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segunda-feira, 6 de julho de 2015

P243 - O 1.º ANO DA CART 3494 NO XIME (JANEIRO DE 1973 – MÊS DE MAIS RECORDAÇÕES) - As acções do PAIGC que antecederam o 1.º Aniversário - Por: Jorge Araújo

Ao Fundo entrada principal do aquartelamento do Xime, 1972
Assunto
O 1.º ANO DA CART 3494 NO XIME 
De
Para
Sousa de Castro
Enviado
segunda-feira, 6 de Julho de 2015 14:39

Caríssimo Camarada Sousa de Castro
Os meus melhores cumprimentos.
Com este novo texto pretendi fazer uma pequena síntese ao que foram os primeiros quatrocentos dias [treze meses] passados no Aquartelamento do Xime pelo contingente da CART 3494, destacando o sentido das nossas diferentes missões/acções naquele contexto de elevado risco, e suas consequências, num tempo em que a esmagadora maioria do seu colectivo tinha 21/22 anos.
Agora temos duas vezes mais. É a vida em movimento acelerado.
A este propósito, aproveitei para referir mais alguns detalhes de outras ocorrências em que participámos, com um só objectivo: ampliar o quadro historiográfico da nossa passagem pelo CTIG.
Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.
Julho/2015

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
O 1.º ANO DA CART 3494 NO XIME
(JANEIRO DE 1973 – MÊS DE MAIS RECORDAÇÕES)
- As acções do PAIGC que antecederam o 1.º Aniversário -


1. - INTRODUÇÃO
Chegados ao Aquartelamento do Xime, na margem esquerda do Rio Geba, a 27JAN1972, depois de um mês de I.A.O. cumprido em Bolama, o contingente da Companhia de Artilharia 3494 [CART 3494] aí permaneceria, como primeiro destino, até Março de 1973 [não podendo confirmar o dia por estar ausente em Lisboa e por ele ser díspar nos documentos consultados], sendo transferido para Mansambo, no âmbito de uma nova estratégia militar, por troca com a CART 3493, a segunda de três unidades operacionais do BART 3873, esta por haver recebido “guia de marcha” para Cobumba, sito na Região do Cantanhez.
Durante os primeiros treze meses da sua missão ultramarina naquele contexto de elevado risco, certamente semelhante a tantos outros lugares espalhados pelo território do CTIG, foram muitas e diversificadas as ocorrências aí contabilizadas por este colectivo metropolitano formado em Vila Nova de Gaia [RAP2], algumas de cariz excepcional, pela ausência de registos anteriores, levando-nos a classificá-las de experiências únicas e marcantes para o resto desta nossa passagem terrena [lá e cá], por nos suscitarem permanente apelo à natureza humana que tem como elemento fundante e filosófico o conceito de transcendência ou superação.
Foto 1. Cais do Xime - Jun/1972. Margem esquerda do Rio Geba, local carregado de simbolismo para a CART 3494. Aqui encostou, em 27JAN1972, vindo de Bolama, a LDG que transportou o contingente da CART 3494. Daqui saiu o Sintex com o grupo de catorze militares envolvidos naquele que ficou conhecido por «Naufrágio do Geba», em 10AGO1972, de que resultaram três mortos.
Foto 2. Xime - Ago/1972. Viagem de Sintex no Geba efectuada uma semana antes do «Naufrágio», onde o fenómeno «macaréu» é a sua maior armadilha.
 Se aceitarmos que a Guerra no CTIGuiné [como qualquer outra] tem uma dimensão macro, ou seja, uma totalidade cronológica globalizada através das suas práticas de treze anos consecutivos e circunscrita a um conjunto diferenciado de espaços físicos, logo o seu itinerário historiográfico acaba por ficar marcado pelas influências que a natureza da vida social encerra, pois o Ser Humano e a Sociedade não são seres estáticos, dela fazendo emergir distintas problemáticas resultantes das interacções estabelecidas entre os seus semelhantes.
O movimento permanente entre as escalas de mutações então verificadas [porque os fenómenos da guerra não são neutrais] foi evoluindo influenciado pelas acções [atitudes], pelo sentido das mesmas [objectivos, finalidades e políticas] e pelas formas de acção [individuais e colectivas] levadas à prática pelos seus actores durante cada um dos períodos de tempo em que actuaram, independentemente das hierarquias ou das suas posições no conflito, internas e/ou externas.
Porque nela participámos, e sabendo-se que é por via da descrição dos factos e feitos que ajudamos a fazer a sua história, o sentido da nossa acção tem sido quase exclusivamente de informante privilegiado, narrando na primeira pessoa as principais ocorrências ainda disponíveis na memória, todas com mais de quatro décadas [1972/1974], fazendo-as acompanhar, sempre que possível, com imagens com elas relacionadas, visando deixar testemunhos para os que nelas se venham a interessar - as gerações vindouras.

2. - AS PRINCIPAIS OCORRÊNCIAS DURANTE O 1.º ANO NO MATO
Tendo por cenário a situação geográfica do Aquartelamento do Xime [mapa 1], desde a sua chegada que o colectivo da CART 3494 constatou que as suas principais missões/acções estavam relacionadas com o conceito de SEGURANÇA, tarefas prioritárias a incluir na agenda diária dos diferentes Grupos de Combate.
A primeira, considerada «Rainha» no conjunto de todas as outras, teria de ser cumprida com o máximo rigor, uma vez que tínhamos de garantir a segurança possível em parte do troço que ligava o Xime a Bambadinca, por causa/efeito do tráfego rodoviário que aí ocorria, uma vez que a possibilidade mais exequível para chegar à capital [Bissau], ou desta ao extremo leste do território, de que são exemplos: Bafatá, Contuboel, Nova Lamego, Piche, Canquelifá, Paunca, Galomaro, Mansambo, Xitole, Saltinho, …, só poderia acontecer por via marítima [Rio Geba].
Porque o cais do Xime [foto 3] era utilizado diariamente, quer como ponto de chegada e/ou de partida, por onde circulavam semanalmente centenas de militares e civis e uma vasta panóplia de produtos e equipamentos, este assumia-se como local político-militar-económico estratégico por excelência.

Para garantir a máxima segurança a todos os que dela necessitavam naquele troço, os milicianos da CART 3494 cumpriam essa missão diária entre as 07.00/07:30H até ao pôr-do-sol (ocaso) ou, em situações particulares, até que ficassem concluídas as actividades portuárias, no local designado por Ponta Coli, onde, por duas vezes, o grupo escalado foi surpreendido por bigrupos de guerrilheiros do PAIGC, em 22ABR1972 e 01DEC1972, daí resultando baixas de ambos os lados.
Sobre estas duas ocorrências ver P148 + P152 + P191 + P234.
Outro tipo de segurança que realizávamos estava relacionada com a protecção às embarcações que navegavam no Geba, onde os GComb da CART 3494, algumas vezes reforçados por GComb da CCAÇ 12, percorriam os itinerários ícones do Xime, como sejam os exemplos de «Ponta Varela», «Medina Colhido», «Gundaguê Beafada» e «Poindon», em patrulhamentos ofensivos, montagem de emboscadas e outras missões/acções mais específicas, verificando-se em alguns deles contactos mas sem baixas nas NT, em oposição com o IN, destacando-se entre outros casos o de Mário Mendes, CMDT do PAIGC na zona, morto na Ponta Varela, em 25MAI1972.

Como consequência do método utilizado neste conflito, classificado por «guerra de guerrilha», a estratégia do IN era esquivar-se ao contacto com as NT, optando por agir de surpresa, ora através de emboscadas ora por via de ataques ao(s) Aquartelamento(s) e Destacamento(s), realizados quase sempre à noite, recorrendo a armas pesadas [canhões sem recuo e morteiros 82].
Entre 19 Março e 25 de Novembro de 1972 [o último naquele ano] o Aquartelamento foi atacado por oito vezes, A/D de Amedalai duas e o Destacamento do Enxalé uma vez, equivalente a uma média de um ataque por mês. Esta facilidade e a frequência com que o PAIGC passou a realizar, naquela época, os seus ataques contra as NT aquarteladas no Xime, eram resultado das condições objectivas de que dispunham, do ponto de vista da mobilidade, uma vez que os seus efectivos destacados na Zona [no Poindom, no Baio, Rio Buruntoni, na Ponta Luís Dias ou no Fiofioli], tinham total liberdade de circulação, bem como da gestão de toda a sua logística incluindo, entre outras, a construção de esconderijos para camuflagem do material pesado e o controlo da população aí residente, conforme se dá conta no mapa 2.

3. - AS ACÇÕES DO PAIGC QUE ANTECEDERAM O 1.º ANIVERSÁRIO
       - Janeiro de 1973 – mês de mais recordações
Janeiro de 1973 foi considerado um mês atípico, no contexto da CART 3494, pela relevância que alguns episódios tiveram no seu quotidiano. Desde logo por tratar-se do primeiro mês de um novo ano, aquele que poderia bem ser o do regresso… mas não foi. Depois, porque em 27JAN1973 comemorava-se o 1.º Aniversário da presença do seu contingente no Xime, encerrando-se este ciclo temporal de vivências no mato com quatro baixas mortais [uma em combate e três por afogamento no Geba], números que felizmente se mantiveram até final da comissão.
Em complemento ao acima referido, os guerrilheiros do PAIGC em actividade na Zona fizeram questão de contribuírem como mais alguns eventos, adicionando-lhes mais três ataques ao Aquartelamento, respectivamente, em 17, 24 e 29.
Ainda mais relevante foi o facto de em 20JAN1973, Amílcar Cabral, principal líder do PAIGC, ter sido assassinado por dois membros do seu próprio partido, em Conacri.
A História do BART 3873 a eles se refere nos seguintes termos:
9.º Fascículo – Janeiro/1973
67. Inimigo
d) Subsector do Xime
- Nos dias 17 às 21H05, 24 às 18H38 e 29 às 19H40, o XIME sofreu sucessivamente 03 flagelações, por grupos não calculados que empregaram canhão S/R e morteiro 82. Não há a contar danos pessoais ou materiais em qualquer delas.
e) Conclusões
- É arriscado concluir-se se as flagelações ao XIME a 24 e 29 são ou não resultado da directiva emanada dos elementos preponderantes do Partido, reunidos em CONAKRI e referida no n.º 65, após a morte do seu SECRETÁRIO-GERAL, no dia 20 do corrente mês [pp 93-94].
3.1 – OS ATAQUES DE 24JAN1973
Em 24JAN1973, uma 4.ª feira, a actividade interna e a operacional estavam, como sempre, a serem cumpridas de acordo com o programado. Por via da minha função de «sargento de dia», naquela ocasião cabia-me responder pelas primeiras – as internas, nomeadamente no controlo da distribuição de água pelos diferentes depósitos e abrigos, refeições, distribuição de correio e postos de vigia, e outras tarefas menores.
Por volta da hora do almoço, uma mensagem era recebida no Centro de Transmissões do Quartel do Xime, dando conta que um barco civil estava a ser atacado pelo PAIGC, na confluência entre o Corubal e o Geba, flagelação realizada da margem da Ponta Varela, mas sem consequências.
Mais tarde, à hora habitual, ou seja, por volta das 18:30H, deslocámo-nos para o refeitório dos praças [foto 4] com o objectivo de supervisionar a distribuição do jantar, confeccionado pelos nossos mestres de restauração, o João Machado e o João Torres. A ementa era sopa de [?] e «arroz de estilhaços», de uma vaca que fora esquartejada no nosso centro de abate [foto 5].
Foto 4. Xime – 1972. Refeitório dos praças.
Foto 5. Xime – 1972. Espaço entre o refeitório e a cozinha [barraco de chapas], onde se fazia, de dois em dois dias, o abate dos animais para a alimentação. 
Iniciada a refeição, e quando nada fazia prever, os discos de inox, com o arroz de estilhaços no seu interior, transformaram-se em discos voadores circulando em vários sentidos. Estávamos a ser atacados com armas ligeiras [kalashnikov’s], para nosso espanto, ali tão perto [mapa 3], fazendo subir numa curta fracção de tempo a adrenalina daquele colectivo.
Ao grito inicial de «os gajos estão cá dentro…», eis que nos transformámos em gazelas do mato [imagem simbólica] saindo do refeitório, completamente desprotegidos, em direcção aos diferentes abrigos para podermos comunicar na mesma linguagem – a militar.
Os camaradas artilheiros do 20.º Pelotão de Artilharia, sedeado no Xime, fizeram naquele contexto e uma vez mais o seu competente trabalho, ajudando-nos a ultrapassar aqueles momentos muito especiais e de grande tensão.

Lentamente as armas dos dois lados foram-se calando. Mas mais estava ainda para acontecer. Algum tempo depois entrava em acção o habitual armamento pesado IN [canhão sem recuo e morteiro 82] prolongando por mais quinze minutos o combate. Caladas definitivamente as armas ligeiras e pesadas de ambos os lados, e sem consequências para as NT, o alerta manteve-se até ao início da manhã seguinte, altura em que foi efectuado o reconhecimento à zona a cargo do GComb de serviço.
Constatámos que o arame farpado onde se tinham emboscado os guerrilheiros, não mais de cinco, posicionados no enfiamento da padaria do Carlos Fialho [o nosso especialista de panificação que nos servia, quando em serviço nocturno, uns casqueiros saídos do forno besuntados com manteiga acompanhados de um balde de água escura, vulgo café] estava cortado, existindo no terreno circunvolvente muitas dezenas de invólucros das suas armas.
Foi também localizado um guerrilheiro ferido com gravidade. Transportado para a enfermaria aí foi tratado com toda a dignidade, até à sua evacuação para Bissau, pelo meu/nosso camarada ex-Furriel Enfº. Carvalhido da Ponte. A certa altura perguntei-lhe se queria comer? A sua resposta foi positiva. Trouxe-lhe, então, uma terrina de batatas cozidas [o acompanhamento do almoço daquele dia] tendo ingerido uma dúzia de metades, até que chegou o Heli e o levou para o Hospital Militar.
Nunca mais soubemos o que lhe aconteceu… morreu ou sobreviveu?
Foto 6. Xime – Jun/1972. O edifício da imagem, da esqª/dtª, refere-se ao bar dos praças, arrecadação de géneros e à enfermaria [porta + janela]. Na rectaguarda desta estava situado o refeitório [foto 4].
As árvores à esquerda sinalizavam as paragens obrigatórias pois serviam de sombra aos camaradas de outras unidades que nos visitavam, nomeadamente aqueles que faziam segurança às colunas que se deslocavam ao Cais, e que aproveitavam estas ocasiões para matar a sede…
Cinco dias depois da tríade de ocorrências no mesmo dia, ou seja, em 29JAN1973, 2.ª feira, por volta das 20:00H, um novo ataque ao Aquartelamento do Xime foi perpetrado pelo PAIGC, agora sem a ousadia anterior, tendo recorrido somente à utilização de armas pesadas: canhão sem recuo e morteiro 82, mas sem consequências, uma vez que todas as granadas caíram no exterior do perímetro do aquartelamento.
Ainda na mesma semana, no sábado, em 03FEV1973, realizaria a minha última missão/acção no Xime, ao participar na Operação «Guarida 18» [P219].
Nove dias depois deste episódio, ou quinze dias após o último ataque, eis que em 12FEV1973, 2.ª feira, o quartel da CART 3494 voltaria a ser atacado durante os quinze minutos da praxe com as mesmas armas pesadas: 2 canhões sem recuo e morteiros 82, igualmente sem consequências, ficando este na história como o derradeiro ataque contabilizado no período em que estivemos aquartelados no Xime.
"Clicar na imagem para ampliar"

Eis mais um pequeno contributo historiográfico da presença do contingente da CART 3494 no CTIGuiné.
Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.
3JUL2015

1 comentário:

Anónimo disse...

Um bom trabalho. Um abraço amigo
António Bonito