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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

P297 - I CONGRESSO DO PAIGC EM FEVEREIRO DE 1964 NO SUL (Por; Jorge Araújo)

MSG de Jorge Araújo com data de 13JAN2017

Para iniciar a minha participação no blogue, neste Novo Ano de 2017, parti do estudo sócio-demográfico realizado sobre o bi-grupo do Cmdt Mário Mendes (1943-1972), adicionando-lhe o que entretanto apurei sobre o valor atribuído às dimensões “saúde” e “formação escolar”, por parte dos dirigentes do PAIGC, após a realização do seu I Congresso organizado em fevereiro de 1964 na Base de Cassacá, a Sul de Cacine (Frente Sul).
Com um forte abraço de amizade. 
Jorge Araújo.

JAN’2017.

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D) O OUTRO LADO DO COMBATE
I CONGRESSO DO PAIGC EM FEVEREIRO DE 1964 NO SUL
- A IMPORTÂNCIA SOCIAL DA SAÚDE E DA INSTRUÇÃO LITERÁRIA
ANALISADAS NA BASE CENTRAL (MORÉS) EM MARÇO DE 1964 -
1.   INTRODUÇÃO
Concluído o tradicional ciclo festivo anual, onde as dimensões tempo e espaço são reservadas, maioritariamente, para os núcleos familiar e sociais mais próximos, primeiro o Natal e depois a despedida do ano velho, alargado a outros pares por razões diferentes, retomamos quase sempre as rotinas anteriores, ainda que se reformulem expectativas e se acrescentem outras, em resultado de novos desejos e objectivos, na maioria das vezes influenciados pelo imemorial ditado popular «ano novo, vida nova».
Dito isto, e nesta oportunidade, desejo-vos um MELHOR ANO de 2017.
Quanto à temática prospectiva das minhas narrativas, que espero e desejo dar continuidade neste espaço plural, elas continuarão a cruzar os territórios de cada um dos lados do combate, relevando as diferentes acções e o sentido de cada uma delas, visando alargar a sua dimensão historiográfica como um contributo para memória futura.
Assim, como causa/efeito para a elaboração do presente trabalho de investigação histórica está o estudo sociodemográfico relacionado com o bi-grupo do Cmdt Mário Mendes (1943-1972) [apresentado no P296], a que se adiciona os comentários do nosso camarada Cmdt Pereira da Costa [P16891-LG], em particular quando se refere à baixa preparação literária dos guerrilheiros, considerada como realidade inquestionável.
Porque cada comentário, independentemente da sua pertinência ou assertividade, nos permite abrir uma ou mais “janelas” de novas abordagens, o presente texto é disso consequência e/ou exemplo concreto.
Uma vez que só a partir de 1966 foram elaboradas pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra as listas das FARP referentes à constituição dos bi-grupos existentes em cada Frente, onde em muitas delas nada consta sobre a variável «formação escolar» de cada individuo, procurámos indagar sobre o que pensavam, naquela época, os principais dirigentes do PAIGC sobre esta problemática.
Para o efeito utilizámos uma vez mais, como fonte de informação privilegiada, a Casa Comum, Fundação Mário Soares, que agradecemos, reforçada com consultas ao vasto espólio do blogue da Tabanca Grande, com especial destaque e a devida vénia aos trabalhos de recensão - «Notas de Leitura» - do camarada Beja Santos.
Neste contexto e como cronologia de partida, recuámos ao ano de 1964, em particular aos fundamentos que levaram à realização do I Congresso do PAIGC, organizado numa área próxima da Tabanca de Cassacá, situada a cerca de quinze quilómetros a Sul de Cacine, e que serão resumidos no ponto seguinte.
2.   I CONGRESSO DO PAIGC – CASSACÁ [FRENTE SUL]
   - DE 13 A 17 DE FEVEREIRO DE 1964
O tema sobre a realização do I Congresso do PAIGC, organizado entre 13 e 17 de fevereiro de 1964, por proposta de Luís Cabral (1931-2009), em Cassacá, base situada a quinze quilómetros a Sul de Cacine e a trinta da fronteira com a Guiné-Conacri, foi já abordado nos P4122-LG (Luís Graça) e P4137-LG (CarlosSilva).
Ainda assim, voltamos a ele com uma dupla intenção. Por um lado, recuperando o processo histórico mais global, e por outro adicionando-lhe outros elementos particulares incluídos na organização e na vida interna do PAIGC, nomeadamente nas bases criadas no interior do território, como instrumentos de mobilização e motivação para prosseguirem a luta.
É de relevar que os antecedentes do Congresso, a visita de Luís Cabral à zona de Quitafine e Tabanca de Cassacá em finais de 1963 [quiçá na perspectiva de “ano novo, vida nova”], as informações recolhidas em todos os contactos estabelecidos com os combatentes e aquelas que lhe chegavam das frentes, levaram a que o irmão [Amílcar Cabral; 1924-1973] aceitasse, como necessária, a realização de uma reunião geral dos quadros responsáveis pelo Partido, no sentido de se poder discutir e aprofundar esta questão, de maneira a tirar dela todas as lições para o futuro, numa altura que estava concluído o primeiro ano da luta armada.
Os fundamentos que estão na base deste projecto de intenções, bem como o desenvolvimento de cada uma das diferentes acções previstas para antes, durante e depois deste I Congresso podem (devem) ser consultadas no livro de memórias de Luís Cabral: “Crónica da Libertação”, (1984), Lisboa, Edições ‘O Jornal’. Publicações Projornal.
Por isso, é da mais elementar justiça referir aqui o importante trabalho de recensão realizado pelo camarada Beja Santos sobre esta obra que, em função do seu valor e extensão, teve de ser divido em cinco partes: – P7216; P7223; P7232; P7241 e P7259-LG.
Com a devida vénia, aproprio-me, neste contexto histórico, de uma passagem da sua autoria [P7232-LG] onde refere: “Em finais de 1963, Luís Cabral faz a primeira visita ao Quitafine, a partir de Sangonhá, depois partiram para a base de Cassacá, onde foi recebido por Manuel Saturnino [da Costa; n-1945-]. Em Cacine estava instalado o primeiro quartel das tropas portuguesas, a que se seguiu Gadamael. Segundo Luís Cabral, as tropas portuguesas estavam confinadas a Cacine.
As viagens eram morosas e dolorosas, entre a estrada de Boké e a fronteira. Depois vem uma frase enigmática: o Amílcar e o Aristides [Pereira; 1923-2011] foram as únicas pessoas com quem falei sobre os graves problemas que existiam nalgumas zonas do Sul do país. Este facto trazia-nos dados completamente novos sobre a luta, e provou a fragilidade das imensas conquistas obtidas, postas em causa unicamente por falta de informações precisas e controladas sobre a situação real nas diferentes zonas do país.
A experiência acabava de mostrar que os jovens responsáveis da guerrilha eram capazes de esconder ao Secretário-Geral informações de importância capital, quando elas pudessem pôr em causa outros responsáveis. O que se estava a passar era que um conjunto de chefes de guerrilha exercia um poder despótico sobre as populações, chegando a cometer crimes inenarráveis. Independentemente de serem jovens, é incompreensível como tais crimes sistemáticos eram escondidos dos quadros políticos. Como se verá no Congresso de Cassacá, estes criminosos (cuja relação nunca vai aparecer talhada em qualquer documento) serão sumariamente executados, no termo desta reunião”.
2.1 – FOTO-GALERIA DO I CONGRESSO DO PAIGC - 1964
Citação:

Luís Cabral (1964), "Amílcar Cabral e outros companheiros a caminho do I Congresso do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43297 (2017-1-9)
Citação:

(1964-1964), "Amílcar Cabral e grupo de dirigentes do PAIGC a caminho do I Congresso de Cassacá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43071 (2017-1-9)

 Citação:

(1964-1964), "Amílcar Cabral e outros responsáveis do PAIGC no I Congresso do partido em Cassacá, na Frente Sul", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43300 (2017-1-9)


Citação:
(1964), "I Congresso do PAIGC em Cassacá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_85095 (2017-1-9) 

Citação:
(1964-1964), "Abdulai Barry, Arafam Mané, Amílcar Cabral, Domingos Ramos e Lai Sek no I Congresso do PAIGC, em Cassacá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43444 (2017-1-9)


Fonte:
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 05224.000.046
Título: Abdulai Barry, Arafam Mané, Amílcar Cabral, Domingos Ramos e Lai Sek no I Congresso do PAIGC, em Cassacá.
Assunto: Abdulai Barry, Arafam Mané, Amílcar Cabral, Domingos Ramos e Lai Sek, durante o I Congresso do PAIGC, em Cassacá, na Frente Sul.
Data: Quinta, 13 de Fevereiro de 1964 – Segunda, 17 de Fevereiro de 1964.
Observações: O Congresso de Cassacá (que decorreu em simultâneo com a Batalha de Como) reuniu os principais dirigentes políticos e militares do PAIGC e delegados vindos de todas as regiões do país. Entre as principais decisões do Congresso figuram a reestruturação do partido no plano político, o reforço da mobilização e organização das massas populares, e a reorganização da luta armada (criação de comandos inter-regionais, do Conselho de Guerra, e das FARP – englobando a guerrilha, as milícias e o exército popular).
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.
Tipo Documental: Fotografias.
3.   – A IMPORTÂNCIA SOCIAL DA SAÚDE E DA INSTRUÇÃO
   LITERÁRIA ANALISADAS NA BASE CENTRAL [MORÉS]
            - EM 21 DE MARÇO DE 1964
Um mês após a conclusão do I Congresso de Cassacá, na Frente Sul, os responsáveis da Frente Norte, Ambrósio Djassi [nome de guerra de Osvaldo Vieira; 1938-1974] e Chico Té [nome de guerra de Francisco Mendes; 1939-1978] tomaram a iniciativa de convocar uma reunião para o dia 21 de março de 1964, sábado, a realizar na Base Central [Morés] entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários [políticos] com o objectivo de estudar e discutir as novas fases do desenvolvimento da luta, e ao mesmo tempo para pôr todos os camaradas ao corrente das resoluções aprovadas na reunião de Cassacá.
No final da reunião do Morés foi elaborado o respectivo relatório, que foi remetido ao Secretário-Geral, e por este recebido em 4 de abril de 1964, onde se fez referência aos temas tratados, ao conteúdo de cada intervenção e ao nome de todos os responsáveis que nela tomaram parte, num total de cinquenta e seis elementos.
Eis os dez pontos da Ordem do Dia [dos Trabalhos]:
  1. - Mudança de Táctica.
  2. - Criação de novas bases.
  3. - Recrutamento e treinos.
  4. - Política.
  5. - Disciplina Militar.
  6. - Alimentação.
  7. - Saúde.
  8. - Instrução literária.
  9. - Segurança e controle.
10. - Ligação
Como ponto extra foi abordado o “ataque ao Enxalé” e analisada a sua necessidade.
Considerando a extensão do documento, constituído por doze páginas A4 manuscritas, iremos abordar neste texto somente os pontos 7 e 8, relacionados com os assuntos sociais – saúde e educação –, aliás em conformidade com o exposto na introdução. Esta opção é justificada pelo facto de termos vindo a tratar o tema da saúde utilizando as memórias e experiências vividas por médicos cubanos no apoio à guerrilha, cujos relatos são posteriores a este evento (dois anos; com início em junho de 1966).
Eis a folha de rosto, ou 1.ª página, onde consta o que acima foi referido.   
Ponto 7 = SAÚDE
Djassi – Tudo o que já fizemos e pensamos fazer é devido ao estado normal da nossa saúde. Passo a palavra ao nosso camarada Simão Mendes [enfermeiro] para nos apresentar o relatório elaborado em colaboração com os outros camaradas da saúde.
Simão Mendes – Digo aos camaradas que vou relatar 10 pontos principais conforme o relatório que fizemos:
1 – Medicamentos: - os medicamentos passarão a ser requisitados trimestralmente, requisitando só os medicamentos de maior consumo na Guiné, dando uma regalia aos guerrilheiros como ao povo. Requisitar materiais de pequena cirurgia o mais breve possível.
2 – Doentes para a fronteira: - mandar urgente para a fronteira todos os feridos ocasionados por ferimento de balas uma vez que não há já recursos locais para a sua extracção. Formar um grupo de transporte de doentes ou feridos graves para a fronteira. Esse grupo será nomeado pelo responsável pela Zona Norte. 
 3 – Preparação de Ajudantes de enfermagem para outras bases: - serão escolhidas meninas e rapazes para receberem noções de socorros urgentes e de enfermagem.
4 – Escala de Serviço e sua conveniência: - far-se-á uma escala de serviço nomeando cada enfermeiro para a sua responsabilidade diária.
5 – Ginástica, sua necessidade e inconveniência: - a ginástica continuará a ser feita como dantes, isto é, todos os dias principalmente para os recém-chegados.
6 – Visitas guiadas às bases: - deslocação quinzenalmente às bases; nesta visita o enfermeiro escolhido procurará colaborar com o povo estudando assim as doenças de 1.ª instância. Serão construídas duas barracas para consultas.
7 – Noções ligeiras de primeiros socorros aos guerrilheiros: - fazendo parte da guerrilha é lícito que todos os guerrilheiros tenham noções de primeiros socorros. Oferecemos a nossa boa vontade neste momento.
8 – Higiene e sua conveniência: - fazendo parte da saúde, para evitar certas doenças, devem todos os guerrilheiros seguir os princípios da higiene do vestuário e limpeza de barracas.
9 – Escala de serviço e sua conveniência: - far-se-á uma escala de serviço, nomeando cada enfermeiro para a sua responsabilidade diária. (Este ponto é igual ao 4).
10 – Colaboração mútua em tudo que diga respeito ao nosso movimento com o povo e guerrilhas: - colaborar com a nossa população explicando a todos as inconveniências que o abuso excessivo dos medicamentos pode ocasionar. Paciência absoluta, dando ao povo explicações do emprego de medicamentos.     
 Resolução:
Todos os camaradas estiveram de acordo com as proposições dos camaradas da saúde e resolveram criar forças para garantir a execução do que está acima indicado.      
Ponto 8 = INSTRUÇÃO LITERÁRIA
Djassi – Depois de tudo devemos começar a pensar na instrução dos guerrilheiros e do povo. Hoje podemos dispor de alguns livros apanhados e que já empregamos para o mesmo fim. Os camaradas que vieram de Bissau vão ser distribuídos nas bases para começarem a instrução literária.
Chico Té – Devemos fazer esforços para pôr isso em prática o mais breve possível apesar de poucos meios do que nos dispomos actualmente.
Resolução:
Todos os camaradas estiveram de acordo neste ponto, e os camaradas que vieram de Bissau vão ser distribuídos nas bases a fim de começar com a instrução literária. Devido à falta de material escolar solicitamos aos dirigentes superiores do Partido o envio de algum material neste campo.
Citação:
(1964), "Relatório da reunião entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários da Base Central", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40112 (2017-1-8)
Fonte:
Pasta: 04613.065.157
Título: Relatório da reunião entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários da Base Central.
Assunto: Relatório da reunião entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários da Base Central, assinado por Chico Té (Francisco Mendes) e Ambrósio Djassi (Osvaldo Vieira). Ordem do dia: mudança de táctica, criação de novas bases, recrutamento e treinos, política, disciplina militar, alimentação, saúde, instrução literária, segurança e controlo e ligação. Ataque de Enxalé.
Data: Sábado, 21 de Março de 1964.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Correspondência 1963-1964 (dos Responsáveis da Zona Sul e Leste).
Tipo Documental: Documentos

Em função do exposto, e em jeito de conclusão, podemos dizer que a organização do PAIGC, passados quinze meses do início da sua luta armada, ainda era excessivamente precária, onde os adjectivos: instável, delicada, insegura, débil e pobre, enquanto sinónimos, completam o seu quadro mais global.
Mas poderia ser diferente para melhor?
Não creio… pois tudo na vida é processo e projecto.


Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade e votos de boa saúde.
Jorge Araújo.
13JAN2017

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