MSG de Jorge Araújo com data de:16AGO2016

Nele se faz referência à
primeira grande experiência vivida pelo colectivo da CART 3494, um mês após a
sua chegada ao Xime, na sequência da sua participação na Operação “Trampolim
Mágico”, realizada nas matas do Fiofioli nos dias 26 e 27 de fevereiro de 1972,
onde estiveram envolvidos cerca de sete centenas de militares.
Vd. Poste 2º fragmento: http://cart3494guine.blogspot.pt/2016/08/p275-guine-do-outro-lado-do-combate.html
GUINÉ
Jorge Alves Araújo,
ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo,
1972/1974)
GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
MEMÓRIAS DE MÉDICOS CUBANOS (1966-1969) – ‘VII’
- O CASO DO MÉDICO AMADO ALFONSO DELGADO (III) -
1. – INTRODUÇÃO
Neste
livro, para além dos depoimentos desses três clínicos que estiveram na
Guiné-Bissau: Domingo Diaz Delgado, Amado Alfonso Delgado e Virgílio Camacho
Duverger, podemos ainda conferir e/ou comparar outros relatos sobre experiências
vividas na primeira pessoa por outros médicos cubanos presentes em diversas
missões africanas como foram os casos da Argélia, do Congo Leopoldville, do
Congo Brazzaville ou de Angola.
Recordo,
igualmente, que por estar perante uma tradução e adaptação do castelhano, onde
procurei respeitar as ideias expressas nas respostas dadas a cada questão,
entendi não fazer juízos de valor sobre o seu conteúdo, colocando entre
parênteses rectos, quando possível, algumas notas avulsas de reforço sócio
histórico ao que foi transmitido, com recurso a imagens desse contexto
retiradas da Net e dos arquivos do blogue da “Tabanca Grande”, na justa medida
em que cada facto relatado ocorreu num tempo e num espaço (que não é o meu!),
logo único, vivido por cada um dos sujeitos.
Contudo,
esta minha decisão não significa que não se possa realizar, em cada situação
concreta, o competente contraditório (ou acrescentar algo mais), uma vez que
neste conflito bélico existiram dois lados, daí o título com que baptizei este
trabalho: “d(o) outro lado do combate - memórias de médicos cubanos”.
Cada
um julgará o que é credível e/ou ficção…
1. – O CASO DO MÉDICO AMADO ALFONSO DELGADO [III]
Esta sétima parte corresponde, com efeito, ao terceiro de quatro
fragmentos em que foi dividida a entrevista ao doutor Amado Alfonso Delgado,
médico de clínica-geral, com experiência em cirurgia, natural de Santa Clara,
capital da província de Villa Clara, a cidade mais central de Cuba.
No que concerne aos dois fragmentos anteriores [P274 e P275] neles
se dão conta dos antecedentes que influenciaram a sua decisão de cumprir uma
missão internacionalista, tendo por cenário desejado o Vietname, que não se
concretizou, acabando por surgir outro destino alternativo como foi o exemplo
da Guiné Portuguesa (hoje Guiné-Bissau).
A sua missão africana inicia-se na véspera de Natal de 1967, tinha
então vinte e sete anos de idade, na companhia de outro médico, voando de
Havana até Conacri, com escala em Gander [Canadá], Praga, Paris e Senegal. Os
primeiros três meses passou-os na Guiné-Conacri, prestando serviço médico no
Hospital de Boké na companhia de mais quatro clínicos cubanos: o cirurgião
militar Almenares, um ortopedista, um analista de laboratório e um técnico de
raio X.
A integração na guerrilha ocorre, somente, em abril de 1968,
quando segue para a frente Leste para substituir o seu companheiro Daniel
Salgado, médico-cirurgião militar que entretanto adoecera com paludismo. Após
ter entrado em território da Guiné-Bissau (a Sul), a primeira caminhada
terminou na base de Kanchafra, aonde se encontravam vinte combatentes cubanos.
Seguiram-se outras etapas ao longo de oito dias, com caminhadas cada vez mais
duras, pois não estava preparado para esse desempenho. Nesse período de tempo
passou por diversas aldeias onde se alimentava com farinha e carne que lhe
ofereciam, afirmando ter passado fome, habituando-se, desde então, a comer
pouco.
Ao quarto dia disseram-lhe que tinha chegado à Mata do Unal, na
região do Cumbijã, um local onde “o tiro era abundante”. Continua a sua
“viagem” a pé, chegando à foz do Rio Corubal / Rio Geba onde lhe foi
transmitido que naquele lugar havia um problema mais perigoso que a tropa portuguesa,
chamado “macaréu”. Quando chegou à outra margem [?], encontrou um homem branco
em calções, com gorro na cabeça e uma camisa. “Olhou-me com alguma indiferença
perguntando-me: tu pensas aguentar esta ratoeira? “Esquece, pois não duras nem
três meses”. Perguntei-lhe porquê? Ao que me respondeu: “tu verás como isto é”.
Entre maio de 1968 e setembro de 1969 [dezassete meses], movimentou-se
nas matas do Unal e do Fiofioli [Sector L1 - Bambadinca], com destaque para
esta última frente, aonde esteve os primeiros nove meses de 1969, que foram os
últimos da sua missão, durante os quais viveu muitos sobressaltos, com muitas
corridas em ziguezague, rastejanços e dores de barriga, que implicaram sucessivas
trocas de acampamento, incluindo a destruição das suas enfermarias, por quatro
vezes.
Devido a todas estas ocorrências, por efeito da intervenção dos
militares portugueses em diferentes acções naquela região, e das tensões a elas
associadas, pensou não ser possível sobreviver. Mas, conseguiu concluir a sua
missão, regressando a Cuba em Outubro desse ano.
Eis a continuação de outros relatos revelados pelo doutor Amado
Alfonso Delgado tendo por base o guião da sua entrevista.
Entrevista com 25 questões [P3
> da 12.ª à 15.ª]
“Cirurgias com a ténue luz de fachos de palha ardendo”
12. = Viveu muitas tensões nesses
ataques?
Durante o
segundo ano que ali estive [Sector L1 - Bambadinca; 1969] realizam-se muitos
desembarques de tropas helitransportadas, por exemplo, o hospitalito
[enfermaria de colmo] da Mata de Fiofioli o/a queimaram em quatro ocasiões.
Cada vez que uma avioneta [DO-27] nos sobrevoava duas vezes, logo nos atacavam.
Primeiro realizavam um bombardeamento, para depois desceram os militares.
Os últimos
seis ou sete meses que ali estive [com início em janeiro de 1969] [os
portugueses] efectuaram uma operação muito grande e demorada [“Op. Lança Afiada”,
entre 8 e 19 de março de 1969, uma das maiores operações realizadas no CTIG, movimentando
cerca de 1300 efectivos, dos quais 36 eram oficiais, 71 sargentos, 699 praças,
106 milícias e 379 carregadores. Nesta operação, comandada pelo então coronel
Hélio Esteves Felgas (1920-2008), participaram as seguintes onze Unidades
Orgânicas: CART’s: 1743, 1746, 2338, 2339 e 2413; CCAÇ’s: 1791, 2403, 2405 e
2406; Pel.Mil da CCAÇ 2314 e PelCaçNat 53 (P11575-LG)].
[Quinze dias após esta operação, mais duas foram
realizadas no mesmo sector com o objectivo de “se completarem as destruições
dos meios de vida naquela região”, cada uma delas com a duração de dois dias. A
primeira, “Op. Baioneta Dourada”, decorreu em 2 e 3 de abril de 1969,
envolvendo a CART 1746 e as CCAÇ’s 2314 e 2405, num total de sete GComb. A segunda, em 4 e 5 de abril de 1969, na “Op. Espada Grande”, estiveram envolvidas as CART’s 2339 e 2413 e a CCAÇ 2406, com nove GComb. As bases do PAIGC percorridas foram as situadas na zona de Satecuta, Galo Corubal e Poindom (P9095-LG)].
[Três anos
depois, também de dois dias, em 26 e 27 de fevereiro de 1972, foi realizada a “Op.
Trampolim Mágico” (infogravura abaixo), envolvendo o (nosso) BART 3873, com as
CART’s 3492, 3493 e (a nossa) 3494; o BCAÇ 3872, com as CCAÇ 3489, 3490 e 3491;
a CCAÇ 12; dois GEMIL: 309 e 310 e a Companhia de Caçadores Paraquedistas 123,
num total de vinte e oito GComb, equivalente a um efectivo de cerca de setecentos
elementos, missão que contou com a presença no terreno do Comandante-chefe
General António de Spínola (1910-1996).
Esta operação contou, ainda, com o
apoio da FAP, com uma parelha de Fiat’s G91, uma parelha de T-6, dois Hélis e
um Heli-canhão, e da Marinha, através do desembarque anfíbio na margem direita
do Rio Corubal, da CART 3492 (Xitole; 4GC), CART 3493 (Mansambo; 4GC), CCAÇ
3489 (Cancolim; 1GC), CCAÇ 3490 (Saltinho; 1GC) e CCAÇ 3491 (Dulombi; 2GC),
respectivamente na Ponta Luís Dias e em Tabacuta, tendo estas forças realizado
acções de ataque a aldeias controladas pelo PAIGC atravessando as matas do
Fiofioli até Mansambo (P13359-LG)].
Quando o
ataque começou eram sete da manhã e estivemos correndo até às cinco da tarde.
Eu não podia nem respirar da secura da garganta, pois não tínhamos água.
Chegámos a uma aldeia desolada e no centro havia uma espécie de nascente com
lodo e muitos bichos, e assim mesmo a bebemos. Eu levava uma lata de leite
condensado, e essa foi a comida: água com lodo e leite condensado para poder
seguir.
Cerca de vinte guerrilheiros juntaram-se,
depois, a nós e disseram que já podíamos regressar, uma vez que já não se
ouviam os rebentamentos. Quando chegámos a um arrozal larguíssimo, a que
chamavam lala, sentimos o ruído dos hélis. Nos tiraram o sono, e os aparelhos
passaram-nos por cima. Não sei como não nos viram, pois o terreno era verde e a
fila de homens, deitados por terra, usavam uniformes amarelos que receberam de
oferta. Esta foi outra das coisas inconcebíveis que me sucederam. Os hélis
recolheram os militares portugueses e retiraram-se.
Continua…
Obrigado
pela atenção.
Um
forte abraço de amizade e votos de boas férias, com saúde.
Jorge
Araújo.
16AGO2016.
[Consulta
em 30 de maio de 2016]. Disponível em:
http://www.centropablo.cult.cu/libros_descargar/historiamedicos_cubanos.pdf
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