abaixo] e, eventualmente, observava as suas presas – eis que se escuta uma nova ordem: “haja um que salte para o tarrafo levando consigo as correntes do bote com o objectivo de o poder suster”.
Pelo
exposto, acredita que é o primeiro familiar de Manuel Salgado Antunes a
saber, verdadeiramente, a história de seu tio, solicitando, se possível, mais
informações sobre este caso, pois mantem presente essa curiosidade, agora que
estão passados tantos anos.
Quando nos encontrávamos a cerca de quatro/cinco metros do tarrafo – zona de lodo ainda não submersa, e onde habitualmente a comunidade de crocodilos [alfaiates; conceito militar] se organizava em frisa apanhando os seus banhos de sol [imagem abaixo] e, eventualmente, observava as suas presas – eis que se escuta uma nova ordem: “haja um que salte para o tarrafo levando consigo as correntes do bote com o objectivo de o poder suster”.
Olhando à minha
volta, e perante a ausência de candidatos e/ou voluntários disponíveis para o
cumprimento deste desiderato, eis que tomámos em mãos esse desafio. Porque a
embarcação continuava instável face à movimentação das águas [imagem abaixo], o
salto só poderia acontecer quando a distância entre o bote e a lodo fosse de
molde a facilitar a operação proposta. Não sendo possível identificar o melhor
momento para o salto, eis que no tempo «X» saltámos levando nas mãos a dita
corrente já referida anteriormente. Durante o salto, feito de frente para o
tarrafo, ouvimos, vindo da nossa rectaguarda, um ruído provocado pelo embate da
proa do bote na parte mais alta do lodo, tendo como consequência a inclinação
do mesmo projectando para a água todos os seus ocupantes. Primeiro os que se
encontravam no lado esquerdo da embarcação e depois os do lado direito, por
efeito do desequilíbrio provocado pela transferência de peso que então ocorrera
[lei da física].
De seguida, na água a luta era extremamente desigual entre o poder do Homem versus o poder da maré. Cada um dos militares, equipado e vestido com o seu camuflado que lhe dificultava a mobilidade no meio daquele líquido espesso e lodoso [imagem acima], procurava chegar a terra firme o mais rapidamente possível, pondo-se a salvo. E isso aconteceu a oito de um total de catorze elementos.
De seguida, na água a luta era extremamente desigual entre o poder do Homem versus o poder da maré. Cada um dos militares, equipado e vestido com o seu camuflado que lhe dificultava a mobilidade no meio daquele líquido espesso e lodoso [imagem acima], procurava chegar a terra firme o mais rapidamente possível, pondo-se a salvo. E isso aconteceu a oito de um total de catorze elementos.
Dos seis em falta,
três conseguiram entrar no bote: o barqueiro, o Miranda [1.º cabo de
dilagramas] que, remando com a sacola das suas granadas, ajudou a recolher o ex-Major
Jales Moreira em situação problemática. E os três seguiram ao sabor da corrente
na direcção de Bambadinca, local onde estava sediado o Batalhão.
Os outros três
elementos em falta eram: José Maria da Silva Sousa [de S. Tiago de
Bougado, Trofa Velha (Santo Tirso)], Manuel Salgado Antunes [de
Quimbres, São Silvestre (Coimbra)] [Vd. P180] e Abraão Moreira Rosa [da Póvoa de
Varzim], que acabariam por desaparecer nas águas escuras e lodosas do Rio Geba,
sem que existisse qualquer hipótese de salvamento [Vd. P159].
- A recuperação dos náufragos
- A recuperação dos náufragos
A angústia e a
ansiedade dominaram o resto deste dia e dos subsequentes, desenvolvendo-se a
crença e/ou a expectativa dos corpos dos desaparecidos poderem ser recuperados.
Porém, essa crença e/ou expectativa apenas se concretizou uma vez,
lamentavelmente. Decorridas mais de trinta horas após o acidente foi localizado
um corpo/cadáver junto ao Cais do Xime [imagem abaixo]; era o do José Maria
da Silva Sousa [o Bazuqueiro]. O seu corpo estava desnudo e em processo de
transformação, como é natural neste tipo de ocorrência. O seu comprimento
aumentara substancialmente, ultrapassando largamente os dois metros, assim como
o seu peso, agora com valores a rondar os cento e cinquenta quilos.
Durante mais alguns
dias, todos os olhares estiveram direccionados para o Rio Geba, esperando que
ele nos devolvesse os outros dois corpos, mas em vão.
Em
13AGO1972, domingo, procedemos à realização do funeral do camarada José Maria
da Silva Sousa, numa tarde de autêntico dilúvio [estávamos na época das Chuvas]
e com direito a Honras Militares, função desempenhada pelo 3.º GComb., ficando
o seu corpo sepultado no Cemitério de Bambadinca, sede do BART 3873.
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Campa do J. Sousa em Bambadinca do filme "A Dor Adormecida" exibido na RTP em 20 de Setembro de 2006 |
- Factos
associados
Mesmo estando
decorridos quarenta e dois anos da data desta lamentável ocorrência continuam a
persistir dúvidas a nível de alguns Quadros de Comando do BART 3873,
nomeadamente quanto aos dois náufragos não recuperados. Em nome da verdade dos
factos, confirmo que só um dos três corpos foi recuperado pelo contingente da
CART 3494, pelo que só uma das três campas existentes no Cemitério de
Bambadinca se refere ao militar metropolitano: José Maria da Silva e Sousa, natural de Santiago do Bougado - Trofa Velha, conforme foto original, cedida pelo ex. 1º cabo condutor-auto Abílio Soares Rodrigues.
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Campa do: José M. S. Sousa em Bambadinca |
Quanto às outras duas
(?!) campas que o ex-Major Jales Moreira me informou aí existirem, em contacto
recente, é de admitir, como probabilidade credível, que se refiram a dois combatentes
do PAIGC, mortos no dia 01DEC1972 na 2.ª emboscada na Ponta Coli [Vd. P152], ou
seja, três meses e meio depois do naufrágio.
Ainda hoje se não entendem
as motivações que influenciaram a decisão de omitir, na HISTÓRIA DO BART 3873, este
acontecimento marcante para todos nós, dele fazendo-se “tábua rasa”,
nomeadamente no seu 5.º fascículo referente às actividades/acções do mês de «Agosto-1972»
[pp. 77/79; pontos 35/40]. O único apontamento que conhecemos está expresso no
Capítulo III – Baixas, Punições, Louvores e Condecorações [pp. 145/165]. Na pg.
149; Agosto-72; 1.Baixas; pode-se ler na alínea d) “Por Outras Causas”
[nome dos três camaradas naufragados] “… todos da CART 3494, mortos por
afogamento, no acidente do rio Geba, em 10AGO72”.
É
inacreditável…, pois nunca houve justificação para tal.
II – HISTÓRIA DIVULGADA POR FAMILIAR DE UM
NÁUFRAGO
-
o caso do Manuel Salgado Antunes
No dia 25Mai2013
Miguel Ribeiro Antunes, sobrinho de Manuel Salgado Antunes, na sequência
de ter lido neste blogue a narrativa sobre o Naufrágio no Rio Geba de 10AGO1972,
onde se fazia referência, justamente, aos nomes dos três náufragos [sendo um
deles o de seu tio], tomou a iniciativa de nos escrever dando conta do que
sabia sobre este tema [Vd. P180].
Miguel Antunes |
A
residir na Suíça, onde é arquitecto, Miguel Antunes refere que nunca conheceu o
seu tio, que era irmão de seu pai. Sobre este caso, afirma que a sua família
nunca soube muito bem o que se passou. A sua avó morreu há dois anos [2011] e
no último dia de vida perguntou-lhe o que é que eu “Manuel” [confundindo-o com o
seu filho/tio] estava ali a fazer quando estivera tanto tempo sem aparecer.
Para Miguel foi o seu maior desgosto por ver aquela mulher, que ele adorava,
morrer sem nunca ter tido uma certeza nem um corpo para fazer um funeral. Mais
estranho é o facto de no dia em que sua avó morreu, esteve um senhor na sua
casa afirmando saber onde estavam os restos mortais do seu tio na Guiné, e caso
estivessem interessados em tratar deste assunto, ele era um ex-combatente.
Naquele contexto de
muito pesar, a sua mãe não fixou o nome do senhor ex-combatente, tendo apenas a
ideia de tratar-se de alguém duma localidade perto de Quimbres, de nome
Carapinheira.
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Manuel Salgado Antunes |
Ainda nesse mesmo
dia, na sequência de ter recebido notícias do camarada Sousa de Castro, que
agradeceu, acrescentou que este assunto sempre se falou em sua casa sem
problemas, mas nunca se aprofundou muito. A incerteza quanto ao incidente era
alguma, até porque outras pessoas da aldeia e arredores, ex-combatentes,
contavam várias histórias diferentes e ao longo dos anos talvez a versão
original se tenha dissipado.
Porque se encontra na
Suíça, por ser mais um que teve de deixar o País, não pode enviar fotos do seu
tio. Mas, quando vier de férias a Portugal, promete enviar algumas que tem e
que estiveram escondidas durante anos, decisão tomada pelo seu pai para que a
sua avó não vivesse agarrada a esse passado – histórias da vida.
Perante estes dois
contactos carregados de angústia e emoção, e como resposta ao interesse
demonstrado em saber algo mais, escrevi-lhe o seguinte:
Caro Miguel,
Antes de mais receba os meus
melhores cumprimentos e um bem-haja pela iniciativa que tomou. Com efeito, foi
uma boa notícia saber que um familiar do Manuel Antunes, a mais de dois mil
quilómetros da sua terra natal, tomou conhecimento, mais de quarenta anos
depois, dos factos reais relacionados com a morte de seu tio, assunto que
durante todo este tempo esteve envolto em mistério, suscitando naturais dúvidas
e incredulidade no seio da sua família.
Considero este seu contacto, por
isso, uma recompensa à iniciativa de tornar pública essa ocorrência estúpida,
como são todas aquelas que poderiam ser evitadas, e que fez com que o seu tio
naufragasse naquele dia 10Ago1972, nas águas revoltas do Rio Geba, na Guiné, e
de mais dois camaradas seus.
Reafirmo o que ficou expresso na minha narrativa: - os corpos dos nossos camaradas Manuel Antunes, seu tio, e o do Abraão Rosa, nunca apareceram pelo que não existem restos mortais recuperados. Daí ninguém poder afirmar que conhece as suas localizações, o que lamento e lamentam todos os ex-militares constituintes da CART 3494. Lamento, ainda, a falta de ética e moral como trataram este assunto junto dos seus familiares directos, ocultando a verdade dos factos, entretanto tornados públicos. Por via da existência deste nosso blogue, que é a expressão colectiva de todos quantos partilharam o mesmo contexto, pretendemos continuar a prestar um verdadeiro “serviço público”.
Reafirmo o que ficou expresso na minha narrativa: - os corpos dos nossos camaradas Manuel Antunes, seu tio, e o do Abraão Rosa, nunca apareceram pelo que não existem restos mortais recuperados. Daí ninguém poder afirmar que conhece as suas localizações, o que lamento e lamentam todos os ex-militares constituintes da CART 3494. Lamento, ainda, a falta de ética e moral como trataram este assunto junto dos seus familiares directos, ocultando a verdade dos factos, entretanto tornados públicos. Por via da existência deste nosso blogue, que é a expressão colectiva de todos quantos partilharam o mesmo contexto, pretendemos continuar a prestar um verdadeiro “serviço público”.
Uma vez que gostaria de voltar a
este assunto, e porque certamente o Miguel já fez circular estas notícias por
outros membros da sua família, muito grato ficaria se pudesse acrescentar algo
mais ao que já referiu nos seus comentários, em particular a opinião de seu pai
[a resposta ainda não chegou…]. J.A.
Porque este foi, é e
continuará a ser um tema sensível no contexto da CART 3494, do BART 3873, os
acontecimentos no Rio Geba [Xime-Bambadinca], no dia 10AGO1972, continuarão a
ser relembrados/recordados… sempre, na medida em que é difícil fazer-se o seu
luto.
Obrigado pela
atenção.
Um grande abraço,
muita saúde e boas férias.
Jorge Araújo.
10Ago2014.
*Macaréu: Sublevação brusca das águas, que se produz em certos estuários no momento da cheia e que progride rapidamente para as nascentes sob forma violenta, capaz de fazer estragos em pequenas embarcações.
PS: Gostaríamos que algum familiar ou amigos do nosso camarada ABRAÃO MOREIRA ROSA, natural da Póvoa de Varzim, desaparecido no fatídico acidente no rio Geba manifestasse a intenção de partilhar algo, como fotos por exemplo, ou o que achar relevante para enriquecimento da história da CART 3494.
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