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terça-feira, 29 de novembro de 2016

P292 - Operação "INVISÍVEL" 19 de Dezembro de 1967 - Força executante; CART 1742 e CART 1690. Devido a tal, tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar.


Documento criado em 2003,  recebido em 2007


Autor: 
António Manuel Marques Lopes, Coronel DFA na situação de reforma.
 (ex Alf. Milº da Cart 1690 - Geba) 
                 
 22. OP. "INVISÍVEL" 19DEC67

              SITUAÇÃO PARTICULAR


Em face das acções realizadas sabe-se que o IN actua no regulado de MANSO MINE onde possui a base de SINCHA JOBEL.

MISSÃO

Executar uma batida nesta região tentando desalojar o IN.


FORCA EXECUTANTE


a) CMDT:- Cap. Mil. Art. Carlos Manuel Ferreira
b) MEIOS;- DEST. "A" - CART. 1742 a 02 GR. COMB.
DEST. "B" – CART 1690 a 02 GR. COMB. ref. c/ 1 PEL.110/C.MIL 3


  


DESENROLAR DA ACÇÃO

Em 1822H00DEC67 (18 Dezembro de 1967, 22,00 horas) as forças intervenientes saíram auto transportadas de GEBA em direcção a SARE GANA, progredindo em seguida apeadamente em direcção a GANHAGINA, que atingiram em 190400DEC67.
Não se pôde efectuar a cambança da bolanha nessa altura, em virtude do guia não conhecer o caminho, para atingir a bolanha pelo que as forças intervenientes se instalaram, montando a devida segurança. Pelas 06H00 as forças intervenientes iniciaram novamente a progressão à bolanha, que atingiram pelas 07H50 hora a que se iniciou a cambança da mesma. 

Nesta altura foram avistados elementos IN em cima de árvores, pelo que se tomaram as devidas medidas de segurança para a travessia da mesma. A cambança terminou às 08H50 iniciando-se em seguida a progressão à base de patrulhas. Cerca das 11H50 fez-se um alto, devido novamente ao guia se ter perdido e precisar de se orientar; Foi destacada 01 Secção reforçada comandada pelo Furriel Miliciano Pombeiro para fazer a protecção ao guia, enquanto a restante força interveniente montava segurança no local de estacionamento.

Às 12H45 iniciou-se novamente a progressão à base de patrulhas que foi atingida às 15H52. Nesta altura ouviram-se vozes de elementos IN, o que levou as forças intervenientes a supor que o IN se encontrava instalado naquele local. Devido a este facto a missão foi alterada e estabeleceu-se que o Dest. B faria o assalto ao objectivo enquanto o Dest. A. faria a detenção do IN. Para o assalto ao acampamento IN o Dest. B nomeou 01 GR. GOMB., o 2º. GR. COMB. faria a protecção ao 1.º» e serviria de reserva.

Estabeleceu-se também o ponto de reunião das forças intervenientes. Quando o 1.º. GR. COMB. comandado por mim (Alf. Milº Marques Lopes) e pelo Alferes Miliciano Lourenço, progredia em direcção do acampamento IN, foi emboscado e surpreendido  por um súbito desencadear de intenso e nutrido fogo IN. Tentou anular-se o mesmo reagindo as NT fortemente.

Como o 1°. GR. COMB. fosse o que nessa altura se encontrasse mais submetido ao fogo IN, veio o 2º. GR. COMB, comandado pelo Alferes Miliciano Fernandes em auxílio do primeiro, mas o mesmo foi atacado pela rectaguarda e, portanto, não pode proteger a retirada do primeiro. Começou também nessa altura o IN a fazer fogo com o MORT. 82, com que abateu o alferes miliciano Fernandes.

Verifiquei que nessa altura já o Dest. B tinha as seguintes baixas: Alferes Miliciano Fernandes, 1º. Cabo Sousa da CART 1742 e que estava a fazer fogo com a ML MG-42, soldado Metropolitano Fragata e um soldado milícia que não consegui identificar além de vários feridos. Procurei trazer o alferes miliciano Fernandes para a rectaguarda e quando o puxava pelos pés, fui surpreendido por um grupo IN, que corriam em direcção aos furriéis milicianos Marcelo e Vaz e em minha direcção gritando que nos iriam apanhar vivos».

Note-se que neste grupo IN avistei elementos brancos os quais usavam o cabelo bastante compridos (a cobrir as orelhas) facto também confirmado pelos já citados furriéis milicianos. Devido a tal, tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar.

Quando retirava em direcção ao ponto de reunião, encontrei uma secção da CART 1742, e 4 soldados da minha Companhia (CART 1690) que me informaram ser impossível entrar em contacto com a CART 1742, enviei 5 soldados desta última Companhia a fim de averiguar tal impossibilidade, enquanto se montava a segurança com os restantes elementos.

Logo após esses 5 Soldados regressarem informando-me que a CART 1742 já retirara». Devido a tal e uma vez que o IN já nos estava a envolver, iniciei a retirada em direcção à bolanha. Durante a retirada fomos constantemente perseguidos pelo IN que disparava incessantemente rajadas de armas automáticas ligeiras e metralhadora pesada, além de encontrarmos diversos elementos IN já instalados ao longo do caminho que conduzia à bolanha e que fez com que este grupo tivesse que atravessar a bolanha num local diferente do que inicialmente estava previsto, e que batiam o caminho por onde nos deslocávamos.

Quando atravessamos a bolanha o IN bateu a mesma com granadas de morteiro 82 (algumas das granadas estavam equipadas com espoleta de tempos), rajadas de armas pesadas, ligeiras e rocketadas, tendo o mesmo entrado na bolanha em nossa perseguição, e ainda após concluída a travessia depararam-se-nos alguns elementos IN instalados deste lado da bolanha.

Conseguimos, no entanto, fazer a travessia da mesma e iniciarmos a progressão em direcção a SARE GANÁ, que atingimos às 21H00. Chegamos a SARE GANA, verifiquei que a CART 1742 já aí se encontrava e que faltavam 16 elementos da minha Companhia e 1 elemento da CART 1742.

RESULTADOS OBTIDOS

  Baixas sofridas pelo IN: Mortos confirmados 14

  Numerosas baixas prováveis.

FOTOGALERIA:

Fotos de: António Manuel Marques Lopes, CORONEL DFA








Nota; reflexão explicativa:


Alf. Milº A. Marques Lopes
O Alferes Fernandes, aqui referido (de seu nome Fernando da Costa Fernandes) foi o meu primeiro substituto no comando do meu grupo de combate, depois de eu ser ferido. Foi, depois de ter ficado em Jobel, substituído pelo Alferes Carlos Alberto Trindade Peixoto, o Aznavour, como lhe chamávamos, por gostar de cantar “à Aznavour”, que morreu também em combate em 8 de Setembro de 1968. 

O soldado Fragata (Manuel Fragata Francisco), um alentejano de Aljustrel, do meu grupo de combate, ficou nesta operação. Mas a história toda foi-me contada pelo Luís Cabral (o primeiro presidente da Guiné-Bissau): ficou furado por vários estilhaços de uma rocketada e foi levado, em maca, pelos guerrilheiros desde a mata do Oio até a um hospital de Ziguinchor, na Casamança, Senegal. 

Não foi fácil, como se calcula. Aí, em Ziguinchor, foi tratado pelo Dr. Pádua, um desertor português. Depois desse tratamento foi repatriado pela Cruz Vermelha internacional e foi para o Anexo do HMP, na Rua Artilharia Um, em Lisboa. Diz o Luís Cabral que, com a simplicidade própria daqueles nossos soldados, o Fragata, ao apanhar o avião de regresso, disse: “Obrigado. Graças ao nosso partido – REFERIA-SE AO PAIGC! -, Posso voltar para casa). Infelizmente, o Manuel Fragata Francisco, passado pouco tempo após a saída do Anexo, morreu num desastre de motorizada na sua terra.

Cor DFA A. Marques Lopes, 31OUT2007
Depois desta operação, aquela zona foi considerada ZLIFA (Zona Livre de Intervenção da Força Aérea), isto é, só os T6 e os Fiat é que passaram a voar para lá e despejarem toneladas de napalm sobre a floresta de grandes poilões que rodeavam a clareira de Sinchã Jobel. Sem grande efeito prático, pois as bombas rebentavam no cimo das copas das árvores, deixando praticamente intactas as partes no solo. Terá sido destruída anos mais tarde, mas, segundo sei, mudaram-se para dois quilómetros mais a norte, para o lado de Banjara. 
A táctica da guerrilha era essa, naturalmente. Em 1998, o comandante Gazela, o chefe operacional da zona de Sinchã Jobel, confidenciou-me que, naquele dia 24 de Junho de 1967, eles não se aperceberam que eu tinha ficado na bolanha. Só o souberam dois dias depois, quando o Suleiman Baldé, chefe das milícias de Sare Madina, lhes disse que me tinha emprestado uma bicicleta. Este Suleiman Baldé, embora nas milícias, era do PAIGC e acabou por ser morto mais tarde pelas NT. 

Quando ´consegui sair de Sinchã Jobel, no dia 25, cheguei a essa tabanca de Sare Madina e foi, de facto, o Suleiman Baldé que me emprestou uma bicicleta. E foi de bicicleta que cheguei à sede da companhia, em Geba. Preparavam-se já para enviar para Bissau o meu "desaparecimento em combate". Fui chamado, depois, ao Comando do Agrupamento.

Preocupações deles: o major de operações a primeira coisa que me perguntou é se eu tinha trazido a G3... O tenente-coronel comandante do Agrupamento, Hélio Felgas, mostrou-se preocupado porque eu "tinha passado 24 horas no campo do inimigo"... Que os pariu! Disse-lhes eu. Teve de sorrir e disse-me: "Você, agora, tem aí história para contar num livro...". Não sei quando, mas pode ter a certeza que o farei.

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