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segunda-feira, 25 de março de 2019

P366 - 82 ALFERES QUE TOMBARAM NA GUINÉ [1963-1974] Jorge Araújo


MSG de 15MAR2019 

Caríssimo Camarada Sousa de Castro,

Os meus melhores cumprimentos.

Na sequência de uma pesquisa por mim realizada, necessária para a elaboração de diferentes narrativas relacionadas com a nossa presença/participação na guerra no CTIG, venho pelo presente partilhar no nosso blogue os resultados que, nesse âmbito, apurei.
Nestes primeiros quadros estatísticos, apenas faremos referência aos camaradas "Alferes" tombados no período de 1963-1974.
Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.




segunda-feira, 11 de março de 2019

P365 - EM BUSCA DE... O 1º CABO COUTO DO PEL. CAÇ. NAT. 54, ENCONTROU O CAMARADA QUE O SALVOU DE MORRER AFOGADO NO RIO GEBA EM BAMBADINCA, NO ANO DE 1973



Alberto Couto
José Augusto da Silva Dias
Foi com muita emoção que Alberto D’Aparecida Couto, 1º cabo Atirador do PEL CAÇ NAT 54, conseguiu encontrar na zona do Barreiro, o amigo, José Augusto da Silva Dias que procurava à quarenta e seis anos. Aconteceu hoje, dia 11 de Março de 2019. Não foi o encontro pessoal como gostaria, foi por via telefone, onde recordaram esse momento quase trágico com a promessa de se encontrarem em data a designar. 
Recordo que o José Dias integrou a CCS do BART 3873 com a especialidade de Sol. Maqueiro. Foi o homem que no dia 30 de Abril de 1973 salvou o 1º cabo Couto de morrer afogado na travessia do rio Geba em Bambadinca, ao ter-se virado a canoa que o transportava juntamente com outros camaradas, se apercebeu que um deles não sabia nadar, lançando-se de imediato à água conseguindo arrastar para terra o 1º cabo Couto. Esta ação valeu-lhe um louvor pelo CMDT do BART 3873.
Susana Couto

CONSEGUIMOS... não há impossíveis! Foi com esta frase que sua filha Susana Couto exprimiu toda a sua satisfação e alegria, por conseguir que seu Pai pudesse agradecer uma vez mais ao seu salvador. Esta ação desencadeada, devido à sua persistência, quer através das redes sociais, contactos familiares, blogues relacionado com a guerra do Ultramar e outros, acima de tudo muita teimosia em atingir objetivos a que se propôs. Bem haja! Parabéns!


Sousa de Castro,

11/03/2019
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Susana Couto

As primeiras palavras do telefonema entre o Alberto Couto e o José Dias. Conta a sua filha Susana na sua página do Facebook.


Dia 11 de Março de 2019 ás 14,55 horas

A procura acabou! O dia que nunca será esquecido das nossas memórias! Foi assim;

Alberto: Oh Dias! És tu Dias?! Onde é que tu estás? Á 46 anos que te procuro! Onde é que tu estás Dias?!

Foram estas simples palavras que nos deixaram em lágrimas quando o meu pai ao telemóvel falou com o camarada que tanto queria encontrar! O camarada, o anjo que lhe salvou a vida há quase 47anos!

Hoje mais que nunca agradeço a Deus e a muita gente que ajudou nesta procura (vocês sabem quem são) cada um terá sempre todo o meu respeito e carinho, nunca me vou esquecer de todo o apoio e ajuda nesta procura que acabou hoje.

Muito obrigada de coração!
Susana Couto

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

P364 - EX. 1º CABO ATR. ALBERTO D'APARECIDA COUTO, RENDIÇÃO INDIVIDUAL, ADIDO AO BART 2917 MAIS TARDE AO BART 3873, INTEGRADO NO PEL CAÇ NAT 54. PROCURA O HOMEM QUE O SALVOU DE MORRER AFOGADO NO RIO GEBA EM BAMBADINCA NO DIA 30 DE ABRIL DE 1973


À procura de: soldado maqueiro da CCS/BART 3873, José Augusto da Silva Dias



O veterano 1º cabo atirador, Alberto  D'Aparecida Couto, Guiné – Fá Mandinga,  Mato-Cão e Missirá, Setembro 1971/Julho de 1973, integrado no PEL CAÇ NAT 54.  

Muito embora fosse atirador, desempenhou a função de cozinheiro durante 18 meses no destacamento de Missirá.
O Cabo Couto, como era conhecido adido com carácter eventual ou permanente à CCS/BART 2917, mais tarde à CCS/BART 3873 por o primeiro ter findado a comissão. Serviu o Estado Português na Guiné em rendição individual, integrado no PEL. CAÇ. NAT. 54, colocado em Fá Mandinga, rodando para o Mato-Cão em Abril de 1972, onde ajudou na construção do destacamento. Em Outubro do mesmo ano, devido a alterações do dispositivo, o Pelotão infra, rodou de novo desta vez para Missirá, terminando aí a sua comissão com 23 meses de serviço. 

Natural de Fragoso - Barcelos, chegou a sua casa no dia 03 de Agosto de 1973, fixou residência na freguesia de Aldreu do concelho de Barcelos, distrito de Braga. 

Foi através de sua filha Susana Couto, que publicou uma mensagem no Facebook, no grupo: “Xitole-Xime-Mansambo-Bambadinca” apelar para encontrar um amigo de seu nome; José Augusto da Silva Dias, Maqueiro da CCS/BART3873, (foto ao lado) julga residir na Baixa da Banheira, que o salvou de morrer afogado no dia 30 de Abril de 1973, na travessia do rio Geba da margem norte para a margem sul no cais de Bambadinca, o que lhe valeu ser louvado pelo Exmo. CMDT do BART 3873 em 17 de Maio de 1973.

O Alberto em conversa pelo telefone conta que a canoa ia com 11 ou 12 pessoas a bordo, navegava com três ou quatro centímetros fora de água, quando a forte corrente ou o próprio pessoal a fez virar, não sabia nadar, foi quando o amigo Soldado, Joaquim Silva se lançou à água conseguindo pôr a salvo de morrer afogado.
Nunca mais se esqueceu do momento dramático que passou, e gostaria de encontrar o seu salvador, para lhe agradecer uma vez mais e para possível confraternização. 

Contacto: TM: 961 936 840  sousadecastro@gmail.com ou 964 897 030

susanarl2005@hotmail.com

Fotogaleria:
Da Esq./Drtª – Em primeiro plano José Augusto Silva Dias, o terceiro é o Alberto Couto

1º cabo Alberto Couto, ao meio em pé e o sol. José Dias em baixo na sua frente

Da esq./drtª: sol. José Dias em 1º plano e o 1º cabo Couto em 3º pela mesma ordem

Alberto Couto (FEV 2019)


Com um forte abraço de amizade,


Sousa de Castro, ex. 1ºcabo radiotelegrafista da CART 3494


Guiné – Xime e Mansambo JAN 1972/ABR 74


21 de Fevereiro de 2019

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

P363 - UMA EFEMÉRIDE COM CINQUENTA ANOS 06FEV1969/06FEV2019 - HOMENAGEM AOS CAMARADAS AÇORIANOS E MADEIRENSES DA CCAÇ 2444 E CCAÇ 2446 QUE TOMBARAM EM CAPÓ (Jorge Araújo)



MSG com data de: 13 de Fevereiro de 2019


Passados cinquenta anos daquela que ficou gravada na historiografia da Guerra no CTIG como a tragédia da «Jangada de Ché-Che», que agora recordo, um outro acontecimento ocorrido na zona do «chão manjaco", em Capó, onde se registaram mais quatro baixas.
É pois em homenagem aos camaradas açorianos e madeirenses da CCAÇ 2444 e CCAÇ 2446, que tombaram nesse dia 6 de Fevereiro de 1969, que aqui deixo o meu testemunho.
Com um forte abraço de amizade,

Jorge Araújo.


GUINÉ

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494

(Xime-Mansambo, 1972/1974)


HOMENAGEM AOS CAMARADAS AÇORIANOS E MADEIRENSES DA CCAÇ 2444 E CCAÇ 2446 QUE TOMBARAM EM CAPÓ

- UMA EFEMÉRIDE COM CINQUENTA ANOS - 6FEV1969/6FEV2019 -


1.   - INTRODUÇÃO

O dia 6 de Fevereiro de há cinquenta anos [1969], uma quinta-feira, está considerado na historiografia da Guerra do Ultramar, ou da Guerra Colonial, em particular no CTIG, como uma das datas mais dramáticas vividas pelas Forças Armadas Portuguesas, onde pereceram cinquenta e um militares, entre elementos do contingente europeu e do recrutamento local.

No caso do desastre da “Jangada de Ché-Che”, na sequência da retirada das NT de Madina do Boé, envolvendo os camaradas da CCAÇ 1790, com vinte e seis mortos, da CCAÇ 2405, com dezanove, e mais dois do PMil 149, totalizando, assim, quarenta e sete elementos naufragados no Rio Corubal.

Em relação a essa narrativa postada como efeméride [P19473-LG] retenho o que recordou o camarada José Martins sobre essa tragédia inesquecível afirmando ser “uma data indelével para os combatentes da Guiné e familiares dos militares que sucumbiram na catástrofe durante a travessia do Rio Corubal”, ao mesmo tempo que referiu os seus nomes.

Porém, esta não foi a única ocorrência, com baixas, registada nesse dia 6 de Fevereiro de 1969. Uma outra aconteceu em Capó, situada na estrada entre Cacheu e Bachile, envolvendo a CCAÇ 2444 (Açoriana) e a CCAÇ 2446 (Madeirense). Dos combates travados com os guerrilheiros do PAIGC resultaram quatro baixas para as NT, sendo três da Companhia Açoriana e uma da Companhia Madeirense.

Carta de Teixeira Pinto (1961); Escala 1/50 mil). Posição relativa a Capó, na estrada entre Teixeira Pinto - Churo - Bachile - Capó - Cacheu [P11219-LG, com a devida vénia].

No sentido de lhe/lhes prestarmos, de igual modo, as devidas e sentidas homenagens que aqui deixo um resumo histórico desses factos.

1.   – RESUMO HISTÓRICO DAS DUAS UNIDADES

2.1 – A COMPANHIA DE CAÇADORES 2444 (AÇORIANA)

Tendo como Unidade Mobilizadora o Batalhão de Infantaria Independente 18 [BII 18], de Ponta Delgada, a CCAÇ 2444, com a divisa “Coriscos”, embarcou a bordo do N/M “UÍGE”, em 09Nov1968, tendo chegado a Bissau, onde desembarcou a 15 do mesmo mês, sob o comando do Capitão Miliciano de Infantaria João Duarte de Oliveira Abreu.

Em 28Nov’68 seguiu para Bula e depois para Có, a fim de efectuar treino operacional com a CCAÇ 2402, sob orientação do BCAV 1915, de 01Dez’68 a 23Dez’68 e seguidamente, na função de subunidade de reserva do Comando-Chefe, reforçar aquele Batalhão de Cavalaria na actuação naquela zona de missão.

Em 28Jan69 foi colocada em Cacheu, em reforço temporário do CAOP, com vista à realização de acções de contra-penetração naquela área (região), sendo então integrada no BCAV 1915 e depois no BCAÇ 2485, onde permaneceu até ser substituída pela CCAV 2487, em 29Mar69, deslocando-se para Bissorã. [...] O embarque de regresso, por ter concluído a sua comissão, aconteceu em 20Ago70, a bordo do navio “Carvalho Araújo”.

2.2 – A COMPANHIA DE CAÇADORES 2446 (MADEIRENSE)

Tendo como Unidade Mobilizadora o Batalhão de Infantaria Independente 19 [BII 19], do Funchal, a CCAÇ 2446, com a divisa “Alea Jacta Est”, embarcou a bordo do N/M “UÍGE”, em 11Nov1968, tendo chegado a Bissau, onde desembarcou a 15 do mesmo mês, sob o comando do Capitão Miliciano de Infantaria Manuel Ferreira de Carvalho.

Em 04Dez68, foi colocada em Cacheu, a fim de render a CCAÇ 1681 e assumiu a responsabilidade do respectivo subsector em 07Dez68, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCAÇ 2845, e depois do BCAV 2868, com um pelotão destacado em Bachile, desde 29Nov68 a 24Abr69. […] O embarque de regresso, por ter concluído a sua comissão, aconteceu em 01Out70, a bordo do N/M “UÍGE”.

2.3 – AS OCORRÊNCIAS CONTADAS POR AQUELES QUE PARTICIPARAM NA «OPERAÇÃO AQUILES I»

Instalado a partir de 27Jan69 em Teixeira Pinto, o CAOP foi organizado para cumprir a missão de orientar as suas actividades operacionais de modo a intensificar o esforço de aniquilamento sistemático dos grupos inimigos que exerciam pressão directa sobre o «Chão Manjaco», na região de Pecau-Churo-Caboiana-Pelundo-Jol.

Em função das missões atribuídas às diferentes forças no terreno pelo comando do CAOP de Teixeira Pinto, no dia 6 de Fevereiro de 1969 deu-se início à «Operação Aquiles I», na qual participaram diversas Unidades, entre elas a CCAÇ 2444, a CCAÇ 2446 e a CCAÇ 2366, de Jolmete (1968/1970), dos camaradas Manuel Carvalho e João Rebola (1945-2018) - P11384-LG.

Recupero, a esse propósito, as informações dadas pelo camarada Manuel Carvalho (ex-fur mil da CCAÇ 2366, de Jolmete, acerca das ocorrências com a CCAÇ 2444 (Açoriana) e com a CCAÇ 2446 (Madeirense):

Em 6 de Fevereiro de 1969, começou a «Op Aquiles I» que se prolongou até 14 seguinte. Logo no primeiro dia, 6 de Fevereiro, a CCAÇ 2444 teve três mortos e um guia civil e três feridos e a CCAÇ 2446 teve um morto e um ferido e o Pel Mil 130 quatro feridos. Pela nossa parte, a CCAÇ 2366, julgo que tivemos um ferido e um dia apanhámos um RPG2 e três armas, mas estávamos a ver que as munições não chegavam para abrir caminho para o quartel.” (…) (P11219-LG).

Mortos da CCAÇ 2444 (Açoriana):

● Manuel de Amaral Carneiro; Fur. Inf.; natural de São José, Ponta Delgada; solteiro.

● José Bento Pacheco Aveiro; Soldado; natural de Nordeste, S. Miguel; casado.

● Manuel dos Santos Costa Almeida; Soldado; natural de Arrifes, Ponta Delgada; solteiro.

Mortos da CCAÇ 2446 (Madeirense):

● Manuel Brás Catanho Ribeiro; 1.º Cabo; natural de Ribeira Seca, Machico; solteiro.

Jolmete (Fev69) – O Manuel Carvalho, o Dandi e o Martins na chegada da “Op. Aquiles I”, em que apanharam o RPG2 e mais três armas. (Dandi, natural de Jol, no “Chão Manjaco”, era capitão da companhia de milícias do Pelundo. Foi agraciado com a Cruz de Guerra pelo Gen Spínola em 1972. Será fuzilado pelo PAIGC em 1975. [foto do camarada Manuel Carvalho - P18989-LG - com a devida vénia].

Um outro depoimento é-nos dado pelo camarada João Carlos Resendes Carreiro, ex-alf mil da CCAÇ 2444, a propósito da efeméride dos quarenta anos [2009], publicada no «Correio dos Açores» e repetida no blogue da «Tabanca» - P11209-LG.

Eis o que viu e sentiu naquele dia 6 de Fevereiro de 1969:

Faz hoje 40 anos [agora, cinquenta] que numa emboscada na Guiné, morreram os militares de saudosa memória do furriel Manuel Carreiro (o Mani, filho do então Director do Diário dos Açores), o soldado José Aveiro (do Nordeste) e o soldado Manuel Almeida (o triclinas do Outeiro dos Arrifes).

 Eram 7 horas da manhã, a luz do dia já começava a aparecer, mas a densidade do nevoeiro (cacimbo) mal deixava ver as palmeiras e restante vegetação à nossa volta.

Estávamos na zona de Capó, entre o Cacheu e Bachile, uma curva na estrada, com bolanha dos dois lados. Uma rajada de metralhadora deu cobertura à saída de uma bazucada que atingiu a zona do estômago do Mani, de uma maneira fatal. O tiroteio entretanto prosseguiu, a minha espingarda [G3] foi atingida de modo que o carregador ficou todo estilhaçado. O Graça, que ficou gravemente ferido, começou a gritar que tinha a perna despachada, quando levantei a cabeça, para ver o que se passava, uma rajada levantou o pó da estrada, qual cena do Far West.

O furriel Mani e o José Aveiro eram do pelotão que eu comandava, como alferes, faziam parte da 3.ª secção, que naquela hora estavam a passar para a frente. Quando o meu pelotão ia na frente rodávamos de 2 em 2 horas de secção, eu costumava ir na secção da frente, porém ainda não tinha dado tempo, eles ainda estavam a passar. Só me recordo de estar deitado na valeta da estrada, no meio do fumo da pólvora e cheiro a sangue que não vou esquecer nunca.

Passados 40 anos quero recordar aqui estre três jovens, de 22 anos [mais um da CCAÇ 2446], que deram a vida pela pátria, a 6 de Fevereiro de 1969, a cumprir o seu dever de cidadãos. (…) Tínhamos todos 22 anos, tão jovens, mas que adultos que éramos assumíamos responsabilidades de gente adulta e madura.

Um dia ver-nos-emos, vocês não morreram, passaram a viver de outra maneira!”

Ass. João Carlos Resendes Carreiro.

Relatório da «Operação Aquiles I» publicado pelo CAOP em Teixeira Pinto, p187 – P11392-LG (Manuel Carvalho), com a devida vénia.



Aos camaradas que pereceram no Rio Corubal, na “jangada de Ché-Che”, e aos que tombaram na região de Capó, no “Chão Manjaco” [Oio], agora recordada, aqui deixo a minha mais sentida homenagem, extensiva às suas famílias.

Jorge Araújo.

12FEV2019


domingo, 20 de janeiro de 2019

P362 - Faz hoje (20JAN2019) 46 anos que Amílcar Cabral, Presidente do PAIGC, foi assassinado em Conacri numa acção planeada pela PIDE/DGS


Mensagem de António Marques Lopes, Coronel de Infantaria na reforma, ex. Alf. Mil./At Inf. CART 1690 - Guiné 1967/69 - Cantacunda, Banjara, Geba e Barrô.




Foto: Wikipedia, direitos reservados



Nasc.12SET1924 - Morte 20JAN1973

20 DE JANEIRO DE 1973
Amílcar Cabral, dirigente e fundador do PAIGC, é assassinado em Conacri numa acção planeada pela PIDE-DGS

Dalila Cabrita Mateus diz no seu livro “A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974” que «O assassínio de dirigentes foi um tipo de operações levado a cabo pela PIDE/DGS. No entanto, constituía um assunto delicado». E refere que o elemento dessa polícia incumbido de dar andamento ao plano para a liquidação de Amílcar Cabral escreveu à margem do processo: «Comuniquei particularmente ao chefe da Delegação que este assunto não pode ser objecto de correspondência oficial. Ou não se dizem ou não se fazem». Refere, por isso, que não é possível encontrar relatórios da PIDE sobre a liquidação de Amílcar Cabral, até porque, citando José Pedro Castanheira, in “Quem mandou Matar Amílcar Cabral”, o inspector adjunto Alberto Matos Rodrigues recomendou que «Em trabalhos desses, não se deixam provas».E houve vários planos, assevera esta investigadora dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo.

O primeiro terá sido em 1967, o do inspector Miguel António Cardoso, então chefe da delegação da PIDE na Guiné, que mandou vir de Conacri um antigo combatente para que, conhecedor dos locais por onde Cabral costumava passar nessa cidade, o matasse a tiro ou com granadas apreendidas aos guerrilheiros. Só que, azar, esse homem foi preso pela tropa portuguesa e deixou de valer. Mandou vir de Conacri mais dois elementos para o mesmo objectivo, mas, entretanto, foi substituído. O novo chefe da delegação achou que um deles era bêbedo e que o outro não tinha estofo e a operação foi abandonada.


Em 1969 houve outra tentativa, esta planeada pela Aginter Press, uma encapotada agência de informações sedeada em Portugal mas que, efectivamente, se dedicava ao recrutamento de mercenários. Tinha ligações com a PIDE e com a Legião Portuguesa desde 1966. Teve a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Casa de Portugal em Paris, e participavam um diplomata senegalês, oposicionistas a Sékou Touré e elementos da FLING. O orçamento era superior a quatro mil contos, e o prémio em caso de êxito mil contos. Foi a Operação Chèvre. Se não deu ou não foi avante, a investigadora não precisa.

Veio, depois, a Operação Mar Verde, em Novembro de 1970, planeada e comandada por Alpoim Calvão, com o apoio de Spínola e de Marcelo Caetano. No livro de António Luís Marinho, “Operação Mar Verde, Um Documento para a História”, vêm as missões atribuídas a cada um dos grupos participantes na operação. Por exemplo, uma das do comandante Benjamim Lopes de Abreu era “a eliminação física do Presidente da República da Guiné Ahmed Sékou Touré” (documento 11). A ninguém foi explicitamente atribuída a missão da “eliminação física de Amílcar Cabral”. No entanto, ao 1º Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva tinha como missão: “Ataque e destruição de elementos e instalações do PAIGC em Conacry II: …41-Secretariado e habitação de Amílcar Cabral; 42-Casa de Aristides Pereira e Propaganda”. E diz ele, no seu relatório, que “decidi atacar primeiro e rapidamente os objectivos considerados de primeira importância: 41 e 42…”. Não é credível que a eliminação de Amílcar Cabral não fosse também um dos objectivos. Dalila Mateus narra que foi lançada sobre a casa de Amílcar Cabral uma chuva de obuses, tendo um deles acertado em cheio no quarto ao lado daquele onde dormia a mulher de Cabral, que teve de sair com os filhos pelas traseiras da casa. Numa casa ao lado ficaram gravemente feridos um casal jugoslavo e uma filha, uma outra filha deles morreu com um estilhaço na cabeça. E refere que Alpoim Calvão disse ao Público de 21 de Maio de 1991 que se Cabral estivesse em Conacri teria sido seguramente eliminado.
Em 1971 foi a delegação da PIDE em Cabo Verde que mobilizou mil contos para contratar um cabo-verdiano residente em Monróvia, na Libéria, e com anteriores ligações a Cabral e Agostinho Neto. Era para, com mais seis indivíduos, assassinar Amílcar Cabral e destruir um depósito de material de guerra em Conacri. Não resultou.

Mas a PIDE andava também atenta às divisões dentro do PAIGC.
Em Junho de 1967 teriam armadilhado a casa de Cabral em Koundaré e teriam sido enviadas cartas para Catió, Cabedu, Farim, Mansoa e Bula com o intuito de não serem acatadas as ordens de Amílcar Cabral. Os conjurados foram presos e fuzilados. E a PIDE afirma ter ouvido, na altura, que Nino Vieira encarou com simpatia “o movimento conspirativo do Boé”. Também em Setembro desse ano parece ter havido um atentado contra o Secretário-geral do PAIGC. Foi também o ano, constou em Dezembro, do descontentamento dos mandingas pelas baixas sofridas em combate e pelo facto de os cabo-verdeanos serem poucos a combater.
Em Janeiro de 1968 foi assinalado novo movimento de revolta e, nesse ano, as notícias das divisões no PAIGC levaram a PIDE a tomar nota e, como consta numa das pastas dos Arquivos da PIDE, “Em face desta notícia foi considerado superiormente que se devia procurar, por todos os meios, se necessário mesmo financeiros, explorar estas divergências”.

Em Março de 1972 é o próprio Cabral que apresenta um plano, segundo ele de Spínola e dos colonialistas portugueses, com o objectivo de decapitar a direcção do PAIGC. Primeiramente com a infiltração de antigos e novos membros do Partido para gerarem a divisão na base do racismo, tribalismo, diferenças de religião e virando guineenses contra cabo-verdianos. Após isso seria a criação de uma direcção paralela para entrar em contacto com os dirigentes dos países vizinhos tentando obter o seu apoio contra a verdadeira direcção, particularmente contra o Secretário-geral. A fase seguinte seria: o assassinato do Secretário-geral e todos os dirigentes fiéis à linha do partido; mudança da designação do partido e paragem da luta; e, finalmente, entrar em contacto com o governo português para obterem a autonomia interna e a criação do “Estado da Guiné” fazendo parte da comunidade portuguesa. Spínola teria prometido postos importantes aos executantes deste plano. E não há dúvidas que eram os princípios defendidos por António de Spínola.
E foi no dia 20 de Janeiro de 1973, às 23 horas que um grupo chefiado por Inocêncio Cani prendeu Cabral e a mulher. Face à resistência deste Cani atingiu-o com um tiro no fígado, tendo depois ordenado a um seu acompanhante que lhe desse uma rajada, que o atingiu na cabeça e o matou. Um grupo chefiado por Mamadu N’Djai prendeu Aristides Pereira, meteu-o numa vedeta do PAIGC e rumou para Bissau. Um outro grupo, chefiado por João Tomás Cabral, assalta a prisão do PAIGC e liberta Mário Mamadou Touré e Aristides Barbosa, que eram os cabecilhas do golpe.

Foram cerca de uma centena os golpistas. Depois de tomarem conta das instalações do partido e terem prendido cabo-verdianos e mestiços guineenses, foram recebidos por Sékou Touré na madrugada seguinte, mas o presidente da Guiné não lhes deu cobertura mandou-os prender, deu ordens ao exército que submetesse o PAIGC e pediu a navios soviéticos que estavam nas suas águas que recuperassem a vedeta onde ia Aristides Pereira, o que aconteceu.
A maioria não tinha ligações à PIDE, nem o Inocêncio Cani, tendo sido arrastados pelo descontentamento contra a direcção do partido e contra os cabo-verdianos. Mas alguns dos principais conjurados tinham:
- Mário Mamadou Touré (conhecido por Momu) era um antigo preso do Tarrafal; o chefe da delegação da PIDE na Guiné Alberto Matos Rodrigues arranjou-lhe emprego e protegeu-o, afirmando mesmo que esta “Foi uma operação planeada e meteram-no lá” (diz José Pedro Castanheira, na obra atrás referida);
- Aristides Barbosa confessou que, após sair do Tarrafal, foi contactado por um agente da polícia de nome Gonçalves (na altura, havia na Guiné vários agentes de apelido Gonçalves) para trabalhar para a PIDE e que aceitou, pedindo “uma licença para táxi”; disse também que foi recebido por Spínola antes de sair de Bissau;
- João Tomás Cabral, que tinha sido comissário político, tinha correspondência com um informador de Pirada e com o elemento da PIDE em Buruntuma, o agente de 1ª classe Orlindo Martins Jorge Vicente; a sua acção era mentalizar os combatentes para que entregassem as armas porque o PAIGC não conseguiria ganhar a guerra;
- Valentino Cabral Mangana, comandante de Marinha (como Inocêncio Cani), propagandeava que Portugal daria a independência aos negros da Guiné desde que o PAIGC fosse extinto e os cabo-verdianos afastados, pois queria conservar Cabo Verde como uma base de grande importância estratégica para si e os seus aliados.
Claro que houve uma conspiração no interior do PAIGC para pôr termo à hegemonia dos cabo-verdianos. Mas é também evidente que a PIDE teve um papel importante na instigação do golpe. E não actuava à rédea solta. Não me parece que Alpoim Calvão tenha razão quando diz, no seu livro “De Conakry ao M.D.L.P.”, “…a verdade é que não havia a mínima lógica para que as autoridades portuguesas desejassem, em 1973, o assassinato de Amílcar Cabral”. E traz em defesa desta ideia as negociações segundo ele planeadas entre Spínola e Amílcar Cabral para a resolução política da situação na Guiné. Mas esquece-se de dizer que Marcelo Caetano já dissera a Spínola – é o próprio Marcelo que conta nas suas Memórias – que negociar na Guiné nem pensar, antes a derrota militar. E conta Otelo Saraiva de Carvalho, em “Alvorada em Abril”, que o inspector Fragoso Alas (grande amigo de Spínola, até constando que foi esta amizade que fez com que os pides fossem libertados após o 25 de Abril…) lhe terá dito que “os tipos tinham ido longe demais, porque a missão era só raptar e conseguir trazer Amílcar Cabral para Bissau como refém”.